O Último sorriso
6 Capítulo VI – O Entregador
Notas iniciais
Minutos depois de haver mandado a mensagem, o celular de Sherlock vibrou em seu bolso com a resposta. O homem riu, soltou o violino e procurou seu cachecol e sobretudo.
– Vamos, John.
– Para onde? – respondeu o loiro.
– São Bartolomeu. – disse o moreno já com a porta de saída aberta.
– Eu não tenho plantão hoje. – o médico afundou mais ainda em sua poltrona.
– Eu sei, mas tenho um filminho interessante para te mostrar, no entanto, temos que passar no hospital antes disso. – Sherlock disse desaparecendo porta afora.
– É sério que havia uma câmera no vestiário masculino? – o médico perguntou pegando um casaco e seguindo o detetive.
– É. – respondeu o detetive pontuando a resposta com um divertido som abafado produzido pelo contrair e descontrair rápido dos lábios.
Esse gesto era um claro sinal de que o moreno estava de muito bom humor por sentir-se perto de solucionar mais um caso complicado e bizarro.
– Por que não me avisou? – John perguntou indignado enquanto desciam as escadas rumo à rua.
– Esqueci. – Sherlock respondeu aprumando-se na ponta da calçada esperando um táxi.
– Ok... Mas se você sabia o tempo todo que existia câmeras no vestiário, por que não analisou as imagens logo após o incidente?
Holmes parou de olhar o movimento da rua em busca de uma condução e encarou o loiro.
– Enquanto você vagava no mundo da inconsciência eu analisei incontáveis vezes cada quadro da gravação feita pelos agentes do Mycroft. Tudo o que se podia ver era o pessoal do próprio hospital em sua rotina habitual. Nenhum estranho se aproximou ou entrou no vestiário masculino, por isso as gravações pareceram inúteis no primeiro momento, mas agora que sabemos o que procurar, podemos finalmente chegar à “Mensageira” através do “Entregador”. Pronto, satisfeito? – perguntou esticando o braço, parando um táxi que passava.
– Satisfeitíssimo... – murmurou o médico entrando no veículo logo depois de Sherlock.
Ao chegar ao Hospital São Bartolomeu, Sherlock passou direto para o necrotério com John em seu encalço.
– Bom dia, Molly! – o detetive cumprimentou a patologista que se remexeu ajeitando o jaleco e o cabelo o melhor que podia.
– Oh! Bom dia Sherlock! Bom dia John!
– Bom dia, Molly. – respondeu o loiro.
– Você se sente melhor? – perguntou a jovem afastando uma jarra contendo um cérebro humano.
– Sim, me sinto muito melhor. Foi só um susto.
– Entendo. Eu no seu lugar estaria desmaiada até agora. – brincou rindo.
John escorou-se em uma das bancadas rindo meio sem jeito.
– Molly, não tente fazer piadas, você não é muito boa nisso. – Sherlock repreendeu.
– Oh! Desculpe, John! Eu não queria ser indelicada! Essa situação toda que você está passando... Bem, eu...
– Ah, não, não se preocupe, é bom rir um pouco para deixar o clima menos tenso. Obrigado, Molly, sei que está querendo me ajudar.
– Sim, eu quero ajudar! Podem contar comigo para o que precisarem. Sério mesmo. – declarou a patologista em tom firme e jovial.
– Que ótimo, porque precisamos de você agora. – o moreno disse de forma bem direta.
– É mesmo? E para o que seria?
– Molly, você conhece a maioria dos funcionários do São Bartolomeu, não conhece? – Sherlock perguntou encarando-a como se desejasse sugar as respostas antes mesmo que fossem verbalizadas.
– Sim, trabalho há um bom tempo aqui e conheço praticamente todos. É bom socializar sabe? – disse rindo de modo desajeitado para o detetive.
– Sei. Você vem com a gente. – Sherlock sentenciou passando por ela rumo a porta de saída.
– Mas eu ainda tenho que dissecar um corpo.
– Disseque depois, agora você tem um compromisso comigo. – Holmes intimou encarando-a sedutoramente, parado com metade do corpo oculto pela porta que havia aberto, e isso fez o monstro do ciúme aplicar ácidas e dolorosas mordidas no coração de John Watson.
Aquele olhar foi mais do que suficiente para derreter qualquer resistência de Hooper, que não perdeu tempo em tirar o jaleco, agarrar sua bolsa e seguir o detetive para o que quer que ele estivesse planejando fazer com a participação dela.
Entraram no táxi que ficou esperando em frente ao hospital e em menos de vinte minutos desceram na frente de um prédio com aspecto de antiquário. Entraram e foram recebidos por um homem de meia idade que trocou sinais com Holmes e depois guiou o trio para uma sala reservada onde havia um sofá amplo, poltronas e uma mesa redonda ladeada por sete cadeiras de estofamento negro. No canto norte da mesa estava um homem ruivo que os aguardava com o notebook ligado e uma gravação em pausa.
– Avance a gravação para quinze minutos antes do Dr. Watson entrar no vestiário. – pediu Sherlock sentando-se ao lado direito do homem ruivo.
– Por que quinze minutos antes, Sherlock? – John quis saber sentando-se do lado esquerdo do agente enquanto Molly colocou-se de pé atrás do homem.
– Muito simples. Pelo estado de degradação do sangue encontrado na jarra dentro do seu armário no horário em que você desmaiou, calcula-se que ele estava sem refrigeração por aproximados vinte minutos. O percurso do banco de sangue para o vestiário masculino é de não mais que cinco minutos, e o entregador não correu de um ponto para o outro para não fazer seu comportamento se destacar como anormal, foi caminhado normalmente, logo deduz-se que o entregador da mensagem esteve lá quinze minutos antes de você.
– Ok. Entendi. – respondeu o loiro voltando a encarar a tela do computador.
A gravação mostrava o vestiário vazio, logo depois três homens entraram, os três abriram seus respectivos armários e pegaram pertences, dois permaneceram de pé, enquanto um deles sentou-se no longo banco que ficava disposto no centro do recinto. Estava de cabeça baixa e parecia ajeitar os cadarços do tênis. Minutos depois, os dois homens que acessaram os armários, se retiraram do vestiário deixando o homem que lutava com seus cadarços, para trás. Nesse momento, o homem levantou, desamassou a camisa e a imagem tremeu por um segundo, para em seguida mostrá-lo se agachando, pegando sua bolsa e indo embora. Pouco tempo depois, um grupo de cinco homens entrou no vestiário, entre eles estava John. A reprodução foi interrompida nesse ponto, pois todos já sabiam o que havia acontecido depois.
– Mas o que houve? O cara que ficou ajeitando o tênis não fez nada, simplesmente levantou e foi embora! Os outros dois saíram antes, resumindo, não dá para apontar ninguém como “o Entregador” – disse o loiro confuso.
– Não, o cara do tênis não levantou e foi embora. – Sherlock afirmou convicto. – Como pude deixar passar esse sinal da gravação? É óbvio! A gravação entregava o cúmplice da Mensageira, estava bem diante dos meus olhos! É claro que ela não ia facilitar, tava querendo testar minha capacidade de observação, como fui tolo! – resmungou o detetive para si.
– Não estou entendendo. Não há nada aí. – John apontou para o vídeo em pausa.
– Há sim! Veja, John! – apontou para a tela. – volte dez segundos do ponto em que o homem que arrumava os cadarços segue para a porta. – o detetive pediu ao agente ruivo.
Os dez segundos foram retroagidos.
– Certo, agora reproduza em câmera lenta.
O trecho foi reproduzido conforme a orientação. Com os quadros de imagem passando lentamente os presentes puderam perceber um corte na gravação, o leve tremor que mostrava o homem indo embora fora antecedido por um pedacinho de imagem que o mostrava puxando uma bolsa de sangue do casaco e indo em direção ao armário ao fundo, local onde ficava o armário de Watson, para logo depois ocorrer o pulo de sequência que o mostrava saindo do vestiário.
– Essa gravação sofreu corte, mas deixaram um pedacinho de gravação que mostra o que ele fez sozinho no vestiário. Viram? – Sherlock apontou para o quadro em pausa mostrando o homem no sentido do armário do ex-militar.
– Fantástico! – disse o médico impressionado com a observação.
– Molly, você conhece esse homem?
A patologista apurou um pouco a vista e declarou:
– Ah, sim! Conheço, chama-se Oliver Thomas. Não apareceu no hospital hoje, deve estar doente ou coisa parecida...Ele é muito legal, faz parte da equipe do banco de sangue do hospital. Foi destaque numa coluna do The Sum mês passado, ele falou sobre as diferentes espécies de borboletas encontradas nos parques públicos de Londres. Ele é fã de borboletas, tem uma coleção muito bonita em casa, uma vez eu vi, é bonita mesmo.
– Interessante. – o detetive a encarou com seu irresistível olhar incisivo. – Poderia me passar o endereço dele? Estou sentindo um súbito interesse por borboletas.
Molly saltaria no rio Tâmisa de costas se ele pedisse a ela com aquele olhar. O endereço foi repassado sem questionamento. A patologista foi deixada no hospital para continuar seu trabalho interrompido, seguindo o médico e o detetive consultor para a casa do apreciador de borboletas.
A casa de Oliver Thomas ficava um pouco distante do São Bartolomeu, num bairro de subúrbio, as residências eram espremidas umas nas outras e boa parte possuía mais de um piso. A de Oliver fazia parte da maioria. Tinha dois pavimentos e um pequeno jardim na frente onde se podia ver borboletas amarelas saltando entre as margaridas vermelhas.
– A casa é essa aqui. – disse Sherlock empurrando o portão pequeno que dava acesso ao jardim.
–Sherlock, não seria mais educado bater palma atrás do portão?
– Nessa situação? Não.
O detetive parou diante da porta e aplicou três batidas médias. Não houve resposta. Aplicou mais três batidas, dessa vez, mais fortes e também não teve resposta. Sentia algo se repetindo nesse caso.
– Ah, não, novamente não. – resmungou o moreno forçando a porta.
– O que foi? O que pensa que está fazendo? – o loiro quis saber.
– Eu não posso ter chegado tarde de novo, John! – Sherlock respondeu rodeando a casa que tinha um estreito beco na lateral direita possibilitando a existência de janelas térreas. Uma delas estava aberta, brecha que o detetive aproveitou para entrar no domicílio seguido pelo médico.
A mobília estava em perfeita ordem, notava-se com facilidade que o rapaz era solteiro, no entanto era bastante organizado, não havia o comum acúmulo de roupas por todos os lados, móveis desalinhados e louças sujas esquecidas em qualquer canto.
– Parece que não tem gente na casa. – John concluiu.
– Tem que ter alguém. Quem sairia de casa e deixaria as janelas térreas abertas?
Não demorou muito para encontrarem o dono da casa. Estava sentado numa poltrona com uma mochila de roupas ao lado. Deduzia-se facilmente que o rapaz pretendia passar alguns dias fora.
– Está morto, provavelmente ataque cardíaco. – diagnosticou Watson realizando breve análise do corpo sentando.
– Droga! – Sherlock praguejou rodando na sala em busca de algo.
– Está procurando o quê?
– A xícara.
– Que xícara?
– A xícara que ele usou para tomar chá quando se sentou nesta poltrona.
– Como sabe que ele sentou para tomar chá nessa poltrona?
– O pires, John, tem um pires no colo dele, não percebeu? – Sherlock respondeu olhando por baixo da mesinha de centro.
O médico observou e de fato constatou a presença da peça repousando no colo do morto.
– Ele bebeu o conteúdo que provavelmente estava envenenado e quando o veneno começou a fazer efeito a louça caiu, quero ver se sobrou algum líquido para análise. – continuou o moreno esquadrinhando a sala com seu olhar atento.
– Oh, entendo... – disse o loiro tendo a atenção chamada para uma porcelana parcialmente oculta entre um vaso e a parede próxima à janela por onde entraram – Por acaso a xícara que você procura é aquela ali no canto da parede? – perguntou apontando o objeto.
– Provavelmente. – respondeu o outro recolhendo o objeto do chão. O moreno olhou para dentro e franziu a testa. – Mas infelizmente não ficou nada para análise.
– É uma pena. – suspirou o loiro.
Sherlock não parou quieto, avançou por dentro da casa indo até o banheiro, lá encontrou o que buscava, voltou rapidamente com um pequeno saco de acondicionar alimentos, que pegara na cozinha e colocou-se na frente do morto forçando a abertura da boca do mesmo.
– O que está fazendo, Sherlock?
– Colhendo amostra de saliva dele para analisar, ainda deve ter vestígio do chá na boca. – respondeu o detetive esfregando um cotonete na língua e na parte interna das bochechas do morto, guardando a amostra dentro do saquinho que trouxe da cozinha e colocando no bolso interno do sobretudo.
– Ligue para o Lestrade, John, eu preciso voltar ao 221B para analisar essa amostra.
– O quê? Quer dizer que eu tenho que ficar aqui até a polícia chegar?
– Claro, alguém tem que recebê-los. – Sherlock disse destrancando a porta. – Até mais, John!
– Até... – o médico respondeu visivelmente irritado discando o número do detetive inspetor Lestrade.
Não demorou muito e Greg apareceu no endereço com policiais, cordões de isolamento e a equipe de peritos. John passou o resumo dos fatos, justificou a ausência de Sherlock, omitindo o detalhe de que o amigo colhera amostra de saliva da vítima, recebendo no ato uma olhadela desconfiada por parte de Anderson. Em seguida pediu licença para voltar para casa, pois se sentia cansado com toda aquela situação.
Chegando ao 221B, John encontrou Sherlock estirado no sofá na sua posição habitual de meditação. Iria passar direto para o banheiro para tomar um belo banho, quando ouviu a voz grave do amigo.
– Era toxina concentrada de Cerbera odollam.
– Deixe-me adivinhar, isso é o veneno de uma planta?
– Exato. Provoca um leve desconforto estomacal para depois conduzir a vítima para um coma profundo até seu coração parar de bater. A pessoa nem se dá conta de que está deslizando para a morte. A perícia provavelmente não encontrará vestígios do glicosídeo cerberin, pois o componente químico fica indetectável depois de transcorrido um tempo do envenenamento. Chegamos a tempo de termos como comprovar a ligação dele com a Mensageira, tenho certeza que ela o matou, sabia que não demoraríamos a chegar nele.
– Certo, agora Oliver Thomas está morto e perdemos a ponte para nos aproximar da Mensageira, que maravilha. – John ironizou sentando-se frustrado em sua poltrona.
– Nem tudo está perdido, meu caro Dr. Watson. Antes de sair do antiquário, mandei uma mensagem para o Mycroft informando que havia um problema na equipe de agentes escolhidos para monitorar você. A essa altura meu irmão já identificou a maçã podre no cesto. Portanto, ainda temos uma ponte.
Nesse momento o celular de Sherlock vibrou.
– Falando no viciado em doces... – comentou o moreno lendo a mensagem e se levantado em seguida. – Vamos, John. – chamou pegando o sobretudo e o cachecol habituais.
– Para onde dessa vez?
– Hotel Queen Mary. – o moreno respondeu com voz animada.
Fora do 221B pequenos flocos de neve começavam a flutuar contrastados pelo sol poente dourado que parecia agourar algo bom apesar do grande frio que se espalhava pelas ruas procurando brecha para aninhar-se dentro das residências.
Continua....
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