O Alvorecer De Um Novo Sol
56 Capítulo 51 - Arco de Gaia: O Conselho Mundial
Notas iniciais
20 anos antes...
O céu escuro cobria a cidade, escondendo os desesperos e os pecados de quem nela habitava. Purah estava imersa nas trevas noturnas há apenas algumas horas, embora a luz tivesse se tornado um fenômeno raro há muitos anos para as pessoas que ali vivam.
Faltavam cinco minutos para as duas horas. As ruas sempre alegres e movimentadas durante o dia, agora eram apenas pontos de comércio ilegal de todos os tipos e formas. Poucos estabelecimentos permaneciam abertos, todos colocados entre boates e bares barulhentos. A adolescente, no entanto, não se atentava a nada além de seus passos enquanto corria.
― Para onde pensa que está fugindo, garota?! Não há para onde correr! – a pele fria da menina se arrepiou ao escutar a voz masculina.
― Para qualquer lugar longe dessa ilha! – respondeu determinada, não se importando com as lágrimas que borravam a maquiagem pesada feita poucas horas antes.
A resposta, entretanto, apenas arrancara uma gargalhada do homem que a perseguia. Ignorando o deboche, a morena continuou correndo, sem se importar para onde seguia. O descuido, contudo, rendeu o fim de sua fuga. Depois de tanto correr, acabara encurralada em um beco sem saída.
― Quantas vezes irá tentar escapar, pirralha? – sorriu satisfeito pela situação.
― Eu não vou mais voltar para aquele lugar! Me deixa em paz! – desesperou-se, ao sentir-se ser agarrada pelos braços de forma brusca.
― Ainda não aprendeu que seu destino está fadado a permanecer nesse inferno pelo resto da sua vida?! – gritou gargalhando, mesmo que o sentimento que lhe tomasse fosse raiva.
― Não! Me largue! – insistia, debatendo-se com força.
― Pare de lutar, pirralha maldita! – repreendeu após desferir um tapa na face esquerda da adolescente. ― Você deixou clientes esperando e irá pagar por isso. Irá pagar diretamente a mim. – esboçou mais um sorriso, dessa vez repleto de malícia e perversidade.
― Não... – em desistência, deixou-se ser levada a força de volta para casa.
(...)
― Moriel. Trouxe-a de volta. – avisou jogando a moreninha de forma brusca no quarto do casal. ― Prepare-a. Já que não quis servir aos clientes, agora terá que trabalhar de graça. – ordenou já se retirando do local, indo em direção ao quarto de solteiro da casa.
― Kaa-san. Por favor... – implorou, com os olhos voltando a marejarem.
A mais velha, cópia idêntica da menina, não proferiu uma única palavra, entretanto. Apenas forçou a mais nova a sentar-se de frente para a penteadeira e passou a cumprir a ordem dada, obrigando a filha a conter as lágrimas.
Sim, Purah.
O céu escuro ainda permaneceria cobrindo a cidade, escondendo os desesperos e os pecados de quem nela habitava.
(...)

O barulho da mesa comprida levando o golpe de total frustração do homem assustou os presentes, fazendo-os pular alguns centímetros das cadeiras em volta do móvel.
― Mais essa agora?! – irritou-se, fazendo o loiro do outro lado do Den den mushi afastar-se um pouco do comunicador.
― Sinto muito, Dragon-sama. Embora compreenda a sua raiva. — lamentou-se o Primeiro Conselheiro. ― Senti-me da mesma forma quando soube. Mas não se preocupe. Caso eu encontre esse homem, eu mesmo o avisarei para ficar bem longe de Seion. Não vou permitir que um psicopata maluco faça algo contra meu sobrinho. Seria um péssimo tio se deixasse isso acontecer, não acha?
― Eu já sou um péssimo avô. Ainda assim também não pretendo deixar isso acontecer. Vou entrar em contato com Coby e pedi-lo que evidencie Hirano Riki de todas as formas existentes. Para que assim ele seja capturado o mais rápido possível. Mas se ao menos Mabelly e Hiasuki livraram-se dele por agora, já é algum alívio. – suspirou, controlando sua irritação. ― Teve notícias deles depois dos dois se comunicarem de Niger Flower?
― Não. Mas eles chegarão aqui amanhã. Então logo retorno ao senhor.
― Ok. Obrigado por me informar, Sabo. – agradeceu, voltando a sentar-se em sua cadeira à ponta da mesa. ― Qualquer coisa, não hesite em me ligar.
― Não se preocupe, Dragon-sama. Até mais.— despediu-se, desligando o Den den mushi em seguida.
― O que houve, Dragon-sama? – perguntou o homem de meia-idade e cabelos grisalhos escassos, Oitavo Conselheiro.
― Se já não me bastasse toda essa confusão dos D.s com os autodenominados revolucionários, um assassino de elite está atrás de Seion. – explicou em meio a outro suspiro cansado.
― Céus! – exclamou a Nona Conselheira, levando as mãos à boca. O brilho de preocupação em seus olhos verdes-escuros contrastavam com o vestido marrom.
― Mas o garoto está bem? – questionou tomado pelo mesmo sentimento o sexto; seus cabelos negros sendo arrepiados pela brisa fresca que entrava pela grande janela do cômodo.
― Sim, Shinsuke. Ele e seus companheiros estão bem, embora Nara tenha se ferido bastante, pelo que Sabo me contou. – tranquilizou. ― Por sorte, eles estavam em Niger Flower, assim como Mabelly e Hiasuki, que perceberam a presença de Hirano e foram em auxílio dos garotos.
― Parece que o destino realmente gosta muito do sangue que corre nas veias de seu neto, Dragon. – a mulher de cabelos completamente grisalhos, alinhados num coque bem feito, constatou em meio a um sorriso lateral, fazendo o líder sorrir junto.
― Assim como gosta de atraí-lo para mais encrencas a cada dia, Yokoyama-san. – brincou.
― Não quero comprometer a conversa, que aliás tem um tema muito interessante, mas nos reunimos aqui para tomar uma decisão importante. – afirmou o jovem de cabelos azuis, encarando seus companheiros com os olhos sérios e centrados, de mesma cor, embora um tom mais escuro, o 12º Conselheiro. ― Podemos prosseguir com a reunião?
― Claro, Miyako. – confirmou Dragon. ― Perdão pelo desvio de assunto. Vamos nos voltar para o quê viemos tratar.
― Ainda acho que deveríamos esperar os outros Conselheiros, que estão em Bardires com Sabo-sama. Uma decisão dessas precisa ser tomada com a presença de todos, em minha opinião. – pronunciou-se a mulher de cabelos rosas-claros, sentada ao lado de Yokoyama, Nakamura Yoko.
― O ideal é que tomemos todas as decisões juntos, mas o assunto é urgente demais para esperarmos os outros chegarem. – declarou o líder. ― É o futuro de uma nação inteira que está em nossas mãos. E se nos demorarmos muito, as consequências podem ser desastrosas.
― Continuo a argumentar que esse é um assunto no qual não deveríamos nos meter tão diretamente. Se o povo de Caster não está satisfeito com seu Rei, deveríamos permitir que eles mesmos o depusessem, não? – questionou Murata, Décimo Primeiro Conselheiro. A cicatriz oblíqua que cortava seu olho negro direito o deixando com um ar ainda mais sério.
― Talvez fosse um tema que deveria se tratado na Reverie, não concordam? – sugeriu Aiko.
― Se nós, que constituímos o Governo Mundial, e cuidamos para que as nações permaneçam em paz, não participarmos de uma decisão tão elementar como a deposição de um Rei, não somos muito diferentes do antigo regime. – opinou solenemente, o oitavo.
― Mas talvez estejamos tirando a liberdade do povo ao nos metermos nas decisões deles, compreendem? Será que os habitantes do país realmente querem que nós resolvamos isso ou preferem resolver por eles mesmos? Não estaríamos ferindo o bem-estar deles em decidirmos algo assim? – insistiu Masuda, aprovando a opinião de Murata.
― Compreendo o ponto de vista de Satoru. – pronunciou-se Kenya. ― Se não nos envolvermos, poderemos estar sendo negligentes; caso contrário, podemos estar ferindo o direito de escolha dos cidadãos. Realmente, uma decisão difícil.
― Então acredito que ficarmos sentados aqui, decidindo algo que ainda não temos certeza de ser o caminho, não valerá de nada. – afirmou Miyako. ― Tudo o que precisamos saber é o que o povo de Caster quer de nós. Então nos cabe ir em busca dessa resposta. Além disso, precisamos primeiro entender os motivos para esse desejo de destituição.
― Sim. – finalmente pronunciou-se o Monkey, que antes tinha a cabeça abaixada, apoiada sobre as mãos, ouvindo atentamente a opinião de cada Conselheiro. ― Hara está certo. Vamos entrar em contato com o quartel da Marinha do país.
― Acho justo que entremos diretamente em contato com eles, Dragon-sama. Talvez os envolvidos na revolta se sintam oprimidos se nos comunicarmos por meio da Marinha. – sugeriu a Décima Conselheira.
― Poderia destacar um dos seus para isso então, Fuyuki? – o líder pediu.
― Claro. Assim que terminarmos a reunião entro em contato com Meiry, para que ela e seus companheiros possam ir até Caster. Devo pedir que ela se comunique com o líder da revolta?
― Não só com ele. – Yokoyama alerta. ― Mas que ela consiga reunir o máximo de informações sobre a nação como um todo. A opinião dos dois lados é importante para que possamos tomar uma decisão baseada em fatos reais, caso seja necessário.
― Sim. Precisamos nos atentar a todas as vertentes. – Drangon concordou com a anciã, fazendo a Décima afirmar positivamente em um meneio de cabeça.
― Então isso está resolvido. – anunciou Shinsuke. ― E agora? O que mais temos pra hoje? – questionou descontraído.
― Por enquanto, podemos finalizar. Os outros assuntos serão tratados na Reverie. Os chefes de todas as nações já foram informados sobre a mudança da data. – informou Dragon, finalizando assim o encontro do Conselho.
(...)
A pequena casa era realmente como um coração de mãe. Embora fosse pouco espaçosa, todos os integrantes dos Pirates of King & Cia estavam acomodados confortavelmente pela sala, junto do Chefe da Ilha e sua esposa.
― Então vocês moram no fundo do mar?! – o capitão pirata exclamou num misto de empolgação e admiração, assim que terminou de engolir o líquido quente e doce que a família havia oferecido a todos.
Após terem chegado à vila, os jovens foram recepcionados de forma muito alegre e acolhedora por parte de todos os moradores. Mutoro Kymo, o chefe da ilha, os convidara para entrar e então lhes explicara aonde estavam e porque haviam surgido no meio do oceano.
― Sim. – sorriu o ancião. ― Apenas uma vez a cada meio século esta ilha emerge.
― Isso é incrível, Kymo-san! – admirou-se Issa, fantasiando tudo o que tinha direito.
― E como vocês sobrevivem debaixo d’água, velhote? – perguntou Hiasuki.
― Sua educação é dom raro. – Ken ironizou, fazendo o espião encará-lo com indiferença.
― Isso pode parecer loucura, mas quando imergimos, é como se existisse uma bolha invisível cobrindo toda a extensão da ilha. Embora tenhamos livre acesso às águas oceânicas, sem barreira alguma entre nós e elas.
― Isso não parece loucura. Isso é loucura. – pronunciou-se Ayssa, abismada com as informações; o que fez a princesa de Sakura rir baixinho.
― Provavelmente esse fenômeno se dê pelos campos gravitacionais peculiares das ilhas que compõem o arquipélago. – sugeriu Mabelly, após ouvir as explicações do mais velho, fazendo os outros concordarem consigo.
― E por que o arquipélago possui esse nome, velhote? Qual o significado por trás disso? – pela primeira vez, Nara se entrosou na conversa, interessada na história local, fazendo Ken revirar os olhos pelo tratamento da garota para com o senhor.
A pergunta, no entanto, fez o velhinho sorrir.
― Porque a visão que temos do mundo em que vivemos é muito diferente das que existem por aí, minha jovem. Aqui, temos a consciência de que não somos exclusividade. A vida não se constitui apenas dos seres que na Terra habitam. A vida é tudo o que está ao nosso redor, inclusive o chão em que pisamos, as pedras que nos cercam e a água que nos molha. A vida é a própria Mãe Terra.
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