Nuvens de Sangue
5 Capítulo 5 - Abdução
Notas iniciais

"E como um feixe de luz, eles subiram ao céu"
Não sei ao certo quanto tempo passou até o início dos ataques. A única certeza que tenho é que escurecerá e ainda não conseguimos sair deste trem, a cada segundo gritos mais altos são escutados do lado de fora. Olho para as janelas e o que vejo são marcas de sangue, marcas de morte que estão crescendo. O calor está se tornando insuportável, meu suor escorre de minha testa até meus lábios salgando meu paladar, o que faremos? Clarice apoia sua cabeça em minhas pernas enquanto deitada parecia viajar para longe do inferno que estávamos escutando do lado de fora. Meu pai... Não consigo parar de pensar nele, será que está seguro onde disse que estava? Perguntas que só poderiam ser respondidas com um único ato, sair do vagão.
Olhei a minha volta mais uma vez reparando nas pessoas que ali estavam. O homem de terno não parava de olhar uma foto de dentro de sua carteira, estampava para todos vermos sua família. Uma loira bonita abraçando uma criança linda de aproximadamente quatro anos. A única coisa que penso é neles vivos, mas onde será que estão? O mundo deve estar um caos, passou-se horas, horas que transformaram um país sujo em um país podre. Um podre não mais de sua politica imunda, da violência urbana, da poluição e precariedade, mas sim, um podre de cadáveres, cadáveres por todos os lados. Sangue escorria como nascentes e se estendia como rios e lagos. O odor entrava pelos buracos do vagão, cheiro de decomposição, cheiro de morte.
O que cada um fazia antes de nos encontrarmos? A garota lia um livro de capa azulada, estava de pernas cruzadas mesmo com os joelhos esfolados parecia não ligar para suas feridas, mergulhava em um mundo de paz ao ler, seus cabelos lisos caiam sobre seus olhos chamuscados em pânico. Maycon continuava fumando, não parava um só segundo de olhar para a porta, enquanto um dos infectados pela fumaça o encarava com os olhos negros do lado de fora, parecia que sentia o cheiro de Maycon, passava as mãos podres de sangue no vidro tentando atravessá-lo e pegar o roqueiro que não dizia nada apenas encarava aquela coisa. Os grunhidos daquela coisa eram aterradores, mas não era o barulho que incomodava, e sim como sairíamos com eles a espreita nos esperando do lado de fora.
Torres limpava sua arma com um pano sujo que encontrou. João e sua esposa ainda quietos, apenas olhavam-se como se aquilo os confortasse, Luiza levantou de onde estava e sentou ao meu lado, Clarice não esperou se ergueu e foi até Léo e Caroline. A menina me encarou e sorriu, um sorriso de canto, um pouco forçado pela situação.
– Por que está rindo?
– Engraçado, conheci você em uma festa, ficamos de nos encontrarmos para conversar.
– Se soubesse que tudo isso aconteceria...
– Nicolas, não existe destino, mas se era para nos encontrarmos, bem, estamos aqui.
– Verdade, tentarei chegar o quanto antes para Itapecerica, poderemos encontrar seus pais também... — Ela abraçou seus joelhos e abaixou a cabeça, — o que aconteceu?
– Tentei ligar para eles, liguei muitas vezes antes dos celulares desligarem novamente. Liguei não só para eles, mas para todos os meus parentes e conhecidos, ninguém atendeu.
– Eles estão bem.
– Não diga que eles estão bem, por que não estão Nicolas, que pessoa nesta situação deixaria de atender um celular, estão todos mortos. — O que falar para ela nesta situação, tenho que criar coragem para encarar as pessoas. Olhando aqueles olhos em lágrimas, lembro de cada dia inútil de minha vida pouco aproveitada. Enfim, não consegui encarar aquela situação, apenas abracei-a bem forte, coloquei ela sobre meu peito.
Minha vida realmente não era aproveitada, tinha medo de muita coisa. Nunca namorei sério, apenas saia com algumas garotas a insegurança de manter um relacionamento era presente no meu dia a dia. Quando morava com meu pai, saia muito com meus amigos, tempos legais, porém de juventude. Morando em São Paulo via uma oportunidade de mudar de vida, crescer, tanto financeiramente quanto no amor. Mas as coisas estavam piorando a cada dia. Descobri isso quando conheci Luiza que me deu a maior chance de alguma coisa, garota bonita... Agora está em meus braços, mas a situação não era das mais agradáveis. Estou com a melhor chance de minha vida, o mais próximo de encarar meus medos, entretanto tinha que acontecer um ataque Alienígena para eu cair na real.
– Ei vocês dois se aproximem, temos que elaborar nosso plano. — Torres dizia, Maycon saiu de perto da porta e sentou ao lado de Léo e Caroline que estava prestando atenção no que o policial falava. Levantamos. João indagou.
– Estamos aqui, — apontou para um mapa que estava no trem, ele havia desenhado uma rota com uma caneta vermelha. — Se pegarmos os carros iremos direto pelos trilhos do trem, teremos que ir diretamente para o Departamento da Polícia Civil.
– Como assim? E nosso pai! — Gritou Clarice, apenas levantei uma de minhas sobrancelhas e Torres deu a voz.
– Se sairmos dos carros e irmos para a estação mais movimentada de São Paulo morreremos na certa, pegaremos armas e monição para salvarmos seu pai.
– Tudo bem. — Conclui com lágrimas entre os olhos, mas Clarice parecia muito preocupada.
– E se não der tempo Nic, se...
– Não se preocupe o pai de vocês estará bem minha jovem corajosa. — Helena seguia até a pequena e a confortava, João continuou.
– Este mapa estava no vagão, é o mapa de pinheiros. Entraremos na Rua Sumidouro, antes de chegarmos na estação de pinheiros, depois viraremos e subiremos para a Rua Costa Carvalho onde na primeira direita se encontra a Delegacia. — Jhon deu a voz.
– E como sairemos do vagão? Está escurecendo, e provavelmente ficará mais perigoso nos locomover, uma vez que os trilhos entre estações não tem luz alguma.
– Vamos arriscar!
– Você quer que atravessemos o gramado até aqueles carros perto do presídio no escuro, com essas criaturas querendo nos comer? Vocês estão malucos, e olhe o sol já se pôs. — Falara Marry que até então estava quieta. Caroline colocou uma das mãos no vidro enquanto todos estavam reunidos e conversando, parecia aflita com alguma coisa e pasma ao ver o que estava sobre sua visão. Ninguém ao menos reparou, mas percebi a inquietação da adolescente, me levantei. Ao me deparar no que ela estava olhando quase cai para trás, por um segundo tudo se calou.
A cada momento acontecia algo estranho, mas aquilo era de cair para trás. As pessoas infectadas pelo gás, aquelas que estavam correndo por todos os lados pararam, ficaram imoveis e olharam para o céu escurecido pela ausência do sol. Os grunhidos acabaram, a movimentação terminou, ficaram olhando para cima e tremendo os braços que se esticavam para o solo como se fossem sair de seus corpos. O que significava aquilo? Quando todos perceberam largaram o mapa no chão e correram observar o que eles estavam fazendo. Não importava quem fosse, todos que estavam infectados do lado de fora miraram seus olhos negros para o céu, suas salivas continuavam a cair junto ao sangue das vítimas destruídas por eles, o silêncio reinou. Olhávamos um para os outros sem entender, foi quando todos eles abriram a boca e tremeram ainda mais os braços, olhando sempre para cima. O que está acontecendo?
– E agora, o que eles estão fazendo? — Léo vociferou pegando em meu ombro.
– Não sei! — Respondi. Olhei para o lado Marry estava anotando alguma coisa em uma página de seu livro.
– O que está fazendo Marry?
– A partir de agora anotarei tudo o que for necessário, não acha isso intrigante? Eles estão imoveis olhando para o céu. — Assim que ela termina de falar, escutamos gritos, parecia vir de longe, um grito aterrador de socorro. Foi chegando mais perto, até que vimos de onde estava vindo.
Uma mulher de vestido até seus joelhos, estava descalça e banhada de sangue, corria entre os infectados. Mas o que me intrigou assim que reparei naquilo era que eles não atacavam a mulher desesperada. Eles a ignoraram, coloquei as duas mãos no vidro e gritei o mais alto que pude.
– Eles não estão atacando ela! Vamos. — Sem pensar apertei no botão da porta que abriu, seguirei firme uma das mãos de minha irmã, olhei para o lado e vi a reação de Luiza, ela estava seria. Aquela brisa tocou meu rosto, um vento infernal de um começo de noite. Uma brisa pavorosa de um odor horrendo de podre e sangue, aquele ar era horrível respirar, estava mais para insuportável. Ainda não tinha a capacidade de correr na frente, mas Torres deu o primeiro passo e passou por mim sem me olhar, correu como se não houvesse outra chance. Fizemos o mesmo.
Todos corriam, estávamos nos afastando dos infectados que ainda não se mexiam, ainda olhavam para cima com a boca aberta e os braços tremendo. Sentir aquela grama molhada de sangue era o que mais me fazia querer chegar nos carros. Léo e Caroline corriam do meu lado, Marry e Jhon um do lado do outro. João e Helena juntos como sempre, corriam com dificuldade.
Meus Deus temos que chegar o quanto antes até os carros. Aqueles metros pareciam quilômetros, via Torres na frente desviando dos monstros que ignoravam ele, eles não estavam ligando para nossa presença o que significada aquilo? Será que havia passado o estado de loucura, era apenas uma fase passageira? Tomara... Descemos uma pequena elevação de grama com pedras e caímos em outros trilhos de trem, estávamos chegando nos muros do presídio de Presidente Altino, já conseguia ver os dois carros parados enfrente aos portões. O silêncio do lugar era tremendo, e dava um ar de medo, a escuridão tomava conta de tudo, olhava para os lados e a única coisa que via era a escuridão e alguns deles olhando para cima.
– Estamos perto! — Gritei, mas foi neste momento que escutamos um terrível e ardido barulho, como se fosse uma trombeta gigante sendo tocada violentamente. Caímos no exato momento no chão com as mãos nos ouvidos. Minha visão ficara tremida pela minha audição ter sido afetada, Clarice estava ao meu lado olhei em seus olhos e vi um brilho, como se refletisse alguma coisa atrás de mim, virei de costas rolando ainda deitado, foi quando vi aquilo.
Aquela luz, um clarão azul saindo das nuvens. A luz tinha a forma de um tubo direcionado exatamente sobre o corpo dos infectados, não sei ao certo, mas eram dezenas de luzes saindo do céu caindo sobre os loucos. Em questão de milésimos o corpo deles sumiam do solo e apenas um feixe de sombra seguia sobre a luz até as nuvens, eles estavam sendo sugados? Mas por que eles estão sendo sugados?
– Vamos levantem, não temos tempo, temos que pegar os carros o quanto antes! — João indagou levantando a mulher dele e seguindo enfrente com Torres. Não consegui desviar o olhar do céu e das luzes, era intrigante ver tudo aquilo, será que sobre nós estão as naves deles? Por que eles não descem, não acabam com tudo de uma vez, tem que usar nos mesmos para isso? Cai na real, levantei com a ajuda de Luiza e corremos até os carros.
Eram dois carros da marca Blazer, eram enormes, carros pretos e fortificados da Polícia Civil. Blindados e principalmente apropriados para a situação que estávamos. Os carros estavam com as portas destrancadas, muitos corpos mutilados ao redor dos carros, talvez pessoas tentando chegar até eles. Torres não fez outra coisa, entrou no carro e indagou em êxtase.
– Vamos nos dividir, comigo vem: Marry, Jhon, Maycon, Helena e João. Acho que nosso garoto aqui não irá deixar seus amigos não é?
– Sim! No outro eu vou com Clarice, Léo, Luiza e Caroline.
– Então corram para o outro carro, as chaves estão no contato! — Concluiu o policial, — iremos na frente e você siga nosso carro, se houver algum problema à frente piscarei duas vezes os faróis traseiros, tudo certo?
– Tudo certo, vamos rápido par ao outro carro. — Mas quando gritei, ouvia-se mais uma vez o barulho, mas agora fraco. As luzes sumiram de repente, e quando parou de se ouvir, os grunhidos voltaram.
– São eles, sairão do estado de transe, corram rápido para o carro, vamos ou serão mortos. — Jhon berrou.
Corremos o mais de pressa que pudemos, em um segundo todos entramos no carro. Peguei no volante e minha mão deslizou em um instante para o miolo da chave, mas elas não estavam lá. — Que porra – pensei alto até demais.
– O que foi, por que não saiu, o carro deles já deu partida. — Gritou Luiza ao meu lado, olhei para o retrovisor e vi três faces de pânico olhando para mim. Eles estavam dependendo de mim mais uma vez não poderia decepcionar.
– As chaves não estão no contato, procurem dentro do carro. — A movimentação de nós cinco foi tremenda, procuramos por todos os lados e nada, puxei o para-brisas, o encosto de canto, o porta-luvas, mas nada das chaves. O carro deles sumira na escuridão.
– Ei! — Léo chamava minha atenção, — as chaves estão naquele braço, do lado de fora. — Olhei pelo vidro e era verídico. As chaves estavam sobre uma mão desmembrada de um corpo ao lado do carro, não pensei tinha que sair e pegar antes que eles chegassem.
– Não saia Nicolas. — Luiza murmurou quando peguei na porta para abri-la.
– Tenho que sair, se não morreremos. — Dei de ombros e abri a porta, dei dois passou para frente e olhei aquele braço ensopado de sangue sem um corpo para sustentá-lo, os dedos estavam entrelaçados com o gancho do chaveiro, peguei o braço e retirei as chaves abrindo cada dedo. Aquilo era apavorante, um embrulho horrível surgir em meu estômago e uma vontade de vomitar me dominou, a cena era tanta que não percebi o que vinha em minha direção, apenas escutei os berros dos quatro no carro.
Quando voltei a realidade estava sobre minha face os dentes de um homem de meia idade. Seus olhos negros me encararam, seu odor me dominou. Estava a centímetros de me morder, mas como reflexo impulsionei meus braços em seu peito afastando sua mandíbula da minha carne. Ele era muito forte, estava para me morder, Senti que ainda estava com o braço e a chave. Tentei chegar ate o carro, Léo gritou, não conseguia ve-lo. Lembrei que ele ainda estava com a arma.
– Atira nele Léo!
– Estão sem balas, eu vou ai te ajudar. — Escutava os gritos de aflição das garotas.
– Não! — Peguei o braço que estava no chão e consegui esfregar na face do homem que mordeu o braço podre do chão com uma fome animal, com isso consegui dar dos passo para trás e cair sentado no banco da frente. Mas ele ainda estava sobre mim, queria de todas as maneiras de morder. Senti os braços de todos me puxando para dentro. Luiza puxou a porta batendo ela no homem que ainda estava sobre mim. A única coisa que pensei foi dobrar as pernas e chutá-lo, mirei todas as minhas forças em minhas duas pernas e o joguei para longe. Essa foi a deixa, tranquei o mais rápido possível a porta, e foi quando mais vieram e bateram nos vidros blindados que nem mesmo o barulho dos dentes deles rangindo dava para escutar.
Tremendo muito e sem entender o que aconteceu, tentava colocar a chave no contato, mas estava trêmulo minha mão não me obedecia. Luiza colocou uma de suas mão sobre a minha e em lágrimas respirou fundo.
– Vamos conseguir! — Sua voz me acalmou, não olhei para os lados, apenas para o retrovisor que me mostrava a face dos meus irmãos de pânico e desordem, tenho que ser mais cuidadoso, ou tudo estará acabado.
Dei partida no carro, e ele ligou, saímos em disparada deixando os loucos infectados para trás. Entrei nos trilhos escuros e iluminei a frente com os faróis. O carro balançava para cima e para baixo pelo estado de onde estávamos andando, mas aquele tremor era uma chance que vimos para nos livrar daquele pesadelo. O trem ficava para trás, o cenário de onde tudo começou sumiu junto com as trevas do lugar.
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