Não há outro amor para mim.
9 Emma consegue o que queria.
Notas iniciais
Havíamos passado um bocado de tempo juntas naquele inverno. Eu não esperava que fosse me acostumar tanto a Emma com o passar dos dias. Por isso, quanto mais sério nosso relacionamento ficava, mais eu dependia dela. Com Emma, acredito que tenha sido da mesma forma, ela nunca me deu razões para duvidar que fosse o contrário.
Voltamos a trabalhar assim que o recesso acabou. Emma com a peça de teatro e eu com o jornal.
Nossos momentos começaram a se resumir nas folgas que ela tinha segundas, terças e quartas-feiras e, mesmo assim, só aconteciam à noite por conta dos ensaios. Eu estava orgulhosa de minha namorada, mas percebia também que aquele ofício de atriz não era nada do que se imaginava. Emma dava o suor nos ensaios, se empenhava muito, até mais que os outros atores da peça, justamente por ser a protagonista. Cansei de contar as vezes que a vi chegar exausta em casa e me pedir massagem, especialmente em seus pés.
A fim de incentivá-la, passei a ir assisti-la uma vez por semana no teatro. (Acabei decorando suas falas inteiras depois de tantas vezes.) Uma noite, encontrei minha mãe e Zelena na fila da bilheteria. Me surpreendi, pois minha ficha ainda não havia caído de que mamãe iria mesmo cumprir a promessa de assistir Emma. Acho que ter visto nosso beijo da porta do meu quarto a deixou realmente abalada, no bom sentido, é claro.
My Sweetheart Mary andava popular em Portland. A propaganda nos jornais, revistas e até na televisão, chamou a cidade, fazendo com que em três meses a peça se tornasse um fenômeno local. O teatro nunca mais fora o mesmo; de quarta a domingo, vivia com a casa cheia e, devido a isso, os produtores decidiram por aumentar as apresentações para duas por noite. Emma se apresentava oito vezes por semana e, quando chegamos em Abril, minha namorada estava esgotada de energia, mas nem por isso desmotivada. Emma tinha uma vivacidade fora do comum, era como se a quantidade de trabalho desse a ela combustível para continuar. Decerto que eu me preocupava, mas vê-la feliz com sua popularidade crescendo me deixava tão contente quanto.
No jornal, eu continuava a escrever para a coluna dominical. Nada de excepcional acontecera para mim em relação ao trabalho. Eu andava, diríamos, que um tanto cega por causa de Emma.
No dia em que o número de espectadores da peça atingiu o record de cem mil pessoas, minha garota me ligou, antes da cessão, me intimando para jantar com ela após a apresentação. Percebi que sua alegria era tanta que precisávamos comemorar. O que eu mais gostava de saber, era que Emma sempre preferia sair comigo ao invés de seus amigos atores. Ela me dizia que eles eram muito importantes, porém, que eu era a única com quem ela gostaria de dividir suas conquistas. (Dava para entender o porquê de me sentir tão doida por ela, essa mulher sempre foi surreal.)
Então, Swan me levou para um restaurante muito chique no centro de Portland. Nossa mesa estava reservada. Nos sentamos num canto, onde da janela víamos uma avenida. Fizemos nossos pedidos e começamos a conversar, trocando carinhos nas mãos por cima da mesa. Eu a perguntava como se sentia com o sucesso da peça:
— O que está achando de tudo isso?
— Fantástico! Ontem fiquei sabendo que um diretor de Los Angeles veio nos assistir. — vi seus olhos brilharem. Emma andava perseguindo a sorte, imaginando se um dia seria sondada por um desses diretores de cinema. Ao que parecia, aquilo estava mesmo acontecendo.
— E o que ele achou? — perguntei.
— Não sei. Mas ele andou conversando com o nosso produtor.
— Então ele deve ter adorado.
— Algo me diz que sim. — ela sorriu, enquanto nos serviram vinho e aperitivos. Emma me perguntou como estavam as coisas no meu trabalho: — E você, meu amor? Tudo certo no jornal?
Fiz que sim. Virei um gole do vinho, antes de responde:
— Tudo! Tudo perfeito. — o que não era verdade. Minha “cegueira”, me impedia de refletir que o que eu fazia no jornal ainda era muito pouco. Antes da loira aparecer na minha vida, o que eu mais queria era ser promovida à redação. Modéstia parte, eu escrevia bem, tinha um pequeno, mas bom histórico de entrevistas e estava naquele jornal a mais de um ano, a coluna dominical parecia muito pouco mesmo. Fiquei pensando se não era o momento certo para aquilo acontecer. Minha namorada me fez acordar estalando os dedos, eu estava viajando.
Swan abriu um sorriso, eu retribuí, apertando seus dedos nos meus.
Quando terminamos de jantar, perguntei para Emma se iriamos para outro lugar depois dali:
— Você quer ir a outro lugar? A discoteca? A boate? Ou para casa?
— Hum, deixa eu pensar... Se eu for para a boate com você, vamos beber mais um pouco, dançar. Se a gente for para casa, não iremos beber, mas iremos parar na cama com certeza.
— E?
— Então se está me pedindo para escolher, eu prefiro ir para casa.
— Já te disse o quanto você é sem vergonha? — brinquei.
— Não. Mas bem que você gosta de mim assim, não gosta? — ela sorriu maliciosa, com a taça de vinho na mão.
Rimos e no fim ela pediu a conta. Ela tinha a intenção de me levar para casa logo. Dava para sentir nos olhos dela que iríamos acabar a comemoração na cama.
Assim que Emma pagou, levantamos, ela me deu a mão para sairmos juntas, quando alguém a cutucou no ombro por trás.
— Emma Swan? — disse uma mulher ruiva de meia idade que ficou maravilhada em vê-la.
— Sou eu, pois não? — a loira gentilmente respondeu. Viramos para olha-la.
A mulher sorriu ainda mais encantada, chegava a tremer.
— Ai, minha nossa! É você mesma! Eu te assisti ontem no teatro... — se aproximou mais ainda.
— Oh, é mesmo? Que bom saber disso! Obrigada! — Swan agradeceu sorrindo. — Você gostou da peça?
— Eu amei. Você estava simplesmente incrível! — a mulher juntou as mãos na altura do queixo como se estivesse prestes a implorar por algo. Eu já sabia o que ela iria pedir... — Posso tirar uma foto com você?
— Hã... Claro! — e Emma se desvencilhou de mim para atender o pedido da “fã”.
A tal mulher chamou alguém com um aceno de braço. Muito rápido um rapaz apareceu com um celular para bater a fotografia, nisso também vi que ela envolveu um braço na cintura de Emma.
— Bata mais uma James, quero que todos vejam que eu a conheço. — disse a ruiva.
Tive vontade de rir. O rapaz tirou pelo menos seis fotos de Emma com ela e, como se não bastasse, ele também quis tirar um retrato com a atriz.
Eu observava parada, quieta, bem orgulhosa por Emma, só não contava que aquilo iria demorar. As pessoas que jantavam começaram a perceber o burburinho e, de repente, mais gente apareceu para cumprimenta-la, foi aí que começou a confusão... Quando percebi, estava sendo empurrada para o canto com a quantidade de gente em volta dela, por um momento pensei que iriam me jogar para fora do restaurante. Emma foi ficando cada vez mais distante da minha visão. Eu estava vendo a hora em que até os garçons entrariam na fila para falar com ela.
Enquanto minha namorada atendia todos com muita educação, distribuía autógrafos e tirava fotos, fiquei me sentindo uma zero à esquerda no ambiente. Sai do restaurante e a esperei do lado de fora, cruzando meus braços, tentando ser muito compreensível. O problema era imaginar quando Emma começasse a fazer filmes... As coisas seriam ainda piores, os paparazzis iriam nos perseguir e não poderíamos mais sair de casa (isso quase aconteceu depois que ela foi indicada ao Oscar.) Fiquei um tanto apavorada com aquela hipótese e confesso que desejei que minha loira não conseguisse fazer sucesso. Resultado disso? Me senti a pior pessoa do mundo e mudei de ideia dois minutos depois. Emma merecia ser reconhecida. Ela não deixaria de me amar por causa dos fãs.
Vinte minutos depois, Emma saiu do restaurante toda preocupada a minha procura. Ela me viu, eu sorri, fazendo uma cara de quem a entendia.
— Meu amor, me desculpa. — disse, se aproximando de mim com cara de culpada.
— Desculpa por quê? — perguntei.
— Por essa confusão lá dentro, é que era tanta gente...
Balancei a cabeça e a abracei.
— Isso que dá ser famosa.
— Está chateada comigo? — tentou olhar para mim, eu não deixei.
— Não, imagina. Tá tudo bem. Vamos para casa? — pedi, disfarçando.
— Vamos. — disse ela.
Então fomos embora.
Passei o restante da noite calada. Dei graças a Deus de Emma não ter me perguntado mais nada, mas eu estava me sentindo horrível por ter desejado mal a ela. Eu estava com sintomas de inveja. Aquilo definitivamente não era bom.
Dormi mal. Quando peguei no sono, já era muito tarde. Fui acordar por volta das dez da manhã com muita preguiça e completamente atrasada para ir trabalhar. Eu não havia escutado o despertador tocar. Emma e eu acordávamos sempre no mesmo horário, dessa vez alguma coisa tinha acontecido. Me sentei assustada na cama, com a cara inchada de sono e os cabelos amarfanhados, logo percebi Swan parada na porta do quarto, segurando uma bandeja com o café da manhã.
— Bom dia. — disse ela, sorrindo em seguida.
— Bom dia. — murmurei.
Ela se aproximou, montou a bandeja sobre meu colo, subiu na cama ficando bem ao meu lado, me abraçou, beijou meus cabelos e acariciou minha bochecha esquerda. Era um poço de carinho comigo (quando não era eu estranhava), eu queria retribuir, mas eu estava com vergonha.
— Fiz pra você, tem tudo o que gosta aí: Pão doce, torrada, suco, geleia, fruta... Come um pouquinho.
— Obrigada. Que horas são? — perguntei, percebendo ao olhar na direção da janela que lá fora já estava bem claro.
— Dez e pouco.
— Dez e pouco?! Ah, meu Deus... Eu tenho que ir para o jornal!
— Não. Hoje você não vai.
— Como não, Emma?! É o meu trabalho. Se eu faltar, Sidney vai comer o meu fígado. — falei do meu chefe, mas sabia muito bem que ele não faria aquilo, no máximo eu seria advertida e, como eu nunca havia faltado antes, eu tinha alguns créditos.
— Você diz que não estava se sentindo bem, vai, fique em casa hoje. — ela insistiu.
— Por que você quer tanto que eu fique em casa hoje?
Ela ficou calada por um minuto, parecia que estava lendo minha mente do jeito que me olhou.
— Você dormiu mal essa noite. Se fosse trabalhar, ia cair na mesa de tanto sono.
— Como sabe que dormi mal?
— Você ronca quando está cansada ou estressada com alguma coisa.
Corei medonhamente com o que Emma me contara. Quer dizer que eu roncava?! Emma andava prestando mais atenção em mim do que eu imaginava.
— Eu?
— É. — ela me dirigiu um sorriso. — Acordei com o barulho.
— Não acredito!
— É sério. — começou a rir e chegou mais perto de mim. — Você quer que eu grave qualquer dia?
Franzi a testa.
— Não!
E ela gargalhava mais ainda de mim.
Eu fiquei com mais vergonha. Emma me encheu de beijos no lado do rosto, acabei entrando na onda de risos com ela, meu humor havia melhorado.
Tomamos o café da manhã juntas, minha loira me oferecia torradas com geleia na boca, às vezes brincava de aviãozinho com o pão doce e me enganava comendo o que ela deveria me dar, só de maldade. Estava bom passar o resto da manhã com ela. Até planejamos andar de bicicleta no parque no final da tarde para quebrar nossa rotina. Eu acho que Emma sentiu muito pelo o que acontecera no restaurante, afinal, aquela quantidade de gente em volta dela atrapalhou nosso restante de noite, me fez ter pensamentos nada legais sobre ela e me fez ficar com inveja. Eu me perguntava se Emma sabia como eu estava me sentindo. Ter inveja é uma das piores sensações do mundo, definitivamente não faz bem. Depois de afastarmos a bandeja de café, ela pular em cima de mim, pegarmos uma maçã e dividi-la em meio a beijos e mordidas, namoramos muito até a hora do almoço. Eu não fui mesmo trabalhar e ela ficou comigo até a hora da apresentação.
No dia seguinte, fui para o jornal normalmente, pretendendo fazer tudo o que deixei de fazer no dia que perdi em casa, mas não seria bem assim. Sidney, meu chefe, me chamou em sua sala assim que botei minhas coisas em minha mesa. Logo pensei que levaria uma bronca por ter faltado, só que mal sabia eu que estava enganada de novo.
Ele me esperava, sentado atrás de sua enorme mesa executiva, juntando um monte de papéis e me pediu para sentar na cadeira da frente. Eu obedeci, e aí ele me disse:
— Regina, eu estou com um problema. Meu editor assistente está para sair da cidade dentro de dois meses. Você está sabendo disso, não é?
— Sim, eu ouvi um boato. — respondi, minha garganta ficou seca de repente.
— Pois então, ficaremos desfalcados de mais um funcionário, o editor chefe terá muito trabalho se tudo ficar nas mãos dele, eu preciso de alguém que se encarregue de ajuda-lo. — ele disse, com as mãos juntas sobre os papéis. Eu era sonsa demais para entender o que ele queria dizer. — Você acha que seria capaz se encarregar do trabalho?
Fiquei muda por um minuto. Só Deus sabe qual foi a cara que eu fiz naquele momento. Meu chefe estava me oferecendo uma vaga de assistente editorial, isso era mais do que eu queria.
— Eu... É... Bem... Acho que...
— Não tenha pressa. Se precisar de tempo para pensar na proposta, te dou um mês.
Nem tive como responde-lo, porque eu não sabia se aceitava ou não. Aquilo iria pedir mais um pouco do meu tempo, eu passaria a chegar mais tarde no apartamento de Emma. Nossa relação ficaria complicada se eu aceitasse a proposta. Todavia, eu precisava da opinião dela.
Não contei a ninguém sobre o que Sidney me propunha no jornal. A ideia martelou minha cabeça o dia inteiro até chegar no apartamento e esperar por Emma, para conta-la.
Eu ruía minhas unhas na cama, no quarto quando ela chegou. Ouvi o barulho da porta e corri para a sala mais do que depressa e a vi com cara de cão que acabara de cair do caminhão de mudança.
— Emma, o que foi? — perguntei, antes preocupada com ela.
Ela estava tremendo, mordeu o próprio lábio inferior. Aquilo estava me assustando, mesmo assim, me aproximei.
— Senta. — ela disse. — Senta que eu vou contar uma coisa.
Não entendi o porquê dela me mandar sentar.
— O que que tá acontecendo, Emma? — perguntei estranhando muito, sentando na beira do sofá.
— Só senta e escuta... — ela veio até mim. — Se lembra do diretor que eu contei que veio assistir a peça na semana passada?
— Sim, acho que sim. — assenti.
— Então... Ele esteve no teatro hoje, e me adivinhe.
Olhava para ela e ainda não tinha pescado a situação.
— O que ele disse?
Emma pegou nas minhas mãos e sorriu contente demais.
— Que ele me quer no próximo projeto dele, um filme!
— Co... co... co... Como? — até gaguejei com a surpresa da notícia.
— Um filme, Regina! Eu vou participar de um filme, em Hollywood!
Quando minha ficha caiu eu gritei e a abracei. Começamos a pular feito duas adolescentes histéricas. Emma me rodava em seus braços, era pura alegria.
— Meu amor, mas que coisa incrível! — eu disse, muito feliz por ela.
— Sim! Finalmente! Meu Deus eu sabia... Eu sabia que isso ia acontecer. — toquei seu rosto e a selei com força antes dela dizer mais alguma coisa Só que havia um problema que com a emoção da notícia me esqueci brevemente. — Agora, é planejar as coisas para ir à Califórnia em dois meses.
— O quê? — perguntei no mesmo instante. Me afastei um pouco para fita-la. — Como é que é?
— Califórnia, Regina. Eu vou para Califórnia. Você se esqueceu que Hollywood fica na Califórnia?
Congelei olhando para ela. Naquele momento o pânico tomou conta de mim. Se eu havia entendido bem, Emma estava prestes a ir embora enquanto eu acabara de receber uma promoção no trabalho.
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