Notas iniciais
Segundo capítulo, espero que gostem (:

Marley não acreditou quando a loira segurou sua mão. Seria possível que o desejo não fosse sentido somente por ela? Não tinha outra alternativa se não entrelaçar seus dedos com os dela, já não conseguia pensar, estava hipnotizada com o ato. Aquele simples toque a fez suspirar, isso não passou despercebido pela loira. Algo muito forte puxava-a para ela. Fitou aquele lindo rosto de que tanto gostava, os olhos perfeitos, agora muito próximos. Sua boca, como se já soubesse o próximo movimento, abriu-se. E então tudo se resumia ali. Kitty encostou seus lábios nos dela e Marley sentiu como se só existissem as duas,como se só existisse aquele momento e tudo além disso fosse vazio. Retribuiu. Desejo, puro desejo. Era o que as duas sentiam, mas lutavam para não demonstrarem. Era necessário um esforço extremo para não se agarrarem e acabarem com a delicadeza do momento. Kitty sentiu os lábios macios sobre os seus, o cheiro doce de Marley, como tudo nela. Não aprofundaram o beijo, apenas se conheciam, através de selinhos demorados. A loira acariciou a mão da morena, que estremeceu. E então ela se deu conta de onde estava e o que tinha acabado de fazer. Paralisou. Soltou a mão e devagar se afastou, assustada com o que tinha acabado de sentir. Não queria estar mais ali, não queria encarar seus próprios sentimentos. Era tudo tão confuso! Olhou para Marley, que tinha a expressão tão confusa quanto ela. E então saiu correndo do banheiro, sem dizer mais nada, lágrimas desciam do seu rosto novamente.

M: Kitty... [tentou gritar, mas tudo o que saiu foi um sussurro].

A morena ainda ficou parada no banheiro, sem reação. Tentava digerir os acontecimentos. Será que a loira gostava dela? Ela havia lhe dado um beijo, afinal. Então por que era sempre tão cruel? Aquilo não parecia uma piada, não parecia outra maldade de Kitty. Aquilo foi real, foi pura vontade. Ainda tinha o gosto dela nos seus lábios. Levou a mão ao local, fechando os olhos e lembrando-se novamente daquela sensação maravilhosa. Foi andando para casa praticamente no automático. Quando chegou foi direto tomar um banho. Droga! Não parava de pensar no que tinha acontecido. Kitty saíra correndo e ela estava preocupada, onde estaria a loira naquele momento e o que estaria pensando? Quis mandar uma mensagem, mas teve medo. Sua mãe chegou e começou a preparar o jantar. Marley não desceu para beijá-la e perguntar sobre o seu dia como sempre fazia, o que fez que com que ela fosse até o quarto da filha para ver se estava tudo bem. Encontrou- deitada encolhida na cama.

Mi: Marley, meu amor, está tudo bem? [sentou-se na beirada da cama]
M: Não. [disse apenas, com a voz pesada].
Mi: O que aconteceu filha?
M: Eu estou cansada.
Mi: Eu conheço você, sei, pela sua expressão, que não é só isso. Você está triste. O que foi? É aquela garota Kitty infernizando sua vida de novo? O que ela fez dessa vez?

Marley não respondeu. Um nó formou-se em sua garganta.

Mi: Responde Marley, foi ela de novo? Você não pode se deixar abalar!
M: Está tudo bem mãe! Eu só não quero conversar agora... [sentou-se e abraçou a mãe]
Mi: Estou preocupada com você filha...
M: Não fique! Vai ficar tudo bem... Como foi o dia da senhora hoje? [disse dando-lhe o beijo de sempre, aquilo acalmou sua mãe].
Mi: O de sempre filha, piadas, comentários... Já me acostumei. Mas o que realmente me encanta é aquele garoto Jake! Ele é o mais simpático dos seus amigos, sempre conversa comigo! Ele gosta de você filha...
M: É, ele é ótimo. [disse desanimada]. E o jantar? Está pronto? Precisa de ajuda?
Mi: Está pronto sim filha, obrigada... Vamos? [levantou-se]
M: Vamos! [levantou-se um pouco melhor]
Mi: Essa sim é a minha Marley! [deu-lhe um beijo na bochecha e foi jantar com a filha]

Kitty chegou em casa tremendo da cabeça aos pés. Tinha parado de chorar simplesmente porque não aguentava mais. O choro lhe deu dor de cabeça. Seus pais não estavam. Ainda bem. Não queria ter que explicar sua falta de ânimo, sua confusão. Seus pais nunca entenderiam, católicos fervorosos como eram. Como não tinha amigos além das cheerios, que não aprovariam e dos membros do coral, nos quais não confiava em nenhum ela tinha que guardar para si. Era horrível. Tomou um remédio para dor de cabeça, mas quando se deitou para dormir todos os pensamentos que estivera tentando evitar vieram à tona. A maciez dos lábios de Marley... Ela ainda podia senti-los movimentando-se sobre os seus. A mão quente e delicada da morena. A proximidade. Marley era tudo o que ela queria ter e tudo ao que não podia ceder. Ela tinha aprendido que era pecado. Nenhuma mulher poderia desejar outra mulher. Seus pais pensariam que era uma doença, um defeito nela. Como ela podia suportar isso? Não tinha se dado conta ainda de quanto o que sentia era forte. Mas tentaria reprimir. Precisava disso, se não, enlouqueceria. O que os outros iriam pensar dela? O que iriam dizer pelas suas costas? Aquilo tinha um peso enorme para a loira. Ela acabou dormindo, emocionalmente exausta. Marley também. A intensidade de sentimentos daquele dia a fizeram dormir rapidamente depois do jantar. Sua mãe sabia que ainda havia algo errado, mas não insistiu no assunto. O pior medo das duas era como seria no dia seguinte... O que elas diriam, o que fariam quando se vissem? Kitty estava decidida a manter a postura de cheerio arrogante e fria, Marley preferia não pensar no assunto. Que o dia seguinte trouxesse as respostas.
Kitty estava andando pelos corredores do McKinley quando deu de cara com uma cena que fez seu sangue ferver. Marley estava encostada no armário e Jake conversava com ela. O que era aquilo? Ela já tinha visto aquela cena muitas vezes, por que estava incomodando só agora? Já não basta tudo o que ela estava reprimindo, tinha que lutar contra o ciúme também? Parecia demais. Não podia se arriscar, então deu meia volta. Marley viu. Naquele instante, Jake e o que ele falava perderam completamente a importância.

M: Só um minuto Jake, vejo você no gleeclub. [saiu andando]

Alcançou a loira no meio do corredor.

M: Kitty... [chamou, próxima a ela].

Os joelhos da loira quase cederam ao ouvir aquela voz. Quase. Continuou andando. A morena segurou sua mão e a puxou, forçando Kitty a se virar. O toque fez as duas estremecerem.
M: Precisamos conversar... [começou]
K: Não precisamos de nada. Não existe nós. Existe EU voltando a ser eu e VOCÊ voltando a ser a medíocre que sempre foi. [as palavras doeram, nas duas, mas Kitty disfarçou melhor].
M: Você é muito hipócrita! [atacou]
K: E você é muito sem noção! Quem você pensa que é pra falar assim comigo?
M: Inacreditável! [passava a mão nos cabelos, nervosa, respirando fundo] Uma hora está tudo bem e na outra você vira essa pessoa horrível, que só sabe ferir os outros! [agoniou-se]
K: Qual parte não está correspondendo às suas expectativas? [disse seca]
M: Todas! Por que você não assume o que realmente é?
K: Por que você não se enxerga? Você é lixo pra mim! Você não pode cobrar nada de mim! Eu não me importo com você! [alterava-se]
M: Foi por isso que me beijou? Porque não se importa?
K: Shhhh! Pare de ser louca! [olhava para os lados nervosa] Eu não beijei ninguém, eu não estava no meu estado normal e se você contar isso pra alguém eu vou fazer você se arrepender, de verdade! Entenda que aquilo não foi nada!
M: Não foi nada? [aproximou-se, apesar dos comentários da loira terem-na machucado]

Kitty fechou os olhos, em transe novamente por ter a morena tão perto. Acordou rápido do estado em que se encontrava e afastou-se. Reuniu a maior frieza que conseguiu fingir e disse:

K: Foi alguma coisa sim. Foi nojento. [lançou um olhar de desprezo e saiu, com o coração apertado, louca para encontrar um lugar para chorar].

Foi como se uma faca tivesse trespassado o coração da morena. Seus olhos ardiam, as lágrimas queriam sair, mas ela se segurou. Não podia chorar. Mas foi inevitável. As pessoas que passavam a olhavam estranho, mas ela não se importou. Queria sair dali, mas não conseguia se mexer. O resto do dia foi muito difícil, para as duas. O gleeclub foi quase insuportável. Ambas estavam quietas. Marley com uma cara triste e cansada e Kitty com a frieza de sempre. Não direcionou um olhar sequer à morena. O grupo estranhou a quietude de Marley e a falta de comentários ácidos de Kitty. Jake aproximou-se de Marley e perguntou se ela estava bem. Se a loira pudesse matá-lo com o olhar ele já estaria no chão.

M: Está tudo ótimo Jake.
J: Eu não sei... Você ficou toda estranha hoje mais cedo e agora está assim... O que houve? [preocupou-se].
M: Eu só estou quieta. Por favor, eu não quero conversar.
J: Ok. [chateou-se]

Ela não queria magoá-lo. Sabia que tinha dado esperanças ao rapaz. Mas não era mais capaz de correspondê-las. As atitudes de Kitty mudaram tudo. Era como se o que ela sentisse tivesse sido intensificado, libertado. E como lidar com isso agora?
O sinal da última aula bateu e quando a morena estava saindo viu Kitty e as outras cheerios reunidas, conversando e rindo. Trocaram olhares. Imediatamente as cheerios voltaram as suas atenções para ela, fazendo comentários maldosos sobre sua mãe e sobre ela mesma. Como se não bastasse, seguiram-na até a saída do colégio, quando Kitty se manifestou:
K: Ei, já chega [disse com uma expressão séria para Jessica, a que mais se empenhava em falar mal da morena].
J: O que foi Kitty? Qual o problema?
K: Já está ficando exagerado, não precisa disso.

Marley olhava aquela cena, curiosa, não esperava isso da loira. Mas logo sentiu raiva.

M: Eu não preciso que você me defenda [disse com um olhar firme para Kitty].
J: Cala a boca que ninguém pediu sua opinião sua esquisita!
K: Não fala assim com ela! [colocou-se na frente de Marley]
J: O que está acontecendo aqui? Eu perdi alguma coisa? Não faz nem um minuto e todas nós, incluindo você, estávamos falando coisas piores!

Como Kitty conseguiria explicar? Mas ao ver Jessica falando daquele jeito, diretamente com a morena, a fez esquecer-se de tudo o que foi dito anteriormente. Ela queria defender Marley, e isso falou mais alto. Ia dizer alguma coisa, mas a outra foi mais rápida:

M: Você é ridícula! [havia dor e desprezo no olhar].

Marley saiu andando para casa, deixando Kitty sem reação ao olhá-la nos olhos antes de ir embora. Jessica ainda esperava uma explicação, assim como todas as cheerios. A loira se recompôs.

K: Vocês tem razão. Desculpem, eu achei que estava exagerando, mas não. Eu... Eu preciso ir pra casa. [saiu andando na direção oposta da morena]

Elas olharam estranho para a loira, mas aceitaram, logo o episódio foi esquecido e seguiram para suas próprias casas também. Kitty ainda se sentindo mal pelo tom usado por Marley ao dirigir-se a ela. A loira tentou, mas não conseguiu agir normalmente no primeiro dia, como seriam os outros? Agoniava-se o dia inteiro ao lembrar daqueles lábios... Daquela sensação. Não era diferente com a morena. Tudo o que as duas queriam era se encontrarem de novo, sem ninguém olhando ou julgando, para tentarem se entender, mas enquanto Kitty não deixasse o orgulho e o medo de lado, nada poderia ser feito... Até quando a loira aguentaria?