O Último Suspiro do Cavaleiro
1 O Último Suspiro do Cavaleiro
O peso da escuridão era sufocante, como se o próprio ar tivesse sido substituído por algo vivo, pulsando com malícia. Cada passo que eu dava no solo quebrado de Oolacile parecia afundar-me ainda mais no Abismo, e eu sentia cada fibra do meu corpo protestar, cada músculo implorar por descanso que eu não podia conceder. O Abismo não era apenas um lugar, era uma presença, uma força viva que conhecia cada fraqueza, cada dúvida, cada lembrança que me mantinha humano.
Eu havia atravessado incontáveis batalhas, enfrentado monstros, sombras, horrores que fariam qualquer homem enlouquecer. Mas nada me preparara para o que sentia agora: a corrupção insidiosa que rastejava por dentro de mim, tentando distorcer a minha mente e o meu coração, tentando apagar tudo o que eu era. Cada golpe que desferia parecia custar um pedaço da minha alma, e ainda assim, continuava a avançar, porque havia algo que eu não podia perder: a memória de Ciaran.
Enquanto atravessava corredores e ruínas cobertas pela névoa, os meus pensamentos voltavam para ela. Ciaran, silenciosa e constante, sombra e luz entrelaçadas, o fio que me mantinha ancorado à humanidade. Lembrei-me do seu olhar, da forma como corria sem hesitar para mim, da devoção silenciosa que sempre me acompanhara. Lembrei-me da última vez que a vi antes de atravessar o Abismo: os seus olhos cheios de medo, mas também de determinação, e as palavras que nunca esqueci.
“Promete-me algo, Ciaran… que espereras. Que, se eu não voltar, manterá este momento vivo em ti.”
Eu queria poder dar-lhe algo além de promessas. Queria poder protegê-la, não apenas com a força da espada, mas com a minha própria existência. Mas o Abismo era mais rápido, mais astuto, e eu podia sentir a sua presença corroendo a minha mente, sussurrando dúvidas, distorcendo cada lembrança que me mantinha firme. Cada passo era um esforço sobre-humano, cada respiração um desafio à vontade de permanecer humano.
Em meio à escuridão, os meus pensamentos voltaram-se para Gwyn, para os outros cavaleiros, para a fortaleza que deixei para trás. Eles tinham um mundo a proteger, um equilíbrio a manter, e eu era apenas um homem ou talvez algo mais que havia decidido enfrentar o impossível sozinho. Sempre fora assim: sozinho, determinado, carregando o peso do mundo nas costas. Mas agora, a solidão tinha um sabor diferente. Tinha medo, tinha desejo, tinha arrependimento. E acima de tudo, tinha amor.
Amor. Essa palavra ressoava na minha mente como uma luz fraca em meio à escuridão, lembrando-me de Ciaran, da sua sombra constante, dos seus gestos silenciosos, da sua coragem. Era por ela que continuava, mesmo quando a corrupção avançava, mesmo quando sentia a escuridão arranhar a minha mente e tentar moldar-me ao seu próprio desejo. Eu não podia ceder. Não ainda.
A cada batalha, sentia partes de mim fragmentarem-se. A espada que empunhava estava pesada, não apenas pelo metal, mas pelo peso das vidas que dependiam da minha resistência, pelo preço da minha própria humanidade. A corrupção tentava convencer-me de que eu não era mais Artorias, que não podia ser salvo, que o Abismo tinha direito sobre mim. E ainda assim, eu lutava. Lutava porque havia uma razão maior, uma âncora invisível que mantinha o meu coração firme.
Numa das batalhas mais ferozes, senti a necessidade de agir de forma desesperada para proteger alguém que não podia falhar: o meu braço dominante quebrou-se com o impacto de um ataque brutal, mas resisti, segurando a espada com esforço titânico. Usei o meu escudo para proteger Sif, absorvendo o golpe destinado ao meu companheiro. Cada movimento custava mais do que qualquer músculo poderia suportar, mas cada vida salva tornava o sacrifício inevitável. Mesmo quebrado, o dever falou mais alto que a dor. E assim, protegido, Sif conseguiu recuar e afastar-se do campo de batalha, seguro, após ter ordenado para sair dali. De início ficou confuso, mas deixou-me para enfrentar o Abismo.
Em um momento de silêncio raro, parei numa clareira esquecida, apenas eu e a névoa. O peito pesado, a respiração irregular, e pela primeira vez em muito tempo permiti-me sentir o medo sem tentar escondê-lo. Fechei os olhos e visualizei Ciaran, o rosto dela iluminado pela lembrança da última confissão, o calor que sempre trazia ao meu coração, mesmo nos momentos mais sombrios.
“Ciaran… se eu me perder, lembra-te… lembra do que éramos. Lembra do amor que nos unia.”
A dor da corrupção era intensa, como se a minha alma estivesse a ser lentamente desfiada. Podia sentir a escuridão avançando, tentando apagar tudo que me fazia humano, tudo que me conectava àqueles que amava. Cada respiração era um esforço, cada pensamento um campo de batalha interno. Mas ainda havia esperança. Ainda havia ela. Ciaran. A minha sombra, a minha âncora, a minha verdade no meio à mentira do Abismo.
Com esforço titânico, levantei a espada mais uma vez. Cada movimento custava mais do que qualquer músculo poderia suportar, mas era necessário. As criaturas do Abismo surgiam, deformadas e famintas, mas eu não hesitava. Cada golpe, cada defesa, era um lembrete para mim mesmo: ainda sou o Artorias. Ainda posso lutar. Ainda posso proteger.
E então, em um momento de clareza que parecia transcender a realidade, senti a presença dela mais forte do que nunca. Era como se, em algum nível, Ciaran estivesse comigo, mesmo fisicamente distante. Eu podia sentir a sua coragem, o seu amor, a sua determinação, entrelaçando-se com a minha própria força. E por um instante, a corrupção recuou, hesitando, incapaz de enfrentar aquilo que nem mesmo o Abismo podia apagar: a conexão entre dois corações que se recusavam a ceder.
— “Ciaran… aguarda-me… se eu cair, lembra-te…” — sussurrei, voz fraca, mas carregada de convicção. — “Lembra do que somos… do que sentimos…”
A dor crescia, insuportável, e eu sabia que a corrupção estava próxima de me consumir totalmente. Cada segundo de consciência era um presente, cada lembrança de amor um escudo frágil contra a escuridão. Eu podia sentir minhas forças diminuindo, podia sentir o Abismo tentando arrastar-me para um lugar de onde não haveria retorno. Mas a lembrança dela, Ciaran, mantinha-me de pé.
A última visão que guardei antes de ceder à escuridão foi dela, o rosto firme e doce, a promessa silenciosa de que esperaria. E com essa lembrança, respirei fundo, sentindo o peso do mundo e do amor, sabendo que, mesmo que me perdesse, algo de mim permaneceria com ela.
E então, enquanto a névoa avançava, envolvendo-me completamente, senti uma paz estranha. Não era vitória, não era derrota, era aceitação. Aceitação de que o sacrifício era necessário, de que o amor que carregava era mais forte que o Abismo, mesmo que o meu corpo fosse corrompido. E com esse pensamento, mesmo nos últimos fragmentos de consciência, um sorriso atravessou o meu rosto.
“Ciaran… sempre… contigo…”
O Abismo finalmente reclamou-me, mas na minha mente, no meu coração, a chama do amor silencioso permanecia viva, uma promessa que nem mesmo a escuridão poderia apagar.
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