O Amor em um Ato
1 A noite em que nos conhecemos.
Notas iniciais
Um sonoro bocejo escapou dos lábios da mulher e fez seus olhos lacrimejarem. Ela levou a mão até o rosto pálido, esfregando-o numa tentativa vã de afastar a preguiça. Depois, tornou a segurar a caneta entre os dedos e rabiscar o papel sobre a mesa. Seus olhos azuis rondavam pelas palavras redigidas, mas não as lia de verdade. Com um tom de desistência, Karen se espojou na cadeira de madeira, mesmo que fosse desconfortável.
Seu olhar entediado percorreu pela sala em sua tênue escuridão, que não era total apenas pela tela de seu computador e da televisão, ligada a um videogame. Karen observou a tela do jogo de luta congelada pelo pause e estalou os lábios. Teve muita vontade de retomar sua maratona de jogos, embora soubesse que não podia.
Estava desde o início da tarde tentando escrever aquela matéria, que deveria ser publicada no início da semana. Porém, ainda que fosse sábado, Karen estava quase desesperada por não conseguir passar do terceiro parágrafo. Sentia-se incapaz e inútil, pois não deveria ser tão difícil fazer uma matéria sobre as tendências da moda para o próximo ano. Não era o seu tema favorito, mas ela deveria escrever o que mandavam. Desde sua adolescência, Karen quis ser jornalista. No entanto, em momentos como esses, qualquer outra profissão parecia mais tentadora.
Impaciente com seu pouco rendimento, ela se levantou da cadeira e jogou a caneta sobre a mesa. Voltou a esfregar as mãos no rosto e respirou fundo. Então, seguiu até a cozinha. Uma água gelada poderia ajudar.
Não estava com um resquício de sono, apesar da preguiça. Se tentasse deitar, sabia que ficaria encarando o teto até o sol reaparecer, portanto era melhor tentar trabalhar. Já havia algum tempo em que Karen não tinha um rotina de sono muito boa, embora ela não parecesse se preocupar.
Apoiada na bancada da pia, ela tomou a água sem nenhuma pressa. Seus grandes olhos azuis fitaram o relógio da parede, que marcava uma e meia da madrugada. Ainda era cedo, o que significava longas horas de tortura até conseguir terminar seu ofício.
Ficou parada ali por um momento, olhando para o escuro do interior da casa e mexendo em seus longos cabelos ondulados e loiros. Os fios pareciam reluzir como ouro e escorriam macios por seus ombros finos. Karen os enrolou em um coque provisório, que logo se desfez, e decidiu voltar ao trabalho.
Quando estava abandonando a cozinha, seus ouvidos captaram um barulho agressivo em direção a vizinhança. Karen sabia que estava acontecendo uma festa nos seus vizinhos, só estava imersa o suficiente em sua tarefa para não prestar atenção na bagunça. Entretanto, aquele barulho parecia diferente do zumbido distante da música e das conversas. Sem perceber, sua curiosidade a levou até a janela da sala e a fez abrir uma brecha na cortina.
Conseguia enxergar a casa na esquina, de onde estava vindo a agitação. Muitos homens falavam alto, mas ela não conseguia ver nenhum deles. Ela escutou xingamentos e o baque de várias coisas se colidindo e quebrando. Assustada, ela decidiu sair de perto da janela, mas outro ruído puxou sua atenção.
No início da rua, algumas sirenes ligadas ecoavam o costumeiro som da polícia e refletiam as luzes vermelhas e azuis. Algum vizinho deveria ter chamado a polícia momentos antes, por conta da música alta e agora era mais do que isso.
Karen observou dois carros estacionarem diante da casa e outro dar a volta na casa, indo até o quintal. Assim, viu o que parecia uma arrastão. Vários homens e mulheres saíram correndo, pulando as cercas e janelas. Todos na tentativa de escaparem. E, de repente, alguns tiros foram disparados. O que fez Karen logo desistir de olhar a rua.
Ela se afastou da janela e levou as mãos a boca, tremendo pelo susto. Tentou se acalmar, respirando fundo. Seu bairro não era o mais seguro, era verdade, mas ela não estava acostumada com disparos de tiros como se fossem fogos de artifícios.
Um pouco mais calma, ela passou as mãos sobre os cabelos, colocando-os atrás da orelha. Seus olhos continuavam fixos na cortina da janela, como se algo estivesse prestes a acontecer. Então, ela escutou um baque estrondoso vindo de sua varanda.
Apesar de levar outro susto, ela não hesitou em ir checar. Pensou se deveria levar algo com que pudesse se defender, caso se tratasse de alguém alterado, mas acabou ignorando essa ideia. Seus pés descalços a apressaram pela casa, como se tivessem vida própria. E antes que ela pudesse pensar em precaução, ela já estava na varanda, olhando o homem grande que estava se levantando de uma queda.
Provavelmente, ele havia saltado pelo portão, já que a varanda dava para a rua, quando a confusão com os tiros começou. Karen não tinha ideia do que estava acontecendo. Não conseguia ver o rosto dele, apenas sua grande silhueta. E mesmo que estivesse correndo perigo, sua primeira reação foi ir até ele e ajudá-lo a se levantar. Esqueceu-se até que estava apenas de camisola.
— Você está bem? Se machucou? — ela perguntou sem pensar, apenas tentando levantá-lo.
Ele era grande e musculoso, por isso difícil de levantar. Karen sentiu que fez uma força descomunal para conseguir erguer e mantê-lo de pé.
Karen tentou ampará-lo, mas logo que se recuperou da queda, ele pareceu se desesperar ao vê-la. Segurou Karen pelos braços com firmeza, sem machucá-la.
— Você precisa me ajudar! Se eles me pegarem, eu... Você sabe como eles são... Eu não...
— Ei, ei! Calma! — ela pediu, em vão.
— Por favor, eu não fiz nada... Eu só preciso que você me ajude... Me esconde... — ele estava nervoso demais, suas mãos tremiam e seus braços estavam tensos.
— Ei! Calma! Por favor, calma! — teve de quase gritar com ele. — Calma, tudo bem? Eu vou te ajudar, mas preciso que você fique calmo!
Ela olhou por cima do ombro dele e, com medo de que aparecesse mais alguém, puxou-o para dentro de sua casa. Trancou a porta que dava para a varanda e virou-se a ele, contemplando o homem que acabara de salvar.
Ele era realmente grande e musculoso, deveria ser quase um palmo mais alto que ela. Sua pele era escura como ébano e estava suada e respingada de sangue, assim como sua camiseta cinza. Seus cabelos raspados e a barba bem feita também brilhavam por causa do suor. Já seus olhos, escuros como a noite, entregavam a verdade. Ele estava mesmo desesperado, procurando por ajuda.
Sem saber muito o que fazer, ela se aproximou dele, observando o sangue em suas roupas. Ele pareceu ofegar.
— Está tudo bem! Eu só preciso que me conte o que está acontecendo para que eu possa te ajudar! — usou seu tom de voz mais doce e compreensivo possível, sua voz soou como um acalento que pareceu acalmá-lo.
Ele anuiu a cabeça seguidas vezes e respirou fundo antes de começar a falar.
— Estávamos na festa do Bill, esse homem da esquina. — esperou até que Karen confirmasse com a cabeça para continuar. — Estava tudo bem, mas algumas pessoas estranhas começaram a aparecer com drogas e até armas. Eu sabia que não poderia dar certo. Então, parece que alguém ligou para a polícia, por causa do barulho, mas já era tarde demais... — mais uma vez, ele começou a perder a linha de raciocínio com o nervosismo. — A polícia chegou... teve uma briga... eles estavam sobre mim, mas eu não fiz nada... mas você sabe como eles são, se me pegarem, eu serei o culpado... por favor...
Na tentativa de acalmá-lo, ela pousou as mãos sobre os ombros dele.
— Eu sei, eu sei. Você pode ficar aqui enquanto isso. — Percebeu que ele estava com cheiro de bebida, mas não parecia bêbado ou sequer alterado, o que era bom. Karen não podia confiar em um homem estranho, ainda mais se ele estivesse alcoolizado. — Quer um copo de água? Pode te ajudar a acalmar.
Ele respondeu apenas com um aceno de cabeça e Karen se afastou. Sentiu o olhar dele acompanhá-la pela cozinha até a geladeira. Serviu um copo generoso e levou de volta até ele.
Era compreensível o nervosismo dele. Karen não fazia ideia de como era o medo que ele tinha de ser pego pela polícia, mas sua carreira jornalística mostrou-lhe como policiais tratavam homens negros.
Esperou até que ele terminasse de beber a água para voltar a falar.
— Sente-se melhor? Mais calmo?
— Sim, obrigado, ma’am¹.
Um sorriso curto apareceu nos lábios dela.
— Tudo bem, então vou pegar uma toalha para você limpar esse sangue.
Karen ameaçou a se afastar, mas ele a segurou pelo pulso, puxando-a de volta. Ele tinha muita força, porém tinha o cuidado de não excedê-la ao tocar em Karen.
— Você não está usando isso de desculpa para chamar os tiras, não é?
Ela o encarou por um momento.
— Não! Já disse que vou te ajudar. Por que eu faria isso?
— Porque você não me conhece.
— E você também não me conhece. — ela arqueou uma sobrancelha, sorrindo de lado. — Eu posso ser uma assassina e agora você está aqui, na minha casa, caindo na minha armadilha. — brincou, pensando que pudesse descontrair aquele clima tenso.
Lentamente, ele soltou seu pulso.
— Oh, ma'am...
Ela não segurou a risada.
— Só estou tirando com a sua cara! Olha seu tamanho e olha o meu! Que chance eu teria? — ela fez uma careta.
Pelo visto, a brincadeira ajudou, pois ela o viu sorrir pela primeira vez. E ele tinha um sorriso interessante, para dizer o mínimo.
Ele a observou sair da cozinha, deixando-o sozinho, para buscar a toalha. Nesse momento, ele se sentiu um pouco desconfortável. Aquela mulher sequer o conhecia e estava disposta a ajudá-lo. Ele poderia ser qualquer predador no meio da noite, mas ela não parecia preocupada. Se ele tivesse saltado na varanda de qualquer outra pessoa, certamente já estaria nas mãos da polícia, mas ela estava preocupada em limpar o sangue do seu rosto! Parecia inacreditável.
Enquanto esperava o retorno dela, ele observou a cozinha. Teve vontade de tomar mais um pouco de água, mas não se sentia confortável o suficiente para abrir a geladeira dela sem permissão. Portanto, decidiu abrir a torneira e encher seu copo com água morna mesmo. Já era alguma coisa para molhar sua garganta ressecada.
Não demorou muito e ela retornou. Já não estava mais de camisola e ele havia percebido esse detalhe. Usava uma regata cinza e uma calça preta de academia, que aderia ao corpo. Ela era alta, mas quando comparada a ele, parecia bem pequena. Ele observou seus longos cabelos cheios de movimento, dançando em volta de seu corpo magro, dando um tom dourado em contraste a sua pele alva.
Ela trazia em uma mão a toalha úmida e na outra uma camiseta azul. Estendeu ambas as coisas a ele.
— Eu não tenho muitas camisetas masculinas, afinal eu sou uma mulher, mas eu consegui encontrar uma que deve servir!
Ele desdobrou a camisa em sua frente, era de algum time de futebol que ele não conhecia, mas parecia grande o suficiente para caber nele. Imaginou se aquela camisa era mesmo dela. Mesmo assim, ele depositou a camisa de lado.
— Olha, eu agradeço muito, mas não precisa se incomodar tanto, eu...
— Não está me custando nada, não se preocupe! — ela sorriu em direção a ele. — E, de qualquer maneira, eu não estava fazendo nada demais.
Comprimindo os lábios carnudos, ele tomou a toalha em mãos e começou a passá-la pelo rosto, limpando todo os respingos de sangue. Não era seu sangue, na verdade, ele não sabia bem de quem era. Tudo aconteceu tão rápido, quando ele havia se dado conta, estava no chão junto com outros três homens. Não conseguia lembrar-se exatamente do que aconteceu e achava que era melhor desse jeito.
Karen ficou quieta, observando-o se limpar. Quando ele deu-se por limpo, ela meneou a cabeça e foi até ele. Sem pensar, pegou a toalha e limpou as manchas em seu ouvido e pescoço, que ele havia esquecido. Apesar de se sentir esquisito com aquela aproximação, ele não a interrompeu, mas ela sentiu a tensão e decidiu se afastar.
— Você não me disse seu nome. — ela arriscou, em certo momento.
— Chris. — respondeu. — Chris Hopper.
Ele começou a retirar a camisa para vestir a outra. Karen admirou o peitoral definido dele por uns segundos e desviou o olhar. Um pouco desconcertada, ela passou a mão sobres os cabelos para disfarçar. Sentiu seu rosto queimar e se intimidou. Sequer o conhecia direito para sentir-se atraída por ele. Sentiu-se boba e estúpida.
— Chris... Chris de Christopher? — ela perguntou-o, tentou disfarçar o desconcerto, mas acabou gaguejando um pouco. Ele acenou com a cabeça confirmando, então ela sorriu. — Posso te contar algo engraçado sobre seu nome? Desde que você não fique bravo, é claro.
Chris tornou a anuir.
— Eu sempre achei que Christopher fosse a junção do nome de Cristo com Lúcifer. — disse, observando a reação dele, que franziu o cenho. — Tipo, não sei, uma junção do bem e mal...
Ele pareceu pensativo, mas acabou abrindo um sorriso.
— Nunca tinha pensado por esse lado. Mas devo admitir que você tem uma imaginação muito fértil, ma'am. — respondeu, olhando-a sorrir e abaixar a cabeça. — E quanto ao seu nome?
— Karen Lane. — voltou a olhá-lo nos olhos. — Não há nada demais no meu nome.
Ele balançou os ombros.
— É um nome bonito.
O olhar de ambos se sustentou por um segundo, mas o momento foi quebrado por batidas agressivas na porta. Eles haviam esquecido por completo da confusão que estava lá fora. O susto os deixou alerta novamente e Karen conduziu Chris até seu quarto.
— Fique aqui enquanto eu atendo a porta. — as batidas se intensificaram e ela o deixou sozinho, se apressando em direção a porta.
Conforme andava até lá, recolheu um casaco jogado por cima do sofá e o vestiu. Usou as mãos para dar uma bagunçada em seus cabelos, para dar o ar de que acabava de acordar.
Ela abriu a porta e encontrou com dois policiais. Atrás deles, toda a vizinhança parecia acordada. Karen deduziu que eles estavam procurando pelos foragidos por toda a vizinhança, sem se importar que era de madrugada e as pessoas estavam descansando. Típico.
— Desculpe incomodar a senhora essa hora, mas houve uma confusão agora há pouco e...
— Ah sim, eu escutei os tiros.
— Pois então, senhora. Algum dos envolvidos acabaram fugindo e nós pensamos que algum deles ainda estejam pela vizinhança. — ele explicou tentando parecer o mais profissional possível. Karen os observava com uma expressão nula. — A senhora viu algum suspeito?
— Não, não vi ninguém. Eu estava dormindo.
O outro policial, o mais alto, suspirou.
— Veja bem, eu entendo. Mas nós percebemos que você tem uma varanda bem oportunista, que poderia ser usada como rota de fuga.
Karen arqueou as sobrancelhas.
— É uma varanda, não tem saída para lugar nenhum, senão a minha casa. Acho que eu saberia se alguém tivesse entrado na minha casa.
— Claro. Mas você não se importaria de darmos uma olhada, não é? Veja bem, eles estavam envolvidos com drogas e armas. Pode ser perigoso para a senhora. — ele deu um sorriso idiota.
Sem ter para onde fugir, Karen acabou concordando e deu-lhes passagem para entrar. Um deles passou por ela e dedicou uma olhada bem demorada, da cabeça aos pés.
— Que bela vista.
Ela revirou os olhos e os conduziu depressa até a varanda. Quanto mais rápido, menos tempo eles ficariam ali. Fez questão de mostrar que a porta estava até mesmo trancada e depois, mostrou que não havia nada e nem ninguém em sua varanda. Eles enrolaram, andando de um lado para o outro e por fim, desistiram.
— Agradecemos sua compreensão, senhora. — o mais alto disse. — Qualquer coisa que precisar, estaremos a disposição. Você vive aqui sozinha?
Karen não entendeu aquela pergunta.
— Isso importa?
— Pode ser perigoso para uma moça bonita como você morar aqui sozinha. — ele sorriu galanteador. Karen sentiu o estômago embrulhar. — Se quiser uma companhia para te proteger, bem...
Ele recebeu uma cotovelada do parceiro.
— Pare de flertar com mulheres no trabalho. Vamos logo com isso!
Mais do que depressa, Karen fez questão de acompanhá-los até a porta, livrando-se deles o mais rápido que podia, antes que recebesse outra cantada babaca.
Então, voltou quase correndo até seu quarto para checar Chris e encontrou com ele segurando uma tesoura como se fosse uma arma.
— Uau, para que isso?
Ele respirou fundo.
— Para o caso dos idiotas não te deixarem em paz. — respondeu, olhando-a. — Eu os escutei.
Sorrindo, Karen retirou a tesoura das mãos dele e deu-lhe sinal de que tudo estava bem, sem perigo. Chris a seguiu até a sala, o único cômodo que ainda não havia visto. Estava bem bagunçado, mas ele não se importava. Sua casa deveria estar no mesmo estado.
Ela estava falando algo, mas ele não estava prestando atenção. Estava pensando sobre tudo o que aconteceu. Karen realmente o ajudou. Inclusive, se expôs para dois idiotas por causa dele. Chris queria pensar em um modo de agradecê-la, mas nem todos os cumprimentos do mundo pareciam suficiente.
Chris olhou-a, caminhando pela sala. Ela perguntou se ele estava com fome e ele negou. Parecia tão elegante, mesmo com os cabelos bagunçados e aquela roupa casual. Em certo momento, ela percebeu que ele estava olhando e sorriu em sua direção. Chris não soube o que fazer direito e sorriu de volta, desviando o olhar. Foi quando ele reparou na televisão ligada, congelada em um videogame pausado. Seu sorriso se alargou.
— Isso é mortal kombat? — perguntou, apontando para a televisão.
— Sim, é sim. — Karen balançou a cabeça, tornando a se aproximar dele. — Você também gosta?
— Como não? — ele riu de lado, de um jeito malandro espontâneo. Karen achou-o ainda mais bonito confortável daquele jeito. — Sem querer me gabar, mas eu sou o melhor jogador disso aí.
— Ah, é? Pois eu também me garanto muito bem! Quer jogar e descobrir quem está falando a verdade?
— Não, ma'am, você não quer passar por isso. Eu vou te destruir.
Ela riu.
— Quer apostar que eu sou melhor?
Chris a olhou desconfiado, mas seu sorriso indicou o contrário.
— Hm, está certo! Se eu ganhar, você vem jantar comigo, como um modo de retribuir o que você fez por mim hoje. — sugeriu, estendendo a mão para ela.
— Eu aceito! Mas se eu ganhar, você vai ter que contar para todo mundo que você perdeu para a mocinha. — ela deu-lhe um olhar penetrante e apertou sua mão, após ele concordar.
Então, enquanto ele se acomodava no sofá, ela procurava o segundo controle na estante. Depois de tudo ajeitado, ela se sentou ao lado dele. Eles se entreolharam e voltaram a atenção para a tela da televisão. Assim, deram início a competição.
No começo, Karen pareceu mesmo intimidada e Chris saiu na liderança, mas não demorou muito para que ela retomasse a confiança e o combatesse de igual para igual.
A primeira parte da competição acabou empatada, três vitórias para cada um. Então, eles decidiram fazer uma última. Quem chegasse a cinco vitórias primeiro, era o grande vencedor. Esta última etapa demorou um pouco mais, já que eles conseguiam entender as habilidades um do outro e prever seus movimentos. No entanto, Karen saiu vitoriosa e toda se gabando.
— Eu deixei você ganhar, ma'am. — ele deu de ombros, implicando com ela. Em seguida, bocejou sonoramente.
Ela abriu os lábios, ofendida com aquilo e o empurrou de leve.
— Até parece! Você estava todo desesperado, eu vi! — eles riram. — Não tem para onde fugir grandão, vai ter que contar para todo mundo sua humilhante derrota para uma mocinha inofensiva!
— O que é uma pena, acabei perdendo a chance de jantar com você.
Karen deu uma risadinha sugestiva e eles se entreolharam, mais uma vez. A luz da televisão refletia na pele dele, fazendo-a brilhar, deixando-o ainda mais bonito. Ele piscava os olhos lentamente e sua boca estava entreaberta. Quando foi a última vez que Karen viu um homem tão bonito?
Não souberam bem quanto tempo ficaram se encarando, mas antes que o silêncio ficasse difícil de suportar, Chris murmurou:
— Por que fez tudo isso por mim, Karen?
— Fiz o quê?
— Confiou em mim, de verdade, mesmo sem me conhecer. Me ajudou e me protegeu. Eu poderia estar mentindo e me aproveitando de você.
Ela suspirou e escutou-o bocejar novamente.
— Mas você não estava, não é? — ela balançou a cabeça. — Seus olhos.
— O que tem eles?
— Havia algo neles quando te encontrei. Havia verdade neles. Então, eu soube que podia acreditar em você.
Ele riu baixo, aconchegando-se no sofá.
— Eu poderia ser um ótimo ator.
Ambos riram diante daquele comentário, mas de repente, o som da risada dele sumiu. Quando Karen olhou melhor, percebeu que ele havia adormecido. Simplesmente. Imaginando que ele estava mesmo cansado, decidiu não acordá-lo. Pensou em deitá-lo corretamente no sofá, mas sabia que não aguentaria seu peso. Então, apenas decidiu ir até seu quarto e pegar uma coberta sobre sua cama e cobri-lo. Não estava muito frio, mas poderia esfriar.
Observou o homem dormindo sobre o seu sofá, por um momento. Um homem que não conhecia nada além do nome. Um homem que poderia ser qualquer coisa.
— Desde quando você abriga homens desconhecidos em sua casa, Karen? — perguntou a si mesma, baixinho para não acordá-lo. — E desde quando você se sente tão confortável na presença desse homem desconhecido?
Sem uma resposta certa, ela deixou-o descansando em seu sofá e se recolheu a seu quarto. Não teve medo de ir dormir sob o mesmo teto que um desconhecido. Por algum motivo, ela sabia que ele não faria mal algum.
Quando deitou-se em sua cama, percebeu que também estava com muito sono. E que a matéria sobre as tendências de moda do próximo ano podia esperar.
...
A claridade em seu quarto indicou que já havia amanhecido. Karen não sabia por quanto tempo durou seu sono, mas quando olhou para o relógio na sua cômoda, viu que ainda era muito cedo. Seis horas da manhã em ponto. Ainda assim, ela não voltou a fechar os olhos, pelo contrário, saltou da cama com pressa.
Esfregou os olhos para afastar o sono, depois de um bocejo, e prendeu os cabelos em um coque bagunçado. Então, seguiu até a sala.
Chris permanecia dormindo, na mesma posição. As pernas abertas e os braços cruzados sobre a barriga. A coberta escorregava por seu ombro, mas não o cobria. Karen sorriu ao ver que ele ainda estava ali. E mesmo com pena de acordá-lo, foi até ele.
Com a mão sobre seu braço, ela o balançou-o com cuidado, já que não estava afim de assustá-lo. Ele abriu os olhos, um pouco desnorteado. Entretanto, quando ele reparou nos olhos azuis de Karen, despertou em um pulo.
— Droga, como se não fosse suficiente, eu ainda dormi no seu sofá. Me desculpe, ma'am! — ele se levantou com pressa. — Eu agradeço por tudo, mas acho que já está na hora de eu ir. Eu já me aproveitei demais da sua boa vontade...
Como no momento em que se conheceram, Karen pousou as mãos sobre os ombros dele, tentando acalmá-lo.
— Está tudo bem, Chris. — ela sorriu, segurando um bocejo. — Por que você não espera eu fazer um café e depois vai?
— Porque seria pedir demais, ma'am. — ele tomou as mãos dela nas suas. — Eu nem sei como posso agradecer tudo o que você fez por mim, mesmo sem me conhecer. Eu não quero mais incomodar.
— Tem certeza? Não está incomodando...
Ele balançou a cabeça, confirmando. Então, Karen conduziu-o até a porta. A claridade feriu os olhos de ambos quando a porta foi aberta. Chris se espreguiçou ao sair da casa e virou-se para Karen.
Os olhares tornaram a se encontrar. Ambos não sabiam o que dizer. Talvez estivessem com receio de se despedir. Mesmo assim, Chris tomou a iniciativa. Sorriu para Karen e acenou a cabeça. Porém, quando estava virando as costas, sentiu Karen segurar sua mão.
— Ei, eu sei que você perdeu a aposta ontem, mas... — começou a falar, mas sentiu seu rosto queimar e faltaram palavras. — Se você ainda quiser aquele jantar, eu também quero.
Karen fitou-o nos olhos e reparou o mesmo de antes. Sinceridade. Eles brilharam intensamente.
— Então, você quer jantar comigo? — ele perguntou, sorrindo.
— Sim, eu quero. — ela sorriu de volta. — Odiaria que tudo acabasse aqui.
Então, eles perceberam que as mãos ainda se seguravam.
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