O último Mestre

7 5-Tripulação


Mudaram o percurso, evitando toda e qualquer vila, fazendo o possível para não serem vistos. Por uma vez, chegaram a ver Yesil voando no céu, e esconderam-se.

Por que o Rei não está mais mandando Murtagh, e sim Faölin? – Pensou Eragon.

Chegaram à Espinha, e o Cavaleiro sentiu um arrepio, ao ver a montanhas de sua infância. Crescera lá, e sentia especial carinho pelo lugar, mas era... estranho. Antes, a sombra das montanhas era acolhedora, familiar. Agora, faziam-no se lembrar de um passado que, mesmo recente, estava distante. Ele não pertencia mais a elas.

Disfarçaram-se com magia, todos menos Tenga, que há muito tempo mantinha-se com aparência humana, para evitar suspeitas. Andavam por uma estrada, usando roupas comuns. O Cavaleiro ainda estranhava ver a elfa de saias. Acampavam em campos, evitando fazendas, ou se hospedavam em tabernas ao longo do caminho, para não serem reparados.

Próximos a Kuasta, perceberam que Faölin fizera mais do que uma “visita cordial”: cartazes com a imagem do grupo estavam espalhados por toda parte, e gigantescas recompensas eram oferecidas pela sua captura, vivos.

-O que faremos? – perguntou ele.

-Tentaremos passar despercebidos pelo meio da multidão. – respondeu a herbolária, absurdamente tranqüila – com sorte, apenas uma ou duas pessoas nos reconheceram.

-Apenas uma ou duas? – exasperou-se Eragon – Não podemos ser notados por ninguém!

Apesar disso, entraram no meio da multidão que se acotovelava para passar pelos portões e, de cabeças baixas, foram para dentro de Kuasta.

Logo que chegaram, viram um gigantesco aviso fixado ao lado da torre de guarda, com um desenho dos quatro, e oferecendo uma recompensa gigantesca para quem os capturasse, vivos.

-Pelo menos não nos querem mortos – sussurrou Angela para Arya, que lançou-lhe um olhar mortal. Solembum, em sua forma de menino, se ofereceu para sair em busca de hospedagem, o que foi aceito por todos. Conseguiram dois quartos em uma estalagem mínima, um para Arya e Angela e outro para Eragon e Tenga. O menino-gato foi, durante a noite, até uma taberna, e perguntou ao taberneiro:

-Por favor, sabe me dizer aonde posso arranjar homens dispostos a tripular um navio, para uma perigosa missão?

O homem surpreendeu-se com a pergunta, e mais ainda com o garoto que a proferia, com aqueles olhos amarelados e a voz aguda, mas respondeu:

— Para onde?

— Não poso dizer, são questões pessoais, mas eu e meus companheiros precisamos de homens valentes, e sem medo de irem em uma viagem da qual talvez não haja volta.

O taberneiro ponderou por alguns minutos, e respondeu, em voz baixa:

— Nenhum homem de bem faria isso.

— E os outros?

O homem aproximou-se, e baixou ainda mais a voz, para que apenas o garoto o ouvisse:

— Há um bando de piratas, ancorados em uma baía não muito distante daqui. Seu capitão fez um acordo com o governador, e não assalta a cidade em troca de não ser caçado por essas águas. Dizem que a recompensa por sua captura é quase tão grande quanto pela do Cavaleiro dos Varden.

— E onde posso encontrá-lo?

— Vá até uma rocha em forma de lobo, que está perto da praia. Em baixo, há uma reentrância, o capitão o esperará lá. Amanhã, as onze e meia da noite.

— Estarei lá.

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Voltou para a hospedaria, e, em forma de gato, entrou no quarto de Angela e deitou-se aos pés da cama, ronronando satisfeito. A herbolária ressonava, mas Arya continuava acordada, sentada perto da janela, olhando para o mar. Lembrava-se bem da primeira vez que o vira, enquanto carregava o ovo de Saphira.

Já havia estudado o mar, mas nunca vira sua imensidão. Ficou tão feliz, que se jogou nas águas, saltando como uma criança. Faölin a convencera a não ir viver no mar, transformando-se como tantos outros fizeram.

Faölin. Para a elfa, ele era pior do que o Rei. Mas ela se vingaria. E só então pensaria no que fazer de sua vida.

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Na manhã seguinte, Eragon e Arya disfarçaram-se com magia, e saíram em busca de provisões que seriam necessárias para a viagem. Compraram algumas coisas, como comida, ervas, e um pequeno espelho, para facilitar a comunicação entre ela e os Varden.

Retornaram à hospedaria, próximos ao meio-dia, e almoçaram lá, tal como os outros. Durante a tarde, não tiveram muito o que fazer. Arya tentou usar cristalomancia para ver sua mãe, mas não conseguiu, como era de se esperar. Provavelmente haviam barreiras mágicas em torno dela.

-Por que não tenta ver outro elfo? – perguntou Eragon, que estava ao seu lado.

-Não sei... acho que não adiantaria.

-Tente.

Ela pensou em Daëtr, com todas as suas forças, e murmurou o encanto. A superfície do espelho ondulou, e então surgiu a forma de um elfo, que corria o mais rápido que suas pernas podiam agüentar, por sobre uma planície, que ela já conhecia.

-Ele fugiu! – exclamou o Cavaleiro, atônito.

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As onze horas da noite, Solembum saiu sorrateiramente, em forma de gato, e se dirigiu ao local combinado. Próximo de lá, transformou-se novamente em menino, e entrou na reentrância. Havia uma lamparina acesa, mas a pessoa estava contra a luz, de modo que não era possível discernir seu rosto.

-Hora, então você é o garoto... – disse um voz feminina, bastante melodiosa. – disseram-me que precisa de uma tripulação... pois bem, vamos direto ao assunto: quanto me oferece?

Solembum disse a ela, em tom baixo, um valor muito elevado, e a moça afastou-se da entrada, postando-se ao lado da lamparina, e permitindo a passagem dele. Seu rosto, agora visível, era bronzeado pelo sol do convés, e adornado por duas esmeraldas, os seus olhos. Uma cascata de cabelos louros emoldurava-os, e caía em cachos até a cintura. Vestia uma calça de couro preta, e um colete de mesmo material e cor.

-E por que um menino com a sua idade vêm negociar, ao invés do patrão?

-Não tenho patrão. Faço parte de um grupo, e sou o mais indicado para tais serviços, por motivos que não me cabem dizer.

Ela arqueou uma sobrancelha, revelando surpresa, e então sorriu – um sorriso muito branco e igual -, dizendo:

-O dobro do valor oferecido.

-O valor mais um terço.

-Mais metade.

-Fechado – disse ele, acrescentando em seguida:

-Por esse valor, eu e meu grupo devemos ir até um lugar longínquo, e de onde talvez não haja retorno.

-Por esse valor – disse ela, ainda sorrindo -, levo vocês até as proximidades, e dou-lhes um bote para que continuem. A propósito, para onde vão?

-Para a terra perdida dos elfos.

A mulher começou a rir, mas parou ao ver a expressão séria no rosto de Solembum.

-Bem, está certo, vocês é que sabem... Mas preciso saber seu nome.

-Me chamam de Osrem – mentiu o menino, sem revelar, contudo, o menor vestígio – E você é...

- Hera – respondeu ela, com um sorriso enorme me seu rosto.

-Muito bem, Srta. Hera, amanhã, nessa mesma hora, trataremos dos últimos detalhes, e partiremos ao anoitecer de depois de amanhã.

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O dia seguinte transcorreu normalmente, o menino-gato falara sobre a mulher a Eragon, Arya, Angela e Tenga, e ao anoitecer, novamente foi falar com ela, que confirmou a partida para o dia seguinte.

As horas pareciam se arrastar. A expectativa da partida iminente infiltrava-se por cada pensamento. Pouco antes de saírem da hospedaria, enquanto esperavam Angela, Eragon puxou a elfa para o lado, pedindo para falar com ela:

-Preciso falar-lhe.

-Claro – respondeu ela, sem escolha.

-Sei que me pediu para não tocar no assunto, e sei o que sentiu quando falei, mas não posso me manter em silêncio.

-Eragon, eu não...

-Por favor, escute – suplicou o Cavaleiro – Arya, filha de Islanzadi, não posso me calar, não sabendo que talvez nunca mais a veja!

-...

-Eu... – hesitou, tentando manter-se calmo, mas sem sucesso – Eu te amo! Muito mais do que você imagina, ou pode imaginar, mais do que posso dizer!

Lentamente, ele aproximou seu rosto do dela, mas foi interpelado por um grito, proferido pela herbolária:

-Ei! Venham! Não temos tempo.

Sem nenhuma palavra, a elfa afastou-se delicadamente, e sorriu tristemente para ele, dizendo:

-Meu coração está ferido, Eragon. E a ferida, antes quase cicatrizada, voltou a arder, quando vi Faölin. Me perdoe. Mas não estou pronta para lhe oferecer nada alem de minha mais sincera amizade. E acredite – continuou, ao ver as teimosas lágrimas que surgiam no canto dos olhos dele, por mais que as contesse – isso não é pouco. Quem sabe um dia...

Segurando a mão dele, guiou-o para junto dos outros, que nada disseram. Juntos, os cinco rumaram para a pequena baia, aonde cada um seguiria seu caminho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.