Nyla

1 Nova York


LORENZO FLAMBAVA UM PEITO de frango regado a vinho enquanto observava Kaleena se levantar do colchão posto no chão propositalmente. A jovem prendeu as madeixas longas e cacheadas em um coque alto e mal feito, logo em seguida espreguiçava-se como se tivesse acabado de acordar, mas de fato não tinha; estava acordada desde as oito e ficou deitada até as dez digitando sem parar. Passou por Lorenzo e deu um beijo em sua bochecha, assim como fazia todas as manhãs desde que resolveram morar juntos e desde então tem sido a mesma coisa. Todos os dias.

Kaleena levanta, come um pão torrado, bebe uma caneca generosa de café e passa o dia inteiro sentada na escrivania que ficava de frente para uma enorme janela, onde ela podia observar a cidade de Nova York logo pela manhã ou tarde ou noite. Como uma escritora que se preze, escrevia todos os dias e só parava para comer e dormir porque seu corpo pedia. Achou que seria o mesmo aquele dia, mas definitivamente não foi.

Leena — como era chamada pelos mais íntimos — já iria se sentar na cadeira de madeira quando Lorenzo jogou a frigideira na pia causando um enorme estrondo.

— Meu Deus, o que aconteceu? — Kaleena perguntou com a mão no peito, tinha levado um susto. — Você ficou maluco?

— Eu vou ficar se você não parar com essa sua rotina estúpida. Você sabe quando foi a última vez que saiu desse apartamento?

Se encostou na escrivaninha e pensou por momento observando de relance a figura irritada e de braços cruzados de um Lorenzo preocupado e bravo. Ela não soube responder a pergunta e quando abriu os lábios para dizer alguma coisa foi tomada por um esquecimento repentino. Coçou o ante braço para mostrar o desconforto que estava sentindo naquela situação.

O "casamento" já não ia bem há um tempo. Desde que Leena conseguiu pulicar seus dois livros no ano retrasado, agora não parava de escrever e fazia isso todos os dias. Trocava tempos com o companheiro e amigos para ficar trancafiada no apartamento para poder escrever mais e mais, com uma compulsão, como um vício.

Lorenzo foi até o notebook e pegou o mesmo, fechando de uma forma bruta que fez Kaleena fitar com desespero o seu único meio de trabalho.

— Vou confiscar isso por um tempo.

— Você ficou louco, o que acha que esta fazendo? — correu em direção ao companheiro arrancando o notebook dos braços de Lorenzo, como se ela tivesse acabado de roubar uma bolsa. — Você não pode fazer isso.

— Eu vou te devolver quando você voltar a agir como uma pessoa normal e não como uma máquina. — aumentou o tom de voz e disse com firmeza. — Você não dá mais atenção para nada, nem para mim. Nem parece que estou aqui, nem parece que isso é um casamento.

— Você não pode me cobrar algo do qual não fui avisada.

— E é preciso avisar? — Lorenzo afastou-se melancólico já lembrando de quando aquilo que eles chamavam de casamento tinha sido realmente um casamento. Kaleena já tinha lagrimas em seus olhos e as segurava para elas não escorrerem e mostrarem a sua fraqueza momentânea.

Pegou a bolsa que estava despojada sobre a mesa e vestiu uma calça que tinha achado no chão tão rapidamente que Lorenzo só percebeu quando viu a figura da jovem bater com as chaves na pequena mesa de vidro.

— Desculpe, eu não posso mais fazer isso. — dessa vez as lagrimas fluíram através do rosto moreno e limpando o mesmo. Lorenzo olhou confuso para Leena que rumava em direção a porta preta do apartamento.

— Perae, você vai embora? — foi atras da mesma e se colocou na frente da porta, impedindo a passagem. — Você esta me deixando?

— Só por um tempo... Eu preciso de um tempo. — secou as lagrimas e enrijeceu o cenho. Pediu para Lorenzo retirar-se do seu caminho e o mesmo fez, meio abismado para o que tinha acabado de acontecer. — Não me espere, não sei quanto tempo será necessário.

Bateu a porta como um sinal de despedida. Lorenzo sentou-se no chão boquiaberto com a situação; ajeitando uma mecha do cabelo longo e ondulado que insistia em cair sobre os olhos naquele momento.

Aquela não tinha sido a primeira briga sobre aquele assunto. Continuamente discutiam sobre o fato de Kaleena se isolar do mundo e viver apensar disso, sem querer outra coisa na vida. E, de fato Kaleena se isolou. Mas não porque estava recém-casada, ou estava depressiva ou tinha deixado o apartamento em Los Angeles para viver o sonho de jovem esposa; mas sim porque agora ela não tinha mais a desculpa da distância, ou do tempo, ou do fuso, ou de qualquer outra coisa. Agora, definitivamente ela não tinha desculpas.