(Não) Seja um destruidor de corações
1 Café, Malfoy e um plano imperfeito.
Olhei para a prova em minhas mãos, a nota em vermelho, berrando no topo da folha, entregava o quão bem eu havia sido. A facilidade daquela matéria me deixava entediada, contudo eu precisava tanto dela quanto eu precisava de um café naquele momento. A ligação diária com minha mãe me impossibilitava de cumprir qualquer plano que eu havia feito naquele dia, incluindo me encontrar com Hermione e Harry antes do resto das aulas.
Conforme minha mãe tagarelava em meu ouvido, eu fingia me importar. A cada ordem dita, eu concordava, como se fosse cumprir de maneira exemplar, tal qual uma boa filha.
— Mãe, eu já entendi — murmurei, olhando para o campus através das enormes janelas da cafeteria. A caneca com meu café fumegava em minha frente, me atraindo tanto quanto a ideia de desligar o telefone. — Eu prometo ir ao jantar, sim? Minhas provas vão acabar logo, em breve vou passar um tempo com vocês.
— Maravilha, querida! A família Malfoy tem falado desse jantar há semanas. — A empolgação em sua voz entregou como estava ansiosa para o dito cujo do jantar, porém revirei os olhos, agradecendo por estar há quilômetros de distância da minha família. — Lucius quer debater alguns negócios com seu pai, acho que finalmente teremos uma união com os hospitais Malfoys.
Suspirei, cansada daquele assunto. Eu sabia como meus pais eram contra meu curso escolhido, todavia eu só tinha certeza de uma coisa na minha vida: minha paixão por lecionar. O resto, eu apenas lidava.
— Isso é incrível, mãe. — Me controlei, usando meu melhor tom de voz acolhedor e paciente. Pude avistar Hermione e Harry pelo vidro da janela, buscando finalizar aquela ligação o quanto antes. — Preciso ir, sim? Quando eu estiver partindo eu mando uma mensagem.
Não esperei para ouvir sua resposta, apenas desliguei. Ao mesmo tempo que eu via meus dois melhores amigos passando pela porta da cafeteria, eu guardava meu celular no fundo da minha mochila. Aquela era a última hora que eu precisava ouvir minha mãe se lamentar sobre minha escolha errônea de curso e meu futuro frustrante para minha família.
Contemplei meus amigos debatendo algo numa animação que eu invejava, inertes no próprio mundo conforme caminhavam na direção da minha mesa. Harry e Hermione estiveram comigo durante toda minha vida acadêmica em Hogwarts, não seria diferente na Sociedade de Avalon. E deixei toda e qualquer preocupação envolvendo minha família para trás quando eles se sentaram; Hermione ao meu lado e Harry na nossa frente.
— Me diga que você não tirou uma boa nota na matéria da Sra. Fitz, Cassie. Eu me recuso a acreditar que quase zerei a prova. — Hermione proferiu, chateada com seu resultado na prova. Lhe direcionei um sorriso calmo, transmitindo confiança.
— Não, mas eu entendo sua frustração, Mione. Ela é um saco. — Abracei minha melhor amiga, oferecendo um pouco do meu café para ela. Harry riu, relaxando na cadeira ao cruzar os braços.
— Não queria ser vocês hoje — Harry disse, fazendo-me revirar os olhos com a frase dita. Assim como toda família Potter, ele cursava Medicina Bruxa e estava no quarto período. — Sério, ela é conhecida como a pior professora do campus.
— Pior? Ela é um inferno, Harry. Na última semana ela fez uma garota chorar na sala por causa de um feitiço errado, chorar. — A forma incrédula que Hermione disse o recente acontecimento numa de nossas aulas atraiu olhares, me fazendo rir baixinho.
— Está tudo bem, eu te ajudo e você sabe disso — sorri fraco para ela, dando-lhe todo suporte que eu conseguia. Hermione queria passar naquela matéria tanto quanto eu, para finalmente conseguirmos algum estágio. Apesar de não compartilharmos a mesma formação no mesmo curso, fazíamos uma eletiva tão importante quanto.
— Já estão sabendo da festa do Malfoy? — Harry disse, após pedir um café expresso para ele e um chá para Hermione. Apenas a menção do sobrenome alheio me fez revirar os olhos, formar uma careta e querer mudar de assunto. — Esqueci que o Draco é um assunto sensível para Cassie.
— Não é sensível, porém a menção desse nome me causa repulsa — dei de ombros, abrindo um sorrisinho debochado.
O fato de Draco Malfoy e eu compartilharmos uma rivalidade acadêmica desde os primórdios de Hogwarts era um mero detalhe à parte. Porém, quando Draco Malfoy se tornou muito além de um rival acadêmico e se tornou meu inimigo declarado ao longo dos anos, virou uma guerra particular nossa. E nossos amigos percebiam como era puro caos estar ao nosso redor.
— Deixe disso, Cassie — Potter virou os olhos, jogando uma bolinha de papel em minha direção. Eu sabia que Harry jamais se meteria em algo relacionado a minha rivalidade com Draco, já que ele é tão amigo dele quanto meu. — O primeiro jogo da temporada é amanhã e depois terá uma festa na AZP, Ron tá pegando firme com a gente nos treinos.
— É por isso que não o vejo há quase duas semanas? — Hermione questionou, fazendo-me olhar para Harry de imediato. Hermione e Ron tinham uma relação um tanto quanto complicada, que se estende desde os primeiros anos de Hogwarts.
E hoje, depois de mais de dez anos, eles ainda seguem num impasse romântico.
— Talvez?
— Vocês são inacreditáveis, Potter. — Hermione respondeu, brava. Soltei uma risada alta, atraindo alguns olhares de bruxos aos nosso redor. Olhei para meu celular, notando que alguns mensagens do meu pai brilhavam na tela, porém meu foco foi o horário, indicando um pequeno atraso da minha parte.
— Precisamos ir, gente — anunciei, bebendo o restinho do meu café de uma vez só. Eu precisava aguentar o resto dos próximos dias com mais determinação do que nunca, enquanto eu procurava uma maneira de evitar de encontrar minha família e passar alguns longos dias acompanhada de comentários irônicos e sugestões sobre eu mudar de curso no ápice da minha vida acadêmica.
Acompanhei Harry e Hermione até o prédio de saúde e ciências, onde ambos teriam as últimas aulas do dia em seus respectivos laboratórios. Potter trabalhava numa pesquisa para reverter os malefícios do feitiço Cruciatus a longo prazo, enquanto Hermione criava novas poções para seu artigo científico, como ela dizia: a ciência, por si só, era mágica.
Durante meu trajeto, que incluía atravessar quase o campus inteiro em direção ao prédio de artifícios e modalidades bruxas, me vi imersa em pensamentos e conclusões nada boas e positivas sobre como minha família reagiria ao saber que meu próximo passo profissional era um estágio de poucas semanas em Hogwarts.
Diante de toda minha linhagem, vinda de séculos e séculos de bruxos famosos e bem requisitados da medicina, eu quebrei a tradição ao desejar incansavelmente uma vaga no curso que, hoje, é uma das minhas maiores realizações.
Meus pensamentos foram interrompidos de maneira indesejada por uma pessoa que, de forma igual, eu não queria sequer ver em minha frente.
Draco Malfoy. Em carne e osso. Com seu cabelo loiro e olhos magnéticos.
— Howbrooke — seu cumprimento foi sutil, acompanhado de um sorrisinho cafajeste. Ele trajava seu uniforme diário: calças escuras, blusa branca e uma jaqueta, que intercalava quase sempre entre jeans, couro ou colegial. Uma mão segurava a alça da mochila, enquanto a outra carregava seu jaleco, característica que era seu maior charme entre as calouras e as poucas mulheres, e homens, que ainda não caíram em seu papinho fajuto.
Revirei os olhos, passando por si, sem sequer parar para ouvi-lo.
— Cassidy, a gente precisa conversar. Agora. — Seu tom foi firme, ao longe, pois sabia que Draco Malfoy nunca corria atrás de ninguém, mesmo que isso significasse deixar escapar uma conversa tão importante quanto tomar chá com a Rainha da Inglaterra.
— Eu tenho aula agora, se você não percebeu — levantei meu livro de Estudos das Artes das Trevas e lhe direcionei meu melhor sorriso debochado, me virando novamente.
— É sobre o jantar das nossas famílias, Howbrooke. Não é coisa boa — ele argumentou, me fazendo parar. Afinal, se tinha alguém que entendia como nossas famílias funcionavam, infelizmente essa pessoa era Draco Malfoy.
Numa linhagem que se posterga há seculos, viemos de famílias que se casavam com bruxos de sangue puro, seguiam as heranças ao longo dos anos e construíam o futuro baseado em seus herdeiros. Eu era a única mulher no meio de três irmãos mais novos, o que me fazia ser a primeira herdeira considerável dos negócios da família.
Apesar de não ser adepta aos negócios em questão, nossos hospitais funcionavam de maneira nobre: trabalhávamos com pesquisas, desenvolvimentos e causas que a medicina bruxa e trouxa ainda não haviam trabalhado. E, apesar dos meus estudos focarem em lecionar, eu sabia como eu poderia ser útil no futuro caso eu herdasse os hospitais antes do que eu planejava.
Eu gostava da ideia de como minha família lidava com nossos poderes e com a medicina dos dias atuais, porém não era minha primeira, muito menos a segunda, opção que eu queria seguir. Diferente de Draco, que era apaixonado pela sua profissão.
Arrisco a dizer que era uma das poucas coisas que ele apreciava.
— Vamos para outro lugar, precisamos debater sobre isso de forma... calma — arqueei a sobrancelha com sua fala. Se ele queria conversar, ainda mais ponderando dessa maneira, era porque tínhamos um problema.
Engoli seco, apertando a alça em meu ombro e meus livros contra meu tronco. Olhei para os olhos tempestuosos e cinzentos de Malfoy e compreendi que foi quase um pedido de ajuda.
— Vamos, que não seja uma perda de tempo.
— Acredite, Cass... Você realmente vai querer ouvir o que eu tenho para falar.
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