O Amigo Do Meu Pai
35 Já ouviu falar de amizade colorida?
Notas iniciais
Duas semanas depois
Havia se passado duas semanas desde o prazo de Chris e eu agoniava cada dia como se fosse uma eternidade. Passara esse período inteiro em Nova York e continuava por aqui ainda. Decidira com Sam que era melhor eu voltar para meu apart aqui, pois eu não queria acompanhar a banda, já que o clima com certeza não seria o melhor. Além do que, eu não poderia retornar ao Brasil sem ao menos o resultado do teste de Michael e uma ultima conversa com Cris para ele crer ou não em mim de uma vez por todas. Ultimamente não o chamava mais de pai, já que nem tinha mais certeza sobre isso. Quero dizer, eu ainda tinha certeza que ele era meu pai biológico. Porém pai de coração, de afeto... Ele me magoara muito para ainda ter também este posto. Enfim, eu esperava todos os dias pela ligação de Michael, dizendo que o exame estava pronto. Só esse poderia provar a Chris de que ele acreditou numa mentira, e de que ela não fora contada por mim. Mas há duas semanas, isso era só sonho, ou melhor, uma expectativa.
Antes fosse também só isso que me afligia nessas duas semanas. Como decidido, a banda não se pronunciou sobre o assunto e cada um continuou a viver suas vidas normalmente. Porém isso não fez as pessoas se convencerem do que leram ou viram era mentira. Tão pouco as fez mudar seu comportamento para comigo. Eu era tratada com frieza nas ruas, seja no olhar que as pessoas me dirigiam na rua, ou no modo antipático em que se dirigiam a palavra a mim sempre que necessário. Eu tentava não ligar, só ignorar, mas é difícil quando parece que meio mundo viu aquele programinha fulo e leu fofocas estúpidas na internet. Uma garota teve até a ousadia até de vir até mim e dizer que nunca acreditou que eu fosse filha de Chris e que ele e Sam e o resto da banda estavam bem melhor sem mim. Eu não a respondi, uma vez que essa mal disse isso e me deu as costas. O pior foi que essa fala, de uma garota de quinze anos, afetou-me bastante. Era a prova concreta que eu já não era mais vista com os mesmos olhos. E que talvez nunca mais fosse.
*
Terminava de secar meu cabelo quando meu celular começou a tocar e vibrar energeticamente. Eu soltei o secador, desligando-o, e corri para o quarto, uma vez que estava no banheiro, com meu cabelo quase seco. Eu pulei na cama de costas, pegando o celular e pondo-o na orelha, atendendo-o.
–Alô – Atendi deitando de barriga e ficando com as pernas para o ar.
–Anne? — Perguntou uma voz masculina não estranha aos meus ouvidos.
–Michael? — Perguntei reconhecendo.
–Sim – Ele confirmou – Eu tenho boas noticias para você... O resultado saiu, e era o que você imaginava...
–Michael, você não sabe o quanto eu quero te beijar agora de tanta felicidade! – Vibrei com sua fala, virando na cama e ficando de barriga para cima aos sorrisos.
Deveria ser a primeira vez que sorria espontaneamente em algumas semanas.
–Não vou negar que fiquei tentado, mas acho que Sam me mataria se fizesse isso... Ou pior, me tirava meu brinquedo favorito — Ele confessou com duplo sentido, me fazendo rir.
–Acho que por aí... – Ri concordando – Mas falando de seu irmão, ele já sabe?
–Não. Tentei falar com ele mais cedo, antes do resultado do exame sair, e o celular dele deu fora de área. Tentei de novo, agora apouco, mas deu como desligado. Meu irmão está inacessível para mim, então tente você depois — Ele sugeriu.
–Tentarei... – Afirmei-o – Aí Michael, não acredito! Já estava agoniando de espera! – Voltei a comemorar de tanta que era minha alegria, fazendo-o rir com isso.
–Sam me disse que você estava bem surtada mesmo – Ele comentou rindo.
–Surtada a mãe! Seu irmão que me surta... – Defendi-me.
–E me diz? Ele te surta bem? Porque com aquela coisinha que ele chama de... — Maliciou Michael.
–PERVERTIDO! – Exclamei ao telefone, cortando-o.
Ele riu gostoso, e sua risada lembrava a de seu irmão. Legal, se não bastasse ter um Carter, agora teria dois. Sina, no mínimo.
–Deus, deve ser minha sina você e seu irmão! – Confessei lamentosa.
–Mas quem disse que você não gosta? – Ele perguntou recuperado da risada.
– Eu, talvez... – Respondi-o irônica.
–Conta outra... – Ele pediu desacreditado em mim antes de mudar de assunto – Mas para resumir, eu te liguei para te dizer que as suas suspeitas eram reais e que você pode se alegrar, ou que seja.
–Muito obrigado Michael... Nem sei como agradecer. Você e o seu irmão sãos as melhores tormentas da minha vida! – Declarei-me brincalhona.
–Sabia que você não vivia sem o mel especial Carter, sabe? — Ele convenceu-se me levando a risada.
–Nunca provei! — Retruquei, me arrependendo logo depois de dizer.
–Não seja por isso... À que horas mesmo eu te pego?
–Tonto – Ri baixo.
–Bem, quanto à parte de você me agradecer, aquele beijo não ia mal... – Ele insinuou de novo.
–Vou pensar... – Prometi.
–Aguardarei ansioso – Ele afirmou, dando entonação maior a ansioso.
–Quero só saber o que Susan vai achar de tudo isso... – Comentei lembrando-me de sua namorada.
–Vai achar que eu estou seguindo em frente depois de nosso termino – Respondeu indiferente.
–Ah, eu sinto muito, eu não sabia... – Lamentei constrangida por meu fora – Ela era muito legal
–E gostosa também. Mas não sinta, deve ser a terceira vez que rompemos. Daqui uma semana a gente se reconcilia – Ele pareceu não muito preocupado.
–Nossa... – Surpreendi-me, apesar de aquilo ser muito cara dele – Bem, então te agradeço muito Michael! – Mudei de rumo o assunto.
–Não há de quê... Era um favor para meu irmão e para garota que ele gosta, que aliás, é minha amiga – Ele responde me fazendo sorrir.
–Você também é meu amigo. Aliás, mais um Carter na minha lista de excelentes amigos! – Confessei.
–Por pouco tempo... Daqui a pouco um acaba sendo promovido — Ele insinuou pela milésima vez.
–Você acha que ele gosta mesmo de mim? – Questionei, com a pergunta pulando sem querer de minha boca. Se arrependimento matasse...
–Anne, poucas vezes vi meu irmão assim, mas dessa vez o negócio está pior. Ele baba três litros toda vez que te vê, seja com uma burca ou de fio dental – Ele afirmou convicto – Mas vai ver é porque ele não te explorou ainda – Insinuou de novo ele. Ele só vez isso a ligação inteira.
–Você só pensa em sexo? – Perguntei incrédula.
–Quando você fica mais de uma semana sem... – Ele respondeu normal.
–Não acredito! Há pessoas há mais tempo sem e nem por isso ficam insinuando sexo a cada frase que diz! – Argumentei-o.
–Então são frigidos... Sem fogo em baixo da saia ou na calça – Ele respondeu ligeiro – Pera aí... Você não estava dizendo que você está há...?! – Ele pareceu espantado, se dando conta do que dissera e fazendo-me corar. Ainda bem que ele estava a quilômetros de distância!
–Lógico que não! – Respondi-o constrangida, tentando ser natural. Na verdade, devia estar na seca, literalmente, há uns oito meses. Nem beijo rolou nesse período.
–MENTIRA! – Ele gritou notando meu constrangimento.
–Prove que é! – Disse petulante, mas ainda envergonhada.
–Claro que está! Não ficaria constrangida caso não estivesse... – Ele argumentou calmo – Mas me diz, quanto tempo desde a última vez? – Ele perguntou curioso.
–Não te interessa! – Protestei já vermelha de vergonha em meu quarto.
–Larga mãe de ser chata e se abre, Anne. Quanto tempo? Já está criando teia de aranha? Subindo pelas paredes? – Ele atreveu-se, me fazendo ficar mais vermelha.
–Claro que não! –Defendi-me sabendo era mentira. Estava quase subindo pelas paredes, algumas vezes.
–Então não tem porque você não me dizer, já que “não faz tanto tempo” – Ele disse calmo, com toque de ironia.
–Não vou te dizer, Michael – Neguei-o pela milésima vez.
–Juro que não julgarei – Ele prometeu – Amigos não fazem isso...
Suspirei, vendo que ele não pararia até eu ceder.
–Está bem, mas você tem de prometer que não rirá ou julgará! – Pedi, cedendo.
–Não farei nem um dos dois! – Prometeu ele.
–Ok... A última vez foi há oito meses – Confessei de uma vez, quase enrolando a língua de tão rápido que falei.
–OITO MESES? – Ele exclamou, entendo o que dissera rápido e rindo em seguida. Isso era porque ele não julgaria e nem riria...
–Cretino. Sabia que não devia ter te contado! – Bufei arrependida. Vergonha era meu sobrenome naquele momento.
–Não, não... Desculpe-me! – Ele corrigiu-se tentando parar de rir – Eu acabei me deixando levar pelo choque da noticia... – Confessou – Mas sabe, eu tenho uma solução excelente para você!
–Aí, lá vem... – Pensei em voz alta.
–Já ouviu falar de amizade colorida? Acho que meu irmão toparia sem hesitar! – Ele sugeriu descarado.
–Você só vai ficar feliz quando eu mandar uma foto minha com seu irmão na cama, né? – Disse brincando.
–Não ia curtir muito... Acho que preferia uma só sua na cama- Ele respondeu calmamente.
–Queria ver você dizendo isso para seu irmão... – Ri, imaginando a cena.
–Acho que não acabaria muito bem, mas já que você sugeriu, aproveitarei para sugerir para ele o lance da amizade colorida, defendendo-a, dizendo que você está na seca a uns... Oito meses, né? – Ele divertia-se com todo aquele papo.
–Te mato se fizer isso... – Ameacei.
–Se você me recompensasse antes, deixaria você me matar com prazer...
–Não dá para dialogar com um ninfomaníaco! – Conclui aos risos.
–Defeito genético é assim... Acho que vi muito pirulito, o que não deve ter sido muito agradável, e ouvi muitos gemidos no útero da minha mãe – Disse ele como quem diz "pois é...!".
–Deuses! – Gargalhei, cobrindo meu rosto com uma mão, ao mesmo tempo em que abaixava minha cabeça.
–Um gay teria adorado as partes dos pirulitos, mas eu acho que fiquei traumatizado e decidi escolher e usufruir muito da outra opção... – Ele continuou a comentar, disperso.
–Voltando ao começo da conversa, quando eu ouvia menos bobagem... Obrigada Michael pela ajuda – Agradeci pela nonagésima vez.
–Disponha sempre que necessitar... – Ele respondeu – Agora eu terei de desligar, preciso ir ver uma paciente.
–Então o senhor está no trabalho dizendo esse monte de absurdos? O que seus pacientes pensam disso? – Levantei uma sobrancelha.
–Nada, porque eu estou na minha sala, onde posso até agarrar as enfermeiras que não me incomodaram ou questionaram – Ele respondeu confiante.
–Ah sei... Não tomarei mais o tempo de sua paciente então. Obrigada pela milésima vez e bem, até o próximo favor – Me despedi.
–Até Anne. E depois me conte como foi sua saída da seca, seja com meu irmão ou não – Ele pediu malicioso, despedindo-se.
Ri e afirmei a ele que o contaria, mesmo sendo uma baita mentira, e em seguida, desliguei. Voltei a deitar de costas na cama, depois de trocar de posição um milhão de vezes. Eu levantei-me e fui para o banheiro, mas cheguei nesse e notei que só poderia guardar o secador, já que meu cabelo estava seco há algum tempo. A conversa com Michael não foi o que se pode chamar de rápida. Retornei ao quarto após guardar o secador e tive uma bela visão: o crepúsculo era visível da minha janela do quarto do apart. O céu tinha cores alaranjadas e avermelhadas, porém para o fim dele no horizonte, se fundia em tons roxos e azuis. Era belo, no mínimo. Vendo isto, surgiu-me uma ideia maluca. Eu deveria ser muito doida para fazer algo assim, mas o que eu poderia fazer, uma fez que nunca fui sã e as coisas só pioraram desde que conheci a banda? Ou melhor, Sam?
Fale com o autor