O Amor da Lua
11 Meras lembranças
Notas iniciais
Eclaire não conseguia digerir tudo o que tinha escutado da reunião de Miiko. A guarda da Cruz estava indo guerrear com os humanos, e tudo isso pra que? A vingança só traria mais dor aquele povo, não era disso que eles precisavam.
— Eclaire? – Valkyon a chamava a fazendo tomar um pequeno susto. – Está tudo bem? Você parece distante ultimamente...
— Eu estou bem, não se preocupe. – ela colocava seu sorriso habitual no rosto. Não estava sendo falsa, estava feliz por ter começado algum tipo de relação com Valkyon, por ser tão querida em Eel, mas estava preocupada com o que poderia acontecer dali pra frente.
— É esse sorriso que eu gosto de ver. – ele sorria tão abertamente quanto ela, e se aproximava ao poucos para depositar um beijo em seus lábios.
Porém quando estavam prestes e terem seus lábios colados um barulho os assusta. Valkyon olha em volta preocupado e depois mira seu olhar para Eclaire. Ela estava tão surpresa quanto ele.
— O que foi isso?
— Não sei, mas cinco pessoas se aproximam do quartel general.
Não foi preciso mais, ambos saíram correndo rumo a saída do QG. Além deles Ezarel, Nevra e Miiko faziam o mesmo junto com vários soldados. O coração de Eclaire dispara assim que reconhece ao longe o mascarado que apelidara de Ashkore. Ele parecia liderar os outros quatro mascarados que corriam junto com ele.
— Estamos sofrendo uma invasão, preparem-se para batalhar! – a raposa gritava. Os soldados não esperariam outros berros da kitsune para começarem a agir, tinham que fazer isso não só por serem ordens como também para defenderem seus lares.
Miiko voltava para a sala do cristal e preparava o cajado costumeiro que segurava. Defenderia o cristal a cima de tudo.
Na sala das portas, Valkyon distribuía armas para todos e conferia se estavam boas para uso. Todos já entravam em posição de batalha, estavam em maior número, com certeza ganhariam, certo?
— Eclaire. – o faeliano a estendia uma lança, seu olhar sério dizia que ela deveria aceitar. Não era mais uma questão de escolha, era prioridade defender os inocentes.
Ela simplesmente recusa com a cabeça e avança para a linha de frente. Não tinha costume de usar armas, naquela luta não seria diferente, usaria seus próprios punhos para defender Eel, e manteria a promessa que fizera a Evangeline. Lutaria sem matar ninguém.
O mascarado com sua equipe se aproximavam rapidamente, três deles praticamente sumiram no meio dos soldados e foram derrotados sem muita dificuldade. Poucos haviam saído gravemente feridos, contudo os que haviam sobrado eram habilidosos, matavam um por um numa velocidade incrível.
As roupas os soldados de Eel já não ajudavam, estavam sem armaduras próprias para situação e poucos sabiam como se defender com maestria. Toda a situação resultava em várias mortes. Ashkore após matar mais alguns homens para de frente para Eclaire.
Ele não dizia nada, ficava a observando como geralmente fazia. Era uma situação surreal para ela, ver tantos morrerem por uma razão tão estúpida, e agora estar ali, frente a frente com o líder do grupo de assassinos era aterrorizante. Nunca imaginara que alguém que fora tão bondoso consigo poderia fazer uma barbaridade como aquela.
— Ashkore, por que está fazendo isso? – o tempo parecia ter parado para eles, era como todo o resto não existisse.
— Eel precisa pagar pelo que fez. Chegou a hora deles sofrerem como eu sofri.
Eclaire não conseguia se mexer, era incapaz de fazer qualquer coisa contra ele. Não sabia por quê. Talvez fosse o fato dele ter sido tão gentil com ela. Ou o fato de sentir uma estranha ligação com aquele homem que se assemelhava tanto a ela.
Como num flash Ashkore passava por Eclaire, uma das mãos dele passando por seu pescoço. A cena parecia se passar em câmera lenta, ele passando ao seu lado, sua mão colocando algo em seu pescoço e ele balbuciando aquela frase apenas que ela conseguisse ouvir.
— Eu não falharei novamente!
Sentia seu coração bater forte contra o peito, o medo corria por seu corpo como nunca correra antes. Suas pernas pareciam ter congelado, não conseguia move-las por mais que quisesse. O pavor a toma conta por completo no momento que sente uma mão pousar sobre seu ombro.
— Astaroth... – a tensão diminuíra consideravelmente ao ver um rosto amigável. O líder da Obsidiana sorria confiante.
— Eu voltei pra defender minha família. Você vem Eclaire?
Não, não podia mais fraquejar, havia encontrado seu motivo para lutar, para não desistir de nada. Como seu líder a havia ensinado, lutar não era sinônimo de matar, ela o poderia fazer para defender quem amava e ainda cumprir com sua promessa. Convicta ela acena com a cabeça e corre novamente até a sala das portas, onde uma grande quantidade de corpos se encontrava.
A assassino restante além de Ashkore matava com facilidade, e estava causando um verdadeiro alvoroço. Parecia estar se divertindo enquanto via o sangue jorrar, a música que Eclaire ouvia dele era assustadora. Sentia suas pernas bambearem novamente com aquele som.
— Você não vai levar mais ninguém da minha família sua vadia! – Astaroth pegava seu machado e com uma velocidade quase tão grande quanto a da mascarada ele a acertava na cabeça, a jogando contra a parede.
A assassina caia de joelhos, balançava a cabeça de um lado para o outro espantando a tontura que lhe atingia por causa do impacto. Sua raiva era quase palpável. Com maestria ela corria para atacar o homem de cabelos azuis, mas não podiam se deixar enganar, ele não era líder de guarda por simples capricho. Suas habilidades na luta eram incríveis.
O tinir do metal era ouvido por todos no recinto. Eclaire e Valkyon ajudavam a tirar os feridos o mais rápido dali. Tinham que ajudar de alguma maneira, afinal.
A mascarada por um instante para e mira seu rosto para Eclaire, que carregava um homem rumo a enfermaria.
— Você não vai fazer isso! – ele não a dava tempo de reagir, mais uma vez acertando o machado e a jogando longe, ele corria para cima dela e lhe acertava mais um golpe.
Tamanha era sua força que a máscara racha em boa parte do queixo e bochecha direita. Agora a parte inferior do objeto negro estava no chão aos estilhaços. Com certeza ela não pararia, era esperta, ágil e tinha sangue frio. Antes que Astaroth a acertasse de novo, a mulher corre para as escadarias pronta para acertar Eclaire.
Sua lâmina da lança estava gritando pelo sangue daquela garota, havia um plano em mente para matá-la e levar junto aquele brutamontes de cabelos azuis. Quando Astaroth avançou para cima dela, a mulher vira bruscamente e finca a lança na garganta do líder da Obsidiana. Era visível o sorriso de satisfação em seus lábios. Ela não o daria mais tempo para que seus planos dessem errado, rapidamente ela empurra a lâmina para o lado arrancando a cabeça de seu adversário.
— ASTAROTH! – Eclaire gritava, ameaçava ir para o rumo do corpo de seu falecido amigo e mestre, porém era segurada por Valkyon.
— Não seja idiota, ela vai te matar. – as lágrimas queriam descer, mas o medo a consumia, não permitia nem mesmo que ela chorasse por sua perda. – Vá para-
Antes que o faeliano terminasse sua ordem para a garota ele se via indo de encontro ao chão do outro lado da sala. A mulher não pararia por ter derrotado um, seu objetivo era matar a todos. Eclaire sabia qual seria sua ordem, decidira não obedecê-la, não ficaria parada vendo Valkyon lutar.
Eclaire tenta desferir um golpe, mais ágil e experiente sua oponente desvia e lhe chuta alguns metros de si. Agora a assassina sem nome caminhava para rumo do faeliano, estava sentindo prazer ao fazer tudo aquilo. Ninguém mais poderia ajudar. Ezarel estava ajudando os enfermeiros a cuidar dos feridos, Nevra era um deles, Miiko estava defendendo o cristal junto com Leiftan. Restava apenas ela.
A mulher investia com a lança mirada em Valkyon, o tempo parava novamente, era quase possível ouvir o tic tac dos relógios espalhados.
— VALKYON! – Eclaire gritava enquanto por instinto corria. Valkyon pegava uma lança que estava próximo a ele e girando seu corpo numa posição onde mataria e seria morto, ele fecha os olhos e espera pela dor do impacto.
Poucos segundos e ele abre os olhos para constatar o que havia acontecido. A loira havia entrando na frente da lâmina e recebido o golpe em seu lugar. Ela segurava uma faixa verde e com rapidez ela prende as mãos da assassina juntamente com a arma. A arma passava abaixou de seu peito, rumo aos intestinos, e mesmo com a arma ainda no lugar da ferida o sangue não parava de escorrer, aquilo amedrontava o hibrido de uma forma descomunal.
— Valkyon... Agora! – ela ordenava entre cuspidas de sangue.
— Mas... – ele sabia o que ela queria que fosse feito, mas não podia, não se perdoaria se o fizesse.
— AGORA! – Eclaire usava uma mágica para impedir que a mascarada saísse do lugar, e aquilo não duraria para sempre, tinham apenas uma chance.
Fechando os olhos novamente Valkyon perfura Eclaire no estômago forçando a arma chegar até a causadora de tanto problemas lhe cortando a garganta. A loira desfazia o laço no qual lançara o feitiço para imobilizar sua inimiga, deixando seu corpo desabar no chão. Logo em seguida ela retira a lança fincada em seus intestinos enquanto que Valkyon retirava a que havia fincado nela.
Não demorou mais, Eclaire fora de encontro ao chão como uma pedra. Sangue escorria por sua boca, estava ficando cada vez mais pálida.
— Eclaire... – ele a ajeitava em seu colo tirando os fios de cabelos agora sujos de sangue, tanto dela quanto da mascarada, para acariciar suas bochechas. – Não Eclaire, por favor, não me deixe.
— Me... Prometa... – as lágrimas de Valkyon agora se misturavam a tintura vermelha que borrava o rosto alvo. – Que vai... Perdoar... Os humanos...
— E-Eu não posso prometer isso.
— Por favor... Me prometa... Que não sentirá... Mais ódio deles. – proferir as palavras se tornava cada vez mais doloroso, a garota sentia todas suas forças indo embora.
— Não, não, não... Isso não pode estar acontecendo... – ele sussurrava para logo em seguida gritar. – Ezarel me ajude!
O elfo corre desesperado para o encontro dos dois, suava frio com a cena que via. Se agachando ao lado deles arrancava o mais rápido que conseguia sua jaqueta e pressionava no ferimento da garota.
— Eclaire, você vai ficar bem. Apenas mantenha o olhar em mim, ok? – o elfo se atropelava nas palavras, sentia uma imensa vontade de chorar, odiava a ideia de não ser capaz de salva-la. Amava aquela garota irritante como uma irmã.
Com pressa Ezarel derrama uma poção de cura em sua boca, sabia que não seria o suficiente, mas tinha que servir até que ele conseguisse pegar algo mais forte na enfermaria.
— Valkyon eu preciso que você pressione minha blusa, com força pra não deixar o sangue vazar mais. Eu vou pegar remédios mais fortes na enfermaria.
— Entendi. – ele se posicionava e pressionava a blusa rezando para o Oráculo para que Eclaire fosse salva. – Você vai ficar bem.
Poucos minutos depois Ezarel estava de volta com bandagens, pomadas e poções extremante fortes de cura. O elfo preparava tudo para que pudesse o mais rápido possível cuidar de Eclaire, e instruía Valkyon para ajudá-lo. Ele estava prestes a colocar um pano esterilizado para limpar seus ferimentos quando é impedido pela loira. Ezarel se surpreende e a encara por alguns segundos, ela simplesmente sorri largo e balança a cabeça de um lado para o outro vagarosamente.
Ela ajeitava sua mão na do elfo e a apertava, ele a apertava na mesma intensidade e fazia que “sim” com a cabeça mostrando que havia entendido e que ficaria ali com ela até o fim. Eclaire mira sua cabeça para Valkyon e sorri ternamente. Tentava esticar sua mão esquerda para acariciar os cabelos alvos, porém antes que ela o alcançasse a morte já havia a levado, fazendo com que sua mão caísse sobre seu corpo avermelhado.
— Eclaire... Não por favor... – Ezarel abaixava a cabeça sentindo a mão dela se afrouxar na sua, enquanto que o faeliano chorava e gritava em meio aos soluços enquanto a abraçava. O elfo olhava agora para suas mãos, ela havia lhe deixado a fita que retirara da calda do Black Dog. – Eu sinto muito Astaroth, não consegui protegê-la. – ele sussurrava.
Em contra partida na sala do cristal as coisas estavam cada vez mais acirradas. A batalha entre Leiftan e Miiko contra o mascarado estava a todo vapor. Estavam todos ofegantes, cansados, mas mesmo assim nenhum pretendia dar o braço a torcer por seus objetivos. Quando Leiftan escuta Valkyon gritar o nome de Eclaire com a voz embargada ele congela, sente o chão sob seus pés desabar.
Não, aquilo não podia ser verdade. Ela não morreria tão facilmente, era uma mentira não era? Tinha que ser.
— Preste atenção na luta! – o mascarado desferia um chute no rosto do lorialet o derrubando no chão.
A raposa tentava revidar, contudo devido ao cansaço era vencida facilmente sendo jogada em cima de seu companheiro.
— Está na hora de cobrar o que me devem! – ele lança uma espada afiada no rumo do cristal proferindo algumas palavras numa língua que Miiko nunca ouvira antes.
Um brilho ofuscou o lugar, a raposa sabia que aquilo significava uma derrota para Eel e uma série de desastres. O cristal havia sido quebrado. O grande Oráculo estava estilhaçado. Depois do brilho o mascarado já não se encontrava mais lá, alguns pequenos pedaços continuavam no recinto, mas e o resto?
A grande parte central do QG estava espalhada por toda Eldarya, o que seria dos faeries agora? Como achariam todos os fragmentos? Miiko socava o chão para descontar sua raiva, havia falhado com toda Eel, não havia sido forte o suficiente para proteger seu povo.
— Miiko. – Leiftan a chamava repousando sua mão em seu ombro. – Vamos ajudar os outros.
— Certo.
O lorialet a ajudava a levantar, andavam com certa pressa para a sala das portas, temiam o quão ruins podiam ser as coisas do outro lado das paredes. Chegando lá era como se tivessem levado um soco no estômago. A situação era pior do que imaginavam.
— E-Eclaire... – a raposa murmurava antes de cair de joelhos. Leiftan apertava suas mãos em forma de punhos, a força era tanta que se cortava com suas unhas curtas. – Astaroth...
Miiko não queria mais passar por isso, considerava Eclaire como uma irmã, todos ali deveriam considerar, ela era sempre carinhosa com todos, nunca havia feito mal a ninguém, pelo contrário, sempre fazia questão de que todos estivessem bem. Ao ver seu corpo estirado ao chão a dor invadia a raposa como um choque, ver que até em sua morte ela estava sorrindo. Não suportaria relembrar disso.
— Vamos tirar os corpos daqui, a partir de hoje ninguém deve falar o nome dela.
— Mas Miiko – Ezarel tentava protestar, mas fora interrompido.
— Sem “mas”, é uma ordem! O nome dela a partir de agora está proibido! – a raposa se retirava deixando as lágrimas rolarem furiosamente por suas bochechas.
— Enterraremos seu corpo junto com os demais, daremos a ela ao menos um funeral digno. –Leiftan consolava o faeliano e o tirava de perto do corpo de sua amada. Não seria bom ficar se depreciando, tinha que fazê-lo esfriar a cabeça.
A partir daquele momento o nome de Eclaire estava proibido, ninguém mais poderia relembrá-la, e muito não queriam lembrar-se de como ela havia morrido, era doloroso demais. Duas semanas se passaram em absoluto luto a todos que haviam falecido, cada um foi enterrado com dignidade. O QG havia sido reconstruído já que os danos materiais não eram muitos.
Os enfermeiros estavam tendo um pouco mais de descanso já que a maior parte dos faeries estava curado. Bom, ao menos por fora.
— Logo é hora. – Ezarel dizia para Valkyon que estava debaixo da cerejeira observando as mechas de cabelos dos quatro balançarem ao vento.
— Eu sei... – ele segurava uma adaga, mas não desviava o olhar. – A faixa era dela, não é? – Ezarel passava a mão sobre a fita verde azulada que agora prendia seu cabelo num rabo de cavalo.
— Ela me entregou antes de morrer. Não queria me desfazer disso... – o olhar de ambos carregava um misto de melancolia, rancor e saudade. – Vou sentir falta dela.
— Eu também. – Valkyon com a adaga cortava as mexas e as observava serem levadas pela brisa que soprava calmamente. – Mas agora tudo não passa de uma lembrança...
— Que a mantenhamos sempre viva então. – o elfo logo se retira indo rumo ao refeitório, sendo seguido pelo faeliano.
No local eles viam que Miiko já havia começado seu discurso para os poucos membros da guarda que sobreviveram, e que não estavam doentes devido ao desequilíbrio da quebra do cristal.
— E devido a esses acontecimentos teremos que escolher outra pessoa para liderar a guarda Obsidiana. – ninguém ousava fazer qualquer som. – Depois de escolher essa pessoa com tanta responsabilidade, eu venho aqui apresentá-lo.
Ele caminhava até ficar visível para todos do local e os encarava com seriedade.
— A partir de hoje, o novo líder da guarda Obsidiana será... Valkyon!
O faeliano estava recebendo uma nova oportunidade de proteger as pessoas de Eel, e dessa vez ele fazia uma promessa a si mesmo, repetindo-a em seus pensamentos.
— Dessa vez eu não falharei, Astaroth, Eclaire!
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