O Amuleto dos Mortos
2 Capítulo 2 - Deuses e Magia
A caligrafia da carta era inconfundível. A letra fina e bem desenhada era exatamente como se lembrava, apesar de tanto tempo sem trocar corujas com o seu ex-professor e agora amigo.
Prezado Hufford,
Espero que esta coruja o encontre gozando da mais perfeita saúde.
Presumo que a esta altura você já esteja ciente de tudo que tem ocorrido em nossa comunidade. Mais uma vez me dirijo a você com muito pesar para pedir-lhe sua colaboração em uma tarefa árdua, mas imprescindível.
Gostaria que você viesse me ver em Hogwarts o mais breve possível, para que possamos discutir os detalhes.
Já tomei a liberdade de pedir a Hagrid que providenciasse seus aposentos próximo à torre de Grifinória com vista para a Floresta Proibida. Se bem me lembro, você apreciava em muito a brisa vespertina e a vista da Alvorada.
Caso você não se lembre, eu ainda gosto muito de Acidinhas.
Muito atenciosamente,
Alvo Percival Wulfrico Brian Dumbledore
Diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts
Ao terminar de ler a carta, Hufford apanhou o telefone e ligou para a loja. A Senhora Smith atendeu prontamente ao telefone:
— Sapataria Hufford, Bom dia – atendeu a voz anasalada com sotaque levemente aristocrático.
— Stella, bom dia! Sou eu, Arsie.
Stella Smith trabalhava na loja de seu pai há muitos anos e praticamente havia ajudado a criar Hufford antes do menino ir para Hogwarts. Seu pai havia dito a todos que o filho havia ido estudar em um colégio interno próximo a Manchester, ao norte do país. Stella tornara-se uma grande amiga de Lizbeth, a mãe de Hufford e frequentava a casa dos patrões na condição de amiga.
— Ei, Arsie. Já sei. Ligou para avisar que perdeu a hora de novo, não é? Fique tranquilo. A loja já está aberta. Não esqueça de trazer um casaco, porque a previsão do tempo diz que vai esfriar.
— Stella, eu vou precisar me ausentar da loja por uns dias. Será que você poderia cuidar das coisas para mim? — disse Arsie, já com desculpa na ponta da língua.
— Aconteceu alguma coisa, Arsie? Algo que eu possa ajudar? – perguntou Stella com um tom de preocupação na voz.
— Não, Stella. Nada de mais... O seu cabeça de vento preferido esqueceu de uma feira de lojistas em Leicester. Devo ficar fora uma semana — disse Hufford tentando ser o mais convincente possível. Stella o conhecia a tanto tempo que se ele tomasse uma garrava de cerveja amanteigada, ela saberia pelo tom da sua voz.
— Muito bem, Arsie... Cabeça de vento como o pai. Se não fosse por Lizbeth, não sei o que teria sido do Sam. Aliás, Arsie, acho que já está na hora de você arrumar uma Liz para você, não acha?
— Ok, Stella. Falamos a respeito quando eu voltar. Até.
Hufford desligou o telefone suando frio. Não gostava de mentir e principalmente não gostava de mentir para Stella. Ele entrou no quarto e puxou um baú que guardava embaixo da cama. Com um movimento gracioso de sua varinha, o guarda-roupas se abriu e seus pertences foram se acomodando organizadamente dentro de seu baú.
Em pouco mais de vinte minutos Hufford estava pronto para partir. Desceu as escadas e chamou um táxi. Quinze minutos depois, estava em frente ao The Post & Telegraph na esquina da Rua Norte com a Rua do Bonde.
Entrou rapidamente e cumprimentou um jovem que recepcionava os clientes à porta:
— Mesa para um, Senhor? — disse o rapaz abrindo um cardápio com um sorriso nos lábios.
— Na verdade, eu gostaria de usar a sua lareira — Disse Hufford retribuindo o sorriso.
— Claro, senhor. É por aqui.
O rapaz mostrou o caminho para os fundos do bar, passando pela cozinha, chegando a uma antiga lareira de tijolos vermelhos. Hufford pegou um pouco de pó de flu, espalhou pelo ar e com um brilho verde, partiu rumo a Hogsmeade, onde apareceu nos fundos do Três Vassouras.
Ao sair pela porta ouviu um grito às suas costas:
— Arsie!!! Arsie é você mesmo? — disse a voz feminina atrás de si.
Ao se virar, deu de cara com Madame Rosmerta, a voluptuosa proprietária do Três Vassouras. Ela continuava bonita, exatamente como Hufford se lembrava. Ele corou um pouco quando ela se dirigiu até ele e lhe deu um abraço apertado.
— Quanto tempo faz, Arsie? Quatro? Cinco anos?
— Acho que quatro, Rosmerta. Mas o tempo não passou para você.
— Ah, Arsie. O mesmo galanteador de sempre. Você nunca vai mudar, não é? Me conte, o que você veio fazer para esses lados? — perguntou Rosmerta que como todo proprietário de bar adora ter histórias para contar.
— Vim ver Dumbledore. Estou precisando fazer uma pesquisa para terminar meu livro, e acho que a biblioteca de Hogwarts deve ter exatamente o que estou precisando.
Neste exato momento, a porta do Três Vassouras se abriu e uma criatura de mais de dois metros de altura, com cabelos desgrenhados e uma barba enorme que não deixava distinguir suas feições adentrou o bar e assim que viu Hufford abriu um sorriso cordial.
— Hagrid. — disse Hufford meneando a cabeça.
— Arsie!!! Meu garoto!!! Cadê meu abraço?
Hagrid abraçou Hufford com tanta força que por pouco ele não teve um par de costelas partidas.
— Rosmerta! — cumprimentou um Hagrid agora contido e sem jeito.
— Bom. Preciso ir, Rosie.... Foi um prazer te ver. — disse Hufford corando.
— Espero que você não vá embora sem passar por aqui para um belo porre, mocinho. — disse Rosmerta com um misto de vergonha e entusiasmo.
Hufford se dirigiu até a saída, escoltado por Hagrid onde uma das carruagens puxadas por Testrálios os aguardava.
O caminho até o castelo foi tranquilo. Hufford sentiu a mesma emoção de sempre quando avistou as frondosas torres de Hogwarts. Várias lembranças passaram diante de seus olhos como sempre acontecia cada vez que retornava à escola. Ao chegar à porta principal, Hagrid se dispôs a colocar sua bagagem em seus aposentos, ao que Hufford agradeceu com um aceno e se dirigiu imediatamente para a sala do diretor.
Chegando ao sétimo andar, ele avistou uma gárgula em uma das paredes e se dirigiu até ela.
— Acidinhas — disse Hufford. A gárgula se agastou para o lado, dando acesso a uma escada espiral. Ele subiu a escada vagarosamente, chegando a uma porta de maneira com uma aldrava de latão. Bateu à porta e aguardou.
— Entre — disse a voz no interior do escritório.
— Alvo — cumprimentou Hufford ao adentrar a sala.
— Bom dia, Arsie! Agradeço por atender tão prontamente à minha convocação — disse Dumbledore sorrindo por sobre os óculos de meia lua. — Espero não ter causado muitos inconvenientes.
— Nada que não se possa arranjar, Alvo. Então é verdade? O garoto realmente esteve com ele? — perguntou Hufford, sentindo um frio no estômago, enquanto aguardava a resposta.
— Receio que sim, Arsie. Receio que Voldemort tenha retornado. Tenho estado muito ocupado desde que aconteceu. Consegui reunir a Ordem novamente e estamos utilizando o casarão de Sirius Black como quartel general.
Havia um tom grave na voz de Dumbledore, como se a situação fosse muito pior do que se poderia imaginar.
— O que você precisa que eu faça, Alvo? — perguntou Hufford curioso.
— Você se lembra da primeira ascensão de Voldermort, Arsie? O Lorde das trevas forjou alianças com cada Bruxo das Trevas que existia. Mas ele foi além. Ele se aliou aos Gigantes, Lobisomens e Trasgos. Aproveitou-se da arrogância dos Bruxos tradicionalistas que sempre se acharam superiores a qualquer criatura mágica e fez promessas de igualdade. Com isso, seu séquito cresceu ainda mais e ele conseguiu, além de reunir um grande exército, construir uma rede intrincada de onde poderia manipular a comunidade bruxa e o Ministério da Magia através da chantagem e da crueldade de seus métodos. Agora, imagine se por um momento, além de controlar as criaturas mágicas mais desprezíveis, o Lorde das Trevas tivesse o poder de abrir o portal para o mundo dos mortos e controlar suas almas para colocar em prática seus planos. O poder de Voldermort seria quase ilimitado e talvez, nada conseguisse impedi-lo.
Dumbledore caminhou tranquilamente até sua escrivaninha, como se estivesse esperando que as palavras que acabara de proferir decantassem e fizessem algum sentido para Hufford.
— Mas, Dumbledore, creio que nem mesmo o você-sabe-quem conseguiria todo esse poder. A não ser que...
Ele abriu a boca e sentiu como se o ar de seus pulmões tivesse sido sugado. Um formigamento correu por todo seu corpo enquanto as imagens passavam em sua cabeça como a paisagem ao redor enquanto estava desaparatando. Dumbledore havia se tornado apenas um borrão e quando recuperou a respiração, o diretor estava observando-o por cima dos pequenos óculos de meia-lua.
— Receio que sim, meu caro. Conquietus Orbis. O amuleto dos mortos — disse Dumbledore com gravidade na voz.
— Mas não pode ser. É só uma lenda. Ninguém nunca conseguiu encontrá-lo.
— Na verdade, meu caro Arsie, Lorde Voldermort instruiu um pequeno grupo de seus Comensais da Morte para procurar o amuleto. E eles encontraram vários indícios de que o Conquietus Orbis realmente existe.
— Dumbledore, isso pode ser um estratagema daquele-que-não-deve-ser-nomeado para desviar a sua atenção. Pode ser tudo uma cortina de fumaça.
— Receio que as informações que eu tenho são da mais estrita confiança. Na verdade, de um dos comensais do próprio Voldermort.
Neste momento, Hufford ouviu a porta atrás de si abrir. Ao virar-se vagarosamente, Hufford deu de cara com uma figura esquia, de nariz adunco e cabelos negros e oleosos.
— Severo, por favor, entre — disse Dumbledore estendendo as mãos para Snape que estava parado à porta fitando Hufford com um olhar frio.
Quando Hufford saiu da sala de Dumbledore, já passava das cinco da tarde. Ele então se dirigiu a seus aposentos, próximo à torre da Grifinória, onde aguardou para se juntar aos alunos no salão principal para jantar. Sentou-se a um canto, próximo à mesa da Grifinória de onde viu dois garotos e uma menina adentrando o salão. Um deles, de óculos, com os olhos claros, era Harry Potter, o filho de Thiago e Lilly. Ao seu lado vinha um garoto mais alto e encorpado com uma cabeleira vermelho fogo que o identificava provavelmente com os Weasley. A menina dentuça que acompanhava os dois, não tinha nem um traço que a identificasse.
Ele terminou seu jantar e se dirigiu à sua masmorra onde adormeceu rapidamente caindo num sono sem sonhos.
Na manhã seguinte, ao acordar, Hufford ficou admirando as copas das árvores da Floresta Proibida por algum tempo e depois, desceu para o salão principal para tomar o desjejum. Sentando-se mais uma vez em um canto, não avistou Harry e seus amigos. Tomou a sua tradicional xícara de café e se deleitou com todos os tipos de pães doces e salgados que estavam postos à mesa. Sempre ficara admirado com o trabalho dos Elfos Domésticos na cozinha de Hogwarts.
Assim que acabou seu desjejum, Hufford rumou para a biblioteca para iniciar seus estudos. Pegou alguns livros e sentou-se na biblioteca. Começou a folhear Artefatos Mágicos de Todo Mundo, buscando alguma referência ao Conquietus Orbis. Ali haviam anéis, colares, braçadeiras, pulseiras, botas e até mesmo, pasmem, cuecas encantadas, mas Hufford não pode encontrar qualquer referência ao Conquietus Orbis. Tudo que sabia é que o Conquietus Orbis, ou Amuleto dos Mortos como era conhecido, era um objeto legendário que teria o poder de abrir um portal entre o mundo dos vivos e dos mortos e conjurar e controlar as almas dos mortos, mantendo-as sob controle. A lenda dizia que o amuleto tinha encrustado o desenho de uma balança de dois braços com uma pena em um de seus pratos.
Hufford passou o dia absorto em leituras e mais leituras, folheando inclusive os exemplares da seção de livros proibidos. Mas não pode encontrar nada. Foi quando, passeando por entre as estantes, deparou-se com o livro Herbalismo e poções de todo o mundo. Hufford decidiu finalizar por aquele dia e dirigiu-se à Madame Pince para formalizar a retirada do livro.
Quando estava saindo da biblioteca, segurou a porta para a amiga de Harry que vinha com uma grande coleção de volumes para devolver à biblioteca. Ele sorriu fraternalmente para a garota dentuça que retribuiu o sorriso e agradeceu a gentileza.
Hufford rumou para sua masmorra, louco por um banho quente e um pouco de café. Após tomar banho e saciar a vontade de cafeína, Hufford sentou-se em uma escrivaninha que havia na masmorra em que estava hospedado e começou a folhear o livro que havia trazido da biblioteca. Deteve-se na utilização de Óleo de Cedro no processo de mumificação dos antigos egípcios. O texto detalhava o processo de mumificação ao qual os mortos egípcios eram submetidos após a sua morte, para que pudessem aguardar o retorno de suas almas do para viver a vida depois da morte.
Os egípcios acreditavam, que o coração do morto era entregue ao Deus Anúbis que fazendo o papel de juiz, pesava-o em conjunto com a Pena da Verdade. Se o coração fosse mais pesado que a pena, significava que estava cheio de maldade e sendo lançado para Ammit, o deus-leão, o devorador de mortos. Mas se o coração fosse leve, Anúbis levava-o num barco a atravessar o rio Nilo para adentrar o mundo dos mortos, e entregá-lo ao deus Osíris, deus da morte e do submundo, para viver a "vida depois da morte."
O coração de Hufford disparou. Uma balança com uma pena. Era esta a imagem encrustada no Amuleto dos Mortos, conforme diziam as lendas. O erro cometido por todos aqueles buscaram o amuleto foi procurá-lo na comunidade bruxa européia. Embora a Confederação Internacional de Bruxos tivesse o intuito de estreitar os laços entre os bruxos de todas as nações, os assuntos internos de cada continente eram, geralmente, tratados sigilosamente, havendo pouca cooperação entre eles.
A noite pareceu eterna. Hufford cochilava e acordava frequentemente esperando que a manhã chegasse e ele pudesse continuar sua pesquisa na biblioteca do castelo.
Enfim, os primeiros raios de sol começaram e banhar as copas das árvores da Floresta Proibida e Hufford levantou-se de um salto e correu para a biblioteca. Ficou andando de um lado para o outro quando reconheceu o andar de Madame Pince pelo corredor. A bibliotecária o fitou de cima embaixo com um ar arrogante e abriu as portas da biblioteca.
Hufford adentrou a sessão de livros de história e depois de fazer uma busca minuciosa, emergiu do meio das estantes carregando um grosso volume encadernado em couro de dragão que se intitulava Deuses e Magia: Um tratado de Frederico Umbell.
Enquanto folhava ávidamente o livro, Hufford ouviu Madame Pince tossir bem alto e quando olhou para ela, a viu fazer um gesto para que ele fosse mais gentil com o livro que estava manuseando. Enfim, ele encontrou o que estava procurando e seus olhos se arregalavam de excitação à medida que lia o texto.
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