Não há outro amor para mim.
22 Adoto um amigo para minha esposa.
Notas iniciais
Dado tudo o que Emma viveu na noite do Oscar e tudo o que disséramos uma para a outra ao voltarmos para casa, foi muito bom me sentir esposa da melhor atriz daquele ano. Digo isso por vê-la realizada na carreira pela primeira vez desde My Sweet Heart Mary. E isso me fazia recordar muito dos momentos no início do nosso namoro.
Depois do Oscar, algumas coisas haviam mudado; Os paparazzi não nos perseguiam mais, apesar de encontrarmos uma ou duas fotos na sessão de celebridades das revistas, eventualmente. Emma ganhou uma caixa postal o que a possibilitava de receber muitos presentes dos fãs de todo o país (passamos várias horas nos divertindo, abrindo as caixas com os presentes. Às vezes os fãs mandavam presentes para mim também e na maior parte das vezes eram coisas de comer). Logo uma semana após a premiação, Emma recebeu um convite para estrelar outro drama, que seria gravado em Oklahoma. Deram a ela algum tempo para pensar no convite, mas Emma quase recusou alegando precisar de férias. Na verdade por trás do descanso precisava ter, estava sua culpa por não dispor de tanto tempo para nosso relacionamento quando se envolvia com alguma gravação.
Tivemos momentos maravilhosos nos três meses seguintes; vivíamos na piscina ou na banheira de casa brincando com as espumas e falando besteiras uma no ouvido da outra. Nos finais de semana chamávamos Ruby e Killian para almoçar conosco. Foi quando meu amigo ensinou Emma a fazer hambúrgueres na churrasqueira elétrica e isso era terrível para mim pois justamente nesse época tentava me tornar vegetariana.
De toda maneira, minha mulher estava se esforçando para me dar toda a atenção do mundo enquanto ainda podia e pensava se iria ou não para o próximo trabalho em Oklahoma. Na última vez que ficamos longe por conta de trabalho, eu quase comi todos os dedos das mãos de ansiedade, era muito penoso para nós duas no começo do relacionamento. Tudo bem que nesse momento estávamos mais maduras e entendíamos que não dava para morrer se ficássemos longe uma da outra por dois ou três meses que fossem. E também sempre haviam as folgas, elas serviam para matar saudades. Emma ainda estava relutante quanto a ir e, como a boa esposa que sempre foi, pensou em nós duas antes de tomar a decisão. Ela não iria.
Como eu ainda não estava de férias e isso demoraria bastante até acontecer, continuei trabalhando no jornal da TV, apresentando de segunda à sexta o que tomava bastante tempo dos meus dias e também me deixava exausta. Eu chegava a sonhar com Emma me esperando em casa no final do dia, me dando aquele banho de banheira dos deuses e me enchendo de carinho só para me ver relaxada. De fato teve tudo isso quando ela não tinha algum compromisso, ou evento para ir. Apesar de não ter aceitado ir filmar em Oklahoma, minha loira foi chamada para ser a garota propaganda de uma linha de cosméticos muito conceituada, com um cachê que dava inveja a qualquer atriz que já esteve no auge como ela. Óbvio que Emma não recusou esse trabalho e de vez em quando essa era única razão para nos desencontrarmos naqueles dias.
Tudo voltava à rotina até que numa tarde de domingo depois de voltarmos da piscina, notei que Emma demorava a subir para vir tomar banho comigo na nossa suíte. Quando desci as escadas a encontrei usando seu Macbook. Para falar a verdade ela estava fazendo isso desde a hora em que acordou, como se estivesse atrás de alguma coisa, pesquisando e parecia muito ocupada. Só parou para mergulhar um momento comigo. Notei que algo estava estranho ou ela estava sem jeito de dizer o que tanto procurava na internet.
Me aproximei, passando uma mão por seu ombro, tentando enxergar algo na tela do computador, mas Swan foi mais rápida e o fechou depressa como se tivesse fazendo algo errado que eu não podia ver.
Parei ao seu lado e a olhei de sobrancelha arqueada.
— O que você tanto procura na internet, meu amor? — perguntei.
— Não é nada. — disse ela, forçando um sorriso, acho que tentava disfarçar. — Eu estava olhando esses sites de compras, sabe como são essas promoções, não sabe?
Soube que minha mulher estava mentindo quando olhei em seus olhos. Emma era péssima mentirosa. Além do mais, não era necessário promoções para comprar o que ela quisesse. Emma estava rica.
— Acho que não, senhora Swan. — tentei brincar só que Emma me calou logo. Me puxou para seu colo, me fazendo sentar nele e me beijou de uma forma sedenta. Senti todos os músculos do meu corpo vibrarem naquele instante. Emma sabia fazer aquilo com apenas um beijo.
Respondi ao beijo e depressa ela deslizou as mãos para debaixo do roupão me agarrando com propriedade pelas nádegas, se levantando comigo e me levando para o quarto. Tomamos banho na ducha e depois fizemos amor na cama o restante da tarde.
Dormimos depois de gastar tanta energia no sexo. Me recordo de acordar envolvida pelos braços de Emma, de lado, com ela colada atrás de mim. Quis me levantar, então tomei muito cuidado para não acordá-la também, me desfazendo do contato com o corpo dela devagar. Cobri seu corpo com um lençol e a deixei na cama depois de colocar um roupão em mim para descer.
A casa estava toda escura quando cheguei na sala, já era noite. Acendi as luzes, peguei algo para beber na cozinha, voltando para a sala, foi quando vi novamente o Macbook de Emma sobre a mesa de centro. Eu sei que não era uma ideia muito agradável investigar o que fazia, mas eu estava de fato muito intrigada e curiosa. Entre eu e ela não havia segredos, pelo menos eu achava que não e naquele momento senti que Swan omitia algo.
Olhei para o alto da escada. Emma não parecia que acordaria tão rápido e me pegaria ali. Não pensei muito, me sentei no sofá, abri seu computador o religando. Antes de subirmos Emma havia conseguido fechar as páginas que olhava na internet, mas não as excluiu do histórico. Não foi difícil acessá-las depois de uma rápida pesquisa. E lá estava uma coisa que me surpreendeu. Tudo o que minha mulher havia acessado nos últimos dois dias eram páginas de orfanatos e informações sobre adoção.
Não sei qual foi minha sensação ao ver a preocupação dela tão estampada nas pesquisas que ela fez, mas certamente me senti mal após entender o receio dela em me mostrar ou falar sobre isso.
Não contei a Emma que sabia de suas pesquisas e do que ela planejava. Era evidente que ela não estava disposta a me esperar para aceitar ser mãe. Eu tinha a sensação que ela acabaria me impondo, de um jeito delicado mas faria. Infelizmente eu ainda pensava de forma egoísta, definitivamente não podia ser o momento para ter uma criança em casa.
Passei um bocado de tempo atrás de uma solução, atrás de uma forma de convencê-la a não ir adiante com a adoção. Me doía pensar na conversa que teríamos quando eu abrisse o jogo com ela. Se era um sonho para minha mulher, isso a deixaria desapontada, tudo o que eu não queria. Acho que o que mais me assombrava era o medo de magoar Emma com as minhas decisões. Mas eu ainda podia dar a ela algo que fosse agradá-la tanto quanto uma criança. Uma ideia me surgiu.
Naquela mesma semana, agendei uma visita ao canil de Los Angeles, indo atrás de um amigo para ocupar o tempo livre de Emma. Acabei me encantando por um certo Dálmata que havia sido encontrado e deixado ali há uma semana. Não dava para acreditar que alguém teve coragem de abandonar uma coisa tão fofa e esperta quanto aquele cão. Eu podia ter escolhido entre uma ninhada de Poodles ou por um cão mais novo, mas aquele Dálmata velho conseguiu me conquistar quando passei pela cela dele e curiosamente abanou o rabo para mim sem estranhar o cheiro do meu perfume.
Levei o cachorro para casa com alguma dificuldade, pois o animal era grande e quase batia no teto do carro toda vez que passava por uma lombada. Apesar disso, valeu a pena ver Emma chegando em casa e tomando um susto. Eu estava sentada no sofá no momento em que Swan abriu a porta e viu o cachorro. Emma e Pongo, como ela começou a chama-lo, se deram bem logo de cara. Pongo pulou em Emma enchendo-a de lambidas na cara.
— Regina, de quem é esse cachorro?! — Emma perguntou, tentando conter o cão que literalmente a abraçava, ele gostou muito dela.
— É nosso. — eu disse a ela rindo. — Até ele já sabe disso, meu amor. O que acha? Ele gostou muito de você.
— Eu estou vendo. — Emma me olhou contente, sem saber o que me dizer. Mas tudo o que ela precisava fazer era brincar com o nosso bicho de estimação. — Você parece aquele cachorro dos 101 Dálmatas, Pongo. — disse para o cão que latiu como se tivesse entendido o que ela falou.
Ele era um cão bruto no início, mas só queria mostrar seu carinho, talvez agradecimento por termos tirado ele do abrigo de animais. Comigo não era muito diferente depois que chegava em casa do trabalho e o encontrava.
Quando Pongo se aquietou com Emma, pude contar à ela o que fiz para trazer ele para casa. Emma e eu já tivéramos animais de estimação na infância e acabamos matando as saudades de cuidar de um bicho tendo o Pongo. Como eu previa um animal em casa ajudaria Emma a adiar a ideia de adotar uma criança. Eu não sabia por quanto tempo minha ideia genial seguraria Emma. Mas tive algumas semanas de paz.
Swan tratou de comprar tudo o que nosso mascote precisava, coleira, roupas de frio, material de banho... O levava para passear pela vizinhança todo dia de manhã e até fazia a comida dele de noite, mas isso não durou muito depois que ela levou uma bronca do veterinário e passou a dar ração de cães idosos para Pongo.
Me reacostumei a ter um bicho em casa, os últimos tinham sido gatos, em especial a gata de Zelena que adorava bichanos. Era a primeira vez que tinha um cão, e eu não sabia o quão amorosos eles eram.
Houve uma vez em que eu e Emma namorávamos debaixo da coberta antes de dormir quando senti algo peludo roçar nas minhas pernas.
— Emma... — cutuquei ela, tentando fazê-la parar com os amassos que me dava. — Emma... Pare! Você não se depilou esse mês? — perguntei, tentando alcançar a perna dela que se roçava na minha, algo peludo estava contra meus pés.
— O quê? Claro que me depilei. Você não está vendo? Eu estou lisa.
— Não, você não está, o que é isso aqui... — cheguei na tal “parte peluda” da perna de Emma e não era a pele da minha mulher, era Pongo se ajeitando em cima dos nossos pés. Suspendi o lençol e o vi muito confortável aparentemente. Emma e eu olhamos uma para a cara da outra e começamos a rir e então nos demos conta de que faltava comprar uma cama para o cão.
Eu estava aliviada com Emma ocupada com nosso cachorro, porém eu mesma estraguei tudo no momento mais inesperado.
Normalmente minha mulher adorava fazer surpresas para mim, mas daquela vez não foi uma boa ideia.
Um belo dia eu estava no camarim da emissora tirando o excesso de maquiagem da cara depois do noticiário. Meu telefone tocou, era Killian que estava entediado no L.A. Diário e me ligara para falar algumas outras coisas a respeito do jornal. Acabei contando sobre Pongo e como estava contente por Emma estar distraída com o animal.
— Eu não sabia que você gostava de cachorros, Regina. — disse Killian rindo do outro lado da linha.
— Nem eu sabia. Mas ele é adorável, eu estou adorando e Emma com certeza mais ainda. Ela precisava de algo para se distrair. Pelo menos agora ela não pensa tanto na adoção. Aquelas coisas que andei vendo no computador dela me deixaram bem assustada. Se eu não fizesse alguma coisa, Killian, ela correria atrás. — comentei, segurando meu celular entre o ombro e o rosto para mexer com as duas mãos no estojo de maquiagem.
— Você tem mesmo certeza de que ela faria isso sem te consultar?
— Killian, ela estava fazendo de tudo para me esconder. Ela sabia da minha reprovação a ideia, acabaria fazendo e depois me contando de um jeito que não houvesse saída. — voltei a segurar o telefone na mão e ouvi meu amigo respirar fundo na linha.
— Vocês duas precisam conversar francamente sobre isso e logo.
— Eu sei, eu só tenho medo de desapontá-la. Eu não quero ser mãe. Eu não quero ter de dividi-la com outra pessoa.
— Regina, um cachorro é quase como um bebê. Você no fundo tem instinto maternal, veja como fala desse cachorro. Acho que você só não está no momento.
— É. Talvez eu só não esteja no momento. — disse por fim, terminando de limpar meu rosto com uma toalha. Quando me virei para pegar a bolsa tomei um susto com ela na porta me olhando indignada. Por um breve segundo vi uma lágrima escorrer no rosto de Emma.
Ela estava ali de surpresa. Tinha ido dar uma entrevista em um programa da mesma emissora e foi ao meu camarim me ver quando chegou bem na hora em que eu falava ao telefone com meu amigo.
Deixei Killian falando sozinho do outro lado da linha. Me levantei da cadeira e corri até ela na porta.
— Emma, não foi isso o que você ouviu!
— Está bem, Regina, eu já entendi tudo. — ela teve a delicadeza de me soltar e sair andando apressada pelo corredor.
— Emma, por favor, não é o que está pensando, me deixa explicar! — corri atrás dela a pegando pelo braço mas ela não parava de andar.
— Me deixa, me deixa sozinha, eu preciso pensar, só me deixa. — senti que ela ficou nervosa. Soltei de seu braço mesmo estando desesperada, a vi cruzando o corredor, indo embora daquele jeito. Eu havia estragado tudo.
Voltei para casa naquela noite muito constrangida. Completamente sem saber como encará-la. Infelizmente não seria naquele momento que teríamos alguma conversa. Emma tomou uma decisão e já tinha tudo pronto.
Pongo me recebeu na porta e subiu junto de mim até nosso quarto. Lá estava Emma fechando suas malas em cima da cama. Ela me viu e me fitou muito séria.
— O que você está fazendo, meu amor? — perguntei com os olhos prestes a transbordar d’água.
— Eu vou trabalhar. Hoje à tarde eu liguei para o diretor do filme de Oklahoma. O papel ainda é meu. Eu pego o próximo voo. — foi o que ela disse, seca.
E essa foi a forma de Emma me pedir um tempo afastada dela.
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