O medo se espalhava por seu corpo

Parecido com o que havia sentido antes, a alguns anos atrás

Mas não era o mesmo

Tudo mudara

Ele não conseguia paralisá-la como antes

E esse era um dos motivos de ele estar ali

Ela mudara

O que significava que ele poderia ter mudado

Muito

A ponto de não se entenderem como antes

Será que não seria melhor cancelar os planos?

Inventar um trágico acidente e seguir como se nada tivesse acontecido?

Não, ela não fazia mais isso

Ela não queria mais fazer isso

Não com a mesma intensidade de antes

Nesse meio tempo separados

Havia entendido que boas histórias se constroem assim

Não pensa muito, só vai

Logo a angústia se transformava em outra coisa

Enquanto o via se aproximando com o carro

Haviam algumas diferenças singelas

Como uma barba e uma roupa diferente do uniforme

Mas ainda era ele

Ainda eram aqueles olhos

Que tinham visto com os dela os mesmos cenários por alguns anos

Ainda era aquele sorriso

Que sempre acompanhava alguma frase inusitada vinda de qualquer um dos dois

Apenas estavam em um rosto mais maduro

Perceber isso a fez sorrir genuinamente

E apesar de bem menor, o medo ainda se fazia presente

E se não conseguissem conversar como antes?

Poderiam ter mudado tanto assim?

Não pensa muito, só vai

Logo que entrou no carro e trocaram a primeira palavra

Lembrou-se de como era fácil estar com ele

Não precisava pensar tanto para decidir sua próxima frase

Como percebeu que andava fazendo um pouco demais ultimamente

Conversaram normalmente como sempre haviam feito

Afinal eles ainda eram eles

Mas agora havia mais coisa para descobrir e redescobrir sobre o outro

O tempo havia passado, eles haviam crescido

Estavam mais maduros

E ainda assim, a sensação de familiaridade era dominante

Quase como voltar pra casa depois de uma longa viagem

Cheios de histórias para contar

Buscando aquele conforto conhecido

A amizade permanecia intacta

Ao perceber isso, o coração dela se aqueceu ainda mais

E seguiu segura e feliz pelo resto da tarde

Sem pensar muito

A chuva batia forte nas janelas do carro

Os vidros levemente embaçados pediam uma parada rápida

Ela não tinha a mínima ideia de onde estava

Mas não importava

O que estava acontecendo ao seu lado era mais importante

Músicas levaram a corações partidos

Que levaram a proximidade

Ele observava o contraste de suas mãos, uma na outra

Ele sempre foi tão cheiroso assim?

Amor ainda era o tópico principal

Afinal, como lidar?

“Não pensa muito, só vai”

Ele seguiu com atitude

Ambos mudaram, ambos cresceram

E o beijo que se formava do encontro de seus lábios era fruto disso

Os eventos posteriores eram fruto disso

O tempo havia passado

Mas não havia como negar

Que eles ainda eram eles

Apenas não pensavam tanto como antes

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