O Último Desbravador do Leste

23 Eu queria que esse momento durasse pra sempre


Notas iniciais
O jogo avança e, por conta disso, as estratégias vão se tornando cada vez mais elaboradas. O que é preciso pra permanecer no jogo? Lealdade? Inteligência? Esperteza? Sorte? Essas e outras questões permeiam um capítulo bastante tenso dessa saga que ainda está longe de chegar ao fim.

A revelação acerca do relacionamento de Duda e Cris pegou a todos de surpresa. Até mesmo Bárbara, que havia notado os dois de mãos dadas por baixo da mesa, durante a prova, tinha dificuldades para proceder perante a situação. Embora não se tratar de algo proibido no acampamento, uma descoberta daquelas poderia mudar completamente os rumos do jogo.

— Você tem certeza do que tá dizendo, Vivi? Essa é uma acusação muito séria — disse Pata ainda confusa com tudo aquilo.

— Claro que eu tenho. Eu mesma vi os dois se agarrando no meio da prova das bandeiras — Vivi contemplava o olhar de desespero no rosto de Cris. — Basta olhar pra cara dela. Por que outro motivo a Cris estaria chorando desse jeito?

— Já chega, Vivi! O seu showzinho acabou! Cala a boca e vamo terminar logo a droga dessa prova! — Duda estava aflito, como nunca antes.

— Atenção, pessoal! A última rodada da prova vai começar agora. Por favor, Vivi e Cris, sentem-se nas respectivas cadeiras — Bárbara tentava recuperar o foco enquanto Cléber enchia os copos com a gororoba especial dos desbravadores.

Cris sentou à contragosto na cadeira, como se estivesse paralisada. A sua maior preocupação naquele momento era como Duda estaria reagindo a tudo aquilo, já que foi ele quem decidiu manter o relacionamento em segredo.

"Será que ele tem vergonha de mim?" — pensou Cris, cabisbaixa.

Vivi, por outro lado, parecia um pouco mais empolgada do que que antes. Pelo menos até sentir o cheiro do líquido pastoso que esperava para ser ingerido.

— Gente, isso aqui só pode tá estragado. Eu não vou tomar esse troço horrível nem morta!

— Vivi, agora não é hora de reclamar — disse Tati torcendo pelo sucesso da irmã. — Lembra que o nosso grupo depende disso pra se salvar.

— Preparadas? — Bárbara se posicionava pra fazer a contagem. — Eu sinto muito mas nós não podemos esperar mais. Quem esvaziar o copo primeiro garante a vitória do grupo. Em três… Dois… Um… Valendo!

— Anda, Cris! Lembra do que você me falou ontem sobre não desistir! — disse Bel tentando reanimar a amiga.

— Vai, Vivi! Tá esperando o quê? — Perguntou Bia já ficando impaciente com a demora.

Cris continuava paralisada, enquanto Vivi lutava contra o cheiro forte que subia do copo. Lá no fundo, as minhocas chacoalhavam pra todo lado, ficando completamente visíveis.

— Não dá gente. Simplesmente não dá! — Vivi levou o copo à boca e começou a passar mal.

— Aproveita que a Cris nem se mexe e vai tomando aos poucos — aconselhou Mosca.

— E vê se tampa o nariz pra não sentir o cheiro! — Pata estava de dedos cruzados, bastante nervosa.

Vivi tomou um gole da tal gororoba e sentiu um gosto horrível na boca. O líquido ficou preso em sua garganta, como se quisesse sair a qualquer custo, fazendo com que a menina se desesperasse ainda mais. Enquanto isso, Cris permanecia sem mover um dedo sequer.

Duda não aguentou mais ver a garota que gostava naquele estado e resolveu falar alguma coisa.

— Cris, olha pra mim — a voz dele saiu mansa como nos momentos em que estavam juntos.

O rosto dela foi se erguendo devagar, parando na mira dos olhos dele. Havia um misto de medo e satisfação no semblante de Duda, que imediatamente a despertou do transe.

— Pelo menos agora a gente não precisa se esconder de mais ninguém. Agora levanta a cabeça e enfrenta a situação, que eu te garanto que vai ficar tudo bem.

As palavras de Duda tocaram profundamente o coração de Cris, fazendo com que ela voltasse para o mundo real. Na sua frente, Vivi lutava pra tomar o segundo gole, com o copo já pela metade.

— Não desiste, Vivi. Você tá quase lá! — gritou Bia.

— É impressão minha ou você tá torcendo pelo grupo deles? — Perguntou Pata confrontando Duda de frente.

— E você acha que depois dessa cena toda eu ainda tenho cabeça pra pensar em jogo? — Duda parecia convicto de suas escolhas. — Eu quero mais é que a Vivi se exploda.

Cris fechou os olhos, tapou a respiração e começou a beber a gororoba nojenta sem pensar em mais nada. O líquido passava direto pela sua garganta, como se fosse água, e em questão de segundos esvaziou o copo. Seu rosto, porém, empalideceu de repente, como se fosse colocar tudo pra fora.

— Relaxa, Cris. Respira fundo que vai dar tudo certo! — Gritou Binho, empolgado com a reviravolta à seu favor.

Ao ver que Cris havia finalizado a prova, Vivi largou o copo, ainda pela metade, e começou a vomitar tudo que havia engolido.

— Calma, Cris. Não deixa ela fazer o mesmo que a Marian fez comigo! — disse Bel apreensiva.

A tensão tomou conta de todos. Se Cris vomitasse também, as equipes permaneceriam empatadas e uma nova rodada seria necessária. Por outro lado, ela sabia que, caso vencesse, o grupo de Duda seria mandado para o conselho, onde ele provavelmente seria eliminado. Além do mais, ela tinha um colar de imunidade, o que a manteria no jogo por pelo menos mais um dia, e ele não.

— Cris, o seu grupo precisa de você. Fica firme que eu consigo me virar. Anda, abre a boca e mostra pra fresca da Vivi que você é mais forte que qualquer coisa. Mostra pra ela, e pra todo mundo, a garota forte e guerreira por quem eu me apaixonei — as palavras de Duda conseguiram, mesmo que por um breve instante, emocionar a todos e fazê-los lembrar que, acima de tudo, eles ainda tinham um coração e que, por mais difícil que fosse aquele jogo, eles não precisavam competir o tempo inteiro. Afinal, aquilo ainda era uma espécie de acampamento de férias.

Cris abriu a boca e mostrou que havia engolido tudo, consagrando seu grupo com a vitória e determinando a derrota do time adversário. Vários gritos sucederam a cena, tanto os de comemoração quanto os inconformados com o desempenho fraco de Vivi.

Bárbara pôs fim à prova e despachou os dois grupos de volta aos respectivos acampamentos. Ao fim do dia o jogo contaria com um participante a menos, e ninguém gostaria de ser esse participante. Principalmente agora que as coisas estavam ficando mais claras e a final parecia algo menos inalcançável.

O grupo Lua retornou em silêncio para o acampamento. Eram quase duas da tarde e eles tinham um pouco menos de três horas até o conselho dos desbravadores. No caminho, Marian agarrou no braço de Duda e o arrastou para dentro da floresta. Haviam algumas coisas entaladas na sua garganta e, o quanto antes resolvesse aquilo, melhor.

— Escuta aqui, Marian. Será que dá pra soltar o meu braço? — falou Duda tentando se desvencilhar dela.

— Quem tem que escutar aqui é você. Onde você tava com a cabeça quando me escondeu o lance com a Cris? Depois de tudo que eu fiz pra te defender! Eu pensei que a gente tivesse juntos nessa — ela disse, ainda transtornada com tudo que havia acontecido no final da última prova.

— O meu lance com a Cris só diz respeito a ela e a mim. E ter algo com alguém não me impede de tramar jogo com você. Agora será que você pode me soltar, por gentileza? — ele respondeu, ainda preso às garras de Marian.

— Eu te solto quando eu quiser, tá me entendendo. Você viu o que aconteceu agora há pouco? Tá todo mundo contra você. Sabe o que eu deveria fazer? Ir lá falar pra todo mundo votar em você. E eu não duvido nada que o Janjão já esteja fazendo isso — Marian estava bastante ofegante e ainda se sentia um pouco enjoada por conta da prova.

— O Janjão jamais faria isso. E outra, eu também posso, se eu quiser, ir pedir pra todo mundo votar em você. Então vê se me deixa em paz, que a gente tem pouquíssimo tempo pra conseguir se salvar — concluiu Duda, se soltando de um vez por todas da posse da menina. Por um segundo, passou pela sua cabeça que ela estava com segundas intenções, e talvez até com ciúmes de Cris, mas devido a todo o alvoroço pelo qual tinha acabado de passar, essa preocupação não demorou muito pra desaparecer completamente.

— Eu sugiro que você não faça nenhuma besteira. Talvez ainda dê tempo de fazer alguma coisa. Eu vou dar uma olhada no que eles tão aprontando e depois a gente se fala — Marian deu rápido beijo na bochecha de Duda e saiu apressada em direção ao acampamento. Na verdade nem ela mesma sabia o que realmente estava sentindo. E isso só piorava ainda mais as coisas.

— Cris, fica tranquila. O pior já passou. Pensa que agora vocês dois não vão mais precisar se esconder de ninguém. Olha só que maravilha — disse Bel tentando reanimar Cris.

A menina, por sua vez, parecia estar em outra dimensão, completamente sozinha em seus pensamentos obscuros. Pra ela, não só o jogo estava perdido como também a chance de viver a história de amor dos seus sonhos. Provavelmente Duda seria eliminado da competição, ainda naquele dia, e jamais a perdoaria por isso.

Bel permanecia abraçada com ela enquanto o grupo Sol retornava para o acampamento. Todos estavam quietos e ninguém ousou se aproximar das duas. Para Janu e André estava bastante claro quem deveria sair em seguida.

— Você tá pensando o mesmo que eu? — cochichou Janu para André.

— Claro que sim. Acho que agora o jogo acabou de virar pro nosso lado — ele respondeu olhando de lado para Ana e os menores.

Ana, Binho, Neco e Dani também concordavam, embora nenhum deles tenha comentado alguma coisa, que o romance entre Duda e Cris poderia ser algo imbatível mais pra frente no jogo e que deveria acabar logo.

— Se eles não tirarem o Duda hoje, o que eu acho uma completa burrice, a gente tira a Cris da próxima vez que o nosso grupo for pro conselho — Ana confessou baixinho no ouvido de Binho.

— Ok. Mas caso o Duda saia, eu prefiro que a gente mire nos vizinhos. Daqui a pouco eles vão se tornar mais fortes que a gente — Binho respondeu, pensando no futuro do jogo. Para ele, pensar lá na frente era o que diferenciava um bom jogador de um amador. E talvez Ana não fosse uma concorrente tão esperta quanto ele achava.

— O que vocês dois tão cochichando aí? — interrompeu Dani.

— Nada não. A gente só tava discutindo qual comida era a pior de todas na prova — respondeu Ana, rapidamente.

— Nossa. Com certeza foram as larvas de mosca. A pior coisa que eu já provei na minha vida — disse Dani, com cara de nojo.

— Você só tá dizendo isso porque perdeu pra Tati. As larvas eram as mais fáceis. Queria ver se você tivesse que provar a língua de búfalo — provocou Neco.

— Qual? A que você não conseguiu comer? — retrucou Dani, fazendo todos rirem.

Todos exceto Cris, que permanecia deprimida no seu mundo particular.

— Eu posso ter uma conversa rápida com você? — perguntou Janjão, surpreendendo Bia perto da fogueira.

— Nossa, garoto. Você quase me mata de susto agora. Imagina se eu caio na fogueira por sua culpa! — Bia parecia mais impaciente do que de costume.

— Você vem ou não? — Ele perguntou, indicando um caminho entre as árvores.

— Só se for rápido — ela respondeu, seguindo na direção indicada.

Depois de todo o papelão que Duda e Cris tiveram que enfrentar na frente de todo mundo, Bia tinha medo do que poderia acontecer caso descobrissem sobre o seu envolvimento com Janjão. Mesmo que tudo aquilo estivesse devidamente enterrado no passado.

— Pronto, pode falar. Mas se você tentar fazer uma das suas gracinhas, eu juro que…

— Shh — Janjão interrompeu Bia colocando o dedo no meio dos seus lábios. — Você fica mais bonita assim, quieta, sabia?

— Eu não acredito que você me chamou aqui só pra…

— Pera aí! — mais uma vez ele a interrompeu, porém dessa vez segurando o braço dela com força. — Eu preciso te falar algo importante.

— Tá, mas me solta primeiro, pode ser? — Bia estava ficando cada vez mais impaciente e confusa.

— Desculpa. Eu te machuquei? — ele perguntou, bastante preocupado — Por que eu juro que só queria…

— Shh — agora foi ela quem colocou o dedo nos lábios dele. — E você parece menos bocó quando tá de boca fechada.

Os dois riram um pouco, se esforçando pra não transparecer que ainda sentiam algo um pelo outro. Janjão começou a olhar pros lados, procurando alguma coisa.

— O que você tá procurando? — Bia perguntou, curiosa.

Ao invés de responder, Janjão começou a subir numa árvore, mesmo com a perna engessada, e se acomodou em um grande galho, longe do chão.

— Precisa de ajuda pra subir? — Ele perguntou lá de cima.

— Não mesmo — ela respondeu sorridente e subiu em seguida.

"Essa é definitivamente a garota que eu amo." — ele pensou ao contemplá-la subindo a árvore.

— E então, o que era de tão importante que você queria me contar? — Bia perguntou, já sentada ao lado dele.

— Hm… — Janjão ficou bastante nervoso ao perceber que os dois estavam muito próximos — Eu queria te dizer que eu não pertenço mais ao grupinho diabólico da Marian. Agora eu sou um homem livre nesse jogo.

— Ah é. Bom saber disso, senhor homem livre — Bia respondeu, irônica.

— O que foi? Você não tá acreditando? — as bochechas dele coraram de repente.

Os dois foram se aproximaram, até os lábios ficaram prestes a se tocar, e nesse instante ambos lembraram de Duda e Cris, e do quanto aquilo era perigoso pra eles.

— Eu queria mesmo era fazer parte do grupo de pessoas que estão do seu lado. Ou melhor, eu queria ser o único a ficar do teu lado — os olhos dele começaram a brilhar.

— Não fala bobeira, Janjão. Assim que eu der mole, eu tenho certeza que você vai me apunhalar pelas costas outra vez — Bia baixou o rosto, lembrando do momento em que foi traída na prova das bandeiras.

— Olha, eu já te pedi desculpas mil vezes pelo que eu fiz. E se precisar eu…

— Shh — mais uma vez ela o silenciou com os dedos — Bocó.

Bia inclinou o rosto pra frente e beijou Janjão suavemente. Os beijos eram curtos e macios, diferente da primeira vez em que ficaram juntos. Os dois se sentiam protegidos em cima da árvore, e decidiram esquecer todo e qualquer problema de jogo. A única coisa que os interessava era aproveitar aquele beijo ao máximo. Como duas almas perdidas no meio da floresta.

— Eu queria que esse momento durasse pra sempre — disse Janjão, com cara de apaixonado.

— E eu queria que você falasse menos e beijasse mais — falou Bia puxando ele pra si e mordendo o lábio dele devagar.

— Eu tô dizendo pra vocês, é melhor tirar o Duda primeiro. Ele é o mais forte daqui e com certeza mais pra frente vai ser muito difícil tirar ele do jogo — disse Pata, coordenando uma reunião de última hora com alguns integrantes do grupo Lua.

— Eu sei, Pata. Mas provavelmente a Marian encontrou o colar de imunidade ontem à noite. A gente precisa votar de uma forma em que ela use o colar e que o Duda saia ao mesmo tempo — concluiu Mosca, escrevendo uns números no chão com um graveto.

— Já sei! — gritou Maria, despertando a atenção de todos — Já que nós somos seis, é só a gente dividir, três votos pra Marian e três votos pro Duda. Aí a gente faz parecer que toooodo mundo aqui vai votar nela, que é pra ver se ela usa o tal colar de imunidade, tentando se defender.

— Boa Maria! Aí depois, quando der empate, é só todo mundo votar no Duda e aí ele é eliminado. Nossa, Maria, você é mesmo um gênio — disse Mosca, fazendo um cafuné na cabeça da menina e sorrindo aliviado.

— Mas, gente, falando em seis pessoas, cadê a Bia? — perguntou Vivi, preocupada.

— É mesmo. Eu não lembro dela voltando da prova com a gente — disse Tati, olhando pra um lado e pro outro.

— Será que a Marian tá fazendo a cabeça dela contra a gente? Por que é só isso que aquela dali sabe fazer — Pata voltou a ficar preocupada com o jogo.

— Vocês tão falando de mim? — de repente, Bia surgiu por trás de uma árvore, pegando a todos de surpresa.

O dia tava frio e a reunião acontecia ao redor da fogueira. Bia pegou uma marshmellow da bandeja e colocou no fogo. Depois sentou, aquecendo as mãos, e se preparou pra falar.

— E então? Como vai ser a votação hoje à noite? — ela perguntou, olhando firme para Pata, que aparentemente comandava o grupo.

— A Maria teve uma ideia genial. A gente só precisa se dividir, três votam na Maria e três no Duda. Aí no desempate a gente tira o Duda e se vê livre da maior ameaça do jogo — respondeu Pata, em um tom sério e apreensivo.

— Do que você tá falando, Pata? Eu pensei que o nosso alvo ainda fosse a falsa da Marian! — Questionou Bia, sem entender muito bem o raciocínio dos seus amigos.

— De certa forma, ainda é. A gente quer que ela pense que será o nosso alvo principal, aí ela usa o colar de imunidade, caso ela tenha de fato encontrado algum, e o Duda sai do mesmo jeito — interveio Mosca, ainda escrevendo números no chão.

— Mas porque o Duda? Só por causa do lance com a Cris? — Bia parecia não concordar com nada do que estava acontecendo.

— E você acha pouco? — respondeu Vivi — Eles dois formam um casal, e todo mundo sabe que nesse tipo de jogo casais são hiper mega fortes quando estão juntos.

— Se for por isso, você e a Tati são um casal. A Pata e o Mosca são um casal. E nem por isso a gente tá pensando em votar em vocês por causa disso — Bia silenciou a todos com o seu discurso. O que, a princípio, era medo de enfrentar a todos pelo que estava acontecendo entre ela e Janjão, havia se transformado em raiva contra uma baita injustiça.

— Nossa, Bia. Você foi muito grossa agora. Até parece que não tá do nosso lado — disse Tati, completamente magoada.

— Eu só acho uma tremenda duma hipocrisia pensar em separar casal. Além do mais, a Marian não pode mais continuar nesse jogo por nem mais um segundo. Até porque todo mundo sabe que ela realmente tem o colar de imunidade. — Bia permanecia segura do que estava falando.

— E como você tem tanta certeza disso? Pra mim ela tá só fingindo — disse Pata, incrédula.

— Eu sei disso porque alguém me contou. Uma pessoa bem próxima dela que sabe de tudo — Bia fez um sinal com a mão e, do outro lado, Janjão apareceu, terminando de arrancar o gesso da perna com as próprias mãos.

— O que esse cara tá fazendo aqui? Ele é nosso inimigo declarado, esqueceu? — confrontou Mosca.

— Cala a boca e escuta o que ele tem pra falar — respondeu Bia, ainda bastante agressiva.

Janjão sentou ao lado de Bia, sem transparecer que os dois eram mais que amigos. Até mesmo porque ele não fazia ideia do que aquele beijo tinha significado pra ela.

— Fala pra eles, Jan — Bia falou, sorrindo.

— Jan? De onde veio tanta intimidade? — perguntou Vivi, curiosa.

Bia manteve a postura e não respondeu. O que o menino tinha pra falar era mais importante que qualquer outra coisa.

— A Marian me contou que realmente tá com o colar de imunidade — Janjão estava nervoso por dedurar a amiga. — Eu só tô dizendo isso pra vocês porque eu não pertenço mais a grupinho nenhum.

— Ah tá, até parece que a gente vai acreditar nisso — disse Mosca, cético e impaciente.

— Se você não quiser acreditar, isso é um problema seu — respondeu Janjão, de cabeça baixa pra tentar evitar um provável conflito.

— Se é assim, então, em quem você vai votar hoje à noite? — perguntou Pata, completamente interessada na resposta.

— Eu ainda não sei. Mas não vai ser nela. Até porque ela me salvou no nosso último conselho e eu sinto que devo algo a ela, de alguma forma.

— Tá vendo? Eu disse que a gente não deveria confiar nesse cara — novamente Mosca parecia transtornado com a situação.

— Gente, mas peraí. Então como que a gente vai fazer pra eliminar a Marian, se ela tem o colar de imunidade? — perguntou Maria, preocupada.

— Fácil — falou Bia, tentando concluir seu raciocínio. — É só a gente dizer pra ela que todo mundo vai votar no Duda, por causa da Cris e tudo mais, e que ela tá salva nesse conselho. Provavelmente ela cair direitinho.

— Não sei não, ein. Pra mim seria mais fácil votar mesmo no Duda e tirar logo ele — Pata permanecia firme com a sua decisão.

— Nossa, Pata. Eu achei que a gente era um grupo, mas você só quer que as coisas sejam do seu jeito! Eu ein — disse Bia, enfiando um marshmallow inteiro na boca.

— Se não fosse pela fresca da Vivi, a gente nem precisaria tá passando por isso agora — Pata parecia enfim ter desentalado algo que estava preso em sua garganta esse tempo todo.

— Como é que é? Agora você vem colocar a culpa pra cima de mim? — gritou Vivi, inconformada.

Nessa hora, Marian assistia de longe a reunião, mesmo sem conseguir ouvir o que estava sendo discutido.

— Você sim, ou já se esqueceu que foi você que trouxe a derrota pro grupo? — Pata apontou o dedo na cara da amiga e por pouco a confusão não aumentou.

— Calma gente. A Pata tem razão sobre votar no Duda. Eu falei com o Binho depois que a prova acabou e ele me contou que o Rafa foi eliminado por causa da Bel. E se vocês tiverem prestado atenção na prova, devem ter visto que ela e a Cris tão super unidas agora. Fazendo as contas, Bel e Cris, Cris e Duda, tá na cara que ele vai ser um problema, caso os dois fiquem juntos — as palavras sábias de Mosca fizeram com que todos parassem de discutir e pensassem um pouco mais no jogo.

E então? A gente continua com a decisão de eliminar o Duda? — insistiu Mosca. — Porque eu anotei aqui no chão em quem cada um de nós vai ter que votar. Se vocês ainda toparem, é claro.

— Fala aí, então — disse Bia, desistindo da sua ideia de eliminar Marian.

— Eu, a Pata e a Maria votamos no Duda, a Bia, a Vivi e a Tati votam na Marian. Aí quando der empate, é só todo mundo votar no Duda e tirar ele de vez. Todo mundo me entendeu? — Mosca chegou ao fim da sua estratégia com um sinal de alívio estampado no rosto.

— Tanto faz. Agora, o mais importante vai ser convencer ela a usar o colar. A gente precisa deixar bem claro que o voto de todo mundo vai ser nela, que é pra ver se ela usa — Bia, mesmo sem concordar com aquele plano, sabia que o resultado a beneficiaria de qualquer forma, já que Duda era o único aliado de Marian no grupo Lua.

— Fechou então — disse Mosca, fazendo com que todos se levantassem e fossem se preparar para a votação.

Após o ataque de Pata durante a reunião, Vivi ficou bastante chateada e resolveu dar uma volta sozinha pelas redondezas. Ela ainda não acreditava que, mesmo depois de ter revelado o segredo de Cris, o que de certa forma beneficiou o grupo todo, eles ainda a tratavam como uma garota mimada e fresca.

— Eu tô te atrapalhando? — perguntou Marian, se aproximando.

As duas estavam diante de um pequeno riacho, onde dava pra enxergar na água imagens tão nítidas quanto as de um espelho. Marian sentou na beirada, com os pés dentro d'água, e esperou que Vivi fizesse o mesmo.

— Não. Eu só tô um pouco chateada com umas coisas aí — disse Vivi, com um semblante triste.

— Eu achei muito corajoso o que você fez mais cedo. A Cris tava provocando muito e eu achei muito bem…

— É melhor a gente não falar sobre isso — interrompeu Vivi.

— Tudo bem, como você preferir. Eu só queria que você soubesse que eu tô do seu lado. Eu sei que aquela prova era bastante difícil. Eu mesma vomitei ali na frente de todo mundo e… — Marian fez uma pausa dramática e abraçou Vivi — Você não é a culpada pela nossa derrota.

— Eu sei — disse Vivi, chorando descontroladamente. — Mas todo mundo acha que eu sou uma fresca que não tem capacidade nenhuma de vencer isso aqui. Eu queria que eles soubessem o tanto que eu tô batalhando pra ficar no jogo. Mesmo depois que o Samuca saiu e eu fiquei sozinha. Nem a Tati tá falando comigo direito agora.

— Nossa. Como esse pessoal é ingrato. Logo você que nunca fez mal a ninguém. Mas eu entendo o que é isso. Desde que eu entrei no orfanato que eu sofro injustiça o tempo todo — as lágrimas começaram a cair dos olhos de Marian.

— Eu sinto muito — disse Vivi retribuindo o abraço.

— Escuta, Vivi, você acha que eles vão votar em mim, hoje? — Marian perguntou, delicadamente.

— A gente… Eles vão dividir os votos entre você e o Duda, três à três — Vivi respondeu, sem pensar.

— E o Janjão? Ele falou em quem vai votar? — Marian estava bastante satisfeita com que acabara de ouvir.

— Ele disse que ainda não sabe, mas que não será em você — Vivi continuou revelando os resultados da reunião, na tentativa de se vingar de todo mundo.

— E você vai votar em mim, ou no Duda?

— Era pra eu votar em você, mas depois dessa nossa conversa, provavelmente vai ser no Duda — Vivi falava entre um soluço e outro.

— Hm… — Um sorriso começou a brotar no rosto de Marian — Então que tal se nós duas votássemos no Duda? Assim a gente garantiria que eu ficasse pelo menos mais um dia aqui com você.

— Pode ser. Eles acham que você vai usar o colar de imunidade hoje à noite. Se eu fosse você, eu fingia o tempo todo que iria usar e, na hora 'h', manteria ele bem guardado na bolsa, fazendo a cara de todo mundo cair no chão.

— Ah é! Bom saber que eles estão tramando pra cima de mim — Marian tinha conseguido arrancar uma das informações mais valiosas possíveis. Faltava só mais uma coisinha — Só por curiosidade, quem é a pessoa do grupo que mais me quer fora do jogo?

Vivi demorou um tempo pensando, e pareceu ter chegado a uma conclusão bastante óbvia.

— A Bia. Ela é a que mais tenta convencer os outros de que você deve sair primeiro.

Ao dizer isso, Vivi tinha acabado de mover várias peças do jogo, ao mesmo tempo, sem ao menos perceber. Após mais alguns minutos de conversa sobre o orfanato e as injustiças que ambas sofriam, Marian deu um último abraço na sua mais nova aliada, e saiu de mansinho com a desculpa de que iria se preparar para o conselho.

"Eu preciso desenterrar aquele colar o quanto antes" — pensou Marian, enquanto suas pernas tremiam de ansiedade. E cada partícula do seu corpo sentia que aquele definitivamente seria o melhor conselho dos desbravadores de todos os tempos.

Notas finais
E aí, quem vocês acham que tá jogando melhor? E quem é o favorito de vcs? Estou aguardando nos comentários! bjs e até :**