Matthew cravou os olhos em mim durante os últimos dois dias. Estava surpresa por sua irmã não comentar nada comigo, estava óbvio sua atenção constante em meus movimentos. O que deveria ser desconfortável, acabou se tornando algo agradável, para o meu espanto. Peguei-me sorrindo devido a sua atenção, sentia-me admirada a cada instante e nunca havia passado por tal coisa.

Estávamos em mais uma aula de leitura, eu e Micaella, e minha cabeça doía ao me esforçar para ler tantas palavras. Apesar de afirmar que estava cansada, minha professora não desanimou e afirmou que precisávamos continuar, pois o esforço ao extremo iria me ajudar. Não sabia como se aplicava de forma real, até porque só desejava estar na minha cama de olhos fechados, sem tentar descobrir o que cada letra significa.

Essa manhã, havíamos iniciado um livro. Era a primeira vez que saíamos da escrita e partíamos para a ação. Eu mesma tinha escolhido o volume, um dos menores que havia nas prateleiras da biblioteca, uma capa vermelha com desenhos dourados. O título era Nem tudo é ganância, não compreendia muito bem o que significava, porém, Micaella afirmou que explicaria no decorrer da leitura.

Volto a cavalgar... pelo caminho... a-arenoso para... adenta-trar o cento-tro... comercial da vila — paro de ler e pressiono os dedos contra minha tempora. Micaella ergue os olhos e suspira.

— Talvez seja melhor que continuemos amanhã. Já exigi bastante de você por hoje.

Sorrio timidamente.

— Acha que estou melhor?

— Sim. — Um sorriso se forma em seus lábios, posso ver o orgulho emanar de suas feições. — Na verdade, seu progresso é impressionante. E agora que começamos as leituras em breve não precisará mais de mim e poderá ler sozinha.

Fecho o livro e descanso-o na mesa, aliso as palavras do título.

— O que significa ganância?

Micaella morde o lábio inferior, um hábito que ela possuía quando precisava pensar em algo.

— É o desejo de ter mais que os outros ou obter ganhos exorbitantes — ela dá uma pausa e torna a morder o lábio. — Como as pessoas ricas que só querem mais, mesmo que isso prejudique outras pessoas. Claro, esse é apenas um exemplo. Não sei lhe dizer se a ganância poderia ser algo bom, não consigo vê-la como simples ambição, pois muitos tem a ambição de ter algo na vida. Penso que ambição está ligada mais ao desejo.

— Então, a ganância é algo ruim.

— Para mim sim, talvez outras pessoas discordem. — Micaella levanta-se da cadeira e segue para as estantes. — Mas podemos conferir o significado em um dicionário, para uma melhor compreensão.

Uma batida na porta chama nossa atenção, quando é aberta nos deparamos com o Matthew. Meu coração parece inchar.

— Já terminaram? — questiona.

— Quase — Micaella afirma. — Por que?

Ele adentra a biblioteca carregando uma cesta.

— Queria convidá-las para um piquenique.

— Ah! Não poderei, terei que ir até a cidade fazer algumas encomendas, ia chamar Eliza para ir comigo. No entanto, acho que um piquenique é muito mais atrativo. — Ela se volta para mim com um sorriso. — Sua dor de cabeça deve passar com uma distração.

— Tudo bem.

Olho para Matthew, o sorriso de canto se forma e algo mais que não posso identificar. Talvez ambição, desejar algo, se os significados de Micaella estivessem certo.

— Sabe cavalgar? — Matthew questiona e balanço a cabeça em negação. — Não tem problema, podemos ir a pé.

— Vão caminhar muito — Micaella afirma e começa a guardar os livros.

— Não há problema algum em caminhar um pouco. — Ele se vira para mim. — A não ser que prefira que preparem a carruagem.

— Gosto de caminhar — murmuro.

O vento frio de primavera balança os fios soltos do meu cabelo e um arrepio se espalha pela minha pele. Noto pela visão lateral quando Matthew começa a tirar seu paletó e que logo em seguida é colocado sobre os meus ombros. Meu peito se enche de um sentimento que poderia ser chamado de gratidão.

— Obrigada — murmuro.

— Não há de quê.

Estou carregando a cesta de piquenique, apesar de Matthew ter tentado me impedir alegando que estaria pesada. Não poderia negar este fato, no entanto a boa alimentação que estava recebendo nas últimas semanas me tornava uma pessoa muito mais forte do que já fui um dia. Se podia correr pelas ruas de Londres com apenas um pedaço de pão na barriga, não haveria problema de carregar uma cesta com uma toalha e alguns alimentos.

Após uma boa caminhada, paramos próximo a uma árvore com flores amarelas. Matthew pega a cesta das minhas mãos e começa a montar o nosso piquenique. Micaella não gostou da ideia de nos deixar sozinhos, contudo, o irmão acabou convencendo-a.

— Não acho uma boa ideia, Matthew. Eliza precisa zelar por sua reputação, insisto que levem Jaclyn — Micaella afirmou encarando duramente o irmão.

— Não seja boba, Ella. Estaremos na propriedade, não há ninguém aqui para iniciar um falatório. Além do mais, creio que confia em mim de que não farei mal algum a nossa hóspede, certo?

— Espero que não arrependa disso — concluiu.

Em seguida, ela saiu da biblioteca e não apareceu mais desde então, sem dúvidas seguindo para os seus compromissos.

— O que quer comer primeiro?

Matthew me desperta de meus pensamentos, estendendo a mão em minha direção, pego-a e ele me ajuda a sentar sobre a toalha quadriculada. Olho para os alimento dispostos e minha boca se enche de água quando me deparo com biscoitos amanteigados. Saboreio um e não consigo controlar o gemido de prazer que escapa por meus lábios.

— Experimente com geleia de amora. — Ele ergue um recipiente de vidro e molho um biscoito na substância roxa, quando experimento arregalo os olhos ao constatar que fica ainda melhor. Matthew sorri ao perceber que gostei da combinação. — Chá?

— Por favor. — Experimento o chá e fico surpresa por ainda estar quente.

— Se não for incomodo, gostaria de fazer algumas perguntas, apenas para conhecê-la.

— Tudo bem.

— Por que vivia na rua?

Franzo o cenho.

— Porque não tinha onde viver — respondo.

Ele solta uma risada, come um pedaço de pão e volto a olhar para mim.

— Imagino que não, mas como acabou morando na rua?

— Ah, isso. — Inclino a cabeça, voltando-me para as comidas a minha frente. Nada disso fazia parte da minha vida, nem mesmo quando eu e mamãe morávamos em um quarto pequeno, tinha o que comer, mas nada tão farto assim. — Não sei onde vivíamos, era muito pequena na época...

— Viviam? — questiona.

— Eu e mamãe. — Sua boca se abre como se fosse dizer algo, porém, quando nada é dito continuo. — Posso dizer que todas as noites mamãe me deixava no quarto que tínhamos e só voltava pela manhã. Eu nunca saia do quarto, a não ser quando íamos andar pela cidade. — Sorrio ao lembrar. — Sempre levávamos pedaços de pão para dar de comer as aves que tem no parque. E quando ficávamos no quarto ela me ajudava a ler. — Paro para tomar um pouco de chá. — Mas quando fiquei maior, tivemos que sair de lá, então passamos a viver na rua. Alguns anos depois... — Uma lágrima rola pela minha face e não consigo terminar a sentença.

Matthew se aproxima, pega minhas mãos e planta um beijo em cada uma delas. O formigamento que costumo sentir com o seu toque está presente, contudo, o meu pesar de lembrar de mamãe é muito maior do que qualquer outra sensação.

— Eu também perdi minha mãe, sei como é doloroso perder alguém tão amado. — Ergo o olhar para seu rosto. — Todavia, quero que saiba que jamais ficará sozinha, a senhorita tem a nós agora.

Minha visão fica turva devido a mais lágrimas que se formam e não consigo controlar o soluço que escapa. Matthew me puxa para os seus braços e me permito deleitar de seu afago. Há tanto tempo alguém não me consola que parece ser algo fora do comum. Sua mão acaricia os meus cabelos de modo gentil, ainda que soluçando posso sentir o seu consolo em cada poro meu.

Quando as lágrimas começam a cessar, Matthew me entrega um lenço e às seco. No momento que ergo a cabeça para agradecê-lo a gentileza, percebo quanto está próximo a mim.

— Elizabeth — meu nome sai em sussurro quase inaudível.

Olhos castanhos encontram azuis e no mesmo instante me vejo paralisada. Seus olhos me remetem um mistério no qual anseio investigar. Quando ele desvia o olhar para os meus lábios, antes que possa reagir, a sua boca cola na minha.