O Último Voo

1 Cigarro e aroma de maçãs


A brisa trazia o aroma das macieiras do pomar ali perto, deixando o clima mais doce do que se esperava que a guerra permitisse. O decorrer daquela tarde no vilarejo de Assinovskaya havia sido tranquilo e quente, tanto que a maior parte do 588º Regimento apenas aproveitou a tarde para lavar roupas ou nadar no curso d'água próximo, escrever para casa e cochilar. Natalia e Yelena escolheram a última opção, pois a noite seria longa.

As noites sempre eram longas.

Mas o Sol ainda estava laranja quando as duas encostaram-se sobre os mantimentos que trouxeram até aquele ponto, tirando um cigarro para fumar enquanto não estavam em ação. O ocaso trazia divagações junto com as estrelas, conversas cruas e frequentemente com poucas palavras. Não havia necessidade de maiores explicações, todas entendiam o que uma queria dizer à outra. O ano era 1942 e elas estavam em guerra para derrotar o inimigo da pátria, não havia muito que se falar além disso. Sentiam saudades de casa, da família. E não iriam recuar, não após tantas provações e após a morte de algumas companheiras de equipe. Talvez nunca.

E as palavras de Moscou ás tropas soviéticas eram severas. Nenhum passo para trás. Chegara a hora de interromper quaisquer retiradas e enfrentar o inimigo da Mãe Pátria.

Yelena tragou mais uma vez o cigarro, seus lábios rosados já um tanto secos e rachados pelo fustigar do vento. Era consequência do clima, consequência do ar impiedoso lá em cima. As moças até poderiam desafiar a natureza e voar nos frágeis bimotores Polikarpov, no entanto a natureza também cobrava seu preço. Apesar da coragem, voltavam trêmulas. Muitas não conseguiam dormir direito, mas era pior ainda não sair em missão. Irina Rakobolskaya, vice-comandante, tirava poucas horas de sono devido à quantidade de detalhes a se decidir e programar, e preferia ir aos céus no avião a ficar ancorada na terra esperando que o restante das companheiras regressasse. A espera era tão dolorosa quanto uma bala inimiga, por mais que não fosse um golpe letal.

Natalia concordava. Não é raro certa ideia ocupar sua cabeça, um pensamento caótico e certeiro: Desejava um imenso bombardeio, o céu pintado de vermelho e luzes. Um espetáculo de horror definitivo e grandioso, para que finalmente se encerrasse tamanha dor. Ao fim, as moças agradeceriam os aplausos e as cortinas se fechariam. Se sentiria falta dos céus? É claro. Voar era exatamente como qualquer fantasia infantil dizia que era, talvez até melhor. Mas não sentiria falta do luto antecipado, nem do luto confirmado.

Antes que pudesse refletir de novo sobre a morte tão próxima, a voz rouca de Yelena a fisgou de seus pensamentos. Seu olhar era franco e distraído, parecia até uma boneca loira nas roupas erradas, mas Natalia não sabia se gostava da comparação. Yelena era tudo, menos uma pessoa vulnerável, e o termo “boneca” muito bem poderia ser mais um dos apelidos ácidos dos regimentos masculinos. Chamavam-nas de “senhoritas” com um tom de deboche, ou mais diretamente de “tolas”. Era estúpido, mas nada impressionante a hostilidade com qual eram tratadas pelos companheiros do próprio país, do mesmo lado da guerra. Oficiais, comandantes, instrutores no treinamento. No quesito apelidos, Natalia considerava que os alemães levavam vantagem. Nachthexen, as Bruxas da Noite.

Silenciosas. Habilidosas. Letais.

— Você se lembra? — A loira disse, a luz do sol poente deixando seus olhos muito claros. Ao fundo, as mecânicas davam os últimos acertos nos bimotores e outras conferiam o carregamento das bombas. — Do começo?

Qual começo?

A pergunta era pertinente. Existiam inúmeros começos naquela história e Yelena poderia se referir a qualquer um deles. Seria o momento em que provaram as roupas grandes demais na Academia Zhukovsky, ao serem admitidas para o combate aéreo em 1941? Quando viram Marina Raskova? Ou pouco depois, quando todas cortaram as longas tranças em Engels?

A outra poderia também querer falar do instante em que subiram em um avião que mais parecia um brinquedo, o modelo Polikarpov de madeira e lona. Feito em meados dos anos 20 para fins agrícolas, perfeito para cair em chamas durante um combate aéreo. E, ainda assim, as moças os transformaram em bestas temidas.

Talvez a associação de bonecas em aviões de brinquedo de fato fizesse sentido, mas Natalia não admitiria isso para ninguém. Preferia ser uma figura cheia de mistério e poder, impossível de pegar e especialmente próxima da destruição. Diria que eram quase como aranhas, pequenas em tamanho e implacáveis em veneno. Sua boca, porém, foi indiferente a tais considerações e só voltou questionar:

— Quando entramos em guerra?

— Não, antes. Na companhia de dança.

Natalia quase sorri. Era a memória de outra vida.

— A primeira vez que nos vimos. — A ruiva via a si mesma na terceira pessoa, como se enxergasse ainda uma menina que conhecia tão pouco. E não podia falar de si, nem de Yelena, como se não fossem moças completamente diferentes. Talvez tão ingênuas quanto os cisnes que buscavam simular no ballet. — As duas queriam ser bailarinas e nenhuma delas conseguiu a vaga, afinal.

— Eu pensei que você conseguiria, de verdade.

— Engraçado, — Natalia estendeu a mão e sua companheira deu-lhe o cigarro. Após uma longa tragada, ela o devolveu. — Eu pensei a mesma coisa de você.

Quaisquer as memórias que a loira tinha daquele dia, de repente não eram mais importantes à conversa. Não pareciam importantes agora de todo modo, as roupas bonitas e a graça de se movimentar ao som de Tchaikovsky. Muitas do 588º Regimento eram estudantes, como a própria vice-comandante Irina, outras criavam galinhas e vendiam ovos. Yelena Belova e Natalia Romanova dançavam e, assim como ocorreu com todas as aviadoras, tal passado ficara para trás. As sapatilhas haviam sido trocadas por botas números maiores do que o necessário, grossas e perfeitas para a umidade e o frio.

Natalia sabia o peso de uma arma na mão, o recuo violento em seu ombro. Parecia um coice. Suas mãos eram aptas a calcular a distância que deveria jogar um explosivo e principalmente estavam acostumadas a controlar o manche do bimotor. Se tudo mais falhasse e, caso ainda sobrevivesse à uma acidente com o avião sem um maldito paraquedas, seu treinamento havia ensinado-lhe a sobreviver com os próprios punhos.

— Quando você acha que vai ser o fim, Natalia? Se houver um fim.

A ruiva pegou o cigarro das mãos de Yelena. Pensar no final de tudo era igualmente distante quanto pensar no começo e ela queria um gole de vodka para acalmar os nervos, por mais que entendesse que este desejo fosse frívolo e inútil. Não havia álcool e, mesmo que houvesse, não era sábio pilotar embriagada.

— Não posso responder isso, Yelena. Nenhuma de nós pode. — Soltou uma baforada de fumaça e fechou os olhos para sentir os últimos raios de Sol no rosto. A noite caía e as Bruxas se levantavam para alcançar o ar. — Mas sempre subimos no avião como se fosse a última vez, tanto para morte quanto para o fim.

— E sempre almejando pela última opção.

— É. — Deu de ombros. — E seria incrível, não? Subir e voltar pela última vez.

Yelena assentiu, solene. Sua atenção estava fixa em algum ponto a frente, mas não havia nada além de grama e sujeira; além disso, só as macieiras carregadas. No fundo, é como se ela soubesse tudo o que iria ainda acontecer.

— O último voo.

Sim, Natalia concordou com um aceno lento. O último voo. Sempre esperado, de um modo ou de outro. As demais integrantes do 588 º regimento já se levantavam e era hora de partir. Irina deu as últimas coordenadas, sua voz sem vacilar um único instante. Havia assentamentos alemães não muito distantes do vilarejo e os Polikarpov sairiam do pomar para atingi-los bomba atrás de bomba durante toda a madrugada. A ruiva podia sentir já a névoa cobrindo o bimotor, as manobras arriscadas que teriam que executar em meio às nuvens. Quando estivessem perto, iriam desligar os motores para que fossem silenciosas.

O inimigo só notaria tarde demais e o seu último pensamento seria o apelido delas:

Nachthexen.

— Vamos, Yelena. — A ruiva ficou de pé e jogou o cigarro no chão, pisando para apagar sua ponta. Depois, ajeitou o gorro do seu uniforme. — Vamos voar.

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