Não Te Esquecerei Jamais
24 Piquinique
Capítulo 23
De mãos dadas, entramos juntos na sala de estar. Deparamo-nos de imediato com todos os membros da família reunidos ali, inclusive minha mãe, que exibia o cabelo seco na sua textura natural. Eu sabia muito bem que, em hipótese alguma, ela apareceria para uma reunião social com os fios ainda molhados. Aquele mero detalhe estético só comprovava o quanto aquele momento também estava sendo importante e solene para ela.
— Boa tarde, Guilherme! Senta aqui, por favor. Senta, senta — disse minha mãe com extrema gentileza, ostentando um sorrisinho sutil nos lábios e uma clara vontade de agradar a visita.
O rapaz assentiu com a cabeça enquanto movia o corpo em direção ao lugar indicado no sofá, soltando a minha mão no processo. Já sentado, ele me olhou de lado.
Respirei devagar enquanto movia meu corpo e me encaixei no espaço vago ao lado dele. Meu coração batia rápido, fazendo o meu rosto queimar de vergonha. Era exatamente a mesma sensação de quando estamos em uma noite fria de inverno e alguém resolve acender a lareira da sala; a maneira como a pele do rosto é aquecida pelo calor do fogo é totalmente distinta, e nenhum dos aquecedores elétricos alternativos consegue o mesmo feito.
— Se você quiser, eu posso guardar o seu casaco, Guilherme — a voz da minha avó soou no recinto. Ela já estava de pé, com uma das mãos estendidas na direção dele.
— Obrigado... — o garoto sussurrou, a voz rala de timidez. Mas, quando ele se mexeu no estofado para tirar o casaco, a expressão em seu rosto mudou para um choque de realização. — Ah! Eu... eu trouxe isso aqui para o nosso almoço.
A confusão mental provocada pelo nervosismo era tão grande que ele tinha simplesmente sentado no sofá sem nem lembrar de tirar a mochila das costas; só quando tocaram no assunto do casaco foi que ele se recordou do objeto. Guilherme desencaixou as alças dos ombros com pressa e, de dentro do compartimento principal, puxou a garrafa de vinho rosé que havíamos ganhado na barraca de argolas da feira
— Oh, que maravilhoso! Vinho rosé é o meu preferido de todos — a garrafa foi surrupiada com facilidade pelas mãos da minha avó, que abriu um sorriso contente. — Muito obrigada, rapaz.
Guilherme tirou o casaco em seguida, pousando o tecido sobre o braço de madeira do sofá. Descobri que, debaixo da proteção, ele vestia uma camisa social azul-claro impecável, e quase soltei uma risada por causa da coincidência do destino: nós dois estávamos usando exatamente o mesmo tom de azul naquele domingo. Ele mantinha as mangas dobradas até a altura dos cotovelos, deixando os antebraços expostos. Parando para analisar o visual dele de perto, ele estava vestido e alinhado como se estivesse prestes a entrar em uma entrevista de emprego.
— E aí, Guilherme — Mirela acenou com a cabeça do canto da sala. — Finalmente tomou coragem, hein? — ela sorriu de forma abertamente zombeteira
Envergonhado com a provocação da minha irmã, o rapaz sorriu de canto, totalmente tímido. No entanto, o lampejo de diversão sumiu rápido demais no momento em que meu pai pigarreou alto, aparentemente enfadado com as apresentações informais.
— A Ariana nos contou na cozinha que faz uns dias que vocês estão... — meu pai deu outro pigarreio desconfortável antes de pronunciar a palavra — saindo. Ela também nos adiantou que era do seu interesse conversar seriamente conosco hoje — ele terminou a frase, apontando com o dedo para si e para a mamãe.
— Sim, senhor. É a mais pura verdade — Guilherme respondeu, endireitando a coluna.
— Você pode me dar só um minuto, Guilherme? — meu pai pediu, erguendo o dedo indicador. Logo em seguida, ele voltou os olhos para o restante da sala. — Vocês podem nos dar licença por um momento? Acredito que o Guilherme ficará bem mais confortável se a nossa conversa for em particular. Vai para a cozinha com a sua irmã, Ariana.
Eu realmente não esperava por aquela expulsão repentina e olhei assustada para o Guilherme. Para o meu espanto, ele mantinha uma expressão perfeitamente tranquila no rosto; muito mais controlada do que eu imaginaria para o momento. Havia uma pitada compreensível de desespero no fundo dos seus olhos, porém o sentimento não era predominante.
Ele realmente se preparou psicologicamente para enfrentar qualquer parada hoje, pensei, admirada com a postura dele
Sem outra alternativa, levantei-me do sofá e caminhei em direção à cozinha, dando uma última e demorada olhada para trás para fixar a cena que eu estava deixando na sala.
Minha irmã e eu começamos a montar a mesa do almoço, trabalhando em um completo e absoluto silêncio após um pequeno delay de segundos da minha parte para engrenar no movimento. Colocar pratos de porcelana, copos e talheres sobre a mesa não era uma tarefa complexa, portanto não exigia nenhuma concentração real do meu cérebro. Eu já tinha feito aquilo tantas vezes ao longo da vida que seria capaz de executar o circuito de olhos fechados. Por conta disso, minha mente passava o tempo todo pensando sobre qual seria o possível assunto abordado entre eles. Quer dizer, o tema central eu sabia perfeitamente qual era; a minha dúvida torturante era sobre como os termos estavam sendo discutidos e quais pontos o meu pai estava despejando em cima dele.
Pensei também, com um aperto no peito, no esforço mútuo que nós dois estávamos fazendo para que aquele relacionamento finalmente se concretizasse ali, e foi simplesmente inevitável não focar a minha atenção sobre um fato triste e irremediável que estava previsto para acontecer em menos de dois anos no nosso horizonte.
Será que realmente vale a pena se esforçar tanto em construir algo que já nasce sem futuro?, minha razão questionou friamente o meu coração.
Mas o meu coração, teimoso como ele só, preferiu ignorar os avisos e mostrar o tamanho do desejo que tinha de seguir em frente com aquela paixão, independente do que estivesse programado para acontecer no final. Uma postura totalmente inconsequente e ignorante diante da dor futura de ter que viver longe da pessoa que eu mais desejava ter por perto. Sem ao menos cogitar o quanto o amanhã poderia ser sofrido e solitário. O meu lado emocional mostrava-se arrogante perante o fato de que, mais tarde, só nos restariam lembranças fotográficas no mural, mas faltaria a presença física dele ali.
Desejei com todas as minhas forças frear aqueles pensamentos insistentes que me torturavam e me obrigavam a lidar de frente com uma questão de despedida que eu não queria encarar de jeito nenhum naquele domingo feliz. Por isso, precisei interromper o fluxo mental com um balançar de cabeça brusco, disfarçando o movimento iniciado com um falso espreguiçamento.
O meu celular vibrou uma vez no bolso, indicando a chegada de uma nova notificação. Olhei a barra de tarefas da tela e constatei que era uma mensagem de direct no meu Instagram. Eu tinha checado rapidamente, enquanto escovava os dentes de manhã, os inúmeros memes que a Cristina havia me enviado durante a madrugada e, agora, ela tinha acabado de me mandar mais um. Eu ainda não tinha tido a coragem de contar absolutamente nada sobre o namoro para ela; e não era porque eu tivesse a intenção de esconder os últimos acontecimentos da minha melhor amiga por maldade, mas sim porque eu sabia perfeitamente que ela ia me encher de perguntas íntimas na hora, e talvez até me ligasse por vídeo para gritar. Achei que seria infinitamente mais fácil lidar com a histeria dela de ter sido a última pessoa a saber da novidade pessoalmente.
Falando dessa maneira desapegada, até parecia que a Cristina era uma amiga ruim ou egoísta. Mas ela não era, de forma alguma. A Cristina tinha os seus pontos fortes e os seus pontos fracos bem desenhados, como qualquer outro ser humano na face da Terra. Ela era uma pessoa fantástica no dia a dia. Animada, positiva, a criatura mais esperançosa e otimista que eu conhecia no colégio Para a mente dela, as chances de qualquer plano dar certo no final eram sempre muito maiores do que as de dar errado, e essa regra valia para qualquer assunto do universo, fosse um dilema pessoal dela ou um problema de terceiros.
Respondi à mensagem do link com um emoji de carinha rindo alto, embora a expressão real do meu rosto naquele momento fosse a mais séria e tensa possível.
— Você quer um copo de água, Ariana? — levantei o meu olhar na direção da Mirela, que segurava uma garrafa de vidro com água bem na minha frente.
— Quero sim, por favor.
Acompanhei com os olhos o movimento da minha irmã me servindo o líquido que não tinha passado pela geladeira, mas que ainda assim estava fresco por causa do clima natural do inverno.
— Obrigada — agradeci, ao pegar o copo de vidro das mãos dela.
Levei o objeto até os lábios e dei dois goles longos na água antes de vislumbrar a silhueta da minha mãe surgir na abertura da porta da cozinha. Pousei o copo na mesa no exato milésimo de segundo em que ela anunciou, com uma naturalidade espantosa:
— Vamos almoçar, meninas? — Ela falou como se absolutamente nada de tenso tivesse acontecido no cômodo ao lado nos últimos vinte minutos.
Lembro-me muito bem do zumbido agudo que se instalou no meu ouvido esquerdo naquele instante e de como um verdadeiro turbilhão de pensamentos desesperados invadiu a minha mente de uma hora para outra. Eu não conseguia parar de conjecturar sobre o que poderia ter sido dito naquela sala; levantei hipóteses e cenários na minha cabeça que chegavam a ser até um pouco absurdos de tão dramáticos.
Caminhei de volta para a sala e o meu olhar alternou de imediato entre a figura do meu pai e a do Guilherme. Fiquei esquadrinhando minuciosamente cada traço e microexpressão nas feições deles, buscando qualquer pista ou sinal que denunciasse se a conversa particular tinha terminado bem ou mal. No entanto, não encontrei rastro nenhum. A expressão de ambos estava completamente neutra, indecifrável.
[...]
O que as pessoas costumam dizer por aí sobre a magia do almoço de domingo é a mais pura verdade. A socialização e a união proporcionadas por um ambiente farto com comida caseira na mesa é a melhor que existe no mundo, como a minha própria irmã vivia dizendo. Toda aquela tensão pesada que estava acumulada até a tampa simplesmente se esvaziou no exato instante em que chegou a hora de atacar a refeição. Chegava a ser até engraçado comparar o clima de suspense de alguns minutos atrás com a cena atual do meu pai pedindo educadamente para a minha avó passar a travessa de arroz para o lado dele. Estávamos todos despretensiosos, conversando e relaxados nas cadeiras.
Sentado bem ao meu lado na mesa, Guilherme me passou a travessa com arroz branco; ela ainda estava quentinha. Ao terminar de me servir, passei o objeto para a pessoa sentada ao meu lado. E foi exatamente assim com todos os outros componentes que formavam o cardápio do nosso domingo, sempre com o borbulhar gostoso de conversas paralelas ecoando ao fundo da sala.
Você pode esperar de tudo de um almoço tradicional em família, principalmente ser obrigado a ouvir histórias velhas e repetidas do passado. Quem começou a puxar o fio das memórias daquela vez foi a minha avó, que comentou com nostalgia que, durante a época em que ela era jovem, não havia tantos meios de transporte modernos disponíveis e, se os jovens quisessem ir às festas de sábado, eram obrigados a fazer todo o percurso a pé pelas estradas de terra. Ela explicou que as barcas que faziam a travessia não eram tão boas, rápidas e frequentes como as de agora, e a cereja do bolo do seu discurso foi afirmar que, naquele tempo, quem possuía uma simples bicicleta em casa era considerado um verdadeiro rico pela vizinhança. Ela terminou o monólogo com um olhar saudoso, aproveitando o gancho para criticar a juventude atual por ser excessivamente preguiçosa com a vida.
— Mas, vó, a evolução da tecnologia está aí justamente para servir a esse propósito de facilitar a vida das pessoas — Mirela argumentou em defesa da nossa geração, gesticulando com o garfo. — Me diz uma coisa: a senhora por acaso prefere lavar um edredom pesado de inverno inteiramente na mão, no tanque de cimento, ou prefere simplesmente jogar tudo dentro de uma máquina de lavar moderna?
— Ah, minha filha... eu prefiro não lavar de jeito nenhum — a idosa respondeu de pronto, soltando um risinho travesso em seguida. — Eu já trabalhei demais nessa vida, já lavei muita roupa no braço. Agora está na vez das minhas netinhas assumirem o posto e trabalharem por mim.
— Então pronto! Eu escolho lavar o edredom na máquina com certeza absoluta. Podem mandar fabricar todas as máquinas do mundo que facilitem o meu trabalho doméstico, porque eu aceito — Mirela decretou, convicta.
— Meu Deus do céu, Mirela... que preguiça é essa? — minha mãe reclamou da cabeceira, rindo.
— Mas é a mais pura verdade, mãe — decidida a mudar o alvo principal da conversa e tirar o foco de cima de si, minha irmã girou os olhos na minha direção e disparou: — A Ariana concorda plenamente comigo, não concorda, mana?
— Sim, eu concordo um pouco — respondi, entrando na brincadeira. — Por exemplo, vocês sabem muito bem que lavar a louça não é a tarefa que eu mais gosto na vida. Então, entre passar horas lavando tudo na mão ou colocar os pratos dentro de uma máquina que faça isso por mim, eu vou sempre preferir que a tecnologia faça o trabalho pesado.
Nenhuma reação ao redor da mesa foi de surpresa; absolutamente todo mundo na casa já esperava que eu dissesse exatamente aquilo. Depois, a conversa continuou fluindo de forma leve e, assim que todos estavam com os seus pratos devidamente cheios, demos as mãos ao redor da mesa e o meu pai liderou uma oração de agradecimento. A refeição foi inteiramente regada por vários assuntos de temas variados e descontraídos. Senti-me imensamente aliviada e muito feliz por perceber que, no fundo, nada tinha mudado de nuance; minha família mantinha exatamente o mesmo tratamento caloroso de sempre com o Guilherme.
O rapaz já tinha almoçado conosco algumas vezes no passado, é verdade, mas sempre na confortável posição de apenas amigos. Aquela era a primeira vez em que ele ocupava o espaço como o meu namorado oficial, e logo após termos passado por um momento de introdução bastante tenso na sala de estar. Eu realmente não esperava que tudo fosse se resolver de forma tão rápida e positiva entre eles. Nem ao menos parecia que há, literalmente, algumas poucas horas, eu enfrentava um dos momentos de maior ansiedade da minha vida; ver tudo seguindo o seu curso de forma tão natural e sem sobressaltos fez-me questionar se eu não deveria ter mantido a calma desde o início.
Assim que o almoço terminou e a louça suja foi retirada da mesa, nós permanecemos mais um pouco sentados, conversando sem pressa. A sala de estar da nossa casa era pequena e não havia tantos lugares estofados para que todos conseguissem se acomodar juntos com conforto fora da cozinha. A tarde de domingo foi avançando devagar e, consequentemente, o sol foi perdendo o seu brilho e o seu calor. Preocupada com o horário e com o frio que logo se instalaria, levantei-me do meu assento.
— Bem... já está começando a ficar tarde e a gente ainda quer passar no centro para tomar um sorvete. Acho melhor a gente sair logo, antes que o sol se ponha de vez.
Eu conhecia os meus pais o suficiente para saber que eles entenderiam a minha deixa de saída de imediato. Não fazia o menor sentido prático comentar com eles sobre o plano original do piquenique, levando em consideração que o almoço em família tinha terminado há pouquíssimo tempo.
— Ah, com certeza. Podem ir passear, mas vê se não vai voltar muito tarde para casa hoje, Ariana — meu pai advertiu, com o seu habitual tom protetor.
— Certo, pai. Pode deixar.
Guilherme não se pronunciou verbalmente, porém despediu-se de todos com um meneio de cabeça respeitoso assim que ficou de pé. Saímos juntos da cozinha e atravessamos a pequena casa em um ritmo normal, mesmo que o meu coração começasse a subir de compasso dentro do peito só de pensar que estávamos sozinhos de novo. Alcancei a calçada da rua primeiro e segurei o portão de ferro aberto para que o rapaz passasse por ele empurrando a sua bicicleta.
Fechei o portão com leveza de volta, cuidando para que o trinco não fizesse tanto barulho metálico ao fechar. Depois, ergui o meu olhar em direção a ele, que estava parado bem na minha frente... sorrindo?
— Parece que correu tudo bem com o seu pai — ele comentou, descontraído.
Abri um sorriso gigante de orelha a orelha e respondi:
— Sim! Deu tudo super certo. Nós dois estamos incrivelmente aliviados pelo visto.
O sorriso nos lábios dele esmoreceu um pouco, mas não desapareceu por completo das suas feições. Eu não sei explicar o porquê da mudança, apenas sei que a felicidade genuína continuava estampada no semblante dele, embora o sorriso largo e exposto não estivesse mais lá. Então, por um breve segundo que antecedeu a nossa partida oficial, tive as minhas duas bochechas completamente inundadas por uma sequência de beijos macios e quentes. Eu ri alto durante todo o período do ataque, não apenas porque era divertido ser beijada tantas vezes seguidas no meio da rua, mas porque as pontas dos poucos pelos que já começavam a apontar no maxilar dele faziam uma cócega gostosa na minha pele. Era bom demais sentir aquilo.
— Para onde é que nós estamos indo afinal? — perguntei entre risos, enquanto novos beijos eram depositados com carinho pelo meu rosto. — Alguma coisa me diz que nós não vamos tomar sorvete nenhum hoje.
Ele me deu um último beijo estalado nos lábios antes de afastar o rosto. Estava sorrindo abertamente novamente; dessa vez, não parecia ser apenas uma expressão de pura felicidade, todavia eu não tinha como decifrar quais outros sentimentos profundos compunham aquele olhar dele.
— Nem se eu passasse as próximas duas horas te dando inúmeros detalhes e pistas, você seria capaz de adivinhar para onde nós estamos indo, Ariana.
— Nós por acaso nunca fomos lá antes?
— Não. Nunca — ele respondeu, orgulhoso do próprio segredo.
— Confesso que já estou ficando terrivelmente curiosa.
Ainda sorrindo de canto, ele estendeu o braço esquerdo em um gesto cavalheiro, indicando o lugar reservado para o passageiro na estrutura. Só então, ao focar os olhos no metal, foi que a minha mente registrou que aquela definitivamente não era a bicicleta que ele costumava usar no dia a dia. Aquela relíquia tinha um cestinho de vime acoplado ao guidão e um assento estofado próprio para carona na parte traseira.
— Pode subir na carruagem, princesa — ele brincou.
Meu Deus, o quanto eu tinha ficado completamente aérea e perdida no toque dele a ponto de nem notar uma mudança daquelas bem na minha frente?
— Eu peguei a bicicleta da minha mãe emprestada hoje — ele explicou, ajeitando o guidão. — O lugar que eu planejei para o nosso piquenique fica um pouco longe do bairro, e eu queria garantir que você fizesse o trajeto o mais confortável possível.
— Hum... Entendi o cavalheirismo. Obrigado.
Esperei pacientemente que ele se acomodasse na cela para que eu pudesse enfim assumir o meu lugar na garupa de trás. Para além de ter um banco macio onde sentar, a bicicleta exibia apoios de metal próprios para os pés, o que me proporcionou uma posição incrivelmente confortável de carona; a única coisa de que senti falta no início do trajeto foi de alguma alça firme onde eu pudesse me segurar para não cair. Mas esse pequeno pormenor técnico foi resolvido rapidamente na primeira instabilidade que as rodas enfrentaram no asfalto: por puro instinto de sobrevivência, o meu corpo avançou para a frente e meus braços abraçaram com força a cintura do Guilherme. Ele, por sua vez, apenas olhou por cima do ombro e sorriu de canto, visivelmente satisfeito com a nossa proximidade física.
Não tinha como eu determinar com precisão exatamente quanto tempo de percurso havia se passado na estrada, mas, ainda assim, pareceu-me que estávamos há uma eternidade nos movendo e nada de alcançarmos lugar nenhum. Pelo menos o clima da ilha estava cooperando com o nosso domingo; estava um ambiente quentinho mesmo com o vento cortante batendo contra o meu rosto. O céu estava perfeitamente limpo, havia um cheiro gostoso de terra molhada no ar, a sombra das árvores que íamos encontrando ao longo do caminho se desenhava no chão e a silhueta firme dele de costas na minha frente... tudo aquilo junto foi deixando uma marca afetiva profunda e permanente na minha memória.
— Está tudo bem por aí na garupa, Cenourinha? — ele perguntou em uma determinada altura do percurso, aumentando o tom de voz para superar o vento.
— Sim, está tudo ótimo! Mas nós já estamos perto? — questionei de volta, intrigada com a demora do trajeto.
— Estamos sim. Já, já a gente chega.
O veículo de duas rodas parou completamente quando eu menos esperava. Eu estava totalmente distraída observando a paisagem campestre e perdida no meu próprio imaginário de como seria aquele lugar tão misterioso que ele tinha selecionado para nós. Não tive tempo nem de formular absolutamente nenhuma pergunta, porque no exato milésimo de segundo em que os meus pés tocaram o chão firme da estrada, Guilherme arrastou o objeto de duas rodas para junto do tronco de uma árvore grossa, puxou uma trava de segurança de dentro da mochila e a prendeu firmemente ao redor do caule.
Dei uma volta completa no meu próprio eixo, girando nos calcanhares, tentando entender o que havia de tão especial ou marcante naquele cenário, mas a minha mente só conseguia enxergar terra batida e mais terra. Não havia absolutamente nada ali além de uma estrada deserta e várias árvores espalhadas. Havia tantas árvores densas na lateral que os meus olhos só conseguiam enxergar até um determinado ponto da mata; entretanto, era bem óbvio que a floresta se estendia muito além dali.
— E aí, preparada para enfrentar uma caminhadinha na mata? — ele perguntou, jogando a mochila nos ombros de novo.
— Eu pensei que a gente já tivesse chegado ao destino final do piquenique, Guilherme.
— Mas aqui no meio da estrada não tem nada, Ariana.
— Exatamente. Não tem nada aqui fora.
— Pois é, porque o nosso lugar real não fica aqui na beira da estrada. Nós temos que entrar por ali — ele apontou com o dedo indicador para uma abertura estreita na linha das árvores.
— Oh, meu Deus... ainda bem que nós não estamos protagonizando um filme de terror de Hollywood, porque se fôssemos os personagens, nós seríamos exatamente os adolescentes burros que se metem em situações duvidosamente perigosas e isoladas sem a menor necessidade — brinquei, cruzando os braços.
O garoto soltou uma risada limpa, achando graça das minhas paranoias cinematográficas.
— Relaxa, meu amor — ele se apressou em responder, o apelido saindo com uma naturalidade que me fez tremer por dentro. — Antes que qualquer ameaça ou monstro da floresta consiga fazer qualquer mal a você, eu dou um jeito e os estraçalho primeiro.
Pressionei meus lábios com força para impedir que o sorrisinho de pura satisfação e fofura ficasse tão evidente no meu rosto. Eu nunca tinha me envolvido emocionalmente de forma séria com alguém antes na vida, então eu simplesmente não tinha parâmetros para comparar diferentes inícios de relacionamentos. Se o Guilherme fosse o meu segundo ou terceiro namorado da adolescência, será que eu ainda acharia todas as falas dele tão incrivelmente fofas e perfeitas? Ou será que eu não poderia estar sendo fortemente influenciada e cega pelo alvoroço dos meus sentimentos atuais, e a minha reação seria exatamente igual mesmo se ele fosse o vigésimo namorado da minha lista?
Carreguei a minha mão direita pelo espaço vazio entre nós até encontrar os seus dedos longos, entrelaçando-os. A mão dele estava completamente gelada por causa do vento forte da caminhada; a minha, por outro lado, estava quentinha e aquecida, já que há poucos minutos eu a mantinha firmemente colada ao tronco do corpo dele na carona. O choque térmico daquela diferença de temperatura fez todos os pelos do meu antebraço se arrepiarem num sobressalto gostoso.
A passos curtos e ritmados, começamos a caminhar em direção ao interior da floresta. Lá dentro da mata, pouquíssimos raios de sol conseguiam de fato romper a barreira das copas altas da vegetação densa para iluminar o chão. Os pequenos feixes de luz que passavam não eram fortes o suficiente para aquecer o ambiente e, por um breve momento, meu corpo tremeu de frio com o vento da mata. Mas logo a caminhada começou a exigir um esforço físico maior das minhas pernas; meu ritmo cardíaco acelerou em consequência ao aclive do terreno, o que acabou aquecendo o meu corpo por dentro. Embora eu estivesse calçando um tênis confortável e apropriado, era uma tarefa difícil encontrar pontos menos escorregadios naquele terreno pouco regular e cheio de raízes expostas.
Em um determinado momento do percurso, deparamo-nos com um trecho de terreno visivelmente declinado e íngreme. Havia muitas folhas secas acumuladas no chão e uma grande quantidade de galhos caídos por toda a extensão. Curiosamente, a combinação da umidade com os detritos deixou o solo escorregadio como sabão; por isso, quando o meu pé esquerdo deslizou como manteiga na terra, agi por puro instinto de sobrevivência desconhecido: estiquei os braços e me agarrei com toda a força do mundo ao antebraço do Guilherme para não despencar no chão.
— Ai, meu Deus do céu! — exclamei, com o coração na boca. — Essa foi por muito pouco!
Trouxe o meu pé fujão rápido para perto do corpo de novo, recuperando o equilíbrio no solo, e só então, ao focar os olhos no braço dele, me dei conta de que eu tinha cravado as minhas unhas com força direto na pele dele no susto.
— Oh... me desculpa, Guilherme! Eu agi sem pensar. Machucou muito? — perguntei, preocupada, inspecionando a pele dele.
— Que nada, não chegou nem perto de doer de verdade — ele respondeu com um sorriso manso, minimizando o impacto para me acalmar. — Não precisa se preocupar com isso, Cenourinha. Está tudo bem.
Mas, assim que desencravei as minhas unhas da pele do braço dele, vi com pesar que algumas delas haviam deixado para trás pequenos ferimentos avermelhados em formato de meia lua. Embora ele fizesse questão de repetir que não tinha sido nada sério, senti-me terrivelmente culpada pelos pequenos machucados; eu já tinha passado por um arranhão semelhante no passado e lembrava-me perfeitamente de como costumava arder com o suor.
Voltamos a andar, mas, dessa vez, em um ritmo bem mais lento por causa do chão escorregadio de terra úmida. Mantive toda a minha concentração focada no chão em que pisava, tentando ao máximo moderar o aperto da mão que ele havia me dado como apoio para não machucá-lo ainda mais.
— Pode apertar com toda a força que você quiser. Eu aguento — ele avisou, sorrindo de lado.
Soltei um suspiro longo, sentindo-me cansada. Não era exatamente um cansaço físico de exaustão, até porque nós não estávamos nos movendo rápido pela trilha; era um cansaço puramente mental. Eu tinha me concentrado tanto em não cair naquela caminhada que cheguei a ficar levemente tonta quando mudei o foco da minha atenção para falar.
— Você por acaso está guardando algum segredo ninja de mim, Guilherme? — questionei, estreitando os olhos.
— Não. Por que a pergunta do nada? — ele parou de se mover no meio da trilha. O semblante dele estava completamente confuso.
— É que você não deu uma única escorregada nessa lama desde que entramos na mata. Até parece que você é o Homem-Aranha disfarçado.
A gargalhada limpa e alta dele reverberou forte pelo espaço aberto da floresta. A vibração daquele som funcionou como um verdadeiro carinho no meu coração. Os traços que talhavam o rosto do rapaz pareciam novos sob aquela perspectiva; talvez fosse o feixe dourado de sol que bateu direto sobre suas feições e destacou o brilho de felicidade genuína em seus olhos verdes. O Guilherme parecia brilhar no meio da mata, e o meu próprio corpo parecia absorver toda aquela luminosidade dele. Outra vez, meu coração bateu em um ritmo completamente diferente. Aquele ritmo de batidas que só o Guilherme sabia como tocar no meu peito
— O segredo da minha estabilidade está puramente nos sapatos — ele explicou, erguendo o pé e apontando com o dedo para o solado tratorado da bota pesada de trilha que usava.
Olhei para baixo, encarando os meus próprios pés, de onde se destacavam um sapatinho bege de solado liso e totalmente deslizante na lama.
— Oh... Faz todo o sentido agora. Mas você não pode me culpar totalmente por isso, seu chato — retruquei, fazendo bico. — Eu não fazia a menor ideia de que teria que fazer uma trilha hoje.
— É realmente muito difícil ser o último romântico vivo da face da Terra — ele fez um falso lamento dramático, jogando a cabeça para trás.
— Então me ajude direito para que eu não vire o meu pé e acabe tendo uma entorse feia no tornozelo — disse, esticando as duas mãos na direção dele de forma pidona.
— Com todo o prazer do mundo, princesa — Guilherme inclinou o corpo, beijou as palmas das minhas mãos com ternura e estendeu os braços para me dar sustentação firme.
Andei dali em diante a passos bem curtos, com as pernas quase tremendo de medo de acontecer algum acidente bobo na terra. Foi um alívio monumental quando finalmente alcançamos um terreno plano e rochoso e eu pude caminhar sem aquela tensão chata travando os músculos das minhas pernas.
Não demorou muito até que meus ouvidos captassem um som forte de água correndo. Isto é: seria água de verdade aquele estrondo que estava crescendo no ar? Guilherme aumentou a amplitude dos passos e, por causa de suas pernas longas, acabei ficando para trás rapidamente. Vi o garoto se preparar com agilidade e descer das pedras grandes que funcionavam como os últimos elementos da vegetação da floresta. O rapaz parou onde estava e girou o corpo na minha direção, me encarando com um sorriso gigante.
Por um breve momento, meus pés diminuíram drasticamente o ritmo dos passos. Eu precisava apreciar, nem que fosse por meros segundos, em silêncio, a silhueta daquele magnífico rapaz que agora mantinha uma das mãos acima do rosto para quebrar a claridade e conseguir manter os olhos bem abertos. Uma brisa gelada soprou forte naquele instante, balançando o tecido esvoaçante do meu vestido azul e agitando as duas mechas de cabelo ruivo que haviam caído rebeldes sobre o meu campo de visão. Foi exatamente como na noite da fogueira com o grupo. Sempre que o vento gelado do inverno soprava contra o meu corpo, as faíscas do fogo pareciam subir com mais força dentro de mim. Eu podia facilmente identificar as faíscas invisíveis que explodem da fogueira acesa bem no centro do meu peito
A primeira coisa magnífica que vi assim que venci as pedras foi a grande cascata de água cristalina que caía do alto do desfiladeiro direto para o fundo da terra, onde uma enorme bacia natural acumulava o líquido. Era uma quantidade tão absurda de água que parecia simplesmente impossível de se mensurar a profundidade daquele poço profundo. Depois que o meu momento inicial de completo deslumbre com a natureza passou, desci meus olhos de volta para o rapaz, que continuava com as duas mãos estendidas na minha direção, me esperando. Segurei com força o apoio seguro que me foi oferecido por ele, no entanto, não tive a coragem suficiente para pular o degrau da pedra sozinha.
— É alto demais para mim. Estou com um pouco de medo de pular, Guilherme.
— Entendo perfeitamente. Nesse caso, vou precisar da sua licença — ele avisou, dando um passo para mais perto.
As mãos grandes pousaram com firmeza sobre a minha cintura que, em seguida, sofreu com a pressão decorrente da força física que ele usou para erguer o meu corpo inteiro no ar sem esforço. Tudo aconteceu em uma velocidade surpreendente, pois, em um abrir e fechar de olhos, eu já estava com os pés plantados sobre o chão rochoso e firme que cercava a cachoeira, acolhida com segurança dentro do abraço dele.
— Pronto, sã e salva — ele sussurrou contra o meu ouvido, mantendo o aperto por um instante.
Com os olhos erguidos para ele, levei pelo menos uns cinco segundos inteiros para conseguir esboçar qualquer reação física ou fala. Bem, eu não queria de forma alguma ficar calada como uma boba naquele momento romântico, entretanto, também não sabia se conseguiria pronunciar alguma palavra sem gaguejar de nervoso. Eu estava completamente inebriada com o perfume dele que, àquela altura da tarde, já havia se misturado de forma deliciosa ao cheiro natural da pele quente; além disso, a minha mente ainda estava se acostumando a todos esses momentos íntimos de casal que nós andávamos tendo nas últimas vinte e quatro horas
— Quem é o Homem-Aranha ou o Super-Homem perto de você, afinal? — brinquei, olhando para ele.
— Nem o homem mais rápido do mundo seria capaz de chegar antes de mim se você estivesse correndo qualquer perigo, Ariana — ele rebateu com seriedade no olhar.
Ele inclinou o rosto e tocou os meus lábios em um beijo breve, que findou antes mesmo que eu pudesse sentir toda a textura macia característica dos beijos de verdade dele. Sentindo o gosto de quero mais, antes que ele pudesse se afastar por completo do meu corpo, agarrei o tecido da gola da camisa social dele e indiquei uma das minhas bochechas com o queixo, pedindo para ser beijada ali. O beijo estalado foi depositado sobre a minha pele, deixando para trás um rastro quente no frio.
Em seguida, Guilherme começou a se movimentar pelo espaço e retirou a mochila pesada das costas, acomodando-a no chão. Minha curiosidade foi instantânea. O que será que ele teria guardado dentro daquele compartimento para nós? Bem, não havia hipótese alguma para a surpresa ser a gente entrar na água; o poço ainda estava com uma temperatura congelante àquela altura do ano e, além do mais, todo mundo sabia que eu não sabia nadar de jeito nenhum. Mas, para a minha agradável surpresa, uma toalha de tecido quadriculado nas cores vermelha e preta foi retirada de dentro da bolsa pelo garoto.
Aquele tecido clássico entregou todo o plano dele de uma vez.
Um piquenique romântico em um dia fresco de inverno. Tudo simplesmente perfeito.
O pano foi estendido com cuidado sobre o chão rochoso da clareira. A pedra deveria estar bem quente por baixo do pano, visto que não havia nenhuma árvore por perto para fazer sombra naquele ponto e o mineral tinha absorvido o calor do sol do dia inteiro. Com cautela para não fazer feio, sentei-me sobre a toalha estendida, tomando todo o cuidado do mundo com a forma como posicionei minhas pernas no chão. A parte difícil de escolher vestir um vestido esvoaçante em um passeio era justamente aquela: você era obrigada a calcular cada mínimo movimento do corpo para não mostrar nada. Com um short legging esse problema simplesmente não existia.
Vi quando ele puxou do fundo da mochila uma vasilha plástica grande com tampa. Pude enxergar imediatamente o tom vermelho vibrante da fruta através do plástico translúcido e pensei na hora que eram morangos frescos.
— Eu trouxe morangos — ele confirmou, abrindo a tampa —, kiwi — falou ao puxar outro recipiente menor —, melancia e melão cortados em cubos — continuou o estoque —, e tangerina para finalizar — completou, quando puxou a última vasilha cheia de gomos da mochila.
— Hum... Que delícia! Tudo o que eu mais amo — comentei, batendo palminhas animada com o banquete de frutas.
Sem nenhuma cerimônia ou timidez, movi o meu corpo para o lado e me encostei direto na lateral do corpo dele na toalha. Eu não ostentava as costas mais fortes do mundo e sabia perfeitamente que logo a minha coluna começaria a doer por não ter nenhum encosto firme atrás. Porém, a posição inicial que assumi nos impedia de olhar um para o outro de frente, porque quando usei o corpo dele como ponto de apoio. No entanto, eu não esperava que ele também fosse se mover em resposta ao meu toque; fui pega totalmente de surpresa quando o Guilherme me segurou com delicadeza pelos ombros, empurrando-os levemente, e moveu as próprias pernas para se reacomodar na toalha. No final do rearranjo, ficamos os dois perfeitamente sentados de frente para a queda d'água da cachoeira, com as minhas costas inteiras acolhidas e confortavelmente acomodadas contra o tronco firme dele.
Os dedos longos das mãos dele roçaram com suavidade na pele sensível da minha nuca quando ele pegou as mechas do meu cabelo e as jogou com cuidado sobre o meu ombro direito, liberando o meu pescoço. Apenas uma mecha rebelde e menor era curta demais para permanecer presa ali naquele lado, então ela acabou voltando sozinha para o seu lugar de origem, permitindo que eu enxergasse uma parte dos fios de fogo flutuando com o vento. Guilherme envolveu meus ombros em um abraço apertado por trás e soltou um suspiro profundo e relaxado.
— Como foi que você encontrou este lugar maravilhoso e escondido, Guilherme? — minha pergunta saiu um tom mais alto, quase abafada pelo barulho constante da queda da água nas rochas.
— Foi em um dia difícil, logo depois que eu tive uma discussão daquelas com o meu pai pelo telefone — ele confessou, a voz caindo de tom. — Eu saí de casa furioso, precisando urgentemente esfriar a cabeça de alguma forma. Andei, andei e andei sem rumo pelas estradas de terra até acabar caindo por acaso bem aqui nesta clareira.
— Wow... Você andou um bocado a pé pelo visto, hein? E você não ficou com medo de acabar se perdendo no meio dessa floresta densa sozinho?
— Hum... — ele pareceu pensar por um segundo na resposta. — Não, que nada. Eu tenho uma memória visual muito boa para caminhos.
— Certo. Eu vou fazer o papel de boa namorada e acreditar na sua palavra de escoteiro — brinquei, calando-me em seguida. Durante a minha breve pausa de silêncio, só podíamos ouvir de fato o som imponente da água batendo nas rochas lá embaixo. Nem ao menos o canto dos pássaros era alto o suficiente para ser notado por nós ali perto. — Sabe, eu estava pensando aqui... — comecei, mudando o rumo do papo. — Desta vez é a sua vez oficial de escolher o nosso filme da semana. Você já tem algum título em mente?
— Não, ainda não pensei em nada. Por que a pergunta? — As pontas dos dedos dele começaram a acariciar com uma lentidão boa a pele do meu braço nu. A carícia tátil me fez uma cócega gostosa e eu acabei soltando uma risadinha baixa.
— Não é nada demais, juro. Eu só estava pensando em te dar a sugestão de a gente assistir juntos a um filme de ação clássico e cult, tipo O Exterminador do Futuro.
— Hum, entendo as suas segundas intenções cinematográficas — Guilherme riu baixo. Ele alcançou a minha mão esquerda, levou os meus dedos até a sua boca e depositou um beijinho carinhoso bem no dorso da minha mão. Tudo executado com a mesmíssima delicadeza de sempre.
Sentir aquele toque me transportou para uma tarde de quinta-feira do nosso passado, quando pedi para segurar a mão dele com um propósito bem claro e científico em mente. Eu sempre achei, desde a infância, as mãos do Guilherme grandes demais para o corpo dele, porém incrivelmente leves nos movimentos. Então, debaixo da sombra de uma árvore frondosa, instigada por um vídeo de curiosidades que eu tinha acabado de ver na internet sobre anatomia, pedi para que ele colocasse as palmas das suas mãos direto sobre as minhas para que eu testasse uma coisa.
Ele obedeceu na hora e as posicionou, no entanto, elas não tinham o peso esmagador que eu tinha imaginado que teriam por serem tão compridas.
— Acho que as suas mãos deveriam pesar bem mais do que isso aqui, Guilherme — duvidei na época, testando o atrito.
— E por que você acha isso, cientista? — ele perguntou, achando graça.
Dei de ombros, sem saber explicar a física por trás do pensamento.
— É só um palpite meu.
A grande verdade oculta por trás daquele meu teste anatômico era que eu tinha assistido, dias antes, a um trecho de um programa de entrevistas qualquer na internet. No vídeo, as mulheres debatiam abertamente sobre quais características físicas mais as atraíam em um parceiro. Uma delas mencionou especificamente as mãos masculinas e detalhou o quanto gostava que elas fossem grandes e pesadas no toque. Aquelas palavras específicas haviam me deixado profundamente intrigada na época, e os meus motivos para querer testar a teoria no Guilherme eram, com certeza, de natureza bem duvidosa.
— Já que você está tão disposta e aberta a sugestões hoje, nós bem que podemos assistir a Alien, o 8º Passageiro — a sugestão dele me arrancou subitamente dos meus devaneios mentais.
— Está bem, combinado. Assistiremos a Alien então — concordei, rindo.
Aquela tarde de domingo passou devagar, deixando-me levemente surpresa com o ritmo do relógio. Geralmente, o tempo tem o hábito cruel de passar rápido demais quando estamos vivendo algo intensamente prazeroso, mas ali a cronologia parecia esticada. Tivemos tempo de sobra para nos deitar de costas no chão rochoso, observar as poucas nuvens se movendo pelo céu limpo e conversar mais um pouco sobre amenidades. Conversamos sobre tantos assuntos aleatórios que eu nem sequer lembro como havíamos começado a falar sobre o fato de eu não saber nadar.
— Eu sei que nunca cheguei a te fazer essa proposta de forma séria antes, Ariana, mas eu posso te ensinar a nadar nas férias, se você quiser — Guilherme propôs de repente, a voz amável.
Para conseguir encará-lo de perto, limitei-me a mover somente a minha cabeça para o lado. Entretanto, ele já estava deitado de lado na toalha, com o corpo completamente voltado na minha direção, mantendo o cotovelo esquerdo apoiado no chão e a cabeça descansando na palma da mão.
— Penso até que vai ser um processo bem divertido para nós dois — ele completou, o olhar verde fixo no meu.
— E por que exatamente seria divertido para você me ver engolindo água e quase me afogando na sua frente, Guilherme? — retruquei, arqueando as sobrancelhas.
Em um movimento rápido e ágil, o rapaz girou o corpo e ficou de bruços. A mudança de postura o levou para ainda mais perto de mim, diminuindo o espaço físico entre os nossos rostos.
— Eu nunca na vida deixaria você se afogar, Cenourinha. Você sabe disso. Eu te dou a minha palavra de que serei o melhor professor de natação que você poderia desejar ter na vida.
— Por que você tem tanta certeza disso, hein? — perguntei, desafiando-o.
— Porque, além de aprender as técnicas para não morrer na água, você também vai poder ganhar uns beijos de bônus do professor entre um nado e outro.
— Nossa... Só vantagens nesse pacote de aulas, não é mesmo? — brinquei, sentindo meu estômago dar voltas completas de tanto charme.
— Com certeza absoluta. É pegar ou largar.
— Ok, seu convencido. Nós vamos fazer isso, sim — cedi, sorrindo de canto. — Mas com uma condição: só quando o clima esquentar de verdade. A água desse poço e do mar ainda está fria demais agora.
Envergonhada demais com a audácia do rumo daquela conversa, precisei desviar os meus olhos e olhar fixamente em outra direção qualquer da clareira. Inevitavelmente, minha mente adolescente começou a projetar e a imaginar como seriam as ditas aulas práticas na água, e continuar olhando para o rosto dele enquanto esses pensamentos ousados vinham à tona com certeza não me ajudava em nada a manter o autocontrole.
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