Não apenas um bromânce

6 Convivência ou verdadeira face?


“Com o tempo, você vai percebendo que, para ser feliz, você precisa aprender a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.”

Desconhecido

Peter Parker

Aos primeiros segundos em que meus olhos estiveram em contato com a claridade, já pude sentir uma ardência repentina, seguida do movimento forte das minhas pálpebras se fechando fortemente.

Mas não era só os meus olhos, todo o meu corpo dava sinais gritantes de dor e incómodo. Sentei na cama e minhas costas reclamaram, dei alguns passos em direção a minha mochila, e minhas panturrilhas pareciam estar sendo esfaqueadas, era realmente dolorido.

Quando sentei novamente na cama, com minha câmera ao meu lado, e meu notebook em meu colo, dei um longo suspiro.

Ontem à noite eu havia ficado até altas horas na rua, todas elas com Wade. Mesmo que tivesse sido bom, agora eu recebia as consequências. Havia exigido muito do meu corpo ontem, e também da minha mente.

Tudo isso ao ponto de eu não estar com a mínima vontade de fazer absolutamente nada. Eu não queria comer, beber, sair, trabalhar, ver televisão, ler... Nada.

Infelizmente, eu ainda não tinha a coragem de apenas sumir do mundo e ficar trancado nesse apartamento que eu dizia ser meu. Eu sabia que seria pior se eu começasse a adiar as coisas, iria tudo virar uma bola de neve pior do que já estava.

Comecei a passar as fotos da minha câmera para o computador. Todas do Homem-Aranha salvando alguém ou se agarrando em prédios. Depois de passa-las para o computador, selecionei as melhores, editei, e mandei todas por email para Jonah.

Eu sabia que, com certeza, depois que ele viesse elas, ele iria mandar algum xingamento, já que, obviamente, eu estava meio sumido. Eu já nem me entendia mais, não havia aparecido pelo Clarim e nem justificado nada.

Há algum tempo atrás, ou quem sabe um ano atrás, minhas atitudes passariam muito longe do que estavam agora, mas eu já não me sentia a mesma pessoa, com os mesmos pensamentos e atitudes.

Acho que talvez seja por isso que eu tenha aceitado, e no meu íntimo, até gostado um pouco de ter uma desculpa para me afastar de tudo.

Como esperado, depois de alguns minutos, recebi a resposta de Jonah, que veio com o caps lock, obviamente, ligado. Podia até imaginar ele gritando. Mas no final, apenas disse o nome da matéria onde as fotos se encaixariam e mandou que eu aparecesse com fotos melhores amanhã.

Eu sabia que ele fazia isso para me irritar, já que um tempo atrás, eu ainda tinha um resquício de ânimo para bater de frente com ele em relação ao Homem-Aranha.

Não sabia dizer se eu preferia antes quando eu me importava ou o agora.

Todavia, minha vida agora, era a cena perfeitamente clichê que você vê em filmes e séries. Tudo com um tom mais sóbrio, os detalhes sendo focados, como as pequenas gotas de chuva que caiam na janela, ou a planta ressecada dentro de um copo já sem água que havia no canto do quarto. E havia eu, sentado na cama focando no nada, com a cara de alguém que é um perdedor. Tudo isso ao som de uma música triste, como In My Veins do Andrew Belle.

O que se pode fazer quando você não quer fazer nada e perdeu tudo?

Por que querem me matar?

Acho que o que eu mais odiava nessa parte da minha vida era essas tantas perguntas sem respostas, esses tantos paradoxos entrelaçados.

Bom, não adiantaria nada ficar sentado se lamentando, como o meu próprio ditado falava: se não tem forças para acabar com tudo, você é obrigado a ter para continuar.

Era algo bem estranho e pesado se eu parasse para pensar.

Levantei da cama e fui em direção ao meu uniforme, nos últimos tempos, ser o Homem-Aranha, vestir meu uniforme, sair pela cidade se pendurando em prédios, era a única coisa que eu ainda gostava de fazer. Vesti o uniforme e tomei um comprimido para dor.

Depois de sair escondido do apartamento, lanço pela cidade com o auxilio das teias. Eu realmente estava abusando da sorte, sempre saindo de uniforme do apartamento, trocando de roupa em becos. Eu sabia que, provavelmente, alguém já devia ter me pego alguma vez, mas eu não podia fazer nada.

Como a maioria dos dias, apenas pequenos casos eram vistos na cidade e, graças a Odin, nada estranho e esquisito, apenas pequenos delitos. Pelo menos, até perto da hora do almoço.

Estava passando pela frente do prédio do Clarim Diário quando avistei algo um pouco incomum, pelo menos para o meu sentido aranha, que atraiu a minha atenção até um homem que estava sentado em um banco que ficava de frente para a rua, e depois, de frente para o Clarim Diário.

O homem tinha seus olhos focados na porta do Clarim, não exibia nenhuma expressão, suas feições estavam duras e concentradas. O que mais atraiu minha atenção foi sua roupa. Ele vestia roupas totalmente pretas, desde seu coturno preto, até o seu sobretudo comprido de couro.

Parei em cima de um prédio e fiquei o analisando. Ele investia seu olhar focado em todos os que apenas passavam na frente da porta do Clarim. Pelo seu jeito, seu olhar e suas roupas, eu apostaria minha vida que ele estava li para me matar, no caso, matar Peter Parker. Poderia até sentir que ele carregava uma arma embaixo de toda aquela roupa, afinal, o inverno ainda não havia começado, ninguém saia de casa com mais do que blusa de manga comprida e um casaco leve.

Naquele momento, eu tinha uma chance, e se eu estivesse errado, nada mudaria mesmo.

Pulei para o prédio acima dele e, rapidamente, passei perto do banco, me pendurando por uma teia, e peguei o homem, o levando para cima do prédio, onde ontem havia ficado com Deadpool.

Eu tenho que parar com essa mania de subir em prédios com homens.

Cheguei ao terraço do prédio e atirei o homem no chão. Ele logo se levantou e me lançou um olhar enfurecido. Não me deixei abalar

— Por que está aqui? – perguntei com a voz firme, o homem apenas continuou a me encarar. Pelo movimento que havíamos feito, seu sobretudo havia se aberto um pouco, dando visão há um revolver que se encontrava preso a um coldre, com certeza aquilo era uma resposta.

Volto a encarar seu rosto, agora de perto, ele parecia um tanto estranho, as poucas rugas que se encontravam em seu rosto não eram nada uniformes.

— O que você veio fazer aqui? – perguntei aumentando o meu tom de voz. Pela segunda vez, o homem não me disse nada, até suavizou suas expressões.

Empurrei o homem até um parede, no caso, a parede da estrutura onde se encontrava a porta para se ter acesso ao terraço.

— O QUE VOCÊ VEIO FAZER AQUI? – mesmo se eu quisesse diminuir meu tom de voz, era impossível, eu sentia nas minhas veias uma raiva incontrolável.

E ela não havia surgido do nada. Eu queria respostas, eu queria saber quem me queria morto, quem sabia que eu era Homem-Aranha, eu queria saber o que estava acontecendo.

— Acho que você sabe. – respondeu dando um sorriso, sorriso esse que repuxou de forma estranha seu rosto. Decidi entrar no jogo do homem, se estávamos falando da mesma coisa, então que fosse desse jeito.

— Acha que conseguiria matar alguém e sair impune? Com seu rosto a mostra e várias testemunhas? Acha que é fácil assim? – pergunto apertando seu pescoço com o antebraço, e com a outra mão, segurando seu revolver, ainda no coldre. Paro caso ele tentasse algo.

— Eu não acho, eu tenho certeza. – sorriu mais ainda.

— Quem é o pagador?

— Entre na jogada e descubra você mesmo. – o seu tom desinteressado, sua falta de movimento ou atitude, só fazia minha raiva crescer mais ainda.

— E eu posso saber como você acha que vai sair impune dessa? Posso te largar na frente da delegacia agora mesmo, está com porte de arma, se eu disser que você tentou matar alguém, mesmo que não, e mesmo que a sua arma seja legal, vai ficar um tempinho de molho lá, tempo onde pode ser investigado a fundo, tendo seu nome para sempre manchado. Adeusinho, carreira de assassino. – apertei mais seu pescoço.

— Essa pergunta é muito fácil, fugindo, é claro. – novamente seu tom de superioridade exala.

— Eu vi seu rosto, sou bom de memória, agora sei quem é. – ameacei, mas apenas o vi sorrir mais. Em um movimento rápido, solto o homem e salto para trás, bem na hora para desviar de uma investida que o homem havia feito com uma faca.

Levanto rápido, mas antes de ir para cima do homem, observo seus movimentos. Ele guarda a faca e sorri.

—Você viu um dos meus rostos. – o homem leva sua mão até a gola da camiseta, onde adentra um pouco, e de lá, começa a puxar algo. O algo era sua pele. Ele vai puxando sua pele lentamente, todo seu rosto agora era visto apenas como uma máscara, assim como o cabelo que também ia junto. Tudo isso deu lugar a um rosto que parecia metálico, todo prateado. – Eu posso ser quem eu quiser.

Ainda em choque, vejo o homem sorrir e correr, se atirando do prédio. Pisco algumas vezes e respiro fundo. A imagem a minha frente havia me assustado e enojado. Dou alguns passos e me abaixo. Na corrida, ele havia atirado sua máscara no chão. Pego-a e a analiso.

Ela tinha a textura de uma pele normal, apenas algumas poucas falhas, o cabelo parecia humano, o que deixava tudo mais grotesco. A contra gosto, fico com a máscara e desço até o beco ao lado do prédio, deixando aquela coisa em uma das grandes sacolas de lixo de lá.

Saio do beco e retomo minha vigília, mesmo ainda estando meio desnorteado. Aquilo tudo estava ganhando proporções bizarras e grandes. Doutores estranhos, acidentes suspeitos, e agora, homens sem rostos.

Agora que eu andava por toda a cidade, eu sentia a culpa pesar. Meu trabalho era salvar vidas, deixar a cidade segura, e eu tinha deixado um provável vilão, que troca de rostos, solto por ai.

— Eu deveria ganhar um prêmio por isso, Herói do Ano.

Dentre prédios, carros e pessoas, uma coisa em particular chamou minha atenção, fazendo com que eu parasse de me pendurar, e me agarrasse, com o auxílio das mãos e dos meus pés, na parte lateral de um prédio.

Dentro de um estacionamento de fast food, uma figura vestida com um uniforme vermelho e preto, socava um homem, que agora estava ensanguentado e com as roupas rasgadas.

Solto um resmungo. Deadpool poderia ser agora considerado oficialmente o meu carma.

Desgrudo-me do prédio e caio no chão, seguindo até o muro que rodeava o fast food, subo nele e desço dentro do local. Ele se encontrava abandonado, sem sinal de vida dentro ou fora do fast food, apenas com a exceção do homem e do meu carma.

Com um suspiro, começo a me aproximar de Deadpool, que ainda não havia me ouvido, ou me ignorava, concentrando sua atenção em bater no homem. Depois de alguns chutes, ele pega o homem pela gola da camiseta e o puxa para cima, empurrando ele contra a parede e aproximando seus rostos.

— Vai dizer onde está a grana ou eu vou ter que enfiar a minha katana no seu...

— Tá, já deu Deadpool. – corto seu discurso antes que eu fosse obrigado a ouvir certas coisas que o meu trabalho de herói não cobre.

Deadpool vira seu rosto para mim, fazendo o homem em suas mãos suspirar de alívio e deixar um pequeno sorriso escapar, um sorriso bizarro, já que seu rosto estava cheio de sangue, incluindo seus lábios e dentes.

— Aranha! Que bela surpresa você veio me fazer. – exclama alegre. – Só me dá um minuto que eu já te atendo. – Wade vira seu rosto e soca o homem, deixando que ele caia no chão, ainda consciente, dando pequenos gemidos.

— O que você está fazendo, Deadpool? – pergunto me aproximando dos dois.

— Só trabalhando, você sabe né, precisamos de dinheiro para viver. – fala e saca uma arma, apontando diretamente para o homem. – DIZ ONDE ESTÁ O DINHEIRO OU EU VOU PINTAR ESSE CHÃO DE VERMELHO AGORA MESMO.

Até eu dou um pequeno pulo de susto. Deadpool gritou com a voz firme, destravando sua arma.

— Gostou? – pergunta virando para mim, mas ainda apontando a arma para o homem. Faço uma cara de dúvida, que fica coberta pela máscara. – Eu estou treinando minha voz máscula para impressionar você, funcionou, né? Pode admitir, eu sou bom em ameaçar. – seu tom, que antes era duro e com raiva, agora era normal, e até um pouco animado.

Levanto minhas mãos em sinal de “você está mais chapado do que o comum, cara?” Ainda fazendo cara de interrogação.

— Ah, que fofinho, ficou até sem fala. – Wade diz pondo a mão sem a arma encostada perto do seu coração. – Você é uma gracinha mesmo, Spidey, só me deixa acabar aqui e já te dou atenção.

Reviro os meus olhos e me aproximo mais.

— Deixa o homem, Deadpool. – digo e me aproximo do homem deitado no chão, ele me vê se aproximando e levanta suas mãos, deixando sua imagem parecer de uma criança que quer ser pega no colo.

Abaixo meu tronco e, quando toco no homem, sinto o braço de Deadpool circundar minha cintura e me puxar.

— Mas que diabos... – falo sentindo meu corpo encostado com o de Wade. Ele me prende com o braço livre, deixando nossos rostos próximos, mas ainda virados para o homem a nossa frente.

— Nananinanão, eu ainda não acabei com ele. – informa quase sussurrando.

Aquela cena era um tanto quanto estranha. Deadpool estava praticamente me agarrando. Deadpool mantinha seu braço esquerdo ao redor da minha cintura, me abraçando contra seu corpo, enquanto seu braço direito se mantinha levantado e apontando a arma para o homem no chão.

— Me solta. – digo irritado, sentindo minhas bochechas coradas.

— Mas está tão bom sentir seu corpo coladinho no meu. – seu tom de voz é quase malicioso, me fazendo corar mais ainda. O pior de tudo era o homem, que nos analisava com a feição assustada e interrogativa.

Reviro os olhos e chuta Deadpool, bem no meio das pernas. Ele arqueia suas costas, o que faz a nossa posição ficar ainda mais estranha do que já estava. Em vez de Wade me soltar, ele me agarra mais ainda, pondo sua cabeça colada a minha.

— Não seja uma aranha má. – sussurra próximo ao meu ouvido. Sinto meu corpo todo esquentar e se arrepiar.

Balanço minha cabeça e fecho os olhos, aquilo era ridículo, eu era mais forte que Deadpool, poderia sair daquele aperto. Olho para o lado e miro a parede, jogo uma teia e nos puxo, quando estamos perto de acertar o muro, viro e deixo que o corpo de Wade receba todo o impacto.

Wade dá um gemido e me solta. Afasto-me dele e o vejo se afastar um pouco do muro, alguns farelos do que era cimento caem no chão, o impacto havia criado várias rachaduras, quase um buraco.

— Se não fosse a dor, teria sido bem gostoso. – fala com a voz meio pesada, girando seu tronco e se estralando. – Você praticamente quis que eu comesse você a força.

— Por que você não cala a boca? – digo entredentes. Eu sentia o meu rosto completamente corado, por raiva e vergonha. Wade sempre conseguia me fazer ficar desse jeito.

— Eu calo se você me der um beijo.

Ignoro a voz risonha e maliciosa de Wade e me dirijo ao homem no chão, que agora começava a se arrastar para longe da gente. Pego ele pelos ombros e levanto, ele se assusta no inicio, mas quando vê que sou eu, acalma-se e se apoia em mim.

— Pode ficar tranquilo agora, o amigo da vizinhança está aqui para ajudar você. – o homem coloca o braço pelo meu pescoço e eu seguro sua cintura. Começamos a andar e logo nos primeiros passos o homem já começa a mancar e soltar alguns gemidos.

Ele parecia estar com o tornozelo torcido, provavelmente alguns ossos quebrados ao longo do corpo, e parecia também com dor, muita dor.

— Eu vou deixar você ali na rua, pede ajuda para alguém, pede para ligarem para a emergência e...

— Eu disse que não tinha acabado ainda. – levanto o meu rosto e sinto. Sinto quando Deadpool atira, sinto a bala saindo do cano da arma, mas não sou rápido o suficiente, quando vou para o lado, o tiro já havia acertado a perna do homem.

Ele grita de dor e se atira mais para o meu colo, vou para o chão e coloco o homem lá. A bala havia acertado a panturrilha dele, fazendo muito sangue se espalhar pelo chão.

— VOCÊ FICOU LOUCO? – gritei já levantando e encarando Deadpool, que apenas se aproximou de nós dois, não se importando de ter acabado de ter atirado em alguém.

— Eu sou louco. – comentou dando uma risada. – É o que você ama em mim, Baby boy. – apertei meus olhos com força, sentindo uma raiva subir pelo meu corpo.

Abri meus olhos e, com as teias, puxei a arma da mão de Wade até a minha mão, e apontei para ele.

— O que você quer com esse homem? – pergunto nervoso.

— Isso é para eu pensar que você vai atirar em mim? – questionou rindo. – Sem ofensas, mas esse estilo não cai muito bem em... – não esperei Deadpool terminar sua frase, atirei um pouco abaixo do seu ombro esquerdo, fazendo a bala entrar e sangue começar a sair.

A raiva que antes impregnava as minhas veias, raiva de ficar sem respostas, de tudo estar confuso, dos dias estarem tão intermináveis, se dissipou quase por completo quando o meu dedo puxou o gatilho.

Pude soltar um longo suspiro. Não sei exatamente porque aquilo me relaxou tanto, afinal, Wade nem sequer ficaria machucado depois de um tempo. Todavia, não importava, eu sentia que um grande peso havia sido tirado dos meus ombros.

— Filho da... – começou a falar, mas parou, dando uma grande inspirada. – Doeu, sabia?

— Era esse o objetivo. – falei e joguei sua arma no chão, logo depois me abaixando e pegando o homem baleado no colo. Comecei o meu percurso para fora do estacionamento, sendo seguido por Deadpool.

— Por que você tem que ser tão teimoso, Baby boy? – perguntou caminhando ao meu lado e travando sua arma, para depois colocar no coldre do seu cinto.

— Eu teimoso? Para de me chamar disso e depois conversamos.

— Ele é o meu sustento. – argumentou, me fazendo revirar os olhos. Sai do estacionamento e coloquei o homem perto da entrada de uma loja.

— Pode chamar uma ambulância, por favor? – pedi a uma mulher, que logo que viu o homem no chão sangrando, arregalou seus olhos e assentiu freneticamente. – Obrigado.

— Eu adoro você, Spidey, mas realmente preciso desse cara... – bufo frustrado e viro para Deadpool, encaro seus olhos, ou no caso, os olhos da máscara, e tento entender como alguém pode ser daquele jeito.

Começo a empurra-lo pelos ombros para dentro do estacionamento novamente, ele dá total liberdade, apesar de eu ter muita força, não estava usando nem metade dela. Quando chegamos próximo a um muro, empurro-o, dessa vez usando mais da minha força.

Wade bate no concreto, que faz barulho, e deixa alguns farelos de cimento no chão. Pude ouvir um pequeno gemido escapando dos seus lábios.

— Você acha que isso é brincadeira? – perguntei nervoso, mas não nervoso como antes, só incomodado pelo fato de que Deadpool ainda estava pensando em matar alguém.

— Não, eu acho que isso é sexy. – franzi minha testa. – Sabe né, você me apertando assim contra a parede pela segunda vez... – puxei seus ombros e empurrei na parede novamente.

Eu estava mais nervoso ainda por não estar tão incomodado quanto devia, no meu íntimo, aquilo já estava se tornando comum e rotina. E não era para se tornar.

Respirei fundo e olhei para Deadpool. Ele se mantinha imóvel, me encarando, aposto que queria saber qual era o meu próximo passo, mas nem eu sabia.

Eu não podia ficar tão irritado, aquele era o Wade, se ele não tivesse daquele jeito, ai sim eu devia me preocupar. Olhei para a ferida que agora estava quase toda cicatrizada, mas o uniforme ainda estava rasgado e um pouco de sangue manchava sua pele.

Eu havia mesmo atirado nele.

Soltei seus ombros e afastei-me, ainda encarando a ferida. Eu havia atirado friamente nele, e sem motivo algum. Bom, não um motivo coerente. Eu era um herói, nunca resolvia as situações atirando nas pessoas. Mesmo que as pessoas tivessem fator de cura, ainda era uma arma, uma bala, um corpo.

Esse não era eu. Ou não deveria ser.

— Desculpe. – digo alto o suficiente para Deadpool ouvir, mas baixo o suficiente para parecer com uma criança que fez besteira.

— Não encana, já fizeram pior. – responde estralando seus dedos e movendo seus braços. – Está com fome?

— Não está bravo comigo? – questiono estranhando seu tom de voz despreocupado e até animado.

— Como eu posso ficar bravo com uma coisa tão fofa quanto essa?- pergunta prendendo meu rosto com as mãos.

— Me solta. – balanço a minha cabeça a soltando das mãos de Wade.

— E outra coisa, somos uma dupla, se você acha que não é um bom investimento, nós não fazemos. – comenta e passa seu braço pelo meu ombro, começando a andar. – Mas então, está com fome?

— Acho que sim... – murmuro em resposta, me deixando ser guiado por Deadpool até o fast food.

Enquanto nos aproximávamos do local, eu começava a me perguntar se era mesmo para ali que ele estava nos guiando, afinal, o fast food estava fechado.

— Onde você está indo? – pergunto estranhando a rota que estávamos fazendo, agora indo para a parte de trás do estabelecimento.

— Espere e verá. – comentou e logo parou na frente da porta que ficava na parte de trás do fast food. Tirou de um dos seus bolsos, uma chave, que posicionou na fechadura e depois de girar, destravou a porta e a empurrou. A porta fez um leve ruído, que denunciava uma porta um pouco mais velha e já fora de sua total qualidade.

— Tem a chave do fast food? – perguntei ainda estranhando a cena à minha frente.

— Digamos apenas que alguém me devia um favor. – comentou despreocupado adentrando no local.

Dei de ombros e entrei também, não tinha nada melhor para fazer, afinal. Logo nos primeiros passos dados, pude ver Wade acender uma luz, que iluminou uma cozinha de tamanho mediano não muito limpa.

Deadpool guardou a chave novamente e logo começou a ligar máquinas e luzes, dando vida a cozinha. Vi um balcão empoeirado ao lado da porta que dava acesso ao resto do local, passei a mão tirando um pouco da poeira e subi, sentando nele e tendo a visão de toda a cozinha.

— O que você está fazendo? – questionei Deadpool, que agora estava amarrando um avental em seu corpo.

— Higiene em primeiro lugar. – respondeu apenas, virando depois para mim e afastando seus braços para que eu pudesse ver o seu avental, que ostentava os dizeres cook and single junto a uma pizza em formato de coração.

— Que gracinha. – comentei irônico dando um riso pelo nariz.

— Não mais do que você sentado ai, sabia que você é muito fofinho? – falou e depois virou para o balcão em suas costas e começou a montar hambúrguers.

Ignorei seu comentário, já estava mais do que acostumado a esse ponto. Continuei olhando o homem cozinhando e logo comecei a balançar as pernas para frente e para trás.

Era inevitável não pensar o quão estranho estava aquele dia. Primeiro homens sem rostos, depois esbarrar com Deadpool, depois atirar nele e agora, para finalizar, estava sentado vendo o mesmo cozinhar hambúrguers para que nós comecemos.

— Desde quando você cozinha? – pergunto tentando começar um diálogo para afastar qualquer momento filosófico que eu pudesse vir a ter.

— Desde antes de você nascer, provavelmente... Você não é menor de idade, né?! – questionou se virando um minuto para me encarar.

— Não. – respondi ainda balançando minhas pernas. Wade assentiu algumas vezes e voltou sua atenção para os ingredientes à sua frente.

— Bom, bom...

Nem queria imaginar o porquê da pergunta.

— Por que você é um mercenário? – perguntei.

— Por que você é um herói? – rebateu indo até o fogo e começando a esquentar as carnes.

— Perguntei primeiro.

— Digamos que eu gosto do que faço e ainda recebo por isso, junte o útil ao agradável e fica tudo perfeito. – respondeu dando de ombros.

— Gosta de matar pessoas? – não que fosse uma total surpresa, mas admitir isso assim, me causava até calafrios. Ele acabava com a vida das pessoas, a única vida que elas tinham, eu simplesmente não entendia.

— Não sei por que esse tom acusatório, não pareceu muito hesitante quanto me deu um tiro.

— É completamente diferente, você tem fator de cura! – argumentei um pouco na defensiva.

— Não é tão diferente quanto você quer que pareça.

— É diferente sim! Você tira a vida das pessoas, eu apenas fiz um machucado no seu corpo.

— Um machucado dolorido. Eu achei que você fosse mais amoroso, Baby boy... – Deadpool se virou e abaixou sua cabeça, imitando a posição de alguém triste e ressentido.

— Pensou errado. – Deadpool me encarou e depois voltou para o fogão, desligou-o e colocou os hambúrguers dentro dos pães, logo acrescentando também queijo, tomate, alface e condimentos.

Wade colocou os dois sanduiches em uma bandeja e depois veio na minha direção, sentando ao meu lado no balcão e me oferecendo um dos hambúrguers.

— Valeu. – peguei um deles e subi minha máscara na altura do nariz.

— De nada, só vai lhe custar um beijo. – disse e deu uma mordida em seu hambúrguer.

— Acho que prefiro ficar sem o hambúrguer então. – respondo dando uma risada.

— Nossa, o que está havendo com você ultimamente? Está comendo ou dando pouco?

— Os dois. – falo e dou uma mordida no sanduiche. Vejo Deadpool me olhando de canto. Viro para ele. – Que foi? Eu disse que eu era legal!

— Eu sei que você é legal, só não sabia desse seu lado. – Wade dá uma risada e continua comendo.

— É convivência com você.

— Não venha colocar a culpa em mim. Esse seu lado veio de você mesmo. – suas palavras, incrivelmente, já que vieram de Deadpool, fizeram sentido. – Não fica assim, eu adoro esse lado... Adoro todos os seus lados.

Qualquer linha de raciocínio que eu fosse ter foi quebrada pelas suas palavras, olho para Wade e ele ainda come.

— Você gosta de ficar falando esse tipo de coisa? – pergunto dando uma pequena risada. Não sei por que ainda me impressionava com algumas coisas, sendo que vieram de Deadpool.

— Só para você, Baby boy, só para você. – revirei os olhos e dei uma risada.

— Você nunca vai parar de me chamar disso, não?

— Nunca.

Sorri e continuei comendo o hambúrguer. Talvez fosse a convivência, talvez não, mas não importava, eu até que estava gostando disso, e provavelmente estava me acostumando.

Notas finais
Não sei se sacaram, mas o título foi uma referência ao vilão que apareceu neste capítulo. Espero que tenham conseguido visualizar tudo certinho, aquela parte no estacionamento, na minha cabeça, ficou muito fofa! Quero muito saber o que acharam, sempre quero saber, e adoro ler e responder os seus comentários *0* Dito tudo isso, a última coisa que quero dizer aqui é uma recomendação, assistam os filmes A Rede Social e A Origem. A Rede social tem o nosso Andrew Pete ^-^ Ele está um fofo, e eu shippo ele com o Mark sim u-u A Origem é sem explicações, um dos melhores filmes que eu já vi, além de super bem feito, tem uma história e conceito geniais! Assistam! (também tem duas pessoas que eu shippei nesse filme... Muito yaoi na mente, culpa sua, Raquel u-u) Acho que é só, até o próximo capítulo! Beijos s2 (Fanart sim, porque é o cúmulo da fofura!)