O Abraço da Geada
1 Prólogo
Notas iniciais
Já faz duas horas desde que a sirene bateu seu som típico, anasalado. Todos os sessenta e nove se reuniam ao redor de três mesas ovaladas concêntricas, de mogno escuro e texturizado com marcas de uma queimada distante, juntas a taças de cristal esverdeado preenchidos até a metade por um líquido entre o inexistente e o dourado, exalando seu odor alcoólico, à espera dos atrasados.
Ele, o com a máscara de um leopardo, remexia suas pernas em tom de impaciência na mesa do meio, esperando irritado a chegada dos três últimos que ocupariam dois lugares na mesa mais central e um na mais periférica. Seus sapatos pretos e lustrosos combinavam com seu sobretudo da mesma cor, com uma camisa branca e uma gravata vinho cercando sua jugular. Circundava a boca de sua taça com o dedo indicador direito, fazendo um leve barulho estridente, quase inaudível aos puros humanos, mas os cães estremeciam com as idas e vindas. Sua mandíbula, à mostra, apresentava lábios avermelhados numa pele em tom branco, meio bronzeado, com pequenos fios nascendo e fazendo transparecer uma barba por fazer. Seus olhos pela abertura da máscara apresentavam tom vívido, contudo imaturo enquanto tremia ao perceber o contato com outros olhares e com o ser ao centro, encapuzado e aquietado por uma mordaça, de braços amarrados às costas com correntes.
Sem camisa, somente de calça preta em trapos e descalço, deixava à mostra as cicatrizes profundas ao longo de seu corpo magro e bronzeado. Um xis grande nas costas, um corte nas costelas, enfisemas no peito, marcas de ferro nos braços. O escravo havia tentado fugir depois de décadas de herança familiar, em uma linda casa dourada, rodeada por lanças de diamante. Ah, doces tempos em que se vivia em gaiolas de brilhantes, perfeitas, inodoras. A impureza ainda era proibida de perambular pelo mundo da raça perfeita.
A porta, de súbito, abriu-se rangendo como ossos de um passado distante sendo puxados por uma corda bamba, acima de tochas em um luau. Três indivíduos entravam, sendo um deles levado pelos outros dois, carregando-o e puxando-o por seus braços. De cabelos desgrenhados e aparentemente oleosos, o homem fora jogado do chão, tendo sido obrigado a se ajoelhar de frente ao prisioneiro do centro. Ao contrário do outro, apresentava uma tez mais escura, com raízes possivelmente daquela terra, o continente dos impuros, dos terroristas e dos ladrões. Suas cicatrizes esbranquiçadas mostravam o mesmo lugar de vinda do outro. Uma figura circular com curvas e linhas estava tatuada em suas costas, indicando que o capturado vinha da mansão de Mamba, a cinquenta quilômetros daqui, bem perto das Colinas Geladas e da Grande Mansão. Suas mãos estavam calejadas e jorrando sangue, e sua boca cortada e costurada como uma daquelas bonecas estranhas feitas à mão, quase utensílios de feitiçaria.
O leopardo observava o recém-chegado com calma, sem se surpreender com a chegada deles. Desde o encontro com os Levesque, nada mais o incomodava, já vira de tudo, aliás, quase tudo.
Nesse momento, todos se levantaram e se puseram com o corpo ereto, sem retirarem suas máscaras prateadas animalescas de suas faces. Tal ato fez com que algumas taças fossem balançadas, remexendo o líquido quase inexistente. Suas mãos direitas alçaram-se para a frente, até mesmo as dos dois recém-chegados, cada uma formando um símbolo diferente. A do leopardo mostrava o dedão e o dedo médio quase juntando suas pontas, enquanto o indicador, o anelar e o mínimo estavam completamente retos, símbolo de sua casa. Após isso, todos se sentaram novamente, ajeitando seus sobretudos de modo que não amarrotassem. Dos sessenta e nove, um virou a moeda dourada que estava sobre sua mesa, fazendo com que um holofote de luz azul subisse e anunciasse sua fala.
–Andreas, Miacim, estão atrasados – pronunciou-se o homem de máscara felina, quase um gato. Vestia, além do sobretudo, um colar de pedras vermelhas adornando seu pescoço, um relógio de pulso dourado e um brinco na orelha direita em forma de um olho turco. Seu sobretudo era marrom com penugem em suas bordas. Assim que terminou de se pronunciar, virou novamente a moeda, apagando o holofote.
–Mil perdões, Balim – começava a responder o homem à direita do prisioneiro, com sua máscara de coruja. Pronunciava-se enquanto exalava vapor d’água, com o queixo aparentemente queimado e com dois cortes jorrando leves fios de sangue. — Tive trabalho em encontrar este aqui. Ele estava se escondendo em uma caverna nas montanhas de Garnidelia.
Balim observava o capturado enquanto roçava sua barba com sua mão direita, evidenciando seu anel de rubi no indicador, provável insígnia de sua casa. Antes que virasse novamente sua moeda, a madame da mesa central virou a sua.
–E onde estaria Calavi?
Seus cabelos loiros e sua pele branca contrastavam com seus lábios avermelhados. Dois adornos enfeitavam seu cabelo ondulado: uma rosa branca e um laço rosa, e um cachecol de plumas envolvia seu pescoço. Gesticulava exageradamente enquanto falava e balançava seu leque roxo florido com madeira marrom. Seus olhos cor de mel apareciam pelos buracos de sua máscara de pardal. Quase esquecera de desvirar sua moeda.
–Calavi está morto, Morília.
Todos os presentes, exceto os capturados, Andreas e Miacim, passaram a murmurar, sendo logo calados com a batida do martelo de Balim. Andreas se ajeitou para continuar a falar, mas fora interrompido por Morília, que novamente virou sua moeda.
–E sua carga?
–Quando encontrei sua carruagem, estava em chamas perto das Colinas Geladas. Seu corpo já estava carbonizado e sua carga completamente incinerada, assim como os quatro escravos que com ele foram, exceto um.
–Presumo que seja este que você capturou — interrompeu o leopardo, virando sua moeda.
O refém respirava com dificuldade e de olhos fechados, derrubando gotas de suor mesmo com o frio que fazia. Não ousava mexer-se nem um centímetro, com medo de que fizessem algo pior a ele.
–Sim, o nome dele é Kalil – Miacim, com sua máscara de corvo, pronunciava-se. – Eu não estava achando a joia imperial de Calavi, então eu abri o estômago deste aqui e lá estava ela, tendo sido provavelmente engolida.
–Não é necessário saber o nome de um escravo fugido. Nesse caso, como se trata de um possível traidor, uma execução seria a punição mais adequada – disse Balim.
–Discordo completamente – um velho de cabelos nos ombros e de máscara humana virou sua moeda.
–Velho Helión, desejaria usá-lo em suas pesquisas? – falou Balim.
–Perfeitamente. Esse espécime é de uma natureza rara. Nunca vi nenhum impuro que tivesse tal aparência, certamente ele será de algum uso em meus estudos. Mas para isso, eu preciso dele vivo. Seu pai não me será de utilidade alguma.
–Quais técnicas irá nele testar?
–As que deram errado até agora e algumas novas que não pude testar antes – pronunciava-se tamborilando seus dedos na mesa, como se apresentasse ansiedade em ver aquele espécime em suas mãos. — Os outros oitenta e sete morreram após aquele teste, mas creio que ele, por ser filho de um cigano, conseguirá sobreviver e trará resultados satisfatórios.
–Mas ciganos também são impuros – a mulher pardal virou sua moeda. – Todos sabemos que ciganos são tão impuros quanto os Bantos. Tem a certeza de que os experimentos funcionarão?
–Plena certeza não tenho. Entretanto, como este espécime é cigano, e nunca testamos nada em um, temos probabilidade de cinquenta por cento. Nenhuma das outras cobaias eram, então nunca saberemos se daria certo até testarmos em um.
–Eu também sou filha de ciganos, sabia? – continuava Morília, abanando-se com seu leque.
–Eu sei. Mas sua linhagem é nobre. Não há a necessidade de sacrificarmos uma figura tão perfeita quanto você.
“Velho tarado”, murmurou Miacim.
–Pois bem, o mestiço será mantido vivo na mansão de Dante, após os Morros da Garganta – Miacim pôs-se a falar. — E quanto ao pai?
–Não precisamos mantê-lo vivo, ele não sabe de nada – continuou Helión. — Nem o soro nem nenhum dos métodos apresentaram resultados, então penso eu que ele realmente desconheça tudo.
–Pois bem, que assim seja – finalizava Balim. – Alguma objeção? – falou com suas mãos entrelaçadas com seu queixo apoiado nelas. Como ninguém apresentou reação nem ameaçou levantar sua mão, bateu com o martelo em sua mesa. – Chamem os Mores.
Enquanto Andreas e Miacim puxavam o mestiço para perto de seu pai encapuzado, os outros sessenta e nove mantinham-se em silêncio. Execuções eram comuns para os escravos, mas nunca houvera um sentimento de alegria ou festejo entre os setenta e dois. Ao invés disso, uma sensação de desconforto, como se não soubessem que mais discutir após a sentença. Morília virou sua moeda, revelando novamente seu holofote.
–Agora, a mansão de Mamba está sem presidente, e Calavi não deixou sucessor algum.
–De fato está vazia – pronunciou-se o homem leopardo, direcionando sua face à mulher pardal. Apoiando seu braço na mesa e relaxando seu rosto em sua mão, continuou com um sorriso inefável – Haveria algum possível candidato no seu prostíbulo, Morília?
–Iridor, não trate minhas casamenteiras como prostitutas – respondeu a mulher pardal, fechando de súbito seu leque. – Não, não há nenhum candidato em potencial. Bem, na verdade – reiniciou Morília, após uns segundos de reflexão -, uma de minhas clientes acabou de dar à luz. O bebê é tataraneto de Isaías, aquele judeu que trouxe luz às cidades de Nova Uzias.
Duas figuras de capuz preto entraram pelas portas de trás da sala redonda, uma carregando uma foice e a outra com uma mesa da altura de seus joelhos.
–Mas como o impediríamos de seguir o mesmo caminho de Isaías? – perguntou Balim.
–Deixem tudo comigo – pronunciou-se a mulher de máscara de leão sentada à direita de Balim.
O segundo Mor, o menor, posicionou a mesinha ao centro das mesas circulares enquanto o primeiro retirava as trancas do pai de Kalil, puxando-o para perto da mesa e abaixando-o, fazendo com que seu peito se deitasse na mesa e sua cabeça ficasse para fora dela.
–Margot, daqui a quanto tempo você prevê que o aspirante virá a ocupar a mansão de Mamba? – questionou Andreas.
–Vinte e cinco anos é a idade perfeita.
–Vinte e cinco anos?! – gritou Morília, avançando e se apoiando nos braços da cadeira. – O que vai ser da mansão enquanto isso?
–Arcadaz, o filho de Ereese, irá cuidar dele por enquanto – Balim chamou a atenção de Ereese, do outro lado da mesa, com máscara de cavalo. — Durante esse tempo, ele cuidará para que ninguém invada a mansão nem nenhum escravo fuja e se rebele.
O homem da máscara de cavalo assentiu com a cabeça e se curvou para Balim. Morília, acalmada, encostou-se em sua cadeira.
Miacim e Andreas empurravam Kalil mais para frente, de modo a ficar cara a cara com a cabeça de seu pai. O Mor mais alto levantou sua foice para o alto, brandindo-a como o pêndulo de um relógio. Segundos pareceram horas para Kalil, que assistia à cena calado pela boca selada.
–Acha que dá conta, Margot? – perguntou Balim.
–Balim, você sabe muito bem que, quando a geada abraça o desespero, nada consegue me impedir de obter sucesso. O sopro gélido alcançará a espinha dorsal do menino, e ele virá até nós.
–Confio em você – Balim respondeu.
–Deixe a falha se abrir e as esperanças de um futuro incerto se acabam. Esse é meu jeito. – Pegou a taça e bebeu dois grandes goles do líquido. Deixou-a na mesa de madeira e enxugou seus lábios com a manga de seu sobretudo branco. — Vida longa ao Imperador.
E a foice despencou. A cabeça rolava pelo chão deixando sangue como seu rastro pungente.
Fale com o autor