O Último sorriso

4 Capítulo IV – Olhos no chá


Notas iniciais
Olá, pessoas queridas! Como prometido, eis mais um capítulo postado no sábado! Beijos e divirtam-se!

John terminou seu banho e vestiu uma roupa limpa e depois se juntou aos irmãos Holmes na sala.

– Olá, Dr. Watson. – o Holmes mais velho cumprimentou educadamente ao vê-lo se aproximar.

– Oi, Mycroft. Só John, por favor, não estamos no meu consultório, nada de títulos por aqui. – John respondeu sentando-se confortavelmente em sua poltrona.

– Como queira. Da próxima vez que for tomar banho eu o aconselho a trancar a porta, meu irmãozinho às vezes se esquece de respeitar o espaço íntimo das outras pessoas. Isso deve ser muito chato e constrangedor. – disse encarando-o com uma ponta de diversão na voz.

– Mas como... – John iniciou uma pergunta, mas foi respondido prontamente pelo Holmes mais velho.

– Umidade no cabelo e em alguns pontos da roupa do meu irmão, meu caro John. – Mycroft indicou como se fossem detalhes fáceis de observar. – Ele estava totalmente seco antes de ir chamá-lo e agora você chega com os cabelos molhados, claramente de banho tomado, daí deduzir que você estava tomando banho e que Sherlock o interrompeu da maneira menos educada que se possa imaginar, é uma conclusão muito óbvia.

– Vou lembrar-me do conselho da próxima vez. – o médico respondeu contrariado imaginando que decididamente os Holmes haviam tirado aquele dia para constrangê-lo.

– Você não está aqui para dar conselhos para o meu amigo, Mycroft. – Sherlock reclamou olhando com uma expressão azeda para o irmão.

– Claro que não, irmãozinho! Estou aqui para evitar que esse pobre homem pague pelos efeitos que sua falta de tato com mulheres desencadeou. – o irmão de Sherlock sorriu e parecia se divertir, mas John percebeu que por baixo da aparente diversão, rastejava sincera preocupação.

– Pegue leve, Mycroft, o Sherlock não quis magoar ninguém, não é mesmo? É só o jeito dele. Pegou mal em vários momentos com algumas garotas, mas ele não tinha intenção de despertar a ira de uma psicopata. –John defendeu o amigo.

– Você tem sorte, Sherlock, John é muito leal e dotado de uma capacidade impressionante de compreender, aturar e perdoar o seu temperamento excêntrico. – Mycroft torceu os lábios num riso desdenhoso.

– Eu não sou excêntrico! – Sherlock reclamou.

– É sim.

– Não sou, não!

– É.

– Parem com isso, meninos! Devo lembrá-los que ambos já estão bem crescidinhos para entrar nesse tipo de birra? – John olhava sério de um para o outro. – Se eu não estou enganado essa pequena reunião é para resolver a questão da minha proteção, não?

– O John tem razão. – disse Mycroft encarando Sherlock que se limitou a juntar as pernas sobre sua poltrona e abraça-las com uma expressão neutra.

Passaram rapidamente para o assunto razão do encontro. Mycroft informou que manteria uma equipe de agentes bem treinados e discretos acompanhando os passos do Dr. Watson. Nada que ele já não tinha o costume de fazer, claro. Os agentes enviariam relatórios frequentes ao longo do dia para uma central que iria catalogar e registrar os dados relevantes. Mycroft garantiu que John não perceberia a presença dos agentes, mas eles estariam lá para protegê-lo. O médico agradeceu, agora estava se sentindo protegido e confortável.

Os dias seguintes passaram com Sherlock investigando floriculturas, herbários e centros de botânica. Descobrir a fonte das flores e principalmente onde estavam sendo colhidas as oenanthes crocatas, eram pontos a serem explorados na busca pela assassina. Nessa tarefa, a rede de sem-teto era bastante útil e não tardou a fornecer interessantes pistas do local onde a planta tóxica havia sido colhida.

Watson estava no meio do seu plantão quando sentiu o celular vibrar com uma mensagem do detetive:

"John, a rede de sem-teto acaba de me mandar a foto e endereço de uma residência afastada de Londres onde há arbustos de oenanthes crotatas, estou indo para lá”. SH.

O médico digitou imediatamente uma pergunta:

“Você não está indo lá sozinho, está?” JW.

Não demorou e a resposta apareceu:

“É claro que estou!” SH.

John respirou fundo, Sherlock parecia totalmente alheio à noção de perigo. Pegou o celular e voltou a digitar:

“Isso é perigoso, você está indo sozinho para um lugar afastado onde possivelmente encontrará evidências que nos aproxime da Mensageira, você não deve ir sozinho” JW.

A resposta demorou um pouco, mas chegou:

“Você está no meio do seu plantão, John. Quer largá-lo para vir comigo?” SH.

“Eu não posso, você sabe” JW.

“Então não implique com o fato de eu estar indo sozinho” SH.

“O Lestrade não serve?” JW.

“Não, ele vai me atrapalhar” SH.

John ia começar a digitar algo para convencê-lo a levar Lestrade quando foi interrompido pela chegada de nova mensagem.

“Ah, antes que tente inutilmente me fazer mudar de ideia, vá até o leito vinte e dois, as características do paciente indicam que ele tentará fugir nos próximos minutos. Até mais!” SH.

Watson não quis parar para tentar compreender a lógica do aviso, simplesmente correu para o leito vinte e dois e chegou a tempo de impedir a fuga de um aposentado de setenta e sete anos, com preocupante quadro de pneumonia. O homem era terrivelmente avesso a hospitais, mas precisava ficar internado para tratar a enfermidade.

Depois de conter o paciente e requisitar mais atenção por parte dos enfermeiros e da família do doente, John foi para a cantina tentar comer algo, há dias não estava se alimentando normalmente, sentia-se fraco e exausto. Enganou-se achando que não se incomodaria com a vigilância discreta dos agentes do governo, a verdade é que sentia os olhos deles por todos os lugares e pior, temia a própria comida.

Nada tirava de sua mente que a toxina era misturada a algum alimento para que as vítimas ingerissem. Esse temor fazia com que não conseguisse comer nenhum alimento que não fosse preparado por ele ou por pessoa de confiança. Isso restringia muito sua alimentação, já que passava muito tempo fora de casa. Ele, como médico, sabia que em breve pagaria caro por isso. Olhou para o lado e encontrou um exemplar do The Sum aberto na página de fofocas. Alguma enfermeira deve ter o esquecido ali. Riu-se lembrando de ter visto uma vez Mycroft lendo a sessão de variedades daquele jornal de caráter duvidoso. Tinha que admitir que às vezes podia-se colher alguma informação útil neles. Certa oportunidade ele encontrou uma excelente receita para tirar mancha de caneta em tecidos. Tudo bem que Sherlock disse que a receita era ridícula e que ele era capaz de fornecer dezenas de outras muito melhores. John riu com a lembrança.

Enquanto isso, em uma pacata área verde nos arredores de Londres, o detetive consultor se aproximava de uma singela residência ao redor da qual se podia notar várias estufas e vários canteiros de flores. Sherlock rapidamente deduziu que se tratava de uma pequena propriedade fornecedora de plantas.

– Olá! – disse batendo palmas na entrada da casa, mas não recebeu resposta.

Voltou a bater palmas com mais vigor, mas nada aconteceu em resposta. Estranhou. Abriu o pequeno portão que o separava da porta de entrada da residência, forçou o trinco do acesso e ele cedeu. Entrou cautelosamente observando o interior que estava imerso em completo silêncio. Estava tudo em seus lugares em uma aparente normalidade, mas havia uma aura de abandono que incomodava os sentidos do detetive. Continuou sua incursão pela casa, foi ao quarto, ao banheiro, cozinha... Estava tudo quieto. Não havia ninguém ali. Resolveu olhar o quintal onde se erguia majestosa uma cúpula de rosas coloridas abaixo da qual havia um largo banco de madeira antiga e nesse banco estava uma franzina senhora sustentando no colo uma xícara de porcelana decorada com violetas azuis.

– Olá! – cumprimentou Sherlock se aproximando. – Desculpe a invasão, mas eu chamei na porta e ninguém me atendeu. Gostaria de fazer algumas...- ele parou de falar ao perceber a completa ausência de reação da mulher sentada abaixo da cascata de flores.

O vento sacudiu as rosas multicoloridas provocando uma bela chuva de pétalas que fustigou o corpo do detetive cujos cachos negros foram revolvidos graciosamente enquanto observava a força eólica gélida e perfumada derrubar a xícara daquilo que ele percebeu ser apenas um cadáver cuja vida se esvaíra há pelo menos quatro horas. Ele chegou tarde.

Em menos de uma hora o lugar estava tomado por peritos e policiais. Sherlock já havia feito todas as anotações mentais de que precisava, então não se importou muito com o que ele costumava chamar de “destruição da cena do crime”.

– Foi ataque cardíaco, obviamente. Era uma senhora de mais de setenta anos, morava sozinha e morreu tomando o seu chá costumeiro no quintal. Simples. – deduziu Anderson se sentindo um gênio, lançando um olhar de superioridade para Sherlock que retribuiu com um olhar de desdém.

– Não foi ataque cardíaco, sua ameba. – respondeu o detetive.

– Ei! Não me ofenda!

– Então não comece me ofendendo com sua dedução ridícula.

– Ei, não quero briga aqui. – disse Lestrade tentando evitar uma discussão maior, enquanto arrastava o moreno para longe do perito. – Me fale sobre o que descobriu, Sherlock.

– Como eu disse, não foi ataque cardíaco, foi envenenamento.

– Envenenamento?

– É! Não me faça repetir as coisas. Essa senhora ingeriu uma maceração de Actaea pachypoda, ou Erva-de-São-Cristóvão, é uma planta altamente venenosa, mas a concentração mais letal de veneno está nos frutos, basta um ou dois para provocar um ataque cardíaco fulminante.

– E como tem tanta certeza que ela foi envenenada com esse fruto?

– Simples, eu observo! Você não olhou dentro da xícara?

– Não.

– Para variar não observaram o que era relevante. – disse arrastando o inspetor detetive para o local onde a xícara continuava caída e apontou. – Veja.

Lestrade estreitou os olhos e realmente conseguiu perceber pedaços de frutinhas que lembravam um olho.

– Pode mandar a perícia fazer a pesquisa, Lestrade, esse fruto foi a causa da morte.

– Tudo bem, eu acredito no que diz. E agora?

– Bem, voltamos à estaca zero. – Sherlock respondeu com amarga sensação de haver perdido uma importante rodada do jogo. – Vou ao São Bartolomeu, preciso contar para o John.

– Eu te dou uma carona. – o inspetor ofereceu buscando a chave no bolso do casaco.

– Ah, obrigado, estou sem o dinheiro para o táxi, ia fazer o John pagar para mim. – Sherlock comentou com um sorriso torto.

– Pobre John... – disse Lestrade rindo.

O movimento no São Bartolomeu estava ameno naquele final de tarde, o que possibilitou a John acomodar o corpo em sua cadeira no consultório por tempo razoável. Era bom poder fazer isso depois de estressantes momentos tentando desengasgar uma adolescente que aspirou a camisinha do namorado durante uma animada sessão de sexo oral. O ruim mesmo foi lidar com os pais da garota, ambos uma pilha de preocupação com o acidente e vergonha pela aventura juvenil da filha. Depois do sufoco, John achou muita graça de tudo.

O médico olhou o relógio e constatou o fim do seu plantão, ficou feliz, estava pensando em fazer algo bem nutritivo para o jantar e assim poder obter alguma nutrição decente para se manter de pé pelos próximos dias.

Ele entrou no vestiário com outros médicos, alguns chegando para o plantão, outros, como ele, dando graças de poder ir pra casa no final de uma longa jornada vendo todo tipo de sofrimento humano nos corredores do hospital. Eles, mais do que ninguém, sabiam o quanto os seres humanos são frágeis.

John tirou o jaleco e rodou a chave na porta do seu armário, ao fazer isso, deu um grito pavoroso recuando instantaneamente para trás até esbarrar as costas no armário do sentido oposto, chamando atenção dos colegas em torno.

Dentro do seu armário havia um vaso de vidro transparente, cheio até a borda com um líquido vermelho viscoso, decorado com ramos de duas plantas distintas e ao fundo havia o desenho de uma carinha feliz traçada com o mesmo líquido do vaso.

A respiração do loiro começou a ficar ofegante e fora de controle, o coração despencou em dolorosa arritmia, os ouvidos zumbiam, a pressão arterial desceu e sua mente parecia engolfar-se em ácido e gritos indistintos. Nos segundos seguintes, antes da sua visão escurecer de vez, notou uma conhecida silhueta se aproximar, abrindo caminho entre os médicos que tentavam prestar-lhe assistência.

– S-Sher... – não conseguiu terminar. Tombou inconsciente.

Continua...

Notas finais
No próximo capítulo nosso querido John terá sua paciência e autocontrole pressionados mais uma vez pelas maluquices e extrema franqueza do nosso amado detetive consultor, Sherlock Holmes. Até o próximo sábado! Beijos!