Não há outro amor para mim.
49 Um milhão de dólares ou adoção.
Notas iniciais
Vamos concordar que os últimos dias não têm sido de sorte. Recapitulando, superamos nossa última crise no casamento, minha mulher virou protagonista de um seriado médico, fiz algumas visitas a um orfanato, decidi realizar o sonho de Emma e a primeira tentativa de ter um bebê deu errado. O.k., o que mais pode me impedir de ter paz na vida? Até ainda agora eu achava que nada, porém, devo estar enganada.
Passei uma das mãos pelos meus cabelos no alto da cabeça e bufei com grande dúvida, andando pelo espaço entre o tapete e os sofás, devagar.
— Seis meses... — eu disse. — Caramba, Emma, é bastante tempo.
Emma sabia que era difícil para nós duas quando isso acontecia. Se separar por um longo tempo nunca esteve no plano de um casal apaixonado como nós, porém, já havia acontecido pelo menos três vezes e em todas sofremos. Não havia como não pensar na falta que eu sentiria dela, logo agora que passamos pela assustadora tentativa de engravidar. Bem, só ela passou na verdade, mas senti tanto quanto sua frustração. Ela não podia se separar de mim assim, não agora, não é justo.
Ela colocou as mãos nos bolsos de trás da calça e veio até mim.
— Eu sei. Isso me pegou de surpresa. — falou, abatida.
— A mim também, Emma, eu estou boba. Poxa, logo agora? Esse diretor só pode estar brincando com você.
— Acho que ele não está brincando. — ela abanou a cabeça. — O que eu faço?
— Roubou a pergunta de mim. O que você vai fazer? — parei para vê-la, minhas sobrancelhas estavam franzidas, obviamente numa expressão de medo, dúvida e ansiedade ao mesmo tempo.
Minha mulher ficou pensando. Me fitou e fez que não como se a resposta tivesse sumido de sua cabeça feito fumaça. Fez uma cara bem parecida com a que eu fizera antes, e agora estávamos quites.
— Eu não sei.
Mordi meus lábios. Estava quase me esquecendo de contar sobre a adoção, quem sabe essa não seria nossa salvação. Então, Emma pegou em meu braço com carinho. Ela teve um estalo sobre nosso abalo emocional.
— Eu não quero fazer isso sem que você me diga o que está pensando. Se você me pedir para ficar, eu não vou.
— Emma, não tenho direito nenhum de proibi-la de viajar para Vancouver, estou apenas espantada como um convite desses apareceu, como esse diretor foi rápido.
— Isso me deixou animada a princípio, mas não me sinto à vontade agora, não depois de como eu vi como você ficou. — ela estava preocupada.
— Porque foi inesperado. Você tem que pensar, precisa pensar o que vai fazer. — expliquei.
— E o que você tinha para me dizer antes? Parecia importante. — ela chegou ainda mais perto.
— Não sei mais se vale a pena conversarmos sobre esse assunto. É melhor você pensar sobre a proposta que recebeu primeiro. Não é nada importante. — Sabia que mentir não resolveria, ou pior, a deixaria mais curiosa. Do que adiantaria falar sobre adoção agora com a bomba prestes a estourar na minha cabeça? Havia aquela proposta tentadora a cegando, mesmo que não quisesse. Até eu, se Maleficent me dissesse que meu salário teria um aumento significativo, ficaria como minha mulher está agora. Eu sabia que nada nos impedia de ir ao orfanato buscar uma criança, o que me ocorria é que isso também levaria tempo. Era preciso deixar Emma se decidir.
Me virei, pensando em subir para nosso quarto, mas Emma sabia que as coisas não estavam bem, ou pelo menos eu estava muito chateada e só não queria admitir, mas ela sentiu.
— Hey, está chateada comigo? Não foi minha culpa, foi apenas uma proposta de trabalho, eu não vou deixar você sem pensar. — disse ela, pegando forte no meu braço. — Está achando que vou ficar seis meses fora por causa de dinheiro? Temos muito por enquanto, a gente consegue se virar com o que eu ganho no seriado.
— Não estou chateada com você, meu amor, não é isso. Eu quero subir, quero tomar um banho e deitar. Minha enxaqueca está começando a voltar. Conversamos depois. — alisei seus dedos que me apertavam e me soltei dela.
Emma me viu subindo as escadas, sem entender ao certo o que eu estava sentindo. Para ser sincera, nem eu estava querendo me entender, mas eu só sei que queria que Emma jamais tivesse recebido essa maldita proposta de um milhão de dólares. Por que diabos isso precisava acontecer agora? Houve tanto tempo enquanto estivemos casadas para ela receber uma proposta dessas. Acho que nem se a convidassem para posar nua eu me sentiria tão estranha. Cheguei no quarto e larguei com raiva a parte de cima do meu terninho de trabalho sobre a cama, começando a me livrar da roupa com a mesma impaciência, sem deixar de pensar em Emma. E realmente não era sua culpa tudo o que vinha acontecendo, muito mais a conversa do diretor. Eu devia esfriar a minha cabeça urgentemente, se não, qualquer diálogo que eu quisesse ter com Swan hoje não daria certo, assim também como eu poderia acabar dizendo alguma besteira.
Não me surpreendeu muito ver minha mulher me esperando ao pé da cama quando saí do banheiro com os cabelos molhados, penteados para trás. Não lhe disse nada, mas ela viu que eu a percebi.
— Regina, temos que conversar. — ela se levantou e veio na minha direção no closet.
— Emma, vamos deixar para resolver esse assunto amanhã, depois ou na semana que vem. Não me faça perder a cabeça. Eu não estou boa para o tipo de conversa que vamos ter. — avisei, abrindo as gavetas atrás de um dos meus pijamas, mas ao invés disso, peguei a primeira camisa descolada de banda de rock do anos 80 que achei e coloquei, me livrando do roupão de banho. — Acho que está claro que não gostei. Mas não depende só de mim. Pense com carinho no seu trabalho, prometo arranjar cabeça para falarmos sobre isso.
— Você não me contou o que queria me contar. — ela colocou a mão sobre um dos armários, estendendo o braço de um jeito que me prendia ali dentro com ela. — Tem a ver com o nosso filho, não é isso?
Tomei ar, me sentindo pressionada.
— Por favor, Emma. Decida-se primeiro. Você vai saber o que é, aliás, já sabe, só se esqueceu. Isso não é nada urgente.
Ela meneou a cabeça atrás do que havia se esquecido. Incrível como a ideia da adoção que sempre foi sua havia evaporado.
— Mas eu não consigo me lembrar de nada.
— Talvez essa viagem seja só mais um empecilho para evitar que o que desejamos aconteça.
Ela entendeu que eu estava sim falando do nosso filho, e seja lá o que ela tenha pensado, o mistério que criei sem querer fez seus olhos brilharem.
Em um ato meio bruto e ansioso, Emma pegou novamente em meu braço e o apertou.
— Não vou viajar sem saber o que você vai me dizer, seja lá o que for.
Embora estivéssemos criando um clima desnecessário entre nós duas, me segurei para não dizer a ela que a ideia era ir ao orfanato e dar entrada no processo de adoção de uma das crianças. Se eu contasse, com toda certeza, Emma esqueceria da oferta que recebeu, o que eu sabia que para ela podia não só ser apenas dinheiro, mas um papel revolucionário em sua carreira. Tudo isso se passou pela minha cabeça em vinte segundos que fiquei encarando minha loira, até ela baixar o braço e me soltar de leve para que eu passasse de volta ao quarto.
Ficamos sem saber o que falar uma para a outra, talvez sem jeito de conversar. Até havia esquecido que Swan tinha chegado cheia de sacolas do shopping. E assim ela rompeu o nosso silêncio momentâneo.
— Bem, eu... eu trouxe alguns presentes pra você. Não quer ver? — perguntou, voltando lentamente.
A olhei por cima do ombro.
— Presentes?
— É, presentes. Eu jamais iria ao shopping só para comprar coisas pra mim. Na maior parte das vezes vou a fim de comprar coisas pra você.
— Emma... — falei, sem jeito. Até quando eu não podia esperar, Emma me surpreendia com seu carinho.
Nem preciso dizer o quanto isso me fez derreter. Larguei os lençóis que eu arrumava e fui com ela até a sala ver o que havia trazido pra mim. Emma tinha feito a festa no shopping e tinha muita coisa para mim no meio dos embrulhos. Será que eu merecia tanto? Só sei que aquele momento com ela, abrindo os presentes nos tirou do foco dos problemas que andávamos enfrentando, de forma que terminamos bem a noite afinal.
Na manhã seguinte, deixei Emma curtir a cama até mais tarde, porque não conseguiu dormir cedo, provavelmente pensando na proposta de filme. Acabei chegando mais cedo na MBC e pela terceira vez, notei que meus colegas de redação e o pessoal do estúdio me olhava torto. Mas o que estava acontecendo? O que esse pessoal sabia que eu não sabia? A vontade era imensa de perguntar. Eu estava começando a me sentir incomodada com o jeito como o pessoal me observava e toda vez que eu notava, ninguém se preocupava em disfarçar. Para minha sorte ou azar, eu saberia exatamente hoje o que estava acontecendo.
Eu já havia entregado minhas matérias ao pessoal da edição e conversado com o nosso diretor do noticiário quando no corredor que dava para meu escritório/camarim ouvi alguém dizer sem cerimônias:
— Ela e a mulher dela sempre tiveram problemas no casamento. Acreditem ou não, elas não devem durar muito mais tempo. Essa coisa de inseminação foi só uma das tentativas. Pensem, filho não salva casamento e, agora que Emma não está grávida, é quase que certo que vão se separar.
Epa. Espere aí. Ela disse Emma. Quem estava falando da minha mulher? Parei assustada, sendo pega de surpresa, tentando entender se era aquilo mesmo que eu havia escutado. Estava prestes a abrir a porta do meu escritório, mas ainda dava tempo. Meu sangue ferveu e meu coração disparou repentinamente. Olhei para o lado e vi o grupo que ria freneticamente da pessoa que contava sobre a minha vida com Emma.
— Alguém da produção me contou que a Toda Poderosa anda conversando com ela. — continuou a pessoa. Eu estreitei meus olhos, tentando reconhecê-la. Eu sabia quem era. Era uma mocinha que trabalhava de assistente na redação, seu nome era Lily e tinha fama de fofoqueira. Eu nunca fui com a cara dela, para mim nunca passou de uma garotinha inconveniente e insignificante naquela redação, e também nunca me senti obrigada a dar papo para aquele nariz empinado que ela tinha. De repente, o grupo que conversava com ela pareceu muito interessado. — Eu juro que foi isso que me disseram. Aposto que elas devem ter um caso por fora e já vejo a manchete no jornal dos próximos dias.
Não podia acreditar no que eu estava ouvindo. Lily insinuava que eu e Maleficent tínhamos algo, era isso que eu estava entendendo. Me senti tão indignada que deixei os papéis que segurava caírem do meu braço. O grupo e Lily me viram e ficaram em silêncio. Se não fosse, Archie aparecendo logo atrás deles, eu teria os fuzilado. Eles aproveitaram que meu amigo tinha chegado para saírem.
Archie não entendeu a confusão, mas veio até mim.
— Por que estavam olhando pra você daquele jeito? — perguntou ele, olhando para atrás de relance.
— Estavam falando de mim. O que é pior, Archie, Lily disse que Maleficent e eu temos um caso. — respondi, abafada, recolhendo o que derrubei do chão.
— O quê?!
— Não falou com essas palavras, mas eu entendi muito bem o que ela estava contando aos amigos dela. Agora eu entendo porque todo mundo anda me olhando atravessado.
— Eu sempre soube que ela era um pouco perturbada, mas depois dessa estou começando a acha-la muito linguaruda. — ele coçou a cabeça por trás do boné e me ajudou com as coisas no chão. — A propósito, tenho um recado dela pra você. No final de semana é aniversário da emissora e vão dar uma festa para os funcionários. Você foi convidada, é claro.
— Ah, o aniversário da MBC. — peguei o convite das mãos dele. — Sempre me esqueço.
— É. Ela passou na cenografia ontem e me pediu para entregar esse convite VIP para se sentar na mesa dela na festa. Há duas entradas, uma é para você e outra é da Emma.
— Meu Deus, ela quer que eu me sente na mesa dela com Emma? — fitei Archie apavorada.
— Parece que sim. Por que essa cara? Ser uma das queridinhas da dona da emissora não é tão ruim assim, ou é?
— Não, não é. Mas é aí que nunca mais vão me encarar direito nesses bastidores. Todos vão pensar que Maleficent me dá vantagens e outras coisas, ora. — repliquei, um bocado nervosa e imaginando.
— Outras coisas como?
— Ah, esqueça, esqueça... Melhor você nem imaginar. Você tem mais alguma coisa para mim? — tratei de despistá-lo.
— Não, apenas isso. Eu trouxe agora porque depois do noticiário tenho que gravar o programa novo das duas da tarde, então eu vou correr para o outro estúdio.
— Está bem. Obrigada. Até logo, Archie.
— Até logo. — ele me disse, dando um tapinha no meu ombro e saindo.
Bem, ali estava eu segurando o convite de Maleficent, ao mesmo tempo rangendo os dentes por causa dos boatos que deviam estar circulando ao meu respeito na MBC.
Em casa, já no final da tarde, encontrei Emma deitada numa espreguiçadeira no quintal, na borda da piscina, de biquíni óculos de sol, lendo um livro que minha irmã havia dado a ela no natal.
Sem precisar levantar os óculos para me ver, ela disse:
— Chegou mais cedo hoje.
— Como sabia que eu estava aqui?
— Senti o cheiro do seu perfume. Está usando o que eu mais gosto. — ela, largou o livro e tirou os óculos. — Você está bem?
Dei a volta na espreguiçadeira e me sentei ao seu lado.
— Bem. Na verdade, mais ou menos. — falei, cansada.
— O que houve? — Emma franziu o cenho e pude ver melhor as sardas que tinha entre o nariz e os olhos.
— Ah, aborrecimentos no trabalho, coisa minha que eu prefiro esquecer. E você passou bem o dia?
— Muito bem. Dormi até umas onze e levei Pongo para dar uma volta. Liguei para minha mãe, conversamos e decidi aproveitar essa piscina. Tem certeza que não quer me dizer o que aconteceu no trabalho? — ela tinha paciência no olhar. Do jeito que descreveu o que fez durante o dia, eu sabia que tentou se distrair ao máximo para não pensar no filme.
— As pessoas falando coisas sobre mim, sobre a gente. Não gosto de boatos, fofocas, o que quer que isso seja. — dizia eu de cabeça baixa, com certa raiva na voz.
— Você ouviu alguém falar alguma coisa?
— Ouvi e não era uma coisa boa.
— Meu amor, as pessoas que costumam falar mal das outras ou sentem inveja ou não estão felizes.
— É — passei a mão pela nuca e concordei.
Emma me sorriu terna, se ajeitei, ficando de frente para mim.
— Deixa pra lá, tá bem? Não foi você uma vez que me disse a mesma coisa sobre programas de fofoca?
— Eu sei. Irônico eu me sentir mal por causa disso se já pedi tantas vezes pra você não se importar com o que diziam de nós duas.
— Isso. — Emma mordeu o lábio inferior e disse: — Esperei você o dia inteiro, que bom que esteja aqui.
— Foi? — a mirei e via seu jeito mudar para algo malicioso.
— Sim. Ver você apresentando aquele jornal me deixa com vontade.
Sorri, corando nem sei porquê.
— Já faz um tempo, não é? — eu disse. Emma devia saber do que eu estava falando.
— Faz, e eu não quero esperar até mais tarde para matar a vontade. — falou sedutoramente, me tirando dali com pressa.
Você deve imaginar o que aconteceu depois. Se eu estava chateada por qualquer coisa, aquilo passou quando Emma me jogou na cama após o banho quente que tomamos. Depois de muitos suspiros, afagos e do sexo propriamente dito, tive tempo para descansar e tentar não pensar em nada, enquanto Emma e eu nos deitamos feito concha, uma por trás da outra. Ela me beijava lentamente a nuca, roçava os dedos nos meus cabelos. Era bom transar depois de semanas sem poder fazer, por conta de seu tratamento que no fim deu errado. Me peguei pensando como seria se Emma viajasse para Vancouver. Quando faríamos amor de novo?
— Emma... você decidiu o que vai fazer? — minha voz saiu suave.
— Sim. — ela me respondeu, deixando a respiração pesar sobre minha nuca.
— Então? — Logo pensei que ouviria ela me dizer que tinha aceitado o papel, mas não era essa a reposta.
— Eu não vou se você não quiser.
— Não sou eu quem tem que decidir.
Emma escondeu seu rosto em minhas costas, respirando o cheiro da minha pele.
— Ao mesmo tempo que adoraria fazer outro filme eu não quero passar todo esse tempo longe de você. — disse ela, com a voz abafada. — Eu vou ligar para o diretor e dizer que não aceito o papel.
— Tem certeza disso, Emma?
— Sim.
Me virei então para ela e percebi que estava tentando ser sincera, porém, havia se passado apenas um dia e ela ficara o tempo todo fugindo de refletir sobre o trabalho, essa era a verdade. Dizer que não aceitaria o papel por minha causa me dava mais certeza de que Emma havia se tornado dependente de mim para se sentir bem, segura. Era uma boa oportunidade de falar a ela sobre a adoção, mas e se isso a prendesse e um dia ela me culpasse por não ter dado certo? Eu não tinha essa reposta. Eu não queria falar, mas seus olhos arrancaram as palavras de minha boca.
— Vamos adotar uma criança.
Emma iluminou-se.
— Nós vamos o quê?!
— Adotar, Emma. Fazer o que você sempre quis fazer. Chega de perder tempo.
— Ah, era isso que você tinha para me falar ontem!
— Era. Achei que se esqueceu desse detalhe. — disse eu. — Eu te dou agora mais um motivo para pensar se vai ou não aceitar o papel no filme. Se você ficar podemos fazer isso juntas.
— É claro que sim. — ela tocou em meu rosto.
— Olha, eu sei que está com a cabeça cheia e confusa...
— Não mais. — interrompeu ela. — Não importa quanto eu ganhe para fazer esse papel... eu não vou.
Fale com o autor