Não Tem Graça
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu poderia dar a desculpa de que estou ocupado com o ano do vestibular e blábláblá... Mas não, não estou. Estou tranquilo com o vestibular. Talvez seja excesso de confiança, mas vocês vão saber, no final do ano.
Enfim... Eu comecei a escrever com uma ideia e terminei com outra... Não sei se gosto disso. Normalmente minhas ideias se desenvolvem na hora, mesmo, mas sei lá. Espero que tenha ficado bom.
Ele se sentou no parapeito e olhou para baixo. Da janela do trigésimo andar os carros pareciam besouros com olhos brilhantes. Mesmo às sete horas da noite, pessoas apressadas passavam na calçada lá em baixo e o lembravam uma grande fila de formigas que foi desorganizada por um galho que caiu.
Era a quarta vez naquela semana que o jovem se sentava no parapeito da janela e ficava apreciando o transito ao invés de fazer o que devia fazer.
O que aconteceria? O que ele veria? O que teria depois de atingir o chão? Aquela dúvida o consumia. Há quase um mês aquela pergunta não saia de sua cabeça. E se ele pulasse?
Todos pareciam achar graça da pergunta do garoto. As únicas respostas que recebia eram risadas e “deixe de ser besta”. Mas seria tão idiota querer saber aquilo?
Ele preparou os braços para se empurrar para frente. Respirou fundo... Mas desistiu. De novo. Havia sido a vez em que chegara mais perto, e ainda era longe.
Como ficariam seus pais? E seus amigos? Sua irmã? E a cadela, sentiria falta dele? Todos eles sentiriam?
Aquela dúvida o consumia. Há quase um mês faltava sentido em sua vida. E se ele pulasse? Quase um mês.
— Ele caiu.
— Caiu?
— Sim Pablo. Seu cachorro caiu. Hoje à tarde.
Ele correu até a janela. Olhou para baixo. Trinta andares. Não havia como Guido sobreviver à queda. A mancha de sangue do jovem beagle, que deveria estar ali, já havia sido lavada. Não havia nem sinal.
— Como?
— Um passarinho entrou. Ele correu atrás e...
A mulher parou de falar ao ver o filho começar a chorar, silencioso.
— E onde ele está agora?
— Num lugar melhor filho... Ele está num...
— Eu não sou mais criança mãe. Eu sei que ele morreu. Mas e o corpo?
Ele já estava parando de chorar. Guido não gostava de vê-lo chorando.
Naquela noite eles enterraram o cão. Laila, irmã de Guido, era a que parecia mais triste naquela situação. A pequena cadela soltava pequenos gemidos tristes de tempos em tempos e não tirava a cabeça do chão. Mas Pablo parecia distante.
Ele já não parecia triste. Parecia apenas ausente. Sua mente voava, pensando no que a mãe começara a dizer. “Ele está num lugar melhor”. Será que estava mesmo? Será que não tinha só deixado de existir? Ou será que agora era um fantasma e estava ali em volta, tentando animar todo mundo e sendo ignorado, sem entender o motivo? Talvez estivesse num paraíso para cães como os pais contam para os filhos pequenos em filmes americanos quando os cães morrem. “Ele está num lugar alegre, é uma fazendo enorme, correndo atrás de esquilos e comendo biscoitos para cachorro”. A ideia era engraçada. Guido odiava os biscoitos para cachorro. Adorava mesmo era milho cozido. Ele nunca tinha ouvido falar de outro cachorro que gostasse de milho cozido.
E desde então, Pablo passou a pensar no que aconteceria se ele também caísse, pulasse, ou morresse de qualquer outra forma. Ser um fantasma seria legal, ele poderia assustar o pessoal. O problema seria se fosse totalmente ignorado.
Talvez ele ressuscitasse em outra dimensão. Talvez ele reencarnasse. Seria estranho nascer de novo como uma borboleta, um cachorro ou outra pessoa. Mas ele provavelmente nunca notaria.
— Filho! Cheguei! Trouxe chocolate pra você. O que vai querer na janta?
Helen entrou no apartamento, cansada. Estava torcendo para que o garoto gritasse “Pizza!” como sempre, e então ela pediria uma, já que estava exausta até mesmo para cozinhar.
— Pablo?
Laila dormia no canto da cozinha. Ela soltou a bolsa e as sacolas e foi até a sala. Tudo estava escuro, exceto o abajur, que iluminava um pequeno pedaço de papel.
“Mãe, eu caí. Fui ver o que tem depois. Talvez eu encontre o Guido por lá. Seria legal, não é?
Pablo”.
Ela ficou pálida, branca como uma nuvem, enquanto a letra caprichada do filho passava por seus olhos. Correu até a janela que estava estranhamente aberta e olhou para baixo. Às dez horas da noite já não havia ninguém lá embaixo.
— Mãe?
Ela se virou para a sala e viu o filho.
— PABLO! QUE TIPO DE BRINCADEIRA É ESSA? QUER ME MATAR DO CORAÇÃO?
Ele sorriu melancólico para ela, enquanto a mulher começava e derramar lágrimas.
— NÃO TEM GRAÇA!
A mulher correu até o filho e o abraçou.
— Não tem graça, filho.
As lágrimas começaram a correr mais rápido.
— Não tem graça.
Ela estava parada na sala, sozinha agora. Aquele lugar parecia muito triste e vazio depois de o garoto ter pulado. Laila se aproximou chorosa e deitou aos pés da, agora, única dona.
— Não tem graça...
Notas finais
Breno.
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