Não faça silêncio

1 Não Faça Silêncio - Capitulo único.


Era por volta das sete da noite quando entrei na biblioteca pública, a única que funcionava até a meia noite. Eu precisava fazer uma pesquisa e essa biblioteca tinha o livro de que precisava. E como só tinha tempo no período noturno, eu precisava de uma que fechasse mais tarde que as demais. Sei que existe a internet e hoje achamos tudo por lá, a questão é que eu precisava de um conteúdo um pouco menos mastigado. A internet é um bom lugar para informações rápidas, mas para se aprofundar em um tema, nada melhor que um bom livro. E nesse caso, era sobre a Segunda Guerra Mundial.

Ao entrar na biblioteca, deparei–me com várias estantes com livros. Estas eram de metal, embutidas nas paredes e também de madeira que ficava posicionadas em meio ao local. Em vários pontos aleatórios ficavam mesas e poltronas para que as pessoas pudessem ler os livros desejados. Haviam umas dez pessoas contando comigo e a bibliotecária, que estava sentada numa mesa e mexia no computador. Ela era bem nova, não mais que vinte e cinco anos. Vestia um roupa social preta e seu cabelo estava preso num rabo de cavalo. Ela era bonita.

Como eu tinha costume de ir ali, sabia que essa bibliotecária trocava de turno com uma outras e apenas a partir das quatro da tarde é que ela trabalhava. Outra coisa que eu sabia bem, era onde procurar o livro que eu necessitava. O foco era o papel do Brasil na Segunda Guerra e um amigo havia me indicado o livro que atendia todas minhas necessidades: 1942: Brasil e sua guerra quase desconhecida, de João Barone. Minha sorte é que eu já tinha visto aquele livro por ali e quando me indicaram ele, bem, foi quase perfeito. Comecei a folheá-lo e absorver o conteúdo nele presente, mas com um pouco de dificuldade. Apesar de ser uma biblioteca, as pessoas ali não se calavam um segundo, era difícil ter silêncio. Isso dificultava minha leitura. A tal bibliotecária, nem se manifestava fazendo o trabalho dela que, segundo os filmes Hollywoodianos, é colocar o dedo em cima dos lábios e dizer “shiiiiu”, para quem quer que esteja fazendo barulho.

E mesmo que ela não fizesse isso, o pessoal devia se tocar, pois em frente a uma das mesas, a que mais fazia barulho por sinal e aglomerava mais da metade das pessoas que estavam no local, tinha uma mini placa pé diante dela. Eu não consegui ler claramente o que estava escrito, pois a placa estava de costas para mim, mas com a luz da lâmpada batendo nela, eu pude ver por trás dela o reflexo das letras que estavam escrito na placa, e pelo que li, era algo relacionado a fazer silêncio. Aquilo estava me irritando. Tanto que não adiantei cinquenta páginas em minha leitura. Aos poucos o pessoal daquela mesa foi saindo, até que chegou um ponto em que eu estava só lá. Finalmente silêncio. A moça que estava na recepção, saiu talvez tivesse ido ao banheiro.

Eu também resolvi sair do lugar onde eu estava. A poltrona era confortável, mas não era tão bem iluminada quanto a mesa em que os tagarelas estavam. Por isso fui até lá. Sentei na cadeira e nesse momento senti saudades da poltrona. A cadeira era dura e desconfortável, mas eu já não estava mais disposto a sair daquela mesa, por isso posicionei o livro nela e passei a ler. Li muito e rapidamente, tanto que quando dei uma pausa para respirar, tinha chegado a metade do livro. Sim, minha leitura é compulsiva. Ergui a cabeça para descansar um pouco a minha visão. Acabei olhando para a placa, que antes eu havia visto de costas. Nela estava escrito: “Atenção: Faça silêncio a partir das 22:00Hrs”. Olhei em meu relógio e falta cinco minutos para o horário indicado na placa. Talvez fosse por isso que os tais tagarelas estivessem gritando, pois não infligiam a regra. Enfim, não teria que me preocupar com o aviso, até por quê, quais motivos eu teria para fazer barulho?

Continuei minha leitura. Um coisa no meu subconsciente começou a latejar, minha cabeça começava a doer. Olhei para a mesma onde a moça devia estar sentada, e ela ainda não havia voltado. Quem diabos fica mais de um hora no banheiro? Será que ela estaria comendo ou descansando? Na verdade, não me importava. Voltei os olhos para o livro e imediatamente senti uma pontada na cabeça. Fechei os olhos e esperei a dor passar. Isso acontecia quando eu lia muito, mas eu precisava ler aquele livro. Quando passou, tentei ler de novo e tudo se repetiu, a única diferença foi que a dor foi tanta em minha cabeça que soltei um grito. Senti-me irônico com meu pensamento anterior, sobre não ter motivos para fazer barulho. Aquele pensamento soou como uma estranha piada de efeito retardado.

Marquei a página do livro com um papel de bala que estava no meu bolso e passei a esfregar minhas têmporas com o indicador e o dedo médio. A dor era muito forte, tanto que passou a me fazer ver coisas. Quando voltei os olhos para a tal placa, eu estava vendo algo diferente. Como se fosse uma imagem pouco opaca sobre outra num programa de edição. E nesta imagem transparente sobre o aviso, consegui ler a consoante N, no espaço entre a palavra Atenção e Faça. Curioso com aquilo, prossegui encarando, tendo uma estranha certeza de que veria mais. Eu não estava errado.

Quanto mais eu forçava para ver, mais minha cabeça doía, porém eu continuava forçando, até conseguir ver a palavra que antes não fazia parte da placa, mas agora parecia sempre ter estado ali. A palavra "Não". Com minha cabeça explodindo de dor, li novamente o aviso. ATENÇÃO: NÃO FAÇA SILÊNCIO A PARTIR DAS 22:00HRS.

Aquilo não fazia sentido. Aquela placa não não poderia ter mudado de uma hora para outra. A dor em minha cabeça e a falta de de lógica na situação fez-me entrar em pânico. A moça ainda não voltara. A essa altura eu nem sabia se isso tinha relevância. Ouço barulho de livros caindo. Outra vez e outra. Sinto um arrepio em meu corpo, o local parece estar congelando e o ar mais denso. Os livros que caíram, foram de uma estante de madeira que ficava logo a minha frente, porém do lado oposto ao qual eu olhava.

Tenho a sensação de ouvir algo rastejando entre os livros, como uma cobra serpenteando pelas frestas deixadas pelos livros caídos, que agora permitiam que eu visse a parede atrás da estante. Um suor frio escorreu sobre minha bochecha. Mais três livros caíram, dessa vez ao mesmo tempo. Ouço o rastejar. Ele parece vir do chão agora, parece me rondar. Forço-me a ficar parado. Uma das prateleiras de metal, acoplada na parede, ficava atrás de mim, e todos os livros nela caíram, vários me atingiram. Olhei para trás e de canto de olho vi um espécie de vulto contornando a mesa que eu estava, rastejando pelo chão. Tomado pelo medo, gritei:

– Quem está aí?! – por um segundo o rastejar parou e eu me senti um idiota.

Minha respiração voltava ao normal e eu agachei-me para recolher os livros que estavam ali no chão. Com certeza eles só caíram por que aquela turma de mais cedo teria colocado eles de mal jeito. Era a única explicação. Em silêncio recolho-os tranquilamente, até mais uma vez o rastejar preencher meus ouvidos. Dessa vez ele parecia mais rápido, só que era impossível saber de onde vinha. Não tinha mais dúvidas que aquilo era real. Larguei os livros, quais eu recolhia, e ainda com as mãos no chão comecei a correr. Fui em direção a porta, mas não sem antes esbarrar na mesa da bibliotecária. A quina dela acertou minha coxa e deixou-a extremamente dolorida. Ao chegar na porta tentei abri-la, mas não consegui. Mesmo movendo a maçaneta de forma violenta, a porta não queria abrir. O esforço foi tanto que a maçaneta quebrou-se, impossibilitando ainda mais minha saída.

O rastejar estava mais próximo, não podia ver a criatura, mas podia senti-la, e ela estava a menos de um metro de mim. Mesmo sem nada a minha frente, pressionei-me contra a porta, na tentativa de afastar-me o máximo possível da criatura. Uma imagem veio à minha cabeça. Um réptil de quatro patas, que andava rapidamente com a sua barriga rugosa arrastando pelo chão. Tão grande quanto um crocodilo, mas com cabeça de naja que possuía dentes tão numerosos que parecia que um tubarão havia emprestado a dentição para tal criatura. Não me pergunte como era possível, só que que eu tinha a certeza que era essa criatura que rastejava até mim. Minha cabeça ainda doía.

De repente, sinto algo puxando minha perna direita junto com uma leve pressão em torno dela. Essa leve pressão passa da dor de uma picada de agulha à dor de um membro decepado, em questão de segundos. Minha calça jeans se empapou de sangue e colou-se em minha perna. A dor quis me fazer gritar, mas algo reprimia o grito como se houvesse um tampão prendendo o som de minhas cordas vocais. Essa coisa começou a me arrastar por toda a biblioteca, e quanto mais eu reprimia, sem querer, meus gritos de dor, mais a dor aumentava. Os gritos presos em minha gargantas pareciam animais selvagens aranhando as paredes de um jaula e querendo sair. Minha garganta sangrava.

O monstro me girou no ar e jogou-me contra a mesa que antes eu estava, e no processo eu esbarrei na placa. Era insano ser atacado por algo que não se podia ver. Ainda zonzo pela dor e pela queda, retirei a placa de cima de mim, e enquanto eu fazia isso, li-a mais uma vez: ATENÇÃO: NÃO FAÇA SILÊNCIO A PARTIR DAS 22:00HRS. E foi aí que eu entendi. De alguma forma, eu estava descumprindo a ordem da biblioteca e algo nela estrava me punindo por ser tão desrespeitoso. Eu não sabia quem, mas estava fazendo o seu trabalho muito bem. Foi aí que eu percebi que eu tinha que gritar, fazer barulho. Qualquer merda que reproduzisse som. Só assim poderia libertar-me.

Tentei gritar, enquanto corria mancando pela biblioteca com uma perna quase dilacerada. Eu forçava minha garganta, minhas veias estavam alteradas. Podia ouvir o rastejar daquele monstro em minha volta, observando-me. Tossi sangue. Ainda tentava gritar. Sabe aquele truque onde um mágico entra numa caixa e suas assistentes colocam espadas em todos os ângulos possíveis, e mesmo assim o mágico não sofre nenhum dano? Eu sentia como se minha garganta fosse uma dessas caixas, pois a cada tentativa de fazer barulho, minha garganta doía como se estivessem enfiando uma espada nela em um ângulo diferente. E quem quer que fosse o magico ali dentro, não sobreviveria para contar história. Eu temia que nem eu sobrevivesse.

Continuei foçando minha garganta, senti então que o monstro invisível tinha se cansado de esperar e resolvera me atacar, foi ai que forcei ainda mais. O desespero foi tanto, que consegui gritar, mas não sem antes inundar a minha garganta com sangue e marcar minha língua com aquele gosto de ferrugem. O grito saiu, estridente e gutural, como algo não-humano. Gritei por quase um minuto direto. Quando minha forças acabaram, tudo era silencioso, sem rastejar, sem barulho do vento, nada. A moça, voltou de onde ela estava, sentou-se naturalmente em sua cadeira, sem se importar com o meu estado. Por fim, ela olhou-me e disse normalmente:

– Senhor, já vamos fechar. – ela apontou para um relógio de parede que marcava meia noite e três. Não conseguia entender como a mulher podia agir tão casualmente sobre aquela situação. E minha aparência não era nada boa. Boca vermelha de sangue, olhos alertas, vários arranhões pelo corpo e uma perna quase amputada. Eu não estava sentindo dor, como se eu estivesse num estado super anestésico. Ainda mancando, fui em direção a porta, que mesmo sem a maçaneta consegui abrir facilmente. Não questionei a moça, não por estar chocado com a atitude dela e sim por não ter nenhum resquício de voz. Quando eu havia passado pela porta metade do meu corpo, a moça me chamou. – Senhor, da próxima vez que vier, por favor, cumpra a regra: Não faça silêncio. – então ela me dirigiu um sorriso, que seria até gentil, se não fosse o fato de ter tantos dentes quanto a boca de um tubarão.

Notas finais
E aí pessoal, o que acharam? Horror, suspense é um gênero novo que resolvi experimentar com esse conto, o feedback de vcs é muito importante, então não deixe de dar uma crítica, aí nos comentários. Fuiz!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!