Uma chuva torrencial castigava a Fenda do Biquíni naquela manhã um tanto atípica sem toda a faminta clientela superlotando o Siri Cascudo, o que só aumentava, minuto após minuto, o desespero de Siriguejo que andava de um lado para o outro próximo de um entediado Lula Molusco em seu posto no qual operava a caixa registradora.

— Mas o que está havendo? O rapaz está atrasado já faz duas horas! Ah não! — disse Siriguejo no instante em que via um cliente sair do restaurante cambaleando de fome — Não, não vá! Fique mais um pouco, espere só mais uns minutinhos, meu mestre-cuca já vem! — gritou aflito, correndo atrás do sujeito.

O cliente, um peixe de pele azul usando bermuda floral verde e amarelo, mal conseguia sustentar suas pernas firmemente, acabando por desmaiar poucos metros da porta. Antes que Siriguejo abrisse, um raio caiu atingindo o cliente não atendido, desintegrando-o. Siriguejo berrou de espanto e colou sua costas na porta dupla para bradar aos poucos clientes:

— Ninguém sai até Bob Esponja aparecer! Fui claro? Estão presos aqui comigo!

Voltou para perto de Lula Molusco em meio as reclamações.

— Eu não acredito! Bob Esponja jamais prevaricaria com seu ofício, faça sol ou chuva.

— Eu nem sequer ouvi a voz dele hoje. O que foi um alívio, claro. — disse Lula Molusco, sorrindo consigo mesmo — Mas quem vai ser louco de sair nessa tempestade que acabou de piorar? Olha o que aconteceu com aquele infeliz.

— Eu sei que estão reclamando da demora do Bob Esponja. Mas já liguei inúmeras vezes pra casa dele e não atende. Será que adoeceu? Não, ele teria me avisado. Deu uma folga pra si mesmo? Isso é uma insanidade vindo dele!

— Não mesmo, isso já é mais do meu feitio. — disse Lula Molusco.

— Lula Molusco, não tenho escolha a não ser mandar você fazer os hambúrgueres. — declarou Siriguejo apontando sua pata direita ao cefalópode.

— Ficou louco? Eu não me aproximo daquela chapa nem por um aumento! — rebateu ele, enraivecido.

— Bob Esponja precisa vir antes que a tempestade passe! — disse Siriguejo, agarrando os próprios olhos a ponto de querer arranca-los. Começou a chorar feito uma criança — Eu quero o Bob Esponja aqui! Alguém me traz o Bob Esponja!

— Falando no diabo... — disse Lula Molusco com sua expressão habitual de mau-humor. Siriguejo olhou para a porta. Lá estava seu estimado mestre-cuca, parado no lado de fora olhando fixamente para o interior do restaurante. O clarão de um raio tornou seu olhar paralisado de tensão um tanto sombrio. Bob Esponja adentrou, torcendo o chapéu de cozinheiro para tirar a água.

— Bob Esponja, por onde andou? Abandonou o seu velho chefe aqui, quase infartando pela sua ausência! Estou feliz que finalmente tenha vindo! — disse Siriguejo que logo alterou sua expressão — Mas vou descontar metade do seu salário por esse atraso sem justificativa! Que não aconteça de novo!

— E não vai acontecer, Seu Siriguejo. — disse Bob Esponja, olhando tristemente para o chefe.

— Lógico que não, eu nunca duvido da sua disciplina, meu jovem.

— Mas não vai mais acontecer mesmo.

— Eu sei que não, acredito na sua diligência.

— Seu Siriguejo, eu disse que não vai mais acontecer porque... — disse Bob Esponja, se irritando. Mas sua postura cabisbaixa voltara ao completar a frase — ... eu me demito.

Ao ouvirem aquilo, os clientes soltaram arquejos de surpresa e espanto. Um deles, inclusive, chegou a se engasgar com o suco. As pupilas de Siriguejo dilataram. Lula Molusco ficara boquiaberto, literalmente de queixo caído.

Siriguejo desatou a rir, tratando a fala como uma mera piada.

— Muito bem, boa tentativa, rapaz! Mas caso não tenha visto, estamos a dois dias do primeiro de abril, olhe. — disse ele mostrando um calendário — Agora ponha seu chapéu e vá para a cozinha preparar os hambúrgueres antes que a tempestade acabe e meu dinheiro se vá.

Siriguejo se aproximou rápido de Lula Molusco para cochichar.

— Ele só pode estar brincando, não é?

— Não sei, Seu Siriguejo. — disse Lula Molusco, seus tentáculos tremendo — Nunca vi o Bob Esponja desse jeito, tão... chateado. Ele está diferente. É como se...

— Cale-se, Lula Molusco. — mandou Siriguejo, fechando a boca do empregado com sua garra direita — Você tira péssimas conclusões. — voltou para Bob Esponja — Hora de ir, rapaz. Não fique aí parado me olhando com essa cara de quem não recebeu mesada. Já pra cozinha! Não tolero brincadeiras de mau gosto comigo.

Porém, Bob Esponja reafirmou sua posição, desta vez largando o chapéu. Siriguejo começou a suar frio com tal atitude, encarando aquilo com imenso temor. Um olhar de indignação se estampava no rosto esponjoso, quadrado e amarelo.

— Faça você seus hambúrgueres nojentos. Eu me demito! — disse Bob Esponja em voz alta. Siriguejo boquiabriu-se, ouvindo aquele absurdo ecoar nos seus ouvidos junto ao vozerio escandaloso dos clientes tão terrificados quanto ele.

***

Duas horas antes

Após finalizar a refeição mais importante do dia, Bob Esponja entusiasticamente pegava seu chapéu de mestre-cuca, o acariciando com grande orgulho ao coloca-lo na cabeça. Seria o início de mais uma manhã deliciosa preparando a iguaria mais prestigiada da cidade.

— Ai, Gary, é sempre uma honra servir ao povo da Fenda do Biquíni fazendo todos se sentirem felizes com meu trabalho impecável. O melhor emprego do mundo, não trocaria por nada. — disse ele ao seu caracol que soltou um miau em resposta. A campainha havia tocado, lhe plantando uma estranha dúvida — Visitas a essa hora? Quem será?

Passou pela sala indo abrir a porta. Ao fazê-lo, deparou-se com um homem do correio trazendo uma prancheta com papel e uma caneta, além de um pacote de papelão.

— Sr. Bob Esponja Calça Quadrada? — perguntou o carteiro, um peixe amarelo.

— Eu mesmo. É pra mim? Nossa, uma encomenda! Ninguém nunca me manda presentes assim. — disse Bob alegremente.

— Assine aqui, por favor. — disse o carteiro entregando a prancheta e a caneta. Bob assinara seu nome rapidamente e recebera o tal pacote — O remetente não quis se identificar.

— O quê? Mas por quê?

— E eu sei lá, tô pouco me lixando. — respondeu o carteiro, entediado. Bob devolvera a caneta e a prancheta, olhando para o pacote misterioso — Obrigado, tenha um bom dia.

O carteiro fora embora e Bob Esponja não tirava os olhos da caixa ao fechar a porta.

— Gary, estou sendo tentado a abrir, mas está na minha hora de ir pro trabalho. O que faço?

Gary miou, o que Bob Esponja considerou uma afirmativa de que deveria desembrulhar.

— OK, curiosidade, você venceu! — disse Bob, logo abrindo o pacote numa velocidade surreal — Oh, uma fita de vídeo. — falou, analisando a fita K7 grande que possuía um papelzinho colado com os dizeres "A verdade pela qual dei a minha vida". Bob leu a frase — Hum, isso só pode ser... Um episódio inédito do Homem-Sereia e Mexilhãozinho! Eles mandaram diretamente pra mim como uma surpresa!

Olhou no relógio de pulso.

— Acho que o Seu Siriguejo não fica bravo com um atraso de uma hora. Vamos assistir essa belezura agorinha mesmo, Gary!

Pusera a fita no videocassete e sentou no chão mal se aguentando de ansiedade. O vídeo iniciou contrariando a expectativa de Bob que estranhou logo de imediato. Na tela apareciam palavras dizendo "Por dentro da fábrica do hambúrguer de siri: o controle de qualidade" com um fundo preto. De repente, o Seu Siriguejo surgia usando um terno cor vinho apresentando uma expressão séria.

— Seu Siriguejo?! Mas eu achei que... Ah, sem dúvidas é um filme sobre a fabricação do hambúrguer de siri exclusivo pra funcionários! Será que o Lula Molusco também recebeu?

O siri avarento proferia seu discurso com imagens da fábrica de hambúrguer de siri ao fundo.

— Olá, meus caros sócios. Venho lhes mostrar etapa por etapa o processo de produção do hambúrguer de siri, bem como seu maciço controle de qualidade regido pelos mais capacitados profissionais da indústria alimentícia. Vocês estão prestes a ver como é feito nosso produto de maior consumo entre a população da Fenda do Biquíni, incluindo seu ingrediente mais secreto. Sim, a fórmula que somente eu detenho possui um elemento de suma importância para seu sabor inconfundível e incomparavelmente viciante.

— Eu nunca vi o Seu Siriguejo falar tão bonito desse jeito, até parece um professor. — disse Bob Esponja para Gary, dando uma risada — Mas peraí, que ingrediente mais secreto é esse?

Siriguejo continuava:

— Conferir os procedimentos de fabricação é meramente opcional. Se quiser saber logo qual o ingrediente ultrassecreto, aquele que não está listado no papel onde consta a fórmula, pode avançar para dez minutos.

Bob Esponja pulou para o minuto indicado com o controle remoto e o vídeo avançou depressa.

— Muito bem, chegamos na parte mais crucial. Vocês podem ver aqui atrás de mim de onde extraímos a matéria-prima para produzir nosso produto.

Um arrepio atravessou o corpo de Bob Esponja quando ele cravou os olhos nas imagens que valiam mais que mil palavras. Tivera uma tremedeira incontrolável. Gary o olhava, curioso. O caracol voltou-se para a TV, vendo o que deixava seu dono tão abismado e se recolheu para dentro do seu casco.

— Oh não... Não pode ser verdade... — dizia Bob Esponja parecendo entrar num estado de choque. Engatinhou até a TV, a expressão de puro horror encarando as imagens assombrosas — É mentira...

Siriguejo mostrava fotos de seus pares sem suas carapaças sendo submetidos a processos rudimentares de abate, alguns mandados até vivos ainda para tonéis de cozimento e fornalha e outros tendo suas garras e olhos arrancados.

— Como podem ver, o ingrediente ultrassecreto não é nada mais que carne de siri com alguns aditivos extras na mistura. Essa é a fase mais primária do procedimento. Por favor, não me julguem como um monstro sem coração, eu tenho aval da agência reguladora e a legislação prevê isso em lei, nada aqui é clandestino. Infelizmente, tive que apelar em prol do meu patrimônio a fim de dar o melhor sustento a minha amada filha Pérola... que nunca deve jamais ver esse vídeo. Aliás, nenhum funcionário meu deve assistir isso, em hipótese alguma. Esta gravação é restrita a sócios da empresa. Este conteúdo não deve vazar a público sob nenhuma circunstância. É altamente sigiloso, assim como a própria fórmula. Não deixem que isso chegue ao conhecimento de ninguém fora do nosso círculo. Nem da população, nem da imprensa... e nem do meu estimado mestre-cuca, Bob Esponja.

A imagem de Siriguejo ia se distorcendo como se a filmagem tivesse alcançado um limite de boa resolução até que acabasse. Bob Esponja ficara estático por um instante, em total assombro com o que viu e ouviu. Teve um súbito rompante de histeria, gritando alto e em seguida indo vomitar em jatos pela janela.

Depois, correu pela sala chorando em piruetas e vomitando mais vezes. Gary botava os olhos para fora, abaixando-os para não ser acertado pelos objetos que seu dono jogava pelos lados. Após o surto, Bob pegara seu chapéu de cozinheiro, andando lentamente até a porta. Gary o seguia.

— Eu estou bem. — disse ele, saindo. Uma nuvem de tempestade se aproximava. O caracol miou triste — Não, hoje eu não vou trabalhar, Gary. — decretou, a voz embargada, sentindo os primeiros chuviscos caírem. Fora embora, fechando a porta num baque surdo.

***

Sete dias depois

O período de reclusão foi dolorosamente enfrentado por Bob que ignorava as constantes ligações que ele sabia serem de Siriguejo. O empreendedor inescrupuloso devia estar em um ataque de nervos com a recusa de seu melhor funcionário em servir ao Siri Cascudo. Mas na cabeça de Bob pairava a dúvida se o ex-chefe deduziu que sua postura insurgente significava seu conhecimento quanto ao vídeo tenebroso.

A esponja estava sentada no centro da sala, o único ponto iluminado da casa. Joelhos dobrados e agarrados, além dos olhos arregalados e vidrados na fita a sua frente, uma expressão travada no horror incessante.

— Se passaram sete dias... Seu Siriguejo não veio bater na minha porta até agora... Será que ele pensa que enlouqueci? Será que não imagina que eu saiba dessa maldita fita? — se perguntava ele, suando bastante — Para quem devo mostrar essa fita, afinal? Ou devo queima-la... Não! A justiça precisa ser feita, o povo da Fenda do Biquíni merece a verdade. Mas eu quero que mais alguém conheça a monstruosidade por trás disso. Patrick? Não, ele não colabora com nada, só iria atrapalhar. Sandy? Ah, lembrei, ela voltou para o Texas por uns tempos. Lula Molusco? Ele agora tá no Siri Cascudo, fora que ele odeia receber visitas.

Gary rastejou até seu dono miando tristemente.

— Desculpe, Gary, já vou dar sua comida. Estive pensando esse tempo todo no que fazer. Isso é uma tragédia. Nem consigo mais dormir. A minha carreira de mestre-cuca foi uma mentira. — disse Bob que lutava para não se debulhar em mais lágrimas. Uma ideia nascera — Espera... Tem apenas um alguém a quem posso recorrer.

Bob Esponja finalmente havia se encorajado a sair de seu isolamento depressivo, enfrentando o frio vento de inverno em direção ao lugar onde residia o único da sua lista de conhecidos que poderia lhe fornecer as respostas necessárias.

Abriu a porta do Balde de Lixo com força, seu semblante severo.

— Ei, mas que invasão é essa? — questionou Plankton, vindo até seu inesperado visitante — Já vou logo dizendo que não tenho nenhum plano reservado pra roubar a fórmula do hambúrguer de siri! Estou sem ideias!

— Não, Plankton, hoje eu vim tratar de um assunto extremamente grave com você.

— O quê? Mas o que deu em você? Está tão... sério e irritado. O que fez desaparecer aquele sorriso idiota na sua cara? Deve ter sido bem grave mesmo. — disse Plankton, curioso — O que está escondendo aí atrás?

— Isto. — disse Bob mostrando a fita — Quer ver um filme de terror bem realista?

Após assistir ao vídeo no enorme monitor do seu computador avançado, Plankton não esboçava reação de incredulidade, sequer um traço de espanto. Sobre a mesa, ele virou-se para Bob Esponja com expressão tranquila.

— O que foi? Não vai dizer nada? — perguntou Bob.

— Não é nada que eu já não soubesse. — revelou Plankton — Pouco me importo com a sujeira que o Siriguejo varreu pra debaixo do tapete em todos esses anos. A única questão importante é quem te enviou essa fita. Eugene pode não ter ido procurar você por estar caçando o informante.

— Mas se ele pensasse que me demiti por descobrir isso, ele teria vindo à minha casa me convencer a voltar pro Siri Cascudo.

— Não creio nessa hipótese. — disse Plankton, pensando com a mão no queixo — Ele tomou como prioridade identificar quem vazou essa informação. Sem dúvidas ele não pensaria em outra razão pra justo você se demitir que não fosse essa.

Bob demonstrou tristeza ao absorver aquilo como uma certeza.

— Então, acabou? Meus dias de mestre-cuca terminaram?

— O que você acha? A verdade apareceu e daqui pra frente nada será como antes, especialmente sua vida.

— Minha vida perdeu o sentido. — disse Bob, lacrimejando — Nada mais faz sentido! — baixou sua cabeça, soltando o choro copioso e exagerado. Plankton revirou seu olho.

— Escolheu o lugar errado pra vir chorar suas pitangas. Não há nada que você possa fazer pra reverter esse estrago, já era. — falou o vilão, de braços cruzados e olho fechado.

— Não mande ele embora, Plankton. — disse Karen — Acho melhor contar de seu passado com Siriguejo, a parte que você mais odeia falar.

Bob se recompôs, tomando curiosidade.

— Contar o quê?

— Siriguejo e eu éramos grandes parceiros de infância, a gente não se desgrudava um do outro. Quando resolvemos abrir um negócio de fast-food pra atrair a clientela de um cara chamado Fedorento que vendia hambúrgueres de puro lixo, firmamos uma sociedade como jovens e bem-intencionados empreendedores. Até o dia em que me dei conta de que o único bem-intencionado... era eu!

— O que Seu Siriguejo fez? — perguntou Bob, tenso.

— Ele sugeriu usar a própria carne como ingrediente do hambúrguer depois de ter sofrido um acidente que o fez sentir o gosto bom dela. Ele tem um apetite canibal, um completo doente. Fui contra enganar as pessoas como ele queria e desfiz nosso trato. Daí nos tornamos os inimigos que somos hoje. Eu fundei o Balde de Lixo para roubar a fórmula pensando em melhora-la e destruir o império de sacrifícios brutais que ele ergueu. E então, Bob Esponja? Ainda sou o cara mal?

— Nunca pensei que o hambúrguer de siri tivesse carne de siri entre os ingredientes. — disse Bob, o desânimo lhe pesando na cabeça.

— E de onde você achou que viria a carne usada para fabrica-lo? Está no próprio nome: hambúrguer de siri! Mas você e o povo tapado dessa cidade jamais perceberiam isso! — falou Plankton em tom de sermão.

— Seu Siriguejo... ele só usou da minha inocência e meu talento pra faturar mais dinheiro. — disse Bob, a raiva assumindo.

— E só agora você cai na real. Antes tarde do que nunca. Como deseja curar esse arrependimento amargo em trabalhar pra um ser desprezível e sem amor pelos seus semelhantes?

Bob encarou Plankton com uma dura seriedade.

— Vou expor a fita pra população. Levando pra uma emissora de TV, eles vão deixar. Quero que seja no noticiário da noite.

— Tá decidido mesmo? Quanta ousadia. Mas e se mesmo assim algumas pessoas não acreditarem? Siriguejo alienou muitos com esse hambúrguer. Arrisco dizer que foi o hambúrguer e sua mistura diabólica que limitou o intelecto dos habitantes desse fim de mundo.

— Ei, diga o que quiser do hambúrguer de siri, mas respeite o povo da Fenda do Biquíni! — repreendeu Bob apontando um dedo a Plankton.

— Mas é verdade, seu palerma! A lista de ingredientes sem a carne de siri é altamente nociva a saúde. Tirando ela o hambúrguer do Fedorento vira um néctar dos deuses se for comparar. E aí, o que vai fazer? Eu diria que você deveria me dar a fórmula agora mesmo.

— Não! Você confundiu as coisas, Plankton, não vim aqui pra me tornar seu aliado!

— Então de que lado você vai ficar? — indagou Plankton, sua irritação crescendo.

— Do meu! Não vou voltar atrás da minha decisão!

— Escuta aqui, ô sua besta quadrada! — disse Plankton, aproximando-se com autoridade — Você não tem muitas opções. Um: se voltar pro Siriguejo, será um criminoso. Dois: se levar a fita a público, será um traidor. E três: se me entregar a fórmula, será um herói!

— Chega! — esbravejou Bob, sua boca alargando-se com a raiva chegando ao limite, fazendo Plankton ser empurrado — Não vou deixar você me manipular! Pensa que só porque ouvi sua história que te acho o cara bonzinho? Está muito enganado! O Seu Siriguejo pode ser o que for, mas jamais me aliaria a alguém que tentou sempre roubar a fórmula para o mal!

— Que parte de "eu fundei o Balde de Lixo pensando em melhorar a fórmula" você não entendeu?

— Por que eu acreditaria em você? — questionou Bob Esponja, inclinando-se com os olhos semicerrados e sérios para o minúsculo ser.

— Sou o único capaz de desmoronar com o esquema nefasto do Eugene. Uma vez que eu use a fórmula para fabricar um hambúrguer superior, adeus hambúrguer de siri, adeus Siri Cascudo e adeus burrice coletiva! E além disso, siris inocentes não terão que morrer pra encher os bolsos daquele canalha!

— Lamento, Plankton. Eu posso estar desiludido com o Seu Siriguejo, mas nunca vou unir forças com alguém que não sei se posso confiar. — disse Bob Esponja, indo embora — Ouviu bem? Nunca! — atravessou a porta dupla, mas logo retornou mostrando só a cabeça — Nunca!

— Bob Esponja, pense direito! — disse Plankton, descendo da mesa e correndo na ânsia desesperada de convencer a atordoada esponja — Com a fórmula em meu poder, Siriguejo terá uma derrota mais merecida! Não vai embora! — se largou frente a porta, chorando. Karen veio até ele no seu corpo mecânico parecendo um monitor cardíaco — Karen, o que eu faço? Ele vai fazer uma besteira! Era minha grande chance de obter a fórmula pro meu plano de acabar com o reinado do Siriguejo! Contei para aquele imbecil amarelo a minha versão dos fatos e ainda assim não sou digno de confiança? Maldição! — resmungou, tamanha sua fúria que rasgou sua pele ao meio.

— Deixe-o ir, não se preocupe. Afinal, o resultado será o mesmo. Com a verdade exposta, Siriguejo vai cair em descrédito pra nunca mais se reerguer.

— Hum, tem razão. Melhor do que dar a volta por cima sobre o Siriguejo, é vê-lo tão afundado na lama quanto eu! — disse Plankton, reavendo sua satisfação ao dar uma risada maligna.

— Ai, se eu não falasse nunca entenderia. Às vezes me sinto grata por não ser de carne pra não ter que comer desse hambúrguer, assim mantenho minha inteligência. — disse Karen.

***

Enquanto se dirigia a emissora de TV, Bob parou ao lembrar de uma tarefa não cumprida.

— Essa não! Esqueci de alimentar o Gary! Tenho que voltar depressa!

Correu em retorno à sua casa o mais rápido que pôde, o vento gélido da noite batendo violento no seu rosto. Mais próximo da sua residência, viu um barco estacionado.

— Oh não! Um barco parado em frente à minha casa!? Quem está lá?

Entrou apressadamente, tocando no interruptor para acender a luz, mas a sala permanecia às escuras.

— Molho tártaro! Agora lembrei que como não recebi meu salário, não paguei a conta de luz!

— Talvez eu possa ajuda-lo a contornar esse problema. — disse Siriguejo, virando-se e acendendo uma lanterna abaixo do queixo com uma expressão descontente. Bob levara um susto com aquela presença que lhe arrepiou a espinha.

— O que faz aqui? Por que só agora veio?

— Bob Esponja, tente me ouvir, por favor. Você é como um filho pra mim, o filho que eu nunca tive!

— Não venha com essa conversa sentimental! Antes foi o Plankton, agora o senhor apelando pra manipulação barata!

— Você foi na casa daquele patife insignificante?! Pra se juntar à ele, não é? Como pôde me trair assim? — perguntou Siriguejo com um olhar tristonho.

— Não jurei lealdade a ele! Mas se existe um traidor aqui... ele é o senhor! — acusou Bob Esponja apontando o dedo.

— Então você sabe do vídeo, certo? Aquilo era pra ser altamente confidencial. Eu fui traído, Bob Esponja! Esse vazamento foi obra de um dos meus sócios.

— Pare de se fazer vítima, seu velho sem vergonha e sem caráter! Usa seus próprios irmãos de espécie pra sua máquina de fazer dinheiro continuar girando!

— Não, aquilo é uma montagem! É uma tentativa de sabotagem! Editaram a parte final do vídeo!

— Mentira! — berrou Bob, enfurecido — Era o senhor falando e aquelas imagens horríveis no fundo são reais! — a raiva começava a se converter em tristeza e lágrimas novamente — Eu não posso viver com isso. O Siri Cascudo foi o maior sucesso da minha vida. Eu nunca havia tido uma realização importante até o senhor me oferecer a espátula, o chapéu e o cargo de mestre-cuca. Agora esse sonho morreu diante dos meus olhos sabendo que trabalhei pra um assassino ganancioso em todo esse tempo.

— Está bem... Já não preciso mais esconder nada. — disse Siriguejo — Você sabia muito bem como sempre fui. O dinheiro era mais do que apenas moeda de troca. Sempre soube que eu não mediria esforços pra fazer o que fosse preciso em nome do faturamento. Então se sou um assassino, que seja! Foi pelo dinheiro e se tem algo que amo mais do que minha própria vida é exatamente isso! Dinheiro, dinheiro e mais dinheiro! — falava Siriguejo, aproximando-se de Bob com os olhos esbugalhados cheios de veias — Sabia que eu seria capaz de tudo pra manter o Siri Cascudo de pé!

— Mas não a esse ponto! — disse Bob, recuando e expressando choro e até um pouco de medo — O senhor me dá nojo! O hambúrguer de siri é a maior farsa da indústria! — sua expressão mudara para uma seriedade ameaçadora — E farei com que todos saibam.

— Não, rapaz! Será um desastre pra mim! É assim que vai retribuir anos de oportunidade dada de bom grado?

— Boa tática, mas não vou sair daqui como ingrato. Farei justiça pelos que morreram por essa atrocidade horrorosa que o senhor fez!

— Por favor, não perca as estribeiras! E-eu posso paga-lo o que devo! Veja! — disse Siriguejo retirando notas de dinheiro de bolso — Pague sua luz e outras despesas em troca de não piorar a situação desse vazamento gravíssimo!

— Eu não esperava menos do senhor. Não quero seu dinheiro sujo pelo meu silêncio.

— Eu te entrego o Siri Cascudo, passo ele pro seu nome, você comanda tudo podendo até modificar a fórmula do hambúrguer e eu saio da cidade pra nunca mais voltar, você nunca mais ouvirá falar de mim! — implorou Siriguejo tocando nos ombros de Bob.

— Seu Siriguejo, tire suas mãos imundas de mim! — disse Bob, afastando rudemente as garras do siri — Saia da minha casa, o senhor está invadindo minha propriedade! Ou vou chamar a polícia! — se aproximou do telefone.

— Não é pra tanto, rapaz! Faço o que quiser pra que não cometa esse erro!

— Não será pior do que o erro que o senhor cometeu! Saia daqui, eu não vou pedir outra vez!

— Saio se você aceitar meu dinheiro. Tome, é seu último salário. Não vou obriga-lo a voltar pro Siri Cascudo, posso arranjar outro mestre-cuca.

— Agora que virei uma ameaça eu sou substituível, não é? O senhor não me deixa escolha! — disse Bob numa cólera que assustou a Siriguejo. O ex-mestre-cuca saiu correndo tirando a fita da calça quadrada. Siriguejo o seguiu, entrando no seu barco e partindo para impedi-lo.

— Espere, Bob Esponja! — gritou Siriguejo, a toda velocidade. Bob passou pela casa de Sra. Puff, roubando o barco da professora a fim de não ser facilmente alcançado por Siriguejo.

— Desculpe, Sra. Puff, depois eu devolvo!

— Ei, Bob Esponja! O que pensa que está fazendo? Volte já aqui! — alardeou Sra. Puff que iria entrar em casa.

— Sai da frente! — avisou Siriguejo, atropelando Sra. Puff que foi levada às alturas. Ao cair, a professora inflou instantaneamente.

A perseguição foi relativamente longa, mas Bob se desviou do caminho para a emissora de TV vendo que a polícia estava no encalço dele e de Siriguejo. Ambos os carros bateram e caíram num penhasco. As viaturas da polícia pararam quando ocorreu uma explosão. Chegaram a ouvir alguém gritar.

— A minha perna! — disse uma vítima que passava abaixo.

***

Dois dias depois

Bob acordava lentamente após o tempo internado no hospital de emergência da Fenda do Biquíni com ferimentos do acidente cobertos por bandagens

— Essa com certeza não é a minha cama. — disse ele, meio grogue. O médico, um peixe púrpura, vinha até ele.

— Finalmente recobrou a consciência. Chegamos a pensar que entraria em coma. Se lembra do que aconteceu?

— Sofri um acidente de barco. Há quanto tempo estou aqui?

— Dois dias. Terá de ficar por mais um tempo até seus ferimentos sararem por completo. Você quase morreu. Tivemos muito trabalho para colar seus pedaços. O seu cérebro e olhos saíram para fora.

— Onde está o Seu Siriguejo?

O médico apenas ligou a TV, saindo do quarto com uma expressão pesarosa. Passava um noticiário de última hora.

— As últimas informações de que temos ciência se referem ao futuro do Siri Cascudo após a trágica morte de Eugene Siriguejo.

Bob sentiu o coração sufocar com a notícia.

— Nãããããããooooo!!! — gritara ele, extremamente abalado — Ele podia ser um monstro sem coração, mas não merecia esse fim! — chorou copiosamente.

O repórter prosseguia:

— Uma companhia empresarial está negociando com sócios da firma de Siriguejo a compra do estabelecimento para fundar um shopping center. Ainda sobre o funeral de Siriguejo, nos foi informado de que seu corpo foi retirado do necrotério a pedido de pessoas não-identificadas, fazendo com que o sepultamento contasse apenas com a carapaça no caixão. Chegamos a entrevistar a filha de Siriguejo, Pérola. Confira um trecho.

— E então, como está sendo lidar com a partida de seu pai levando em conta o ocorrido? — perguntou o repórter.

— Está difícil suportar... — disse Pérola, num tom choroso, com vestido e véu pretos. Mas logo a herdeira de Siriguejo mudou drasticamente sua expressão — Mas me alivia saber que vão construir um shopping novo no lugar do Siri Cascudo. Eu recusei os bens do meu pai. Não ia querer chefiar um restaurante sem classe como aquele.

O âncora do noticiário voltara:

— Agora vamos ao vivo direto da rua Búzios falar com o ex-funcionário de Siriguejo, o Sr. Lula Molusco, que conseguiu recentemente um emprego como guarda de trânsito.

Um repórter abordou Lula Molusco que apitava para orientar o trânsito.

— Sr. Lula Molusco, este novo emprego é fixo ou temporário? Por quanto tempo pretende se manter nele?

— Por tempo o suficiente pra esquecer que um dia trabalhei naquela fábrica de colesterol.

— A morte de Siriguejo tem algum significado pra você?

— É claro que tem. — disse Lula, fazendo uma breve pausa — Livramento.

Com a distração pela reportagem, o mais novo guarda de trânsito não se atentou aos barcos e alguns colidiram gravemente na pista.

— Acho que sou o único que se importava com o Seu Siriguejo. — disse Bob Esponja, amenizando o choro — Apesar de todo o horror por trás do Siri Cascudo... minha vida sem ele não significa mais nada. — baixou a cabeça, deprimido — Nada.

***

Dias após a recuperação total de Bob, uma nova encomenda surgia à porta do abacaxi.

— Entrega especial para Bob Esponja Calça Quadrada. — disse o carteiro — Assine aqui, por favor. — entregou a prancheta e a caneta.

Bob ainda conservava traços de seu estado de profunda tristeza com tudo que aconteceu para revirar sua vida de ponta à cabeça. Assinou e recebeu aquele pacote que viera sem remetente tal qual o anterior. Ficou a olhar entediado para a caixa enquanto o carteiro ia embora.

Entrou e desembrulhou o pacote sem nada daquela empolgação de outrora. Dentro da caixa estava um hambúrguer de siri e um bilhete no qual fora escrito "O último de todos. Bom apetite". Bob compreendera a razão daquele hambúrguer ter sido enviado. Não era um mais um hambúrguer aleatório. Fora à cozinha e o fritou, depois montando o sanduíche em cada etapa. Pusera de volta na caixa e no final da tarde, já com o sol se pondo, se encaminhou ao cemitério, parando bem em frente à lápide de Siriguejo. Sentou-se encostando na fria pedra de mármore e retirou o hambúrguer da caixa.

Era um último adeus simbólico, ele definia.

— Seu Siriguejo, esta é minha homenagem a tudo o que o senhor representou, por mais que a realidade seja dolorosa demais pra eu carregar. Você pode ter sido um homem mesquinho e perverso, mas teve generosidade pra transformar minha vida e dar um propósito a ela. Mas sendo o mesmo que deu esse propósito, você também o tirou de mim. E veja só como tudo acabou. — desabafou, olhando triste para o hambúrguer — Pensando bem, é o destino que o senhor merecia.

Dera uma mordida no hambúrguer, não sentindo ojeriza pela real natureza dele. O comeu sem nenhum remorso, pois tinha certeza do valor daquele ato. Todo hambúrguer de siri deveria ser devorado após o preparo, não seria diferente com aquele. Bob ficou a observar o pôr do sol por uns minutos. Levantou decidido sobre o que fazer.

— Espero que o Patrick tenha visto a minha rede de caçar água-viva que dei como presente de despedida. Gary ficará bem com a vovó. — disse Bob, subindo um morro de areia no cair da noite.

A subida dava à superfície, mais precisamente na ilha de um único coqueiro. Bob saíra da água, a mesma expressão deprimida que mantivera durante todo aquele dia. Não via forças para levar o fardo da desilusão. A solução para livrar-se de tamanho peso encontrava-se lá.

Deitou-se na areia, observando a lua cheia amarela. Sua pele secava gradualmente, o ar se sobrepondo às gotas d'água que lhe forneciam respiração estável. Foi olhando para aquela deslumbrante lua que Bob Esponja viu seu fim chegar. A secura do corpo se agravava. E a respiração foi ficando cada vez mais penosa, o deixando ofegante até o derradeiro suspiro... até tudo escurecer.

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