O Alvorecer do Último Império
8 Capitulo 7
Notas iniciais
Era noite. O céu estava incomunmente estrelado através do teto solar do sedan alemão que corria pela estrada a caminho da serra.
Morar em São Paulo podia ser bom, mas tinha um preço, e para Alexandre um dos preços era o de não poder olhar as estrelas. Os prédios altos e as ruas extremamente iluminadas tornavam quase impossível avista-las no perímetro urbano. O barulho incessante da atividade insana da metrópole também castrava qualquer oportunidade de contemplação e quietude; as pessoas da cidade não pareciam estar realmente incomodadas com isso, na verdade pareciam sequer lembrar que acima daquelas nuvens, acima dos grandes edifícios e da agitação da vida ordinária havia um céu, estrelas, um universo inteiro no qual não representavam mais que uma fração de grão de areia.
O jovem rapaz havia passado muito de sua juventude entre livros, ou entre os grandes mestres, como preferia dizer. As idas à biblioteca da Fraternidade eram pra ele não visitas aos livros, mas visitas àqueles que os escreveram. Era como sentar-se aos pés de Platão e Aristóteles, Leibniz, Hegel, Locke, Hobbes e tantos outros; estar ali era como ouvir os grandes mestres e seus seguidores discutirem e desenvolverem suas ideias. Tantas leituras fizeram com que a própria vida de Alexandre fosse muito diferente da vida de seus colegas profanos, das pessoas que o convidavam para festas de colégio, bebedeira, drogas e um pouco de sexo desordenado. Para ele eram apenas covardes buscando refúgio no que é mais vago, mais efêmero, mais banal... Não tinham a coragem de lidar com as coisas realmente importantes, com a existência de suas almas, de seus destinos eternos e de sua vida de fato.
Porém, isso também trazia aquela velha conhecida, amiga de todas as horas: a solidão. As músicas de Frédéric Chopin que acalentava-o durante a viagem o fazia senti-la ali, no banco ao lado, encarando-o com um olhar tranquilo de uma velha amiga que não precisa de mais que isso para entender o que se passa na cabeça de seu amado companheiro.
Durante muito tempo a solidão havia pesado em seu peito, afinal de contas também era, para além das paredes da Fraternidade, um jovem rapaz. Bonito, inteligente, cheio de hormônios, de necessidades. Foi uma época conturbada, principalmente pela falta de Violleta.
Contudo, o peso veio e se foi com o tempo. O seu refúgio quando o sofrimento solitário o abatia eram seus livros, seus diários, as peças de música clássica e as óperas. Alimentava sua alma, a nutrindo de tudo quanto mais belo e harmônico pudesse até que num dia de chuva, ao som da missa de Requiem de Mozart, percebeu: a solidão não era sua inimiga e algoz, não. Era um dom.
É preciso aprender a estar consigo mesmo para encontrar a Luz.
Como que acordando de seus devaneios, Alexandre se ajeitou no banco, e olhando para suas roupas percebeu novamente o quão próximo de seu objetivo estava agora.
Ali no banco traseiro do carro ele se viu indo para a casa de campo da Fraternidade, sob o céu estrelado, usando uma camisa de algodão da cor negra que parecia ter sido feita com suas medidas exatas e uma calça de seda também negra que lhe dava uma estranha sensação de liberdade constrangedora na falta de roupa íntima. Os pés estavam em simples chinelos, e estavam extremamente limpos. Todo seu corpo estava tão limpo como jamais esteve, e era como se sentia: limpo. Puro como um quadro branco, pronto para ser coberto com novas coisas, novas figuras, novas imagens, novos objetivos.
Estava ali, prestes a ser recebido como membro da Fraternidade Aurora Lux, como membro do Reino de Fogo que estava prestes a se iniciar. Estava prestes a se tornar um Filho do Fogo.
Sentiu seu estômago estremecer, um leve frio na barriga seguido de náusea o tomou por um instante.
Não, não devo me amedrontar. Os Mestres sabem, estou pronto. Eu estou pronto.
O carro agora estava se aproximando de um grande portão que se assemelhava a um monte, se erguendo em formato de abóboda no centro, negro, de ferro, com barras grossas que formavam a insígnia da Fraternidade onde se podia ler a sigla FAL em letras adornadas e floreadas.
Não foi preciso sequer estacionar. O portão se abriu e o carro continuou agora numa velocidade baixa e constante por todo o imenso jardim que ladeava a estrada de pedras que conduzia à sede. Mesmo durante a noite era possível enxergar figuras de animais esculpidas em grandes arbustos que recebiam uma iluminação branca vindo do chão. Alexandre pode ver um grande leão, um touro, uma serpente e um veado. Ao estacionar em frente à entrada da sede, do lado oposto da estrada de pedra encontrava-se uma grande árvore solitária, frondosa, e muito bem podada. Estava exatamente no centro do jardim.
A porta do quarto se abriu, e antes que descesse pôde avistar uma bela mulher na casa dos 50 anos que vestia um lindo vestido púrpura com um colar de pérola que evidenciava os ombros desnudos. Ela estava parada em frente à porta pesada de mogno lustroso, esculpida com padrões circulares que lembravam espirais.
O rapaz se apressou em subir os sete degraus do pequeno hall de pedra que guiava à porta.
— Mom!*— Ele correu para os braços de Norma que o acolheu feliz.
— Meu filho amado. – A voz embargada evidenciava a emoção ao reencontrar seu filho unigênito.
Alexandre sentia que estava transbordando de alegria, os olhos marejados, as narinas infladas tentando acolher o perfume agradável e familiar da mãe o máximo possível. Agora sentia-se de fato completo, não faltava mais nada.
Dando um passo atrás conseguiu vê-la melhor e perceber o quanto estava linda. Linda como uma rainha.
— Senti tanto sua falta, mãe. Quando meu pai disse que estaria aqui não via a hora de chegar e abraçar você. – Ele segurava a mão direita de Norma e a beijou delicadamente, inclinando a cabeça como que em reverência.
— Também senti sua falta, meu querido. Olha como você está, é um homem! Está tão lindo, tão forte.
Alexandre riu envergonhado, sempre ficava envergonhado com os elogios da mãe. Era a mulher mais linda e mais atraente que ele conhecia.
Os dois caminharam de braços dados em direção ao salão de entrada da grande casa em estilo vitoriano, quase completamente feita e adornada em pedra. Era uma construção deslumbrante. Ao entrar pela porta a primeira coisa a chamar a atenção era o grande lustre que pendia do teto, a mais de 5 metros do chão. Era grande, de algo que pareciam correntes de cristais pendendo do ponto mais alto e se alargando num grande halo pouco mais de um metro e meio a baixo. As correntes de cristais davam a impressão de um tecido bufante que envolvia a armação, e brilhavam intensamente, iluminando toda a sala de entrada.
O piso em porcelanato preto e branco criava um imenso tabuleiro de xadrez, que conduzia, à esquerda, a uma grande escada, larga e bonita, com corrimão de madeira; à direita para um corredor que ia se estreitando até findar numa porta. Imensas janelas de ambos os lados estavam agora cobertas com cortinas de um tom vermelho sangue.
Até o presente momento só haviam ali duas pessoas: Norma e um empregado que agora fechava a porta e se dirigia até o corredor para em seguida sumir fechando a porta atrás de si.
— Venha, filho. Vou leva-lo para conhecer seus aposentos.
Alexandre se deixou conduzir pela mãe, subindo as escadas enquanto segurava sua mão, dando apoio para que se equilibrasse no salto alto.
— Há quanto tempo a senhora chegou aqui?
— Assim que desembarquei no aeroporto vim para cá, seu pai foi até o hotel lhe ver.
Alexandre refletiu um pouco e chegou à conclusão que então teriam chegado ao Brasil naquela mesma tarde, pouco antes de seu pai visitá-lo em seu quarto.
Ao alcançarem o andar superior caminharam por um corredor largo, com muitas portas. Alexandre contou cinco delas antes que Norma abrisse a que levava ao seu quarto, e quando entrou ficou igualmente encantado. O quarto era enorme, devia ter pelo menos 45m², com uma cama king size bem arrumada com lençóis de seda branca e preta, uma mesa de madeira ao lado da porta onde ele viu um pedaço de pano bem dobrado junto com um envelope e o medalhão que seu pai o havia presenteado no hotel – e que havia levado consigo quando o deixou no carro.
Já deve estar aqui também.
Norma caminhou até o lado da cama enorme, e com as mãos cruzadas na frente do corpo disse:
— O que acha, filho?
Ele olhou em volta, caminhando um pouco pelo espaço. Tirou os chinelos e caminhou confortável sentindo o imenso carpete felpudo que cobria grande parte do chão em volta da cama, chegou até uma porta branca e a abriu.
— Uau, olha o tamanho desse banheiro. Isso é tudo muito exagerado.
Ele caminhou pelo banheiro tentando evitar olhar para seu próprio reflexo no espelho imenso que tomava quase toda a parede. Havia ali uma banheira linda.
— Bem, deve ser um lugar à altura dos filhos do Senhor do Mundo. – Norma sorriu brandamente sentando-se na cama. – Venha cá, filho.
Alexandre corou, caminhou até a cama, do lado oposto onde sua mãe estava, e sentou.
— Você pode ficar aqui até que venham busca-lo para o rito dessa noite. Na verdade, você não deve sair do quarto até que venham. – Ela riu de lado. – Mas você entende.
Norma levantou-se de novo e caminhou até a mesa em frente à cama, ao lado da porta.
— Aqui está o que você deve usar para se dirigir ao salão cerimonial. — Ela virou as costas para o filho, e pegou o medalhão. – Esta é uma carta do sumo sacerdote que irá oficiar a cerimônia, leia com cuidado. – Ela encarava o medalhão segurando-o no alto. Deixou-o novamente sobre a mesa se encaminhou até o lado do filho, sentando-se novamente.
Norma cruzou as pernas e sua mão tocou a face de Alexandre, que fechou os olhos ao sentir o toque materno.
— Estou orgulhosa de você, meu querido. – Sua voz soava doce como mel, afável. – Você é meu filho amado, e agora será um homem.
Ela se aproximou vagarosamente de Alexandre, que agora segurava a mão em seu rosto, acariciando-a. Seus lábios tocaram suavemente a face esquerda dele.
— Amo você.
E então ela levantou-se, e caminhou até a saída sem dizer outra palavra sequer. A porta se fechou. Alexandre estava sozinho.
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