Não era uma Lenda.

1 Crianças, fome e muitos arranhões.


Notas iniciais
Olááá pessoas ♥
Depois de pensar bastante, estou aqui, com a antiga história Sobrevivente reescrita. Ela mudou BASTANTE.

Bem, as características da personagem principal vão ser apresentadas ao longo do capítulo, assim como de outros personagens. Ok? Ok.

Boa leitura ♥

Sabe, eu até que gosto da minha vida.

Eu fui adotada quando tinha uns 2 anos de idade, até hoje não sei quem é a minha família biológica e o porquê de terem me abandonado. Mas em compensação, a família que me adotou é adorável. O casal me adotou porque pensaram que eram inférteis, mas dois meses depois de terem me adotado, a minha mãe ficou grávida de um menino. Deram o nome dele de Adam. Sempre nos deram a mesma quantidade de amor e atenção, mas quando eu completei cinco anos, meus pais começaram a me tratar como se eu fosse um ovo de galinha feito do cristal mais frágil do mundo. Só me deixavam sair de casa com algum adulto, não me deixavam sozinha em casa, tinha babá eletrônica em todos os cômodos da casa. Obviamente, ocorreu o mesmo com o Adam, já que ele tinha apenas 3 anos quando isso ocorreu. Tínhamos de ter cuidado com o que falávamos, pois ele parecia um papagaio, repetindo tudo o que ouvia.

Eu achei isso supernormal, pois os pais dos meus vizinhos também eram assim. Eu só não entendia o porquê, o que foi horrível pros meus pais, pois justamente nos cinco anos eu comecei a minha fase dos porquês. Perguntava a cada 5 minutos “Por que eu não posso andar de bicicleta sozinha?” ou coisas do gênero, e os meus pais respondiam que é porque tinha pessoas más lá fora. Eu perguntava “Por que tem pessoas assim?” e eles diziam que sempre existia uma coisa inversa da outra. Assim como comida gostosa existe, também existe com gosto ruim. Assim como existe doce, existe salgado. Se existe calor, existe frio. Se existe claridade, existe escuro. Enfim, eles me davam um exemplo diferente toda vez que eu perguntava.

Um dia eu perguntei para eles se tinha como saber quando uma pessoa era má ou não. Eles disseram que isso só iria depender da minha intuição. Eu perguntei o que era intuição. Eles responderam que é o que o nosso coração sente. Mamãe deu o exemplo de quando conheceu papai, ela sabia que ele era um homem bom pela sua intuição, até que a intuição falou tão forte que ela percebeu que ele era o cara certo para ela. Isso me deixou com cara de “aawwnn”, mas eu ainda não sabia como funcionava a intuição. Eles disseram que é só sentindo, que não tem como explicar. A conversa tinha terminado por aí, porque o Adam começou a chorar por causa do seu boneco que ele quebrou.

Enfim, isso foi há nove anos e eu continuo sendo tratada como uma criança de cinco anos. O Adam nem tanto, mas eu acho que é porque eu sou adotada e só descobri isso há alguns dias. Acho que eles foram pesquisar na internet “como dizer ao seu filho que ele é adotado” tarde demais, mas eu realmente estou de boa. Não estou furiosa, pois isso poderia acontecer com qualquer um, e eu deveria agradecer ao universo por eu ter sido adotada por um casal tão adorável e não ficar com raiva deles. Bem, pelo menos eu acho.

Digo isso porque o Adam ficou triste em saber que eu não era sua irmã de sangue, que eu pertencia à outra família. Eu não entendi e aparentemente nem meus pais entenderam, ele tem apenas 14 anos, está começando a descobrir a realidade, deve estar muito confuso. Eu tentei consolar ele, mas não adiantou muita coisa. Pelo menos eu tentei.

Neste exato momento eu estou numa aula entediante de filosofia no meu terceiro dia de aula no último ano do colegial.

Falar isso ficou parecendo aquelas introduções de filmes musicais tipo High School Musical. Ok vou tentar fazer de outra forma.

Eu estou no último e mais infernal ano do colegial numa aula de filosofia. É o terceiro dia e eu só queria um travesseiro nesse momento.

Essa apresentação ficou mais legal.

Enfim, enquanto o professor fala novamente sobre a vida de algum filósofo insignificante, eu estou me encarando no reflexo da janela discretamente. Meu cabelo está mais curto que o normal, com todos os cachos fazendo cócegas na nuca quando eu viro o rosto. Meus olhos azul e azul-falso estão meio inchados de tanto segurar o sono.

“Mas como assim azul-falso?”

Ora, eu tenho a famosa heterocromia. Um olho é azul e o outro é verde, aí para evitar o encara-encara das pessoas diariamente eu uso uma lente azul no meu olho esquerdo. As únicas pessoas que sabem que tenho olhos de cores diferentes são os meus parentes e os meus amigos mais íntimos.

Eu sei que não falei o meu nome, mas é que as pessoas o falam tanto que eu quero deixar esta honra para outra pessoa que provavelmente vai ser o professor de filosofia chamando a minha atenção porque eu não estou nem se quer olhando para frente. Agora eu parei de me encarar na janela e estou encarando meu caderno em branco.

— Carter, o que está fazendo? – eu disse que ele ia me chamar. Agora você sabe o meu sobrenome.

— Filosofando. – respondo num tom de voz inocente.

— E o que seria filosofar para você, Carter? – ele cruza os braços.

— Ué, para mim era o que Platão dizia, conhecer a mim mesma. – tento parecer segura, mas não tá dando muito certo. O olhar desse professor é mortal.

Todos da sala caem na gargalhada. O que eu falei de errado desta vez?

— Primeiramente, não foi Platão que disse isso, foi Sócrates. Segundo, se conhecer-te a ti mesma é a “sua” filosofia, poderia pensar sobre você mesma na diretoria, fazendo-me um favor?

— Mas por quê? Eu não estava nem te atrapalhando e agora eu aposto que ninguém mais vai esquecer que foi... – paro um segundo para pensar – Sócrates que dizia para nos conhecermos.

O professor me encara como se eu fosse um animal a ser caçado.

— Sobre quem eu estava falando, Carter? – ele pergunta ficando bem na frente do nome que ele escreveu no quadro.

A única coisa que vejo é um “edes”. Tento lembrar-me todos os filósofos que terminam com “edes” que eu consigo.

— Ãhn... Espera, me fugiu o nome... é... – eu estralo os dedos como se isso fosse ajudar alguma coisa.

Ouço alguém cochichar “Arquimedes” e com um reflexo rápido respondo:

— Lembrei, lembrei! Arquimedes! – digo alegremente, parando de estralar os dedos e apontando para o professor – É ele, né?

— Você não existe, Carter. – ele diz abafando uma risada, e continuando sua explicação sobre alguma coisa da vida de Arquimedes.

Eu não entendo o porquê de termos que saber sobre a vida desses caras, isso não é um tipo de fofoca? Ficar cuidando da vida dos outros? Ainda mais aqueles professores que além de falar o que o cara fez, dá uma opinião sobre como poderia ter feito melhor. Eu não suporto isso.

Ouço o barulho do paraíso tocar freneticamente, fazendo todos os alunos saírem rápido do inferninho.

— Lembrem-se do trabalho em dupla que vocês têm que fazer! – o professor tenta gritar mais alto que a multidão.

Eu nem o ouvi falando sobre o trabalho, e o velho nem escreve no quadro de propósito, eu acho.

Como sempre, sou a última sair por causa da minha lerdeza ao escrever num bloquinho de tarefas o que tenho que fazer hoje. Guardo tudo apressadamente na mochila totalmente roxa e tento sair andando apressadamente.

— Carter, espere! – sabia que o velho iria falar isso... Logo agora? Eu estou morrendo de fome!

Dou uma meia volta dramática e digo:

— Sim?

— Você realmente tem dificuldade em filosofia? Ou só diz aquelas coisas para entreter a sala? – agora ele está me encarando como se eu fosse um objeto curioso que brilha.

— Eu realmente não consigo lembrar tantos nomes com tantos pensamentos diferentes. Mas agora eu já sei: Sócrates igual a conhecer a si mesmo – estralo os dedos e aponto com o indicador para ele como se ele fosse um dos meus amigos íntimos – coisa que com certeza ele não é.

— Então você tem mais facilidade em exatas, pelo o que eu percebi. – ele continua me encarando da mesma forma. Velho estranho.

— Sim... Porque na matemática nada é relativo. Dois mais dois é igual a quatro e raiz quadrática de cento e sessenta e nove é treze. E eu não preciso ficar me preocupando em quem foi que criou isso, até porque ninguém sabe.

— Entendi, entendi. Nunca ninguém me deu esse tipo de explicação. Genial, Carter.

— Obrigada. Agora eu preciso almoçar. Tchau professor. – digo correndo e nem presto atenção se ele respondeu ou não, eu só quero almoçar.

Viro para a esquerda bruscamente e me esbarro em alguém.

— Ai... Calma, o refeitório não vai sair correndo. – o idiota do Sebastian estava comendo um sanduíche bem calórico. E ele parece ser tão suculento...

O sanduíche, eu digo.

— Bem, se eu não correr não vai ser o refeitório que vai sumir e sim a comida que tem nele.

Minha barriga ronca tão alto que até eu me assusto.

— Sebastian, pelo amor da menininha que você tá afim agora, me dá um pedaço.

— Hm, depende. Vai fazer dupla comigo no trabalho de filosofia? – ele levanta o seu braço para que fique impossível eu pegar o sanduíche antes de responder.

— Sim, sim, parabéns, você tem a pior dupla possível. Agora me dá um pedaço, você não ouviu a minha barriga implorando por comida?

— Pega um pedaço, mas não...

Eu pego o sanduíche inteiro e saio correndo até o refeitório.

— FALOU OTÁRIO! – grito olhando pra trás.

— Harriet! Sua ladra de sanduíches! – ele está tentando me alcançar. – Volta aqui!

Finalmente alguém falou o meu nome. Pensei que iria ser mais rápido, mas acabou demorando bastante.

Bem, gravou né? H-a-r-r-i-e-t. Pronuncie do jeito que você achar melhor.

E eu só roubei o sanduíche dele pra pirraçar, eu não sou tão desesperada assim.

A porta do refeitório está bloqueada por uma parede, digo, James. Mas que droga, James.

Sebastian me alcança antes de eu chegar no James, segurando pela minha blusa, o que me obriga a diminuir a velocidade até parar completamente.

Esse garoto é um raio.

— Devolva. – ele diz isso num tom tão imperativo que é quase convincente.

— Só mais um pedaço... – mordo praticamente um quarto do sanduíche. – Hhhmmmm, que debibia. – falo com a boca cheia. Era para ser “que delícia”.

Sebastian simplesmente arranca o sanduíche da minha mão.

— Que isso não se repita. Por favor. – ele diz.

— Não fique mais na frente das pessoas. Eu agradeço desde já. – retruco.

— Vocês poderiam parar com isso? Eu tô aqui de boa sem reclamar com ninguém, vocês poderiam fazer isso também. – James parece que tá drogado, como sempre.

— Ta, vou tentar. Mas, James, por gentileza, poderia dar licença para esta pobre adolescente que só falta cometer canibalismo de tanta fome que ela está sentindo? – digo na terceira pessoa.

— Claro, por que não disse antes? – ele diz saindo do caminho com um tom de ironia. – Ah sim, é verdade, deve ser porque você devia estar muito ocupada roubando lanches de meninos inocentes.

Ignoro o comentário dele e dou atenção à uma máquina de lanches que fica do lado da porta. Eu demorei muito e agora a fila está maior que a cabeça do Sebastian.

Compro um refrigerante, dois sanduíches naturais e um chocolate de três barras pequenas. Acho que isso vai aliviar a fome.

Coloco os dois sanduíches entre o polegar e o indicador da mão direita, o chocolate entre o dedo médio e o indicador também na mão direita. O refrigerante na mão esquerda. Está tudo perfeitamente equilibrado. Vou em direção a uma mesa que fica do lado do lixo, a única vaga.

Coloco tudo em cima da mesa e sento, percebendo só agora que eu me esqueci de por a mochila dentro do armário. Agora vai ficar me empatando, que saco.

— Olá, ladra de lanches de amiguinhos. – Sebastian senta com uma garrafa de água nas mãos.

O seu cabelo preto está bagunçado, aparentemente alguém lhe deu um cascudo (aposto que foi o James). Está resmungando em espanhol.

Já falei para você que ele é mexicano? Pois é, eu acho que não falei absolutamente nada sobre meus amigos. Desculpa.

Bem, o Sebastian tem mais ou menos 1,75m de altura, uns cinco centímetros mais alto do que eu. Tem a pele morena, olhos castanhos e cabelo preto ondulado curto. E como você pôde perceber, corre bem rápido.

O James tem 1,85m, cabelos loiros, pele clara e olhos castanho-escuros. Ele é o capitão do time de futebol, mas não é um capitão muito comum. Ele é bem zen e só grita quando é necessário. Diferente de mim, adora filosofia.

Tem também a Jessie, uma menina que veio do Texas, Estados Unidos, um país dominante nesse mundo insignificante. Ela tem um grande cabelo castanho e liso, que bate abaixo do seu peito. Tem olhos verdes e adora super-heróis. Ela geralmente só nos vê nos finais de semana, pois é de outra escola.

Onde nós moramos? Numa ilha perdida no meio do Oceano Pacífico. Chama-se Limanoch. Recebe esse nome porque nosso comércio é basicamente limões e um cara importante daqui tinha um sobrenome incomum: Noch.

Eu sei, é horrível, mas é o que temos para hoje.

Nossa ilha não é tão pequena, é relativamente grande. Imagine a Austrália divida em quatro partes iguais. Um desses pedaços é a nossa ilha. Legal, né?

Não.

Eu sempre quis conhecer outros países, mas meus pais não tem dinheiro para comprar passagens de avião. Por causa da inflação, só falta pagar para respirar. As vendas dos limões não estão indo muito bem. Nossos políticos só faltam tentar roubar nossas almas. Eles não ligam para o progresso da ilha.

Mas no momento eu estou pouco me lixando para a política dessa ilha, só quero fazer um trabalho decente de filosofia.

— James, pode nos ajudar no trabalho de filosofia? – pergunto.

— O trabalho é em dupla, nem vem. – Sebastian aparentemente não quer ajuda do James.

— Nós dois somos horríveis em filosofia, meu amigo. Toda ajuda é bem vinda. – respondo.

— Ô, de boa... Qual a dúvida? – James fala tão drogadamente que eu me sinto calma quando ele fala.

— Como é o trabalho? – Sebastian pergunta como se a resposta fosse muito difícil.

— É só vocês dizerem qual a importância de Arquimedes para a filosofia. Tem que ter no mínimo 15 linhas. – James está com os olhos fechados enquanto mastiga seu macarrão oleoso.

— E... Qual foi a importância...? – pergunto.

— Eu respondo isso depois pelo celular, me deixa apreciar meu almoço de purê de batata com macarrão e frango. É bom aproveitar cada momento que a vida te dá...

Eu não consigo entender o James. Como que esse cara conseguiu ser o capitão do time de futebol? Ele tem mais jeito de ser reserva.

Enquanto eu como meu segundo sanduíche (sim, eu já devorei o outro e você nem percebeu), ouço um grito agudo de uma menina e... asas batendo?

Todos do refeitório ouviram. Veio do corredor.

A maioria levanta da mesa e fica alerta, tentando ver o que está acontecendo ou pelo menos ouvir. Sebastian e James ficaram em pé, James me mandou ficar sentada. Eu simplesmente obedeci como um cachorrinho treinado. Ele é convincente.

A menina que aparentemente tinha gritado está toda arranhada pelos braços, como se uma águia tivesse entrado no colégio só pra a machucar. Ela é ruiva como eu e está chorando de pânico.

James foi até ela, enquanto o resto só continuou observando. Eu me levantei bruscamente para tentar ajudar ela, jogando a minha mochila em cima da mesa. Era apenas uma garotinha da sétima série. Saí apressadamente da mesa, batendo meu joelho na hora que fui levantar.

Mesas baixas é uma merda.

Fui cambaleando mesmo assim, Sebastian falou para eu continuar sentada, mas ele não é tão convincente quanto o James, então eu continuei andando. Ele veio atrás de mim.

—...e me atacou como se eu fosse a sua refeição! – ela se esforça muito para não soluçar enquanto fala, é uma menina forte.

— E depois foi embora? – James pergunta num tom como se fosse pai da criança.

— Sim, como se... – ela não conseguiu conter esse soluço – ...nada tivesse acontecido!

Ela está chorando muito, seu rosto está completamente vermelho que nem um pimentão. Ela não fala, berra enquanto soluça.

— Tome um pouco de água, para tentar tirar o nó da garganta. – Sebastian deu praticamente a garrafa cheia para a menina.

James encarou Sebastian como se eles soubessem do que havia acontecido. James sabia, claro, a menina contou, mas Sebastian chegou na hora que ela falava apenas que algo a atacou.

— Entendi. – Sebastian disse, encarando James.

Ele só assente com a cabeça.

— Ãhn, ér... Harriet. Temos uma coisa para te contar. – Sebastian diz inseguro.

— E, por favor, não fique com raiva da gente. – James completou a fala do Sebastian como se eles estivessem ensaiado aquilo faz tempo.

Odeio quando fazem isso. É óbvio, um segredo me aguarda.

Notas finais
Hey ho!
Olá de novo e.e
Gostaram do capítulo? Nye he he he he
Deixa aquele review gostoso, mesmo que seja um "legal". Se me ajudar a continuar a história cada vez melhor vou ler com muito bom gosto ♥

Vejo vcs no próximo capítulo nye he he he he