O Acampamento Místico

3 Onde o irreal e o bizarro se encontram.


Notas iniciais
Olá, olá, pessoal o/ Como sempre, demoro uma vida, mas a culpa é quase toda da minha perpétua falta de internet, só pra constar q. Eis o segundo cap de Acampamento Místico. Divirtam-se lendo. :3

O quarto era enorme.

Tão ridicularmente grande quanto o corredor.

Na verdade, a palavra ridículo veio muitas e muitas vezes a cabeça de Dominic. Deveria se tornar o seu mantra pessoal, sua frase de efeito ou, talvez, um segundo nome. Dominic Ridículo Spencer. Muito simpático.

Notando que estava devaneando demais, o homem sacudiu a cabeça com vontade e retirou os óculos para limpá-los. Não que isso fizesse o espaço extra desaparecer, eles apenas estavam muito embaçados mesmo.

Recolocando-os, deu alguns passos para o meio do aposento. Fez com que pensasse em uma suíte de hotel, com sua grande cama e delicados criados-mudos, e uma vista panorâmica para… bom, para onde ele bem quisesse.

No primeiro momento vira uma praia a noite, o que achou estranho, afinal o Acampamento devia estar a quilômetros do mar. De frente para ele, em vez de uma parede, ficava uma extensa varanda, separada do quarto em si por grandes portas envidraçadas. As cortinas longas que deveriam protegê-lo da luz da manhã eram de um azul muito escuro. A cabeceira da cama estava encostada na parede a direita, enquanto a esquerda abria-se uma segunda passagem, que ele imaginou levar a um banheiro particular. Tanto o teto quanto as paredes eram revestidos por tinta branca.

Quando ele olhou novamente, no entanto, tudo parecia diferente. A cama era menor, própria para um solteiro. Um dos dois criados-mudos sumiu para dar lugar a uma escrivaninha, fazendo par com uma cadeira muito confortável que deveria rodar. Agora o teto e as paredes eram forrados por tábuas de madeira, e as cortinas estavam da cor bordô. A varanda mantinha-se no mesmo lugar, intacta, mas a paisagem que se descortinava era de prédios: vários prédios, alguns edifícios com fachadas em neon. Era a mesma vista que tinha de seu simples apartamento em Miami.

Ele deveria ter imaginado que o quarto acompanharia o gosto do dono. Aqueles prédios, no entanto, passaram a irritá-lo, afinal sabia que não estavam lá realmente. Era algum tipo de ilusão ou mágica barata, e forçou sua mente a criar algo mais interessante. Lembrou-se de vários contos de fadas – aquele lugar combinava muito com eles, para ser sincero – e quando percebeu, os apartamentos deram lugar a uma floresta muito semelhante àquela que vislumbrara quando chegara ao Acampamento.

Irritado por sua imaginação ser tão pobre, afastou-se do quarto para inspecionar o banheiro. Surpreendeu-se com o ambiente todo montado em branco e preto, com uma grande banheira acoplada ao boxe, um vaso branco, uma pia da mesma tonalidade com um tampão de granito negro e um espelho de tamanho satisfatório. Decidiu que passar um tempo naquela banheira seria ideal para tirar seu estresse pós-Mizori-e-Michael. Voltou para o outro aposento.

Era visível agora um armário encostado no vão entre a entrada do banheiro e a parede com a porta para o corredor. O lugar estava adaptando-se lentamente ao seu ritmo, moldando-se para atender a todas as suas necessidades. Era incrível, e não pode dizer que não gostara disso.

Perguntava-se onde serviam a comida. Talvez o quarto mágico tivesse algum tipo de frigobar ou algo parecido, ele só ainda não havia surgido. De qualquer forma, Dominic não sentia fome, apenas um forte cansaço mental. Imaginou que aquela seria uma pergunta cuja resposta só teria na manhã seguinte.

Tirou suas roupas e buscou por novas no armário – uma réplica perfeita daquele que tinha em casa, com tudo que estava dentro – dirigindo-se ao banheiro novamente. Depois de ligar o chuveiro para encher a banheira, entrou na mesma, esperando que a água chegasse ao nível desejado. Afundou-se uma vez mais em pensamentos.

Como esperava deixar o Acampamento Místico se, a cada minuto que passava, estava cada vez mais interessado em tudo ao seu redor?

Mizori andou lentamente até um local mais vazio em torno da fogueira, ajoelhando-se no chão e ajeitando um saco com marshmallows no próprio colo. Fez com que uma vareta aparecesse entre seus dedos, pondo-se a enfileirar lentamente os doces em sua extensão e após isso, aproximando-os do fogo.

Era uma visão anormal. Não por causa de todas as criaturas bizarras que reuniam-se a sua volta, nem pelo fato da tal vareta ter surgido de lugar nenhum. Mizori era a razão para tornar a cena estranha, ela e suas roupas comportadas, o rosto indiferente a tudo e todos, a aura de mistério emanando de seus poros… fazendo algo tão comum como esquentar doces na fogueira.

Ela sempre parecia concentrada, independente se estava chacinando alguém ou aconselhando um novo campista. Paralelamente, nunca estava presente. Suas preocupações sempre rondavam a quilômetros de distância, qualquer criatura poderia afirmar isso. E a mente dela só passaria a ser percebida quando encarasse alguém. Era nesse momento que a falta de expressões tornava-se mais marcante, que sua incapacidade de emocionar-se aparecia, mostrando o quanto fora do comum Mizori era.

Ainda assim, haviam pessoas que se apegavam a ela. Talvez por suas palavras inteligentes, ou pela preferência em manter-se em silêncio na maior parte das ocasiões, ou porque percebiam que ela fazia o máximo que podia para que as coisas funcionassem. Ou, com alguma sorte, tinham um vislumbre do que um dia ela fora.

Não demorou para que alguns destes seres se aproximassem dela, quando já começava a cutucar o marshmallow, testando sua consistência. Roger Reatfield foi o primeiro, praticamente mergulhando para assumir o lugar ao seu lado. — Boa noite, Diretora!

— Boa noite, pequeno Roger. Parece-me de bom humor hoje.

— Eu estou sempre de bom humor! — ele pinçou um doce do pacote dela e pôs-se a comê-lo. — Fiquei sabendo que nosso chalé tem um novato.

— Os boatos correm, não é possível! — Michael foi o segundo a aparecer, juntando-se a dupla e cruzando os braços, com seu sorriso habitual. — Você ficou escutando atrás da porta do seu quarto? Não lembro de tê-lo visto sair antes…

— Até parece que eu faria algo assim! Na verdade, eu estava no quarto de Louise com Et e Cetera quando vocês dois passaram. Estávamos jogando cartas!

— Me surpreende saber que tem outros hobbys que não envolvam atirar nas coisas. — uma quarta voz se fez ouvir, e uma mulher de longos cabelos negros e corpo sensual materializou-se, vinda da escuridão. Unindo os lábios carnudos em uma sugestão de sorriso – que parecia tudo, menos agradável – cruzou os braços sobre os seios. O vestido preto que usava quase atingia o chão, mas deixava tantas partes do corpo expostas que todo o comprimento parecia inútil. — Mizori… Roger… Michael…

— Olá Morgana, como vai?

— Como sempre, meu caro, mas sabe muito bem disso, nos vemos todo dia.

Mizori permaneceu em silêncio, limitando-se a responder ao cumprimento de Morgana com um aceno de cabeça. Ela mastigou os marshmallows que estava assando minutos antes, e quando voltou ao saco para enfileirar mais deles, descobriu-o vazio. Aparentemente Roger havia acabado com seu suprimento do doce, mais uma vez. — Sabe, não se deve furtar doces dos pacotes alheios. Principalmente quando não se sabe o que tem dentro deles…

— Tem algo neles? — o rapaz empalideceu um tanto, não parecia mais tranquilo ao perceber que não sentira nenhum gosto diferente ao comê-los. — O que tem neles? Diretora…?

— Tripas, partes de insetos e afins. — foi a resposta, dita com sua habitual indiferença.

— Eca! — ele cuspiu na grama, enjoado. — Cê não bate bem da cabeça, né?

— Estou brincando. — ela disse, mas levando em consideração seu jeito, não parecia ser uma piada. Morgana pigarreou baixo, a voz rouca reerguendo-se para mudar a conversa para algo mais sério.

— Já sabe quem convidará para o cargo de Instrutor do último Chalé? Eles têm perguntado…

— O Chalé dos Seres de Luz é o que menos necessita de um responsável. — Mizori desviou o olhar de Roger, parando-o sobre as chamas da fogueira. — Contudo, precisamos mesmo de um terceiro Instrutor. Eu tenho uma criatura em mente…

— Porém…? — questionou Michael. Tinha que ter um problema, ou a pessoa já teria sido convocada a tempos.

Silenciosamente, a diretora encarou a fogueira, estreitando um pouco os olhos. Sua mente tinha voado outra vez, não responderia à pergunta tão cedo. O homem recostou-se em Morgana, fazendo uma careta. — Algo me diz que vai ser problema…

— Mais do que ambos já somos? — com um gesto gracioso, ela afastou-o de si.

— Só espero que não tenha a personalidade do “K”. — Roger deu de ombros, sacando uma pistola de aparência comum de sua cinta e passando a atirar no chão, logo formando uma carinha triste com o buraco das balas.

“K” fora um campista humano – ou era o que todo mundo achava, pelo menos – com a permanência mais curta da história do Acampamento Místico, pelo menos considerando a época que Mizori dirigia-o. Irritante, mesquinho, pedante e arrogante, era egomaníaco e tinha mania de grandeza. Depois de uma semana da sua chegada, o acampamento em peso já queria matá-lo, e para evitar a grande sujeira que teria de limpar caso o fizessem, Mizori – não muito obstinada em fazer justiça caso isso realmente acontecesse – deixou-o seguir com seu conversível vermelho pela Estrada. O fato é que ele aparentemente havia conseguido sair, porque sumiu desde então. Secretamente, todo mundo esperava que o rapaz tivesse enfiado o carro em alguma árvore pelo caminho, ou caído em algum abismo por aí…

Verdade seja dita, muitas criaturas com esses traços de personalidade iam e voltavam, mas nenhuma conseguiu atrair tanto ódio concentrado para si. Os Instrutores acreditavam que “K” era um verdadeiro prodígio, davam-se por felizes por não terem mais que aturá-lo e iam cuidar de suas vidas.

— “K” nem foi a pior pessoa que passou por aqui… só a mais odiada. — Michael revirou os olhos, ignorando propositalmente os tiros, que haviam chamado a atenção dos grupos mais próximos. Vários pares de olhos voltaram-se para o rapazinho loiro de olhos azuis, enquanto Mizori não movia um centímetro sequer, além dos dedos que acabara de estalar. A arma desapareceu dos dedos dele com um poft não muito místico, deixando-o chateado.

— Ei, Diretora, não seja chata!

— Eu já lhe disse, sem tiros. — ela ergueu-se, passando seu olhar indiferente por Roger e dando tapinhas em sua cabeça. — Está confiscada por tempo indeterminado.

— Eu vou arranjar outra! — e deu-lhe a língua, cruzando os braços e resmungando baixinho.

— Amanhã trarei o Instrutor do Chalé da Luz. — Disse, calmamente, escondendo suas mãos pálidas nas mangas longas de seu quimono, dirigindo-se à Michael e Morgana. — Conto com o vosso apoio.

— Sim, Senhora Mizori. — os dois responderam, o primeiro do jeito extrovertido de sempre, a segunda com seus modos frios. A diretora fez um gesto simples com a cabeça em sinal de gratidão e começou a dissolver-se em pleno ar, deixando o local.

Após um instante breve olhando o lugar onde a mulher estava anteriormente, Michael franziu o cenho, apoiando as mãos na cintura. — Sabe, esse negócio de sumir em pleno ar é uma descortesia, a Casa Grande fica perto, por que ela simplesmente não vai andando? — No entanto, quando olhou para o lado, esperando ver Morgana, descobriu que ela também havia desaparecido – quiçá da mesma forma que sua patroa. — Inacreditável, são dois casos perdidos, é isso que essas duas são!

Roger permanecia agachado em frente a fogueira, abraçando os joelhos e reclamando por ter perdido sua arma – pela enésima vez. — Ora, vamos, logo ela te devolve aquela coisa.

— Como vou praticar tiro ao alvo agora?

— Quem sabe usando um estilingue?

— Ninguém usa mais estilingues, Michael, até parece que você não sabe disso! Aliás, a tendência é evoluir. Evoluir! Estilingues são tipo… o grau mais miserável que existe para atiradores, só ficam atrás para os caras que atiram pedras usando as mãos. Se eu fosse mudar de arma, seria para um rifle, ou para um canhão, ou um laser super-maneiro! Definitivamente não aceito um estilingue!

Michael coçou o queixo, pensativo, vendo lógica no argumento do garoto. — Justíssimo. Amanhã eu te arranjo um super laser.

Roger levantou-se num pulo, os olhos brilhando de excitação. — OMG, cê tá falando sério!?

— Lógico que não, de onde acha que vou tirar um troço desses? — enfiando as mãos nos bolsos, o instrutor deu de ombros. — Mas posso te devolver suas pistolas… se prometer não usá-las mais para fazer gracinhas na frente de Mizori.

— Você é um mago, ora essa! — ele cruzou os braços, mas com o argumento final de Michael, voltou a abrir um sorriso brilhante. — Feito!

O homem até tinha consciência que seu pequeno companheiro não conseguiria cumprir sua parte do trato, mas fazer o quê…? Eram essas pequenas coisas que tornavam a vida no Acampamento divertida.

Outras, meramente causavam confusão…

Don acordou na manhã seguinte sentindo-se revigorado.

A cama era confortável, a despeito da possibilidade de mudar sua forma. Percebeu uma bandeja com o café da manhã apoiada sobre a escrivaninha, contendo café, torradas e geleia. Aparentemente, o quarto se ajustara até ao seu gosto culinário. Quando provou a bebida, descobriu que a quantidade de açúcar usado também era ideal.

Apoiando a bandeja sobre as pernas, passou a comer, enquanto encarava a paisagem mostrada pela varanda, cujas cortinas tinha afastado ao despertar. A floresta continuava lá, e ele desistiu totalmente de tentar mudar sua vista por hora.

Levantou-se, pondo-se a trocar de roupa, escolhendo vestes mais comuns. Passou a blusa de algodão branca pela cabeça, endireitou sua bermuda preta e calçou os chinelos, ajeitando os óculos sobre o nariz e passando pelo toalete apenas para dar um jeito nos cabelos completamente bagunçados. Só então comeu a última torrada da bandeja, capturando a xícara de café e caminhando até a porta. Precisou de alguns segundos tomando coragem para abri-la, e reconheceu que isso era patético…

Girou a maçaneta e saiu para o corredor.

E foi nesse instante que ele conheceu a menina das estrelas cadentes…

Deparou-se com olhos vermelhos entusiasmados, num rosto angelical, adornado por cabelos claros que lhe pareciam fios de ouro e prata. A moça permanecia com a mão direita levantada em punho, como quem preparava-se para bater à porta, o vestido impecavelmente branco balançando quando endireitou o corpo para observá-lo de baixo.

— Er… posso ajudá-la com alguma coisa?

Ela abriu um sorrisinho simpático, descendo a mão erguida para uma posição que sugeria cumprimento. — Na verdade, é o que vim perguntar. — piscou um dos olhos para Dominic, esperando que este segura-se a sua mão. O homem, contudo, aparentava estar surpreso, porque quase deixou a caneca que tinha em mãos cair. — Vim para dar-lhe as boas vindas. Sou Louise.

Notas finais
Yei! Hoje tivemos mais um vislumbre do acampamento, mais pessoas são envolvidas na história - lembrando que a trama não tem um personagem principal fixo - e Don... Dominic está tentando livrar-se da paranoia, mas como já devem ter notado, ninguém dali de dentro bate muito bem das ideias. q Espero que tenham gostado, pessoal, estarei atualizando em breve/quando eu puder. :p Kisses kisses para vocês e até mais ♥