Névoa Álgida
19 Capítulo 8 - A resposta
A RESPOSTA
XXXV
Você é cristão? Não se incomode com minha pergunta. Mas caso seja, eu te pergunto: já passou por alguma situação de ficar a noite acordado e ir à missa logo cedo pela manhã? Eu nunca passei por isso no meu mundo, mas neste mundo, graças ao Feliks, acabei passando por algo similar.
Ao voltarmos do bar, o Feliks me explicou que todo dia 6º da semana, os monarcas devem comparecer a algo chamado “latria”, o que seria uma espécie de missa. Pelos meus cálculos, hoje era para ser o dia 5º, mas, devo ter contado errado.
Afim de não sujar o nome da Apollinariya – afinal, pegaria mal o cavaleiro da monarca dormir durante algo tão importante –, eu fiz de tudo para não cochilar durante a latria e com bastante esforço consegui.
O Feliks cochilou algumas vezes, ou pelo menos tentou, mas Apollinariya sempre cutucava ele. Enquanto a Juno claramente estava entediada.
O home dito excelso-sacerdote, ministrou a latria.
Foi basicamente 1h de sermão, finalizado com alguns minutos de preces.
Enquanto saíamos do templo, chamado “Templo de Santa Nathalia”, nos deparamos com a figura de um homem, sentado nas escadarias do templo. Ele trajava roupas rusticas, os cabelos bagunçados e pele queimada pelo sol e suja de poeira, fazia-o parecer um mendigo, contudo, diversas pessoas (em sua maioria humanoides) escutavam atentamente as palavras do homem.
Avistando o excelso-sacerdote e os sacerdotes das outras regiões do reino que haviam vindo participar da latria, o homem disse:
— Excelso-sacerdote Peter e 38º preposto, louvas ao Eterno, mas estas disposto a honra-lo, até mesmo nos dias em que a recompensa da honra será a morte e o cárcere? E vós, sacerdotes-mediais Gregor e Ulisses, estão dispostos? E tu, filha de Alewndra, princesa e serva do Eterno, estas disposta? E tu, filho de Alexandr, príncipe e servo do Eterno, estas disposto? E vós, heróis, estão dispostos, a honrar ao Eterno e vossos mestres?
O excelso-sacerdote disse:
— Quem és para falar com tal ousadia e irreverencia?
— Bartolomeu, 39º profeta, o sucessor de Nathan, a quem derramastes o sangue ao fio da espada. Trago uma mensagem do Eterno: submetam-se ao juízo da Rainha Justa.
— Que juízo? Qual rainha? Porventura cometemos algum crime para sermos julgados? E com que autoridade julga tal rainha?
Bartolomeu se levantou.
— Afirmo: a cada 1 vez que Alewndra pecou, 10 mil vezes se arrependeu; a cada 10 vez que Urie pecou, 1 mil vezes se arrependeu; a cada 100 vezes que Vasili, o II, pecou, 100 vezes se arrependeu. Mas também afirmo: Vasili, o II, não pecou 100, contudo, 101 vezes. E por ordem do Eterno, se submeteu ao julgamento da Rainha Justa, que disse: “Tudo que tens, a mim darás, e, tua falta será perdoada”, Vasili aceitou e o acordo foi este: “Daqui a 13 anos, darei a ti tudo que me pertence”. Bem, 13 anos se completaram, é chegado a hora de cumprir-se o acordo, para que sejamos perdoados.
— Qual o pecado que o patriarca Vasili cometeu, ao ponto de recair sobre todos? E não respondestes as minhas perguntas anteriores: quem é estas Rainha Justa e com autoridade ela julga.
— Vocês incitaram povo a clamar ao rei que guerreasse para fundar o Reino dos Homens, e ele cedeu a esse clamor, desta forma, pecando. E tal rainha é Abigail, a lâmia. A autoridade de jugar lhe fora concedida pelo Eterno.
O ódio tomou conta do excelso-sacerdote.
— Lâmia? O Eterno não escolheria seres malignos como estes para uma função tão nobre.
— Vós acolheis heróis de outros mundos, porque não acolheis seres de vosso próprio mundo também? “Seres malignos”, porventura, muitos dos nossos cidadãos, não tem parentesco com criaturas que hoje classificamos como malignas? Logo, são todos malignos também?
Todos os humanoides presentes no local fitaram os olhos no excelso-sacerdote, aguardando a resposta dele. Parando para pensar, eu fiquei curioso em saber a origem destes humanoides desde que eu vi a Lieselotte e as outras. Mas pelo que eu entendi das palavras desse profeta, a origem dos humanoides é a miscigenação entre raças?
Esse profeta com certeza é muito sábio, pois ele colocou o excelso-sacerdote num bico de sinuca: se o excelso-sacerdote responder “sim, são todos malignos, pois todos eles têm parentesco com seres classificados malignos”, é evidente que os humanoides irão se revoltar, o que pode gerar algo perigoso; mas, se ele responder “não, não são malignos”, então as palavras do profeta serão dadas como certa.
Indignado, ele saí, juntamente com os outros sacerdotes. Restando apenas, eu, Juno, Feliks e Apollinariya parados nos degraus do templo e o profeta nos encarando.
— Filha de Alewndra, aceitarás o julgamento da Rainha Justa? – Disse o profeta.
Ouvindo isto, os sacerdotes pararam, esperando a resposta da Apollinariya.
— Sim.
— Fizestes bem. Mas saibas o preço que pagarás.
A resposta indignou os sacerdotes. E surpreendeu a todos ao redor.
XXXVI
Ainda estou meio confuso com as coisas que aconteceram na frente do templo.
O caminho inteiro de regresso ao palácio foi coberto pelo silêncio. Apollinariya com sua expressão séria de sempre e o Feliks com o semblante meio abatido, coisa estranha, já que ele sempre é quem anima as coisas.
Saindo da carruagem, fomos recepcionados por Yuliya, Jennifer e Anna.
Jennifer acompanhou Juno e Feliks. E Yuliya e Anna acompanharam eu e Apollinariya.
— Ms. Bressiani, o senhor está bem? Desde hoje cedo aparenta estar bastante cansado. – Disse Yuliya.
— Não é nada demais... Os últimos dias apenas foram muito cansativos.
— Sua rotina como meu cavaleiro será estabelecida a partir do dia 1º da próxima semana. Com um tempo irá se acostumar. Prometo que ao meu lado você terá uma vida demasiadamente tranquila.
— Se a majestade diz, eu posso apenas concordar.
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