Névoa Álgida

4 Capítulo 2 - Antônimos


ANTÔNIMOS

VI

Após 3 dias de viagem chegamos a Remissão, capital do Reino de Sacramento, edificada na superfície do Planalto de Vênia, onde jaziam as ruinas de Concórdia capital do caído Reino da Comunhão.

Seus idealizadores foram os primeiros patriarcas da Casa Real de Remissão e monarcas do Reino de Sacramento: Alewndra, O Arco Inerrante e Alexandr, A Lança Legionária. A construção foi finalizada em 33 n. c. {novo calendário ou calendário novo}, preservando grande parte estrutural da cidade original, o que torna Remissão um tesouro arquitetônico e histórico.

Dividida da seguinte forma: portão central, ao sul, dá acesso a entrada da cidade; portão de Vasili, ao norte, dá acesso à área nobre da cidade, repleto de casas luxuosas onde habitam os comerciantes afortunados e os nobres. O palácio está ao norte, posterior a área nobre, ocupando o equivalente a 1/3 da cidade; portão dos Povos, ao oeste, dá acesso à área popular, marcada por barracos de madeira e barro, habitados por um vasto número de pescadores. Cada portão possui uma estrada que levam ao cruzamento central, e lá, abriga o centro comercial da cidade. Tudo cercado por uma muralha de 15 metros altura e espessura de 4,5 metros, se estendo por 12 km.

Boa parte das informações foram ditas por Feliks durante a viagem, mas não tive a oportunidade de confirmar com meus próprios olhos. Chegamos a capital no período da madrugada no intuito de não alarmar a população, já que a chegada dos heróis é um acontecimento aguardado por todos.

Fui “confinado” num dos 86 quartos do palácio. Em comparação ao quarto da Cidadela Lorena, esse é de fato uma joia arquitetônica como o Feliks havia citado. Paredes de mármore com tons de branco/salmão e mobilha de alta classe. E o pouco que vi do palácio, não foge desse padrão.

Entre a chegada e agora passaram entorno de três horas (04h00 às 07h00?). Aproveitei para tomar outro banho – o último foi há 1 dia – e enquanto me enxugava fui até a janela e apreciei a paisagem ao redor do palácio, sem a escuridão da antemanhã e livre de nevoeiros, aprecio nitidamente o belo jardim desposando os raios solares sob suas flores e ornamentos.

A última orientação do Feliks foi a respeito da vestimenta predeterminada para a refeição matinal: blazer, calça e camisa brancas. Luvas e sapatos brancos. Por fim, sobretudo branco. Uma coisa interessante é que as roupas que usei até agora são todas sob medida. Provavelmente foram feitas quando eu ainda estava sendo gerado. O cuidado que tiveram de faze-las com antecedência revela a seriedade deles. Cabe a mim agir reciprocamente.

Tendo me vestido, deitei na cama, afim de dar um último cochilo.

Um tempo depois...

Toc, toc! *

Bateram na porta de forma suave e audível.

Levantei no pulo para atender e me deparei com uma mulher, trajada formalmente, pouco mais baixa que eu, cabelo preso e olhar morto.

— Ms. Bressiani, prazer em conhece-lo, sou Anna. Vossa majestade me ordenou acompanha-lo até a sala de jantar.

— Certo.

VII

Assombrosamente longe!

Entre a sala de jantar e o quarto, são 10 minutos de caminhada.

Dois guardas abriram a porta dupla da sala de jantar e diferentemente do grande banquete da Cidadela Lorena, há apenas um pouco de comida na ponta direita da mesa. O suficiente para duas ou três pessoas.

Destacando-se, na última cadeira da ponta direita, está uma mulher de longos cabelos loiros quase brancos e olhos azuis escuro. Seu vestido é simples e sem presença de acessórios no corpo – brincos, pulseiras, etc. –, o que destaca ainda mais a sua beleza.

Notando que eu fiquei parado observando a mulher, Anna me cutucou nas costas.

— É falta de educação comer as pessoas com os olhos, sabia? – Anna murmurou próximo a mim, já que não alcança meu ouvido.

Ignorando o comentário malicioso de Anna, sentei de fronte a mulher loira, ou melhor, a monarca.

Alguns segundos se passaram e ela continuou olhando para o nada, distraída com algo. Ao que parece, não notou minha presença.

E de forma infeliz, tentei quebrar o silêncio:

— Bom dia.

— O quê?

Sua reação foi similar à do Edward quando perguntei se estava comendo purê de batata. Contudo, a similaridade se difere quando ela aparenta ter escutado um xingamento.

Melhor esclarecer as coisas:

— No meu mundo “bom dia” é uma saudação, geralmente dada pela manhã.

— Ah... Então... Bom dia.

No intuito de romper a barreira dialogal entre nós, afoitamente, puxei assunto:

— Nesse mundo tem saudações do tipo?

— Não exatamente saudações matinais, mas sim. A diferença é que usamos gestos. Levantar a mão direita ou aperta as mãos, etc.

Novamente, para evitar o silêncio, que se dependesse da monarca, perduraria:

— Creio que já saiba o meu nome, mas não sei o seu.

— Perdão, acabei esquecendo. Meu nome é Apollinariya, filha de Vasili II, herdeira de Alewndra. Nomeada de Apollinariya III de Sacramento sob o título de rainha. É atribuído a mim: a Chefia do Estado, o Juizado-Maior Real e o Comando-em-Chefe do Exército & Marinha Real.

...O que era para ser uma simples resposta convergiu numa apresentação completa. Julgando a situação, chama-la informalmente pode soar mal, então terei mais cautela.

— Um belo nome.

— Obrigada.

As palavras fugiram da minha boca, por sorte, ela tomou a iniciativa dessa vez:

— Conversar é uma ótima forma de nos conheceremos melhor. Porém, creio que devamos agradecer pela comida e iniciar a refeição. Ainda há muito a ser tratado em seguida.

Nesse mundo também fazem isso?

Ela fechou os olhos e seguidamente proferiu (e eu imitei):

— Eterno, nós, teus humildes servos, prostram-se, em forma de gratidão ao alimento nascido da terra, e, ao vigor que nos concede para cultiva-los; a caça e ao vigor que nos concede para caçar. Continua tua boa obra, desde sul ao norte, desde o leste ao oeste. Ratificado seja.

A diferença entre Apollinariya e Feliks é brutal.

Ele é mais liberal, fugindo da regra e não economizando nas extravagâncias. Ela, um antônimo.

Como esses dois conseguem governar em conjunto?

Novamente, Anna nota minha distração e diz:

— Indeciso quanto ao que escolher? Recomendo creme de raiz da terra, eu mesma fiz. Mas não coma tudo, irei usar as sobras para cortejar meu alvo.

— Indeciso? Não, as vezes eu me distraio, pensando a respeito desse mundo. Mas experimentarei um pouco do creme.

Coloquei o equivalente a um palmo.

O gosto é acima da média em relação ao da Cidadela Lorena. Não seria estranho pensar que ela caprichou na intenção de agradar esse “alvo”.

— É bom.

— Claro que é. Tome, o sabor maximizará.

Anna me deu uma taça (de cristal, eu acho) com uma bebida escura.

No instante em que provei regurgitei.

— O vinho não estava do seu agrado?

Vinho?

— Não... Tenho apenas 17 anos... É a primeira que consumo bebidas com teor alcoólico...

— Qual a relação entre ter 17 anos e ser sua vez bebendo vinho? Algo relacionado a cultura do seu mundo?

— As leis restringem a comercialização de bebidas alcoólicas para pessoas menores de 21 anos e o consumo para pessoas menores de 18 anos...

Apollinariya expressou perplexidade na face, como quem viu um marciano discursando a respeito de algo. E Anna se esforçou para segurar a risada.

— Que lei ridícula. Bem, aqui não temos tais restrições, consuma sem medo.

— Por enquanto, prefiro evitar. Ainda não me acostumei com o gosto.

— Por hora temos ponche de frutas, caso for do seu agrado.

— Grato.

VIII

Ao termino da refeição fomos a sala dos Artefatos, onde guardam armas lendárias que só podem ser manuseadas efetivamente por pessoas de outro mundo.

Quando perguntei ao Feliks, há 2 dias atrás: “No meu mundo eu era um civil comum. Qual o sentido em me convocar?”, ele respondeu: “Nesse mundo existe algo chamado ‘teoria dos mundos de Werner’ e de acordo com ela existem diversos mundos ou realidade. Todas, reflexo de outra, que por sua vez, originam-se de uma ‘realidade mãe’. O ‘reflexo’ é causado por algo que Werner chama de ‘variável universal’. E cada nova realidade ou mundo que nasce, esta (e), nasce com seres mais fracos que os antecessores. Esse mundo é o 10º reflexo depois do seu mundo, por isso as pessoas do seu mundo são mais forte. Mas, é necessário que você possua um Artefato para despertar sua pré-disposição bio-metafísica”. Depois ele me explicou mais sobre os Artefatos. Mas não memorizei muita coisa a respeito.

Entra a sala de jantar e a sala dos Artefatos foram 20 minutos de caminha e mais 10 minutos descende um rol de escadas, já que a sala está localizada 3 andares abaixo do solo.

Antes de entrarmos, Anna ficou parada na porta.

— Anna, não vai entrar?

— Não, não... É melhor aqui fora. Aguardarei a senhora e o herói aqui fora mesmo.

O rosto dela corou por algum motivo. Para onde foi aquela expressão fria? “[...] creme de raiz da terra, eu mesma fiz [...] irei usar as sobras para cortejar meu alvo [...]”, me vem à mente quem seja esse alvo, prefiro não tirar conclusões precipitadas... Contudo, se um certo alguém estiver na sala, acho que conclusões precipitadas serão convertidas em conclusões exatas.

Para minha surpresa: Feliks, Edward e Juno estavam lá também. Edward e Juno se vestiram com roupas iguais a minha, a diferenças é que o sobretudo dele é preto. E Feliks com trajes que fazem jus a sua posição sociopolítica.

Ela estava fazendo performances com uma espécie de machado e os dois observando atentamente.

Percebendo nossa chegada, Feliks disse:

— Chegaram na hora certa. A Juno já testou os Artefatos dela. Compatível com o Machados dos Dentes do Dragão de Arca e com Anel das Chamas de Arca.

— Isso é bom, os heróis anteriores não conseguiram ser compatíveis com mais de um Artefato.

— Sim, e com fé no Eterno o Bressiani será compatível com dois ou mais Artefatos também.

Me agarrando pelo ombro, Feliks sussurrou no meu ouvido:

— Ocorreu tudo bem?

— Como você define “bem”?

— A princípio, ela trata pessoas desconhecidas com certa cautela e depois tudo flui naturalmente. Se ocorrer diferente é porque ocorreu tudo mal.

— Então acho que ocorreu tudo bem...

Feliks comemorou com o braço esquerdo, como se tivesse obtido sucesso em algo.

— Continue assim.

— Assim como?

— Não sei o que você fez, só continue assim.

Depois de me soltar, Feliks apresentou os Artefatos disponíveis:

— Lamina do Grifo Rei. Como o próprio nome já diz, forjada a partir das penas do Grifo Rei, ser mítico que habitava a cidade de Arca, reinando juntamente com o Dragão de Arca. Ela é leve e tem corte preciso; Manopla dos Invioláveis. Constituída de minerais não identificados, gera um campo de força usando a essência de um espirito perturbado que foi aprisionado nela; Anel da Aliança Eterna, seus atributos e origem são desconhecidos. Por fim, as Botas de Harold. Nelas estão aprisionados o vigor de 1000 homens velozes, permitindo o usuário alcançar velocidades inimagináveis. Seu único usuário foi o patriarca e monarca Urie.

O primeiro que testei foi o anel.

— Incompatível. Tente outro.

Feliks e Apollinariya estão com olhares apreensivos.

O segundo foi a manopla.

— Compatível. Tente outro, acredito que você será compatível com dois Artefatos também.

Um sorriso pairou no rosto de Feliks, já Apollinariya parecia achar pouca coisa.

O terceiro foi as botas.

— Incompatível. Tente outro.

— Como se fosse possível alguém ser compatível com o Artefato do patriarca Urie... – Apollinariya murmurou.

O quarto e último foi a lâmina.

— Compatível.

Com um largo sorriso, Feliks comemorou com o braço esquerdo novamente.

Depois de discutirmos um pouco, saímos da sala.

Anna aguardava do lado de fora e a primeira coisa que ela disse foi:

— Edward, que surpresa vê-lo aqui.

— Algo a tratar comigo?

— Bem... Sabe... Caso você não tenha feito sua refeição matinal ainda... Eu aguardei um pouco da sua comida favorita.

Sua voz tremula e rosto corado a denunciam.

— Obrigado, mas eu já...

Feliks deu um tapa nas costas de Edward.

— Eu arrastei ele para cá bem cedo, nem ao menos teve tempo de comer algo.

Edward replicou Feliks com um olhar feroz. E Feliks piscou o olho ironicamente para Edward como resposta.

— Ótimo, então vamos!

Em seguida Anna “arrastou” Edward segurando-o pelo braço.

Parecendo ter tido uma estalo na cabeça, Feliks diz:

—Ah, ia me esquecendo. Bressiani, anoite será a sua nomeação e a da Juno, sendo oficialmente reconhecidos como cavaleiros reais. Vista este mesmo traje.

— Não é um pouco tarde para avisar?

— Que nada...

Tomando a palavra, Apollinariya disse:

— De fato, não é um pouco tarde, e sim bastante tarde. Perdoe o desleixo do vice-monarca Feliks. Em todo caso, enviarei a Anna para te buscar 1h após o anoitecer.

Dito isto, subimos as escadas e os guardas me escoltaram até o quarto.

Notas finais
Vinho – Não existe muita diferença entre o vinho de ambos os mundos. Ponche de Frutas – Feito com mais de 30 frutas diferentes. [*Não estou fazendo apologia a menores consumirem bebidas alcoólicas, até por que não consumo e nem recomendo consumirem por questão de saúde. Mas de fato, é uma lei positivada ridícula e arbitraria, assim como todas as leis positivadas]