O Anjo

1 I - Perdida


Diz-me que estou perdida em devaneios e que a minha mente enreda-se em distorcidas ilusões. Suplico-te, no meio deste desespero que se entrelaça no meu coração e esmaga-me a alma que pretende saltar para fora do peito, que me sussurres, sem que ninguém se aperceba, que atribuí a simples olhares e a palavras descomplicadas, significados que não estavam palimpsestados nas tuas designações. Entrego-te estas lágrimas que recuso a chorar antes que este coração tolo se deixe cair nas tuas mãos e não me seja possível resgatá-lo. Antes que sejas tudo o que respiro e almejo, imploro-te que me mates de vez os sonhos e dilaceres este amor que palpita nos meus selvagens desejos, pois não quero, de modo algum, sentir a alma a partir de mim novamente...

Qualquer crise pela qual passamos é uma oportunidade de ouro, pois as pessoas só mudam quando estão sob imensa pressão. Enquanto a situação for tolerável, as pessoas irão tolerá-la. Quando não puderem tolerar, irão se transformar.

Como não sonhar o que deixaste em mim, se tão perto te encontras? Como te dizer que ainda sinto cravado em mim o som das palavras nunca antes pronunciadas?

Voltar a ver-te é regressar ao nada, é recomeçar uma batalha que, segundo sei, foi sempre em vão. Voltar é saber que não haverá maneira de atenuar a dor que ainda se faz sentir. Mas teremos que voltar, de qualquer maneira — aos dias rotineiros, aos dias passados, aos dias imaginados, aos dias que nunca vivemos. Se pudesse, jamais voltaria. Deixar-te-ia um recado, só para não ter de voltar ao fundo negro dos teus olhos cintilantes.

Nada dura para sempre. Pessoas, lugares e ocorrências vêm e vão. Nada neste mundo é permanente. A vida é feita de momentos em constante mudança. E, ainda que nada seja para sempre, somos afectados e transtornados de maneiras que não considerávamos possiveis. Pessoas que nunca esperavas terem tanta importância na tua vida, tornam-se as mais dificeis de esquecer. Deslizam pela tua existência como uma insignificante folha pertencente a uma árvore. Uma ou duas estações depois, caem, e a sua perda causa-te uma dor surpreendente.

Despida é a unica maneira de descrever a maneira como a perda de algo tão presumivelmente insignificante faz-te sentir. Descobres que as mais pequenas coisas fazem-te afundar num mar de recordações que são agora agridoces e assombrosas. Todas as memórias tornaram-se quase perfeitas e inantigiveis, mas quando tu aprofundas o qu está guardado nelas, as suas falhas vêem á superficie e tu apercebes-te que a tua realidade aparente está distorcida. Só consigo comparar esta sensação áquela que te invade quando alguém morre. De repente, a memória deles é perfeita, todas as falhas desvanecem-se. Não é que fossem perfeitos durante a sua vida, mas nós preferimos torturarmo-nos com a percepção que a sua memória estava completamente livre de imperfeições, tornando a sua partida menos dolorosa e agonizante.

A mesma situação aplica-se quando tens que murmurar um contrariado adeus a alguém intimo que decide mudar-se para outro sitio longe de ti. Que simplesmente decidiu que não vale a pena ficar. O laço que tinhas com eles torna-se quase impossivel de cortar enquanto tu enganas-te dizendo a ti própria que cada momento passado ao seu lado foi melhor do que na realidade foi. A sua perda espalha um medo infernal, o medo de esqueceres-te da sua existência, o medo de nunca encontrares alguém capaz de preencher o vazio que eles deixaram no teu peito. Enquanto o senso comum diz-te que o vazio não será, decerto, permanente, porque nada o é, o teu coração sente-se pesado por causa da noção de que esse vazio é impermeável. É mais fácil recorrer ás memórias de um amor perdido que te assombram o espirito de modo a acreditares que ainda tens algo a que te agarrar nos momentos de solidão. O mais dificil de tudo, mesmo assim, é ver um mundo inteiro em alguém que não reconhece o seu próprio valor, colocar alguém acima das tuas necessidades e esqueceres-te um pouco de ti própria. Ouvir as palavras " Eu não posso estar contigo" de alguém que amas mais que á própria vida, assemelha-se a uma faca a entranhar-se sorrateiramente no fundo da tua alma. Apaga cada pedacinho teu, deixando-te completamente oca e desprovida de sentido. Sem outra esperança que te alimente, a única coisa que podes fazer é desejar e rezar que a pessoa em questão encontre todas as coisas que tu viste nela. Esperar que ele descubra porque razão te apaixonaste por ele, porque tu sentiste que valia a pena derrubar muros e desprender-se do medo da vulnerabilidade por ele. Lidar com uma despedida é extremamente dificil, mas encarar a ideia que a pessoa que amas tão desesperadamente é sádica a ponto de não se importar minimamente com o que sentes, é indescritivel. Queres gritar tudo o que sentes no teu interior. Queres desfazer-te em lágrimas e contar ao mundo como o medo, a confusão e a dor se apoderaram de ti, mas não é isso que as pessoas esperam ouvir. Então recorres á solução mais fácil para ti e para eles e dizes com um sorriso forçado no rosto que não te importas, que te sentes perfeitamente bem, ainda que seja o mais afastado possível da verdade.

Eu sei que o tempo cura tudo, ou pelo menos, é o que dizem. Eu sei que um dia, as pessoas deixarão de questionar-me, e as coisas tornar-se-ão muito mais fáceis. Enquanto uma grande parte de mim deseja que eu pudesse esquecer tudo o que vivemos, uma parte ainda maior acredita que tudo tem um motivo. Ainda que o motivo esteja obscuro por agora, tenho esperança que um dia consiga perceber. É essa a beleza do destino. Eu acredito que as coisas irão melhorar não apenas para mim, mas para ele também. A perserverança não é facil em situação nenhuma, despedidas nunca são perfeitas, mas já aceitei essa realidade. Então adeus e toma bem conta de ti, que encontres a felicidade em tudo o que fizeres. Apenas desejo-te o melhor que a vida pode oferecer...

Disseste que ias ficar e eu acreditei. Disseste que ias estar cá, mesmo quando não houvesse sol e fosse a chuva a tomar conta dos dias, e eu acreditei. Disseste que sorririas sempre que os meus olhos te mostrassem lágrimas, e eu acreditei. Disseste que me darias sempre a mão, mesmo que eu quisesse ir por caminhos sombrios e desconhecidos, e eu acreditei. Disseste que "aconteça o que acontecer" tu ias estar sempre cá, a sorrir-me, a dar-me a mão e a ir atrás do amor, e eu acreditei. As pessoas têm este hábito de usar a expressão "aconteça o que acontecer" mas não percebem como ela consegue ser tão destrutiva, e principalmente, como nós conseguimos ser destruídos por ela. Porque as pessoas vão embora, e é isto o que nos a ecoar na cabeça. Uma frase que já não faz sentido, porque quem a disse calou a sua voz. Tenho visto e vivido tantas destas histórias de "aconteça o que acontecer" que chego à conclusão que as pessoas não sabem o que dizem. Ou se sabem, não querem mais saber do que disseram nos momentos seguintes. Parece que dizem certas coisas para ficar bem no momento, na ocasião, e depois esquecem-se das palavras como estas se pudessem apagar com uma simples borracha da vida. Afinal de contas fica sempre bem dizer tal coisa, dá um certo aconchego à pessoa que confortam, iludindo-a de que ficam mesmo, aconteça o que acontecer. Mas a verdade é que acontece muita coisa, tudo o que engloba essa tal expressão e as pessoas abandonam o sítio onde prometeram permanecer. Não têm suporte suficiente para conseguir aguentar as adversidades da vida e fogem como se fosse a própria vida a mata-los. É triste já não se ficar por amor — salvo raras excepções que ainda conheço e pintam a minha visão do amor como algo cor-de-rosa, capaz de aconchegar os corações como se fosse um chocolate quente nos frios dias de Inverno. Ainda há quem consiga ficar por mais que tenha motivos para ir. Ainda há quem esteja por ai a sorrir, por mais motivos que tenha para chorar. Ainda há quem dê a mão por mais razões que tenha para a largar. Ainda há quem siga o mesmo caminho que prometeu desde o início e não o abandone a meio. São estas as pessoas que dão vontade de escrever e ler. São estas as histórias de amor que dá vontade de conhecer sempre um pouco mais. Talvez sejam estas as histórias que nos contem o segredo que os fazem permanecer "aconteça o que acontecer". Há muito tempo que essa razão deixou de ser o amor.