O Abismo da Verdade: Mrs. A e os 9238 De Dor
1 O Abismo da Verdade: Além do corredor e "Mrs. A"
Notas iniciais
O Abismo da Verdade: “Mrs. A” e os 9238 Dias de Dor
O corredor se estendia à minha frente, um labirinto de concreto cinza que absorvia a luz e a esperança. Havia janelas ao longo das paredes, mas delas não entrava muito sol, o que fazia com que a percepção fosse de que do lado de fora era quente, mas dentro o prédio era gélido. As paredes lisas e sem adornos reforçavam a seriedade do ambiente. O ar estava impregnado com um silêncio pesado, interrompido apenas pelos passos distantes que ecoavam como o tic tac de um relógio antigo. O som reverberava nas paredes, criando uma sensação de temporalidade suspensa.
Sentada ali, em um conjunto de cadeiras geladas, com os pés balançando suavemente, tentava gravar cada detalhe das sandálias para escapar da realidade que me envolvia na atmosfera fria que permeava cada canto. Temia que algo irrevogável estivesse prestes a acontecer. Desde que Mrs A apareceu ao meu lado, percebi que não poderia me libertar facilmente. Ela era uma sombra incômoda, infiltrando-se em cada pensamento e respiração, um reflexo distorcido de tudo que eu era e poderia ser.
No silêncio opressivo do corredor, senti minha agonia e a dor de todos que haviam passado por ali antes de mim. O tempo parecia congelar naquele lugar enquanto buscava um escape mental. As histórias sobre o abismo ecoavam na minha mente, advertências veladas sobre encarar diretamente a verdade, pois ela olharia de volta para você. Por um instante, permiti a mim mesma espiar o abismo, e nele me vi refletida. Fui paralisada pela revelação de verdades que estavam sempre presentes, mas que havia escolhido ignorar numa tentativa ingênua de manter uma vida ilusória.
Lembro-me claramente do dia em que fui levada para aquele edifício pela primeira vez. Não havia outras crianças ali. Fui conduzida na esperança de fazer companhia, mas no final, fui levada para falar. Não que fosse contra a minha vontade, mas parecia que não havia ninguém melhor do que eu mesma para escolher o melhor ambiente para crescer, o que se tornou irônico no final.
Finalmente, uma porta ao final do corredor se abriu, revelando uma figura austera. A mulher que apareceu era alta, com um semblante sério que não deixava transparecer nenhuma emoção. Seus olhos fixaram-se em mim, penetrando minha alma com uma intensidade quase palpável. "Está na hora," ela disse, com sua voz firme. Levantei-me, as pernas trêmulas, e comecei a caminhar em direção à porta. Mrs A seguiu ao meu lado, sua presença agora mais forte do que nunca. Cada passo era uma luta contra a vontade de encarar o que quer que fosse, mas sabia que não podia mais evitar o inevitável.
Ao atravessar a porta, fui recebida por um júri. No meio da sala, havia uma mesa de madeira e uma cadeira, fria e convidativa na sua simplicidade. A mulher gesticulou para que me sentasse, e obedeci, sentindo a rigidez da cadeira contra minha pele. "Vamos começar," ela disse, sua voz ecoando na sala. Mrs A permaneceu de pé ao meu lado, seus olhos fixos em mim, como se estivesse esperando algo. A mulher começou a falar, sua voz um sussurro hipnótico que penetrava minha mente. Ela me fez perguntas, cada uma mais profunda e perturbadora do que a anterior. Perguntas sobre meu lar, minhas esperanças, meu futuro. A cada resposta, sentia a dor crescer, uma dor que vinha das profundezas do meu âmago, despertada pelas verdades que havia enterrado há muito tempo.
Foi nesse momento que tive minha primeira crise de ansiedade. A pressão que a verdade trazia, combinada com a sensação de ser puxada em todas as direções, me deixou sem fôlego. Meu coração acelerou, minha visão ficou turva, e o chão parecia desmoronar sob meus pés. A necessidade de escapar era esmagadora, mas não havia para onde ir. Mrs A permaneceu ao meu lado, silenciosa, mas presente. Sua figura era um lembrete constante de que, por mais que tentasse escapar, não havia como fugir da verdade. A dor era inevitável, mas ao enfrentá-la, começava a perceber algo mais profundo. Uma compreensão de mim mesma, uma aceitação das partes de mim que havia tentado ignorar estava prestes a emergir.
A sessão parecia durar uma eternidade, mas finalmente, a mulher parou de fazer perguntas. Ela me olhou com uma expressão de compreensão, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo não só ao redor mas internamente de mim. "Agora você entende o que realmente importa,” disse ela suavemente. Levantando-me da cadeira, senti uma estranha sensação de alívio. A dor ainda estava lá, mas havia algo mais agora – uma sensação de paz, de aceitação. Mrs A ainda estava ao meu lado, mas sua presença não era mais uma aflição. Ela era parte de mim, uma lembrança constante de que a verdade, por mais dolorosa que fosse, era o caminho para a verdadeira liberdade.
Saí da sala, deixando para trás o corredor cinza e gelado. Lá fora, o sol brilhava intensamente, sua luz aquecendo minha pele. E pela primeira vez em muito tempo, senti uma sensação de esperança. A jornada não havia terminado, mas estava pronta para enfrentar o que viesse, sabendo que a verdade, por mais dolorosa que fosse, me tornaria mais forte.
Essa revelação foi um divisor de águas. Antes de Mrs A, eu vivia num estado de negação, evitando encarar a realidade. Crescendo num ambiente evangélico onde a verdade era evitada, aprendi a construir uma fachada, uma versão de mim mesma que pudesse sobreviver em meio às exigências cristãs que me eram impostas e às exigências do mundo exterior. As memórias daquela época vinham à tona, fragmentadas e dolorosas. Eu lembrava das vezes em que preferi o silêncio a confrontar os gritos de injustiça que ecoavam pela casa. As vezes que era levada a sair pelas ruas para evitar conflito, e as vezes após ser expulsa da casa que diziam claramente não ser minha altas horas da noite, levada a buscar a paz nas ruas já que na casa que deveria ser um lar não havia paz. Dormia em casas de amigos que me acolhiam nesses momentos de desamparo.
Os dias se arrastavam, e a presença de Mrs A se intensificava. Ela me forçava a revisitar momentos que preferia esquecer, como as longas noites em claro, quando o silêncio da casa se tornava ensurdecedor. Cada canto da casa parecia guardar um segredo, uma lembrança dolorosa que eu havia trancado a sete chaves. O abismo não era apenas uma metáfora; era uma realidade tangível, um lugar onde todas as minhas verdades enterradas se manifestavam.
Lentamente, comecei a entender que Mrs A não era minha inimiga. Ela era um espelho, refletindo partes de mim que precisava enfrentar para realmente seguir em frente. Compreender isso foi um processo doloroso, mas essencial. Cada confronto com uma verdade reprimida era uma pequena vitória, um passo em direção à aceitação e ao autoconhecimento.
A ironia de ser minha própria guia no ambiente que escolhi para crescer não passava despercebida. Talvez não houvesse ninguém melhor para essa tarefa, pois só eu sabia onde estavam os escombros da minha alma, onde precisava cavar para encontrar a verdadeira libertação. Mrs A, em toda sua intensidade, era a chave para esse processo. A dor que ela trouxe se transformou em um catalisador para minha cura.
E assim, naquele corredor cinza e frio, percebi que a verdade e a dor eram companheiras inseparáveis. E que ao aceitar essa dualidade, estava finalmente no caminho para me reconstruir, peça por peça, verdade por verdade. Mrs A, afinal, era a personificação da minha ansiedade, sempre presente, sempre me desafiando a enfrentar minhas verdades mais profundas.
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