Não vá embora
1 Capítulo 1
Notas iniciais
tec tec tec tec tec
Molly me olhava por sobre os óculos de proteção que usava, parecendo irritada. Acho que fazer barulho batendo a caneta na mesa enquanto ela trabalhava não era uma boa opção.
Encaro-a e ergo a sobrancelha, parando de mexer com a caneta, fazendo-a voltar a se concentrar no trabalho.
Sinto-me elétrico com tudo que está acontecendo quanto a Moriarty, por que ele não podia ter simplesmente ter me esquecido? Não gosto de assumir, mas estou preocupado. De todas as opções que percorrem minha mente, só vejo a possibilidade de uma dar certo. E é claro que seria a mais traumática, aquela que me forçaria a deixar todos mais uma vez.
Não percebo que estou falando sozinho até que a ouço.
— O que significa "IOU"?
Olho como se não tivesse entendido o que ela está dizendo, mas é claro que Molly não desiste tão fácil assim.
— Você disse "IOU". Sussurrou isso agora há pouco.
— É só nota mental. — Desconverso e espero, sinceramente, que esse assunto acabe.
— Você é igual ao meu pai.
Agora não estou entendendo mais nada. Diante do meu silêncio, ela continua.
— Ele está morto. Não, desculpa.
Definitivamente eu não estou conseguindo captar onde ela quer chegar.
— Molly, não precisa querer conversar. Não é sua área. — Por favor, apenas pare de tentar puxar assunto comigo.
— Perto de morrer ficava alegre e adorável, exceto quando ninguém o via.
Há uma pausa de alguns segundos e eu realmente estou desesperado para que esse assunto acabe agora.
— O vi uma vez, parecia triste.
— Molly. — Minha voz é seca.
— Você parece triste, quando pensa que ninguém o vê. Você está bem? E não diga que está, porque eu sei o que significa, parecer triste quando acha que ninguém pode vê-lo.
Ergo meu rosto e tento entender essa frase, encaro-a como se quisesse entrar por seus olhos e decifrá-la.
E foi assim, com esse diálogo que durou apenas mais algumas frases que eu finalmente enxerguei a Molly. Não apenas a Molly legista que me quebrava alguns galhos, mas sim como a Molly que guardava dentro de si uma gama de sentimentos intensos, que era uma mulher admirável, que de repente eu queria muito desvendar.
Não sei precisar se o sentimento já existia de alguma maneira. Acho que sim. O que posso deduzir é que, sem ser chamado, ele começou a acordar em mim. Agora eu não conseguia mais olhar para Molly e não ver como seu sorriso parecia tímido, ou o modo como seus olhos pareciam ansiosos por me ajudar. Me tomei conta, sentindo-me lento, de que Molly sentia algo por mim há tempos.
Eu esperava que todas essas sensações passassem, achava mesmo que podia ser só um reflexo de tudo que Moriarty vinha causando. Mas... Os dias foram passando e por mais que mantivesse os problemas em primeiro plano, lá no fundo vagava a vontade de largar tudo e viver o que estava sentindo. Ser normal, ao menos uma vez. Ou o mais perto que eu posso ser.
Só havia um problema: agora eu não tinha tempo, eu precisava agir. Precisava livrar o mundo do psicopata que estava causando tantas mortes. Nunca poderia ter uma vida normal senão resolvesse todas as pendências que ainda existiam.
Perco-me em pensamentos... Talvez eu nunca tenha uma vida normal, de toda forma. Não posso pensar nisso agora, eu nem mesmo sei de voltarei a Londres um dia. Preciso prosseguir, apenas isso.
Pedi a ajuda de Molly para dar sequência ao meu plano. Ela era a única que poderia fazer isso por mim e, além disso, eu sentia uma necessidade esquisita de estar perto dela o máximo de tempo que conseguisse até partir.
Meu plano contra Moriarty dera certo, mas agora eu iria fingir minha morte. Tentando manter minha cabeça vazia, eu pulei para "morte"... E me encontrei no apartamento de Molly.
—--
— Então... Você vai embora hoje...
Estamos sentados na sala do apartamento de Molly. Mycroft me informou que alguém viria me buscar no meio da noite, para que eu pudesse sumir no mundo. Os olhos de Molly me parecem mais triste do que o que sempre foram. Me incomoda ainda não conseguir definir o porquê.
— Sim. Acredito que a qualquer momento.
Sinceramente, eu ainda não queria ir. O motivo da minha resistência me encara com grandes olhos castanhos. Sinto-me inquieto com essas sensações novas, tudo foi de uma forma tão rápida que eu, a mente mais rápida do mundo, ainda não consegui ligar todos os pontos. Em dias comuns eu não ligaria de ir embora e deixar pessoas para trás. Já fiz isso antes e por alguns segundos permito-me pensar nas pessoas que deixei... Talvez os melhores amigos que tive até hoje. Algumas lembranças envolvendo as cores amarela e preto parecem querer ressurgir, mas não consigo defini-las, as imagens estão embaçadas. Tenho problemas em recordar de algumas memórias, como se tivessem sido parcialmente apagadas e ficado um borrão.
Então, Molly se move no sofá ao meu lado e isso me tira dos devaneios. Vejo pelo canto de olho que ela se aproxima de mim. Mais uma sensação desconhecida aparece e sinto meu corpo encolher instintivamente.
— Talvez eu nunca mais te veja...
— Sim, talvez eu não volte nunca mais... — Assumir isso era mais difícil do que eu imaginava.
Silêncio constrangedor novamente. Isso nunca aconteceu ao lado de Molly, no tempo em que passávamos no hospital. Era comum ficarmos horas e horas trabalhando, cada um no seu afazer e quietos. Mas agora... Parece que as paredes do apartamento estão se movendo e me sufocando. Olho para minhas mãos, que estão com uma estranha vontade de abraçá-la e dizer que tudo ficará bem. Não sei quando foi que eu me tornei apto a ter esses tipos de sentimentos. Quer dizer, eu sei. Aquela maldita conversa. Aqueles malditos olhos me falando sobre ser triste. E essa mesma tristeza agora tão presente nessa sala...
Meu cérebro, que sempre me obedeceu tão bem, de repente começa a me trair e lembranças com Molly dançam por meus pensamentos. Lembro de quando a conheci, de como ela costumava ficar sem graça na minha presença, de como achei estranho como ela parecia me conhecer e aparentava esperar o mesmo reconhecimento de mim. Surpreendo-me por ter todas essas lembranças armazenadas. Nunca tinha pensado sobre elas até então.
Levanto-me de supetão e vou até a janela. De repente preciso respirar com urgência. Sei que Molly não está entendendo nada das minhas atitudes e tudo que estou desejando agora é apagar o semblante triste do rosto dela.
— Escute, Molly, eu... Eu não vou voltar. — Por que eu disse isso se tudo em que consigo pensar é uma forma de voltar assim que possível? A tristeza dela aumenta e eu não sei porque raios eu não falo exatamente o que eu estou pensando. Sim, eu vou dar um jeito de voltar. Sim, é por você. Sim, algo mudou. Sim, vamos fugir antes que alguém chegue. E por favor, por favor, não fique assim...
— Eu já imaginava, Sherlock...
A voz dela é tão baixa que eu quase não escuto. Ela parece tão pequena, tão derrotada. Eu que causei tudo isso? Passa pela minha cabeça que talvez eu esteja perdendo alguma informação. Estou fazendo a coisa errada, definitivamente. Viro-me para ela decidido a fazer uma besteira. Já que está tudo de pernas para o ar, não custa nada errar mais um pouquinho.
Minha mão sobe até os cabelos dela sem que eu ao menos perceba. Uma centelha de esperança aparece em seus olhos e pela primeira vez consigo ter uma imagem do que minha vida poderia ser... Ali... Com ela... Esqueço-me de tudo que sou e a puxo para os meus braços. Molly estremece e percebo que está chorando. Não, por favor, não.
Não quero mais partir, não quero deixa-la. Não sei dizer os motivos que me levam a deduzir que ela precisa de ajuda, que ela precisa de mim.
Não sei precisar quanto tempo ficamos assim até que ouço a campainha tocar. Pela segunda vez em minha vida me vejo em meio a uma decisão que não quero tomar. Molly se afasta de mim como se tivesse levado um choque e logo está abrindo a porta para o agente de Mycroft que deve me acompanhar para longe. Ela evita me encarar e de alguma forma isso dói em mim.
— Sr. Holmes, peço que o senhor venha comigo até o carro.
É agora.
Olho para Molly, que finalmente levanta o rosto para me encarar. Percebo aquela ansiedade misturada com o desejo de que eu escolha ficar. A esperança de que a despedida se transforme em uma permanência. Aquela sensação de quando queremos tanto algo, que esperamos um milagre acontecer e resolver tudo.
Penso na possibilidade de ficar. De continuar minha vida de antes, podendo estar por perto. Podendo dar continuidade ao que começamos aqui. Então lembro de Moriarty, que nunca me esqueceu, que armou todo um esquema para matar a todos que eram próximos de mim, que tinha toda uma rede de comparsas espalhados pelo mundo. Como eu poderia ficar e deixar que descobrissem que eu não estava morto? Como eu poderia correr o risco de um deles voltar e matar alguém que me era importante? Alguém como Molly...
— Senhor...
Ela desvia os olhos dos meus enquanto segura a porta aberta e sei que percebeu que irei partir. Novamente estou causando decepção para pessoas que gosto e sinto-me quebrar. Me entenda, Molly...
Respiro profundamente e ando em passos largos até a porta, perguntando-me porque eu não posso ser apenas uma pessoa como todas as outras? Isso foi tudo que eu tentei ser. Tento falar com ela, ainda que as palavras me faltem, mas sou ignorado.
Chegando à escada viro-me e encaro Molly por sobre o ombro do agente que me acompanha. Ali está, aquele oceano de emoções conturbadas. Por um segundo posso ver a tormenta que se passa dentro dela e quero desesperadamente voltar. Ela rapidamente desvia o olhar e fecha a porta, selando nossa despedida silenciosa.
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