Não há outro amor para mim.
29 O sonho de Emma ainda persiste.
Notas iniciais
Desde o aniversário de Emma, no meio da semana passada, a paz pareceu reinar outra vez na minha vida de casada. Desde lá também, venho sendo acordada como rainha por minha esposa todas as manhãs. Imagine você, beijinhos, café da manhã na cama e muito cafuné. Posso resumir assim minha via nos últimos sete dias, mas não reclamo, pelo contrário.
Com certeza, meu esforço valeu a pena. Foi um pouco ruim ter me dado conta de certas coisas tarde, eu diria que fiquei até mesmo envergonhada de descobrir o quão difícil devia estar sendo para Emma, mas pelo menos, agora, a vida com ela voltou a ser puro romance. De alguma forma, eu me sinto mais calma, até confiante.
Do outro lado, até nossos trabalhos parecem cooperar. Swan disse estar adorando a nova personagem e na terça-feira me mostrou uma foto do ator que haviam escolhido para interpretar seu filho na série. Era um garotinho chamado Roland, tinha cabelos escuros encaracolados e cara de anjo. Eu o achei muito lindo no colo de Emma, na foto que tiraram e ela guardou só para me mostrar quando chegou em casa. Emma começaria a gravar com ele dentro de duas semanas e eu já sabia que ele seria o filho adotivo dela.
A propósito, Swan continuava visitando o orfanato de que tinha me falado antes. Não sei se era certo pensar que aquela era uma espécie de terapia para ela, pois nos dias em que foi, voltou absolutamente encantada para casa e, creio eu, que todo o entusiasmo pela personagem e até em casa comigo sejam reflexo dessas visitas que fazem muito bem à ela.
Enquanto isso na emissora para qual trabalho, a audiência do jornal só aumenta, ainda graças à declaração de amor que fiz ao vivo. Mas algo estranho ocorreu ontem. Depois que que saí do ar no noticiário do dia, normalmente, eu arrumava os papéis sobre a bancada do jornal e estava pronta para me levantar quando o diretor, que estava no telefone antes, saiu da cabine de edição e veio até mim no estúdio.
Ele parecia inquieto.
— Regina, a senhora Maleficent está pedindo para você subir até a sala dela quando puder.
— O que ela quer comigo? — perguntei de imediato.
— Disse apenas que era importante.
Engoli em seco. Tentei não deixar isso tão evidente mas fiquei nervosa. O que diabos aquela mulher queria comigo? Eu jamais podia imaginar. Porém, ela era dona da emissora e se ela estava me chamando, realmente devia ser algo sério. Eu não podia recusar subir.
Tirei o microfone da roupa e entreguei ao diretor, fiquei algum tempo no meu escritório, pensando se iria ou não saber o que aquela senhora queria comigo. Será que eu seria demitida? Que estou apresentando mal o jornal? Não sei e nem soube dessas respostas. Subi ao segundo andar e procurei a sala da presidência da emissora. Na MBC, nós que trabalhamos ali dentro, temos muita liberdade para visitar outros estúdios e salas, então assim que cheguei na pequena recepção que havia na sala de Maleficent procurei a secretária, mas ela estava em horário de almoço e deixara a entrada sozinha. A porta da sala principal estava fechada, pelo jeito a mulher estava esperando apenas a mim para a conversa em particular. Respirei fundo e estive prestes a bater na madeira da porta quando de repente escutei vozes vindas do outro lado.
— ... Você só pode estar maluco, Gerard! — disse uma voz de mulher.
— Não, eu não. Eu estou cansado, isso sim. — um homem falou em seguida, eu sabia de quem era a voz. Por isso e pelo nome, concluí que se tratava do sócio majoritário da emissora, o senhor Gerard que já havia conhecido uma vez no estúdio do jornal.
A conversa não parecia agradável, as vozes estavam exaltadas demais. Minha curiosidade me fez ficar atrás da porta escutando.
— Nós poderíamos voltar às sessões de terapia, ao clube, poderíamos viajar... Veneza. Que tal Veneza? Você sempre amou ir a Veneza.
— Não, Malefi, não. Já chega. Acabou e você sabe que não tem jeito. Nada do que fizermos vai ajudar. É melhor terminarmos logo com isso. Assine o papel do divórcio e resolvemos o resto depois. Por agora eu não vou mais voltar para casa. Vou mandar o chofer buscar as malas hoje mais tarde. — falava o homem.
— Gerard, por favor. Vamos conversar, vamos tentar mais uma vez...
As vozes se distanciaram um pouco.
— Malefi, não me faça repetir.
Percebi que a mulher estava aflita. Tive pena, imaginando a cena do outro lado da porta. Acabei começando a imaginar também no quão triste seria se isso acontecesse comigo e Emma. Desejei muito que jamais tivéssemos que passar por isso um dia.
O senhor Gerard deve ter chegado de surpresa antes de mim. Decidi que não seria o melhor momento para falar com Maleficent, então deixei a sala e voltei ao meu escritório.
Voltei para casa no final daquela tarde refletindo enquanto pegava o transito até Pacific Palisades. Até me esqueci que a estreia de Emma na TV seria nesse dia.
De qualquer forma, Emma chegou em cima da hora em casa para assistir o primeiro episódio da série comigo. Dei um beijo nela assim que abri a porta, eu já estava com uma roupa mais confortável, havia tomado banho e jantado porque cheguei com muita fome em casa. Minha mulher não se importou de eu não tê-la esperado, ela sabia que teria dias que não daria tempo de chegar tão cedo.
— Venha, vamos assistir. — ela me pegou pela mão me carregando até o sofá para sentarmos. — Vim correndo na estrada para conseguir chegar a tempo.
— Calma, meu amor. Ainda não começou. — me sentei ao lado dela, mas fui puxada para seus braços e colo no mesmo instante. — Hummm... Veio correndo para assistir à série ou veio correndo para me namorar?
Emma me olhou de forma malandra.
— Na verdade o seriado é o de menos porque eu sei o que vai acontecer no primeiro episódio. Então, você já pode imaginar porque eu vim correndo.
— Awwn, sua sem vergonha. — belisquei seu braço de leve e a beijei. O programa que passava antes do horário do seriado acabou e logo ouvi a voz de Emma vir da TV. Parei para olhar.
A primeira cena mostrava Los Angeles de uma vista aérea e um monologo de Emma falando sobre a vida como médica naquela cidade. Não demorou nem dois minutos para ela aparecer. Ficou muito bem no jaleco de doutora e com os cabelos presos no alto, bem no estilo médica.
Me ajeitei no colo de minha mulher para poder assistir melhor e de cara adorei o clima descontraído do enredo. O único problema, era que a cada intervalo – que na TV americana são muitos durante a exibição de qualquer programa – Emma me contava o que aconteceria no bloco seguinte de propósito, só para me provocar. Mas bem, eu acabei assistindo para vê-la e também sentir aquele friozinho na barriga que me dava quando a via nas telas mesmo com ela ao meu lado.
O episódio acabou com Emma atendendo uma mãe que havia perdido o bebê, e a personagem como obstetra dava apoio psicológico a mulher. Apesar disso, não foi um episódio triste, achei que minha atriz havia se saído muito bem, se adaptado perfeitamente ao estilo de texto de televisão.
Quando acabou olhei para ela e ela para mim, mas Emma era muito exigente consigo mesma em sua carreira, sempre foi assim na verdade, era difícil convencê-la de que havia se saído bem.
— Nunca me acostumo a me ver atuando. — ela comentou me apertando.
— Por quê? Você faz isso bem, atua direito. Eu sou sua fã.
— Disso eu sei, mas você é suspeita para falar.
Olhei para ela por cima do meu ombro.
— Meu amor, eu juro que falo com sinceridade. Não é só porque você é minha esposa, o amor da minha vida e a mulher mais bonita do mundo que digo que é boa atriz. Você precisa acreditar em mim.
— Tá bom, eu acredito. — Emma fez um bico, me fitou e suspirou como se estivesse querendo me dizer algo. Ficou séria de repente. — Eu também acho você a mulher mais bonita do mundo, sabia?
— Humm... Não vale, meu amor. Estamos falando de você.
— Estamos falando de nós agora. — vi seus olhos brilharem, ficarem carinhosos e calmos. Era engraçado como a cor do cabelo influenciava, pois os olhos de Emma pareciam mais escuros também. — Acho que nunca parei para elogiar você, te dizer que adoro assistir ao jornal da hora do almoço por sua causa e que você trabalha muito bem.
Ela colocou meus cabelos que caíam no rosto para trás das minhas orelhas para me ver melhor.
No fundo Swan estava certa. Ela já tinha me elogiado algumas vezes, especialmente no começo quando nos mudamos para cá e comecei a ser âncora do jornal local. Dizia para todos que era esposa da repórter bonita da TV e me acompanhava todos os dias. Só que isso foi passando com o tempo, ela não comentava mais nada após um ano e ficou feliz por eu ter sido chamada para o U.S.A News, porém, senti que na verdade ela pouco havia se importado. Por um momento pensei que estávamos competindo porque acabamos ganhando fama, e bem na época em que eu comecei a aparecer em rede nacional, Emma tinha feito somente um filme e sua popularidade tinha caído um pouco.
Comprimi meus lábios.
— Digamos que você fez isso poucas vezes. — também fiquei séria.
— Me perdoa. — ela sussurrou.
Senti aquele pedido de perdão com muita seriedade. Passei algum tempo a encarando sem saber se me levantava ou se a beijava.
— Por quê?
— Por ter sido tão negligente. Você não é apenas a mulher que me espera chegar em casa com o jantar e amor para dar, você é mais do que isso. Eu me sinto mal por ter chegado ao ponto de querer me separar de você.
Franzi as sobrancelhas, assustada com o que acabava de escutar.
— O quê? Você não me disse que pensou em se separar de mim.
Emma tomou ar, segurou meu rosto como gostava de fazer e continuou:
— Do jeito que estávamos, fazendo pouco caso do que acontecia em nossas vidas, reclamando, sentindo aquele mal estar por estar perto uma da outra, eu pensei em acabar com tudo e me separar de você. Foi uma vez apenas, uma besteira, eu não podia pensar numa coisa dessas, de jeito nenhum.
— E do jeito que estávamos por que não pediu a separação?
— Porque eu sabia que eu ainda amava você. E então, houve aquela briga, eu tirei meu corpo fora aceitando que estava errada e estamos aqui hoje. Ouça uma coisa, Regina, sair da sua vida eu nunca vou conseguir, por mais terrível que nosso casamento esteja. Jamais sairei por conta própria. Agora eu tenho certeza do que digo. Você me prometeu se esforçar e está fazendo de tudo para melhorarmos, não é isso? Eu não posso negar que estou adorando. Eu te juro que me arrependo amargamente de ter pensado em te deixar antes. Me perdoa.
Emma me abraçou forte.
Suspirei me agarrando na roupa dela, sentindo um nó na garganta que me doía na alma. Acontece que eu notei que tudo o que minha esposa queria era falar daquilo, pedir desculpa. Era uma necessidade. Eu a entendia, era uma culpa que ela carregava.
De súbito recordei do que havia acontecido mais cedo na sala de Maleficent, aquela discussão que escutei entre ela e seu marido. Era uma situação triste, devia estar sendo para aquela mulher e naquele momento eu só sabia dar graças a Deus que Emma queria ficar comigo, queria me amar.
— Você não precisa pedir perdão por algo que pensou, meu amor. Há coisas que não podemos evitar imaginar quando a vida está ruim.
— Eu só sei que eu amo muito você, Regina, desde a primeira vez em que te vi.
A enchi de beijos no rosto, ganhando em troca algumas mordidas nem um pouco bem intencionadas.
Emma e eu dormimos abraçadas depois que ela jantou e tomou um banho longo. Enquanto ela ressonava atrás de mim, me protegendo, quase me tirando o ar, eu pensava na conversa que tivemos. Fiquei feliz por ela ter me contado o que tinha pensado e que estava arrependida. Isso era parte do nosso trato de falarmos tudo uma para a outra, sem esconder nada.
Como nosso amigo Killian havia sugerido, decidimos dar uma entrevista a uma revista muito popular no país para acabar com qualquer dúvida que a imprensa tivesse sobre nosso relacionamento.
A repórter esteve em nossa casa ontem, contudo a conversa que tivemos com ela rendeu muito mais do que eu podia imaginar.
— Isso significa que os boatos que surgiram sobre a separação de vocês duas eram falsos? — perguntava a mulher e eu achava que aquela seria a última pergunta.
— Na verdade, todos os casais passam por crises. Dizer que não tivemos discussões ou que não iremos ter daqui para frente é que é uma mentira.
— Isso significa que vocês estavam em uma fase ruim do relacionamento? Qual a receita para manter um casamento de tantos anos firme?
— Bem, estávamos em uma fase complicada sim. Mas nós já resolvemos isso. — toquei na mão de Emma assim que falei. Vi ela sorrir.
Emma quis responder à outra pergunta que a repórter fez.
— A receita é amar. Você tem que ter certeza que ama a pessoa com quem está se casando. O resto é junto. — Swan virou o rosto para mim, apertou a mão firme contra meus dedos. — Tudo junto. É preciso entender que depois de assinar aquele documento no altar, a partir dali, é preciso pensar como duas pessoas. Você e quem você ama.
O tom da voz de minha mulher pareceu tão firme e convicto que me deu segurança, mas também pareceu um aviso. Não sei exatamente porquê mas depois as palavras dela me fizeram sentir um estranho frio na barriga.
A repórter havia gravado a resposta de Emma e a minha, e para finalizar ela queria apenas confirmar sobre a personagem que Swan estava interpretando na TV.
— Emma, você está interpretando uma personagem no novo seriado que em breve será mãe adotiva. Você está gostando da experiência de interpretar uma mulher que terá um filho? Você e sua esposa pretendem adotar uma criança na vida real?
Fiquei dura e tensa no mesmo instante. Emma continuava segurando minha mão contra a dela e notei que começava a ficar suada.
Não fazia ideia do que ela iria responder à mulher e talvez nem ela mesma fazia essa ideia.
A bisbilhotei com o canto do olho. Toda aquela conversa que tivemos sobre nunca mais tocarmos no assunto filhos que tivemos no passado me veio como um flash.
Então, Emma disse depois de muito tempo:
— A experiência é ótima. O texto me ajuda muito e em breve começarei a gravar com Roland que será o meu filho. Sobre eu e Regina, nós na verdade já somos mães. — ela apontou para Pongo que estava deitado entre o portal da sala e da cozinha, ele abanou o rabo quando Emma disse seu nome. — O Pongo é o melhor filho que podemos ter.
A repórter ficou satisfeita com aquela reposta.
Logo que fechei a porta para a mulher ir embora vi que Emma me observava do sofá, novamente com aquela cara de quem queria me contar algo.
Voltei devagar, um pouco receosa pelo o que ela iria dizer. Achei melhor eu mesma começar a conversa.
— Você quer falar sobre isso?
— Do quê?
— Do que está pensando. O que está se passando nessa cabeça? — me sentei confortavelmente ao lado dela e alisei seu queixo.
Emma deu um suspiro.
— Eu prometi que não falaria sobre o que estou pensando.
Como eu imaginava, Emma estava pensando em adoção. Ocorreu um dilema enorme na minha cabeça, eu não sabia se devia pedir para ela falar ou se permanecia quieta, desviava a atenção dela. Só que o certo era falar sobre aquilo.
O olhar dela tirou as palavras da minha boca.
— Vamos esquecer um pouco aquela promessa. Sei que você quer desabafar. Foi o que a repórter perguntou, não foi? Você está pensando nisso.
— Sim.
— Eu não vou repreendê-la pelo o que me disser, meu amor.
— Não, é que... Não posso dizer o que estou pensando, é uma ideia louca. — Emma mordeu o lábio inferior.
— Está com medo de me magoar ou coisa do tipo?
— Um pouco.
Me aproximei dela no sofá, respirei fundo e persisti. Para ser sincera, eu sabia o que ela iria me falar e por isso estava com medo. Emma não conseguiu cumprir sua promessa de esquecer ser mãe. Novamente seu olhar arrancou as palavras da minha boca.
— Você não conseguiu. Você ainda pensa em adoção. — fui direta.
— Eu juro que eu tentei, Regina. Eu juro. — de repente minha mulher desabou no choro. Vi sua boca tremer, seus olhos encharcarem e seu rosto ficar vermelho.
Meu mundo caiu vendo ela desse jeito. A abracei imediatamente sem entender o porquê do choro dela, mas devia ser porque não conseguiu esquecer daquilo.
— Mas, meu amor, por que está chorando? Não estou brigando com você.
— Desde o dia em que fui ao orfanato eu não consegui deixar de pensar. Me perdoa. — disse ela, afundando a cabeça sobre meu busto. — Eu sei que você não quer falar sobre isso. Eu guardei isso pra mim, mas é que essa repórter me perguntando isso hoje me quebrou. Está tão evidente, não é? Você deve me odiar por isso.
— Não, meu amor. Nunca. Eu não odeio você. Eu só... — não encontrei uma reposta decente para Emma. Resolvi ficar quieta a confortando.
Minha esposa controlou seu choro súbito e levantou os olhos para mim.
— Acho que não posso falar com você sobre isso agora. Não estou pronta.
Emma pareceu ter tirado as palavras de mim. Quem diria isso seria eu há alguns anos.
— Você tem certeza?
Ela fez que sim.
Enxuguei suas lágrimas com meus dedos e assenti para ela como se a compreendesse.
Se eu estou disposta a falar sobre adoção? Não sei, eu ainda não sei nem o que pensar sobre o assunto. Algo em mim me trava e essa possibilidade parece sempre distante de mim.
Após acalmar Emma e passar o restante do domingo ajudando-a a decorar textos, o que foi outra tarefa difícil e tivemos de parar no meio do caminho porque já eram cenas com o personagem que seria filho dela, descansamos assistindo a alguns filmes.
Antes de eu conseguir pegar no sono quando fomos deitar, Emma já ressonava há muito tempo enquanto eu pensava no que fazer para deixar minha esposa confortável em falar aquilo comigo. Pensei em como ela devia estar se sentindo e a razão para todo aquele choro. Com certeza isso era uma consequência das visitas ao orfanato e o envolvimento com a nova personagem. Era evidente que minha esposa tinha um sonho e eu não sabia lidar com ele. Custei a pegar no sono, mas antes de fazê-lo tive uma ideia para tentar entender o que Emma sentia.
Logo pela manhã de hoje, levamos Pongo para passear juntas. Coloquei uma roupa de ginástica e saímos com nosso cachorro pelas calçadas do bairro. Tentei ser discreta para não fazê-la lembrar dos maus momentos de ontem, então começamos a falar da moto dela.
— Só acho que você está aproveitando bem seu melhor presente de aniversário. — eu disse.
— E estou mesmo. O restaurador limpou bem aquele motor, eu já estava me esquecendo como aquela moto corre. Ahm... mas a moto não foi meu melhor presente nesse aniversário. — ela dizia, caminhando guiando Pongo que a cada moita pela calçada, levantava a perna para marcar território e ele parecia muito feliz com isso.
— Já sei qual foi, meu tombo enquanto dançava para você.
Ela riu.
— Sabe que eu nem lembrava mais disso?
— Mentirosa. — belisquei seu braço de leve e me agarrei a cintura dela, de lado. — Meu amor, que hora você acha que vai chegar hoje do trabalho? — perguntei.
— Hum... Acho que lá pelas oito, temos algumas cenas importantes para gravar.
— Vai chegar um pouco tarde. Te espero para o jantar?
— Não, eu posso fazer melhor, levo algo para casa quando sair do estúdio, o que acha?
— Tudo bem, eu topo. — falei fingindo acreditar no que Emma me disse. Na verdade quando ela chegava tarde às segundas, era porque ia visitar o orfanato e eu sabia disso.
Mesmo que ir até aquele lugar não fosse interessante para mim, eu precisava fazer pois pelo menos eu conseguiria entender como Emma se sentia estando perto de crianças. No fundo, essa era uma tentativa desesperada da minha parte de me convencer que existia algum sentimento maternal em mim e que eu pudesse me apaixonar pela ideia.
Depois que voltamos, fomos trabalhar e no fim da tarde saí da emissora, fui até o endereço do orfanato que Emma andava frequentando. Sem surpresa alguma, encontrei sua moto estacionada logo na entrada e vi o prédio enorme que também servia de convento.
Entrei tensa, quase voltando várias vezes, querendo desistir da ideia. Só que minha curiosidade me fez seguir adiante.
Quando cheguei olhando a enorme entrada do lugar, fui reconhecida por uma das freiras, uma mulher chamada Blue, e ela logo me perguntou se eu queria que chamasse Emma, mas eu pedi que não, que apenas me deixasse em um lugar onde eu pudesse ver o que minha mulher fazia com os pequenos. Muito solicita, a mulher me levou até uma janela que dava para a sala de recreação. Ela achava que eu e Emma estávamos ali para conhecer as crianças e eventualmente escolhermos uma para adotar. Deixei ela pensar assim para não causar problemas.
E finalmente do vidro vi minha esposa ao fundo, sentada em uma cadeira pequena, cercada por crianças de todos os tamanhos. Eles estavam tão atentos a ela que nem se mexiam. Emma tinha um livro grande sobre o colo e arrancava risadas altas dos meninos e meninas em volta dela, fazendo as vozes dos personagens como se estivesse os interpretando. Nesse momento, senti meus olhos arderem sem explicação. Minha mulher estava muito feliz contando histórias para aquelas crianças, era visível, apesar de longe, o brilho nos seus olhos.
A senhorita Blue estava ao meu lado ainda e me observou.
— Você tem certeza que não deseja entrar para ver melhor as crianças? — perguntou ela.
Abanei a cabeça e falei:
— Tenho. Por favor, não conte a minha esposa que estive aqui.
Fale com o autor