Notas iniciais
Olha aí, olha aí, vocês pediram, e o capítulo saiu. Sejam bem-vindas. Um agradecimento especial à senhorita Bitizi que fez uma recomendação... Muito obrigada, querida. É uma satisfação saber que você já leu todas as minhas fanfics e que gosta dos temas delas. Eu fico muito mais motivada a continuar escrevendo, sabendo que pessoas como você aprovam. Acredite, é uma verdadeira alegria quando ganho um comentário, recomendação ou até mesmo crítica. Valeu mesmo! Não quero entrar em detalhes sobre o possível encontro entre Regina e Henry, que eu sei que vocês torcem para sempre ocorrer. Espero que surpreenda. Façam uma boa leitura.


Minha primeira reação foi sentar no sofá como se estivesse recebendo uma notícia assustadora. Claro que não se comparava com as outras vezes que deixei o telefone cair no chão e a outra pessoa falando sozinha do outro lado da linha, mas claramente fiquei espantada. Emma me observava e nada entendia enquanto eu pegava o telefone do chão e voltava a falar com a senhorita Blue.

— Mas, Senhorita Blue, como isso foi acontecer?

— Não sabemos, Regina. Estou ligando para você para perguntar se por um acaso Henry comentou algo. Você conversou com ele, não conversou? Ele disse algo a você? Um possível lugar para onde ele possa ter ido?

— Não, não que eu me lembre. Ele não falou de lugar, ele apenas comentou sobre a mãe dele. — eu coçava a cabeça, tentando me recordar de mais alguma coisa.

— Meu Deus, o pior de tudo é que ninguém faz ideia para onde ele foi. — A Senhorita Blue parecia um poço de aflição do outro lado da linha.

— Tenha a calma. Quando foi que ele fugiu?

— Ontem. Ele saiu de madrugada, provavelmente muito antes do primeiro sinal para as crianças levantarem. Encontramos o molho de chaves da madre superiora na porta da frente depois que vasculhamos todo o convento. A cama dele no dormitório estava arrumada com cobertas, uma por baixo da outra para parecer que ele estava dormindo o tempo todo. A mochila com as coisas que vieram com ele também não estava mais lá.

— Muito esperto.

— Hey, o que aconteceu? — Emma perguntou.

— Senhorita Blue, vamos fazer o seguinte, Emma e eu estaremos aí daqui a pouco. Nos espere, vamos ajudar. Se tiver alguma novidade sobre ele, telefone para o meu celular, certo?

A freira concordou, agradeceu e desligou.

Olhei para Emma e expliquei o que estava acontecendo.

— Henry. Ele fugiu do orfanato na noite passada.

— Sério?

— Sim. A Blue achou que ele poderia ter me falado sobre algum lugar. Eu quero ir para lá, Emma, esse menino não pode ficar perdido por aí.

— Eu vou com você, óbvio, mas eles não tem nenhuma pista?

— Não. Mas a gente vai achar, temos que ajudar.

Me levantei e minha mulher fez o mesmo. Trocamos de roupa e fomos no carro de Emma para o orfanato. Levou um tempo até chegarmos pois chovia em Los Angeles e o transito não colaborava quando isso acontecia. Fui o caminho todo tentando me lembrar da conversa que tive com o garoto há três semanas. Não havia uma pista em suas falas que pudessem me fazer pensar para onde ele foi. O que será que houve para ele ter fugido assim? Emma provavelmente falou algo comigo, mais de uma vez, mas não prestei atenção e acho que ela desistiu de tentar de novo porque foi o restante do caminho quieta. Eu dirigia.

Quando finalmente chegamos, eu estava intrigada com a história que Blue me contou. Henry planejou fugir, era muito inteligente. Contei brevemente para Emma sobre isso e ela também ficou espantada.

Uma coisa tínhamos que levar em consideração. Henry poderia estar mais perto do que se pensava e nossa preocupação toda poderia ser em vão. Acreditando nisso, entrei no orfanato ao lado de Emma, de mãos dadas com ela, recebendo um olhar de reprovação da madre superiora que era abertamente contra relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Mesmo assim, agradeci a cortesia dela e perguntei pela Senhorita Blue que era a principal responsável pelo orfanato.

Havia uma fila de crianças na porta de sua sala num dos corredores do convento. Blue interrogava uma por uma sobre Henry, mas eu sabia que ele não comentaria nada com qualquer um daqueles meninos e meninas. Ele não conversava com ninguém.

— Emma. Regina. Que bom que vieram, mas eu não queria atrapalhar vocês. Sei que chegaram de viagem hoje. — ela disse, se aproximando de nós assim que nos viu e fazendo um sinal para outra freira retornar com as crianças que estavam ali.

Tinha uma menina e um menino agarrados as pernas de Emma. Incrível como minha esposa fazia sucesso até com aqueles baixinhos. Ela se despediu dos pequenos por um breve momento e fitou Blue, curiosa.

— Sabia? — perguntou.

— Sim. Hã... Fiquei sabendo, para falar a verdade. — respondeu a Senhorita Blue.

Emma cruzou os braços.

— Chegamos há poucas horas.

— Eu sei. Tentei ligar mais cedo e vocês ainda não haviam voltado, mas eu sabia que chegariam hoje. — Blue andou até sua mesa e pegou algo. Era uma revista de grande circulação e adivinhe do que falava: Fofocas. — Tomei essa revista de uma das cozinheiras aqui do convento depois que vi vocês duas nessas fotos. Que lugar bonito esse. — ela falou, com um tom de voz entusiasmado por alguns instantes.

Emma e eu colocamos olhos grandes na revista. Tinham fotos nossas em Bariloche, à distância porque foram tiradas por um paparazzi. Mas dava para ver que éramos eu e minha mulher.

— Esse lugar chama-se San Carlos de Bariloche, na Argentina. Levei Emma para passar o Reveillon por lá. É muito bonito mesmo. — eu disse. — Mas bem, nada do Henry? — desviei do assunto, extremamente corada, mas achando engraçado de saber que até as freiras se interessam pelas fofocas de revistas. Bem, voltamos a atenção para Henry e seu sumiço.

— Nada. Eu estava justamente conversando com as crianças sobre ele, perguntando se ninguém sabia de nada. Mas Henry é o tipo de menino antissocial. Acho que era assim antes de vir para cá também.

— Sabe o que eu penso? Ele fugiu porque não gostou do orfanato. — disse Emma ao meu lado.

— Não, eu não acho que foi por causa disso, Emma. — falei abanando a cabeça.

— Uma coisa que está me matando é pensar que ele pode estar por aí sozinho, nessa chuva, correndo perigo. Ele é só uma criança. — Blue suspirou. — O pior é que ainda não podemos acionar a polícia, devemos esperar quarenta e oito horas do sumiço.

— E ninguém saiu daqui por conta própria para acha-lo? — perguntei.

— Logo que notamos o sumiço dele, procuramos por aqui e pelas redondezas do convento que não é pequeno. Achamos que ele poderia voltar, e nada, ele não apareceu. Agora estou ligando para todos que visitam as crianças como vocês duas para perguntar se alguém tem alguma pista de onde ele possa ter ido.

— Me desculpa, mas vocês são malucas. — eu falei, não me contive. — Vocês perderam tempo. Ele poderia estar por perto ainda. — coloquei a mão na cabeça e comecei a andar pela sala.

— Calma, meu amor. — Emma me puxou para seus braços e me confortou.

A Senhorita Blue ficou boquiaberta com a minha reação, mas eu sabia que não era pelas minhas palavras, e, sim, pela minha reação. Era bem verdade que eu era a mais aflita ali. Não sei por quê me sentia uma pilha de nervos só de pensar no garoto andando sozinho pela cidade, correndo uma série de riscos.

— A Regina está certa. Tem que se fazer alguma coisa para achar esse garoto. — Emma continuou.

— Eu já liguei para o conselho tutelar, mas eles não podem agir sem permissão da polícia.

— Isso não pode ficar assim. — Me soltei devagar de Emma e cocei novamente a cabeça, pensando, tentando encontrar uma resposta. Para onde Henry teria ido? Na verdade, a questão não era assim tão difícil de solucionar. Pensei em como seria estar na pele de um garoto da idade dele. Se eu decidisse fugir, o que eu faria? Para onde eu iria?

E as hipóteses começaram a aparecer.

Olhei para Emma, depois para Blue, as duas tinham uma clara esperança no que eu ia dizer.

— Henry perdeu seus pais recentemente, sofreu um acidente e viu os dois morrerem, certo?

— Sim. — elas falaram em uníssono.

— Ele sente muito a falta dos dois, especialmente da mãe dele.

— Corretamente. — disse Blue. Ela andou até a mesa.

— Ele não tem mais família, ele não tem avós, não tem tios, não tem absolutamente ninguém. Se eu fosse Henry, eu sei para onde eu iria, onde eu gostaria de estar. — me virei novamente para elas depois de ficar andando pela sala enquanto falava.

Felizmente, a freira entendeu meu raciocínio e ligou para o conselheiro tutelar que ficara responsável pelo caso de Henry. Demorou uma hora, mas o homem conseguiu resgatar o endereço da antiga casa onde a família do garoto vivia antes do acidente. Olhei para Emma, ela assentiu e corremos para o carro.



Era fim de tarde quando chegamos na rua Wilkinson, em Valley Village, cerca de umas dez milhas do orfanato. Eu tinha anotado no celular o endereço. A casa era a residência de número 143, uma típica residência americana como qualquer outra naquela rua larga daquele curioso bairro da cidade que muito me parecia simpático, a propósito. Mas estávamos ali por Henry, o garoto desaparecido, e não deu outra. Havia um corpo deitado de costas para a rua, na varanda da casa número 143 quando paramos o carro no meio fio.

— É aqui. — disse Emma. — Olha, é ele. Você acertou, Regina. É ele quem está ali...

Minha mulher já ia abrindo a porta para buscar o garoto deitado quando eu a segurei.

— Espera, Emma. Se chegarmos de surpresa ele vai se assustar. — falei. — Deixa que eu busco ele.

Swan me deu uma olhada orgulhosa, quase sorrindo e fez que sim.

Sai do carro lentamente, sem fazer um barulho. Minha mulher ficou me observando enquanto eu descia e andava quase que na ponta dos pés até a varanda da casa, que por sinal, era muito bonita e grande, acho que até maior que a que eu e Emma ganhamos do meu pai em Pacific Palisades. Era uma construção de tijolos claros, com garagem para dois carros aparentemente, uma enorme varanda, jardim de frente, chaminé, segundo andar e calçada de pedras. Havia uma placa grande estocada na grama, informando “Vende-se”, e pude imaginar como o garoto se sentiu ao ver aquilo na casa que fora de sua família.

A chuva tinha dado uma trégua, mas a pessoa que estava dormindo na varanda estava coberta com uma manta.

Subi na varanda e me aproximei. Ele tinha se deitado sobre o tapete de “Bem-Vindo” ao pé da porta da casa, estava corado no rosto, provavelmente de frio e parecia uma concha enfurnada em um casulo. Me agachei ao lado dele e o cutuquei.

— Menino... Hey...

Henry levou um tempo para acordar e quando me viu com seus olhos estreitos, tomou um susto.

— Vo-Você... — Ele se embaraçou todo com a manta na hora em que se afastou.

— Oi. — eu disse.

— Por que está aqui? — ele passou a mão rapidamente pelo rosto. Me olhava feito bichinho acuado.

— Eu estava passando, vi você aí deitado, achei que estivesse precisando de alguma coisa.

— Eu não estou precisando de nada. Muito obrigado. — Henry foi se afastando cada vez mais.

Me sentei de uma vez, segurando minhas pernas, o olhando sem receio.

— Tem certeza? Acho que não, hein?

— O que é que você veio fazer aqui? — perguntou, ríspido.

— Eu já disse, estava de passagem e vi você deitado aí. O que diabos está fazendo aqui fora? Logo mais vai esfriar, sabia?

— Não interessa a você. Pode ir embora. — Henry me respondeu com sua forma “delicada” novamente.

— Então tá. Não pergunto mais. Melhor eu ficar aqui também, não tenho nada para fazer.

O menino rangeu os dentes.

— Olha, moça, obrigado pela preocupação. Eu estou muito bem, tá legal? Pode ir embora.

— Agora não vou mais embora. — o fitei, dessa vez com cara séria.

Henry bufou.

Deu para ver seus cabelos desgrenhados no alto e a cara amassada com o formato da letra B do “Bem-Vindo” do tapete no lado esquerdo do rosto.

— Você não precisa ficar aqui. Vai embora. Essa é minha casa, eu não te dei permissão para pisar aqui. — esbravejou o menino, fazendo uma cara muito feia para mim.

O olhei com indiferença. O pouco que sabia sobre crianças era que se você as tratasse com indiferença quando elas gritavam, significava que você estava no controle.

— Mas mesmo assim eu quis entrar. Você podia ser mais educado. Me diz uma coisa, Henry, onde está a educação que sua mãe deu a você? Duvido que fosse tão arredio quando seus pais estavam vivos.

Acho que toquei na ferida do garoto. Ele ficou subitamente quieto e de olhos esbugalhados.

De repente, cruzou os braços e virou a cara.

— Quem você pensa que é para chegar aqui e falar dos meus pais?

— Eu não falei deles, eu falei de você que provavelmente era um garoto mais doce quando eles viviam aqui nessa casa com você. Eu estou aqui tentando te ajudar, menino. Você não pode ficar sozinho na varanda dessa casa como um cão que defende a propriedade dos donos. Ouça, você fugiu do orfanato, eu fiquei sabendo. Você é menor, você não conhece ninguém, não sei como diabos chegou aqui. Estão todos preocupados com você. Foi um susto grande, quase chamaram a polícia.

— Então você veio para me levar de volta para o orfanato... Eu sabia.

Vi o jeito que ele ficou. Henry não estava feliz no orfanato, e com razão. Aquela não era sua casa, não tinha o mesmo conforto e nem de longe o carinho que ele precisava. Outra vez me coloquei em seu lugar e me imaginei vivendo por lá. Eu jamais me acostumaria. Apesar disso, não há outra forma, ele não pode ir para outro lugar.

Olhei para Emma que nos observava do carro, logo voltei a observar o garoto.

— Você sabe que não pode ficar sozinho aqui.

— Eu sei me virar. Eu sei de muita coisa. — ele falou, ainda de cara emburrada. — Posso muito bem me virar sozinho.

— Não, você não sabe. Você acha que sabe. Eu sei o quanto é complicado ficar no orfanato e como deve estar se sentindo. Tem saudades daqui, não tem? Mas infelizmente você precisa voltar. — respirei fundo e reuni forças para ser mais direta com ele. — Você ia dormir até quando no tapete da porta? Ia comer o quê? Como iria se cuidar?

Nesse instante, como se fosse mágica, ouvi um som oco. A barriga de Henry tinha roncado. Esse garoto estava sem comer há horas.

Ele recolheu o corpo e se agarrou nas pernas, tal como eu fazia.

Acho que parou para refletir e ver que tinha feito errado em ter fugido para ir parar ali em sua casa antiga que já nem podia-se dizer que era sua. O menino ficou olhando tudo. A varanda, a porta, as janelas. Levou uns cinco minutos para voltar a falar.

— Só queria estar perto deles de novo. Queria ver meu quarto, brincar no quintal com o helicóptero que meu pai me deu de natal, ler os livros de histórias da minha mãe. Mas eu não tenho as chaves da casa mais...

— E muito menos seus pais. — falei, me arrependendo em seguida.

Henry franziu os lábios. Dava para ver que tentava não chorar.

Desviei os olhos. Tinha a sensação de ter dito algo forte, mais do que eu devia, mas isso parece ter ajudado ele.

Ele pegou a mochila que trouxera com ele e tirou uma foto de dentro. Era ele com seus pais. Eu estava achando aquela foto familiar. Era igual o desenho que ele fez para um trabalho no orfanato que acabou indo parar comigo e Emma. Henry estendeu a fotografia e entendi que ele estava me mostrando ela.

— São eles? — perguntei, tocando na imagem. Formavam um casal bonito os pais dele, afinal.

— Sim.

— Como se chamam?

— Elizabeth e Neal Cassidy.

— Bonitos nomes.

Estava escurecendo e esfriando. Típico da Califórnia, dias quentes, e noites frias, mas o dia tinha sido todo frio, na verdade e Henry se cobria ainda com uma fina manta que ele admitiu ter roubado do orfanato.

Henry guardou a foto de volta na mochila.

— Moro nessa casa desde que eu era um bebê.

— Você gosta daqui?

— Muito... Se ao menos me deixassem ficar aqui.

Seus olhos me lembraram quando ele me viu pela primeira vez e se emocionou na minha frente na sala de música do convento — zangado, assustado, desesperado para chorar.

— Mas você sabe que não pode. É contra a lei uma criança viver sozinha.

Ele fez que sim com a cabeça, desanimado, se convencendo que não podia passar mais tempo sozinho. Ele tentou disfarçar, mas eu quase podia ver sua mente trabalhando nas possibilidades, talvez atrás de uma ideia para ficar ali e viver das lembranças que aquela casa trazia. Isso era algo maior do que qualquer pessoa, até mesmo eu, poderia compreender.

— Você não pode ficar aqui sozinho, mas lembre-se que no orfanato você pode fazer amigos e o melhor, encontrar uma nova família que queira ter um garoto como você como filho. — eu disse aquilo de forma suave para ver se o convencia.

Ficamos em silêncio de novo. Henry começou a bater o queixo de frio, se agarrando a manta. Eu não pensei duas vezes, tirei a parca que eu vestia por cima de uma camisa de manga cumprida e vesti nele para ficar mais aquecido. Ele ficou me olhando de um jeito curioso. Ouvi sua barriga roncar novamente. Eu devia tirá-lo logo dali.

Não disse nada.

Me levantei e peguei sua mochila com as poucas coisas que haviam nela. Desci da varanda esperando que ele me seguisse, mas ele não o fez até que eu parasse e me virasse para vê-lo.

Sem escolha, Henry me seguiu, deixando sua antiga casa para trás. Ele deu uma olhada antes de me seguir até o carro e eu abrir a porta da parte de trás para ele.

Quando me sentei ao lado de Emma ela me via com uma expressão indecifrável no rosto. Olhou para Henry no banco de trás e falou com ele.

— Oi.

— Oi. — ele respondeu seco porque estava sem jeito.

— Vamos leva-lo de volta, mas antes vamos passar em um outro lugar. — pedi a minha esposa e ela prontamente ligou o carro para seguirmos.

A casa da família de Henry ficou para trás. Não sei se Emma e ele perceberam, mas quando saímos de Valley Village, eu estava com os olhos marejados, sei lá porquê.



Passamos no drive-thru de um fast food e compramos uma refeição junior para Henry, com sanduiche, suco e nuggets. Esperamos ele terminar de comer tudo. Estava muito quieto até descobrir que ia comer depois de muitas horas. Emma sorria para mim, achando aquilo muito engraçado e um barato.

— Que fome, hein? — ela disse primeiro, olhando o reflexo dele pelo retrovisor. — Isso aí deve estar muito bom.

— Claro, eu não como um desses há meses. — ele respondeu de boca cheia.

Nós duas rimos.

— Mas a comida do orfanato também não é ruim.

— Então só você deve gostar daquela gororoba. — disse Henry. — Não acho tão boa assim.

— Eu gostei muito também, as freiras cozinham bem. — me meti na conversa.

— Arrumem outro jeito de tentar me convencer. — ele novamente falou de boca cheia. — Eu sei que vou precisar me acostumar.

Emma e eu trocamos um olhar rápido.

— Isso quer dizer que você não vai mais tentar fugir?

— Não. — ele disse, limpando a boca no guardanapo.

Ficamos felizes e aliviadas do menino ter decidido voltar para o orfanato e ter nos dito que não iria mais fugir, mas eu ainda tinha meu pé atrás como era de costume.

Confirmando que Henry tinha devorado todo o sanduiche e suco que compramos, o levamos de volta ao convento. A polícia estava no local, anotando algumas informações quando aparecemos com o garoto. Foi uma grande surpresa para ele ver a alegria e alívio das freiras quando Emma abriu a porta do carro para ele descer. Elas estavam aflitas, esperando por notícias do garoto há dois dias e vê-lo ali, são e salvo pareceu um milagre.

A senhorita Blue foi a primeira a vir correndo do meio delas e o viu. Ela nos olhou em seguida tentando entender o que havia acontecido e o tocou nos ombros.

— Henry, você está bem?

— Sim, senhora. — ele respondeu.

— O que aconteceu? — ela fez a pergunta para ele, mas interrompi.

— Henry foi visitar a casa dele. Sentiu saudades e quis ver como andavam as coisas por lá, não foi isso?

Ele virou o rosto para mim e pensou se ia concordar ou não.

— É. Foi isso mesmo. — respondeu, se virando para a freira. — Desculpe ter deixado vocês preocupadas.

— Tudo bem, Henry. O importante é que voltou. — a Senhorita Blue o abraçou e retornou com ele para dentro.

As coisas estavam resolvidas, achamos Henry, seguindo meus instintos e o devolvemos ao orfanato. Embora eu estivesse de coração partido pelas coisas que ouvi ele falar de sua família e casa, eu estava mais tranquila.

A polícia foi embora após confirmarmos onde Henry tinha sido encontrado conosco.

Já podíamos ir embora, afinal, passamos quase que o dia todo ali e eu mal havia descansado da viagem que foi longa. Contei resumidamente o que havia ocorrido com Henry para a senhorita Blue, lhe explicando o que o menino tinha me dito. Descobri que Henry havia roubado além da manta que usava quando cheguei, alguns trocados na sala da madre superiora e que provavelmente os usou para pegar um ônibus até Valley Village. Emma que não ficou longe da conversa confirmou tudo e finalmente podíamos ir embora para casa.

Eu não pretendia me despedir do garoto, ele tinha sido levado para dentro, ia tomar um banho e colocar um pijama quente, sabíamos que ele estava seguro novamente. Meu trabalho havia sido feito. Mas quando estávamos saindo pela porta principal, ouvi seu grito do final do corredor.

— Regina!

Eu vi ele correr na minha direção feito uma bala e frear seus pés bruscamente quando se aproximou demais de mim.

— Hey, garoto, o que foi?

— Você se esqueceu do seu casaco. — E ele estava certo. Eu havia emprestado minha parca a ele quando o vi sentir frio.

Henry me entregou a roupa e se afastou devagarinho, sem virar as costas.

— Obrigada. — agradeci, a recolocando no corpo.

— Não. Acho que sou eu quem deve agradecer. — No que disse isso, se virou e correu o corredor de volta, me deixando sem reação diante de seu agradecimento.

Emma, que nos observou me tocou a mão.

Ela me apertou e disse suavemente:

— Acho que você tem um novo amigo.

Notas finais
Vocês concordam com o que Emma disse no fim? Vamos ser realistas. Mesmo que exista uma conexão e semelhança nas histórias de Regina e Henry, não se pode confirmar nada, nem dizer que ela o adotará logo de cara. Lembrem-se que Regina ainda está aprendendo a lidar com o desejo da esposa e suas decisões. Muito obrigada por lerem. Comentem, critiquem, falem, e continuem acompanhando. Um abraço forte. Fiquem bem e bom feriado de Páscoa.