Nunca a Deixarei Ir
1 Capítulo Único
Era uma tarde bonita para quem passeava no parque aquele dia. Eu pelo contrário, acabei de entrar no médico para buscar o resultado de alguns exames. Aguardava o médico em sua sala enquanto ele pegava os resultados.
- A senhorita se chama Marina Gonçalves? — Ele perguntou, fazendo cara de preocupado ao ver o papel em suas mãos.
- Sim. — Respondi prestando atenção.
- Bom... Marina, vai ter que ser forte...
- Doutor, pode falar. Não vou ter medo de morrer amanhã.
- Na verdade a senhorita tem um câncer. E prevejo que viva... Apenas 1 mês. Sinto muito. — Um nó se formou em minha garganta. Empurrei com uma mão uma parte do meu cabelo para trás.
- Obrigada por ser sincero. — Falei sem emoção. — Já vou indo. — Disse, pegando meu exame. Ele ficou sem expressão. Saí dali e me sentei num banco da praça. Meu celular tocou.
- Alô?
- Oi Ma! Sou eu, a Magá! Olha, no sábado vai ter minha festa de 26 anos, e será que você pode vir aqui me ajudar? — Perguntou Magali. Outro nó se formou em minha garganta ao imaginar ela sabendo do que aconteceu hoje.
- Cla-claro, posso sim. — Eu disse, rouca.
- Tá bom, to te esperando com um sorvete de menta com chocolate, nosso preferido! Tchau!
- Até...
Magali é a minha melhor amiga desde criança. Não sei como ela vai ficar se eu contar. Concerteza muito triste. Eu não posso contar para ela.
Peguei meu carro na garagem do meu prédio e dirigi até a casa da Magali que não fica muito longe dali. Cheguei e toquei a campainha.
- Oi amiga! — Ela atendeu, feliz. Já faz um tempo que não vejo ela, umas 3 semanas. Ela me abraçou como se fosse uma irmã (praticamente somos) e depois me soltou.
- Não vai apertar minhas bochechas e dizer o quanto eu cresci não, né? — Brinquei.
- Claro que não sua boba. Entra.
- Caramba, sua casa mudou! — Disse, ao ver os móveis em lugares diferentes e as paredes mudadas.
- É, eu andei reformando. — Ela sorriu. — Sorvete? — E me ofereceu nosso sabor favorito.
- Claro! — Peguei uma tigelinha e me servi. Comemos sorvete, fizemos doces, arrumamos a casa... Foi uma ótima tarde que me fez esquecer de tudo. Voltei pra casa dirigindo devagar e prestando atenção na rua. Parei quando havia uma pequena floricultura do lado em que eu passava, entrei um pouco para ver as flores. Tinham cheiros sensacionais. Quando fui sair, na porta, havia um bilhete escrito: \"Precisa-se de um(a) ajudante, que possa ficar de 17:00 às 22:00. Acredite, trabalhar com rosas é uma boa terapia. Procurar Jorge, o dono da floricultura.\" É, eu to precisando de uma terapia mesmo. Nesse momento o tal Jorge entrou na floricultura (era de se perceber, estava com um crachá escrito com seu nome), ele parecia um homem cansado, era meio barrigudo e tinha uma barba branca. Olhou para mim de cima à baixo.
- Olá — Eu disse, educada.
- Oi. Em que posso ajudar? — Perguntou.
- Bom, sabe o emprego que está na porta? Vim me candidatar.
- Ótimo, quando pode começar? — Ele perguntou, aparentava ser bondoso, mas velho demais para trabalhar à noite.
- Ah, pode ser na segunda e...
- Contratada. Na segunda aqui às 17:00. Não se preocupe, vai ganhar bem, não melhor do que ganharia trabalhando numa empresa mas um dinheirinho.
- Ok, obrigada! Volto na segunda senhor Jorge.
E deixei a floricultura. Dirigi de volta à minha casa e já eram 23:00, como amanhã eu iria cedo pra casa da Magali então fui dormir.
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O despertador tocou às 9:30 e eu soquei o mesmo, que parou. Levantei meio zonza, bambeando. Tomei um banho, me vesti e fui pra casa da Magá. Nós arrumamos mais alguns detalhes e logo chegou a hora da festa (18:00). Cada vez mais os convidados chegaram, e botamos o som para tocar. Outra vez a campainha tocou e eu atendi. Lá estava um garoto alto e loiro de olhos castanhos, com um pacote nas mãos parecido com um presente, olhei para ele de cima à baixo e ele fez o mesmo.
- Érr... Oi. Entre. — Eu disse. Ai, como eu sou estabanada!
- Claro... — Ele pareceu meio envergonhado — Er... Cadê a Magali?
- Ela tá ali na sala dançando e... Bom, porque você não vai até lá?
- Claro, claro... Até então. — Ele acenou e foi até ela.
Fechei a porta e encostei nela, afastando os pensamentos que agora invadiam a minha cabeça. Não posso me apaixonar à beira da morte! Bom, me resta curtir a ultima festa da minha vida.
Fui para onde Magá estava dançando e a acompanhei. Logo após a campainha tocou e Magá foi atender. Ela veio logo acompanhada de uma menina alta e morena.
- Marina, essa é a Denise. Ela é namorada do Franja, o garoto que você atendeu e que acabou de chegar. — Então ele tem namorada? D:
- Claro, claro... Oi Denise.
- Oi querida, você está bonita. Vou até ali dar um oi pro meu namorado ok? Até. — E foi até o suposto \'Franja\'. Deu um beijo nele e os dois dançaram juntos.
- O Franja é um bom rapaz, ele e a Deh fazem um bom casal.
- É... — Falei, com um pouco de ciúme. Que isso Marina! Não pode, não tem esse direito! Eles são felizes juntos!
Dançamos a noite toda e depois foi hora de cortar o bolo. Eu recebi o primeiro pedaço, e depois que todos comeram, dançamos mais um pouco e foram todos embora, só ficou eu e Magali. Eu estava ajudando-a a arrumar a casa.
- Marina, eu te conheço desde criança. Eu sei que você não pode mentir para mim.
- Edái?
- Edái que eu sei que... Você gostou do Franja.
- Quê, eu? Que absurdo, eu não gostei dele e... É tão óbvio? — Eu estava caindo, eu não podia fazer aquilo. Eu não posso ficar com ele, e depois morrer, é muito cruel.
- É sim. — Ela respondeu. — A Denise não sabe, mas ela é sempre bem desconfiada. Eles sempre brigam e ele tem que ficar fazendo as pazes, acho que eles não se entendem muito mas ele gosta dela.
- Hum... Bom, vamos acabar isso logo, quero dormir.
- Claro. — Magali riu. Ela é muito perceptiva.
Depois que arrumamos tudo fomos dormir, e eu fiquei sonhando com aquele Franja. Porque é tão fácil uma pessoa entrar na nossa vida e tão difícil de sair?
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Depois do domingo com a Magali, já era segunda dia do meu trabalho temporário. Estava à caminho dele, vestia um vestidinho florido, uma bolsa marrom e um sapato mais ou menos alto, preto.
- Que bom que chegou querida. — Disse seu Jorge. — Tudo que precisa saber é pegar as flores corretas nos potes e embrulhar um buquê ou colocar em um plástico. Se forem meia dúzia ou menos é no plástico, se for mais de meia dúzia é um buquê. E os preços estão num quadro lá nos fundos, fiz para você se acertar. Logo você se acostuma. Até amanhã querida. As chaves estão nos fundos.
- Ok, obrigada — Nunca havia trabalhado numa floricultura antes. Mas pra tudo se há uma primeira vez. O senhor saiu e me deixou sozinha entre as flores. Saí do balcão e olhei curiosamente cada uma, suas cores vivas, suas formas e...
- Oi? — Disse alguém atrás de mim quando viu que eu estava destraída.
- AAAAAAAAAAAH ! — Me assustei com a pessoa atrás de mim.
- Vim comprar flores... Nunca te vi por aqui e... Ah, é a garota da festa da Magali.
- Sim, Marina por favor. E você é o... — Finji não o conhecer.
- Eduardo, mas todos me chamam de Franja pelo cabelo. — Ele apontou para a franja.
- Ah sim. E qual flor vai querer?
- A mais bonita que tiver.
- Bom, comecei aqui hoje... Para mim as mais bonitas estão naquela prateleira. — Apontei uma prateleira onde haviam margaridas, rosas e copos de leite.
- São muito lindas. Faz uma dúzia dessas aqui para mim? — Ele disse, apontando para umas rosas vermelhas que haviam em um pote.
- Seu pedido é uma ordem. — Brinquei, e tirei 12 rosas daquela, embrulhando-as num buquê. Ele riu.
- Bom trabalho.
- Se não for muito incômodo, para quem são as flores?
- Ah, para a Denise, minha namorada.
- Briga?
- Sim — Ele fez cara de triste. — mas vou consertar isso agora.
- Boa sorte. — Sorri, e ele sorriu de volta. Saiu da loja.
O resto do dia foi bom. As se passaram 2 semanas e eu trabalhando ali. De 2 em 2 dias ele brigava com a namorada ou ia lá só conversar. Em pouco tempo nos tornamos bons amigos. Hoje é terça-feira da terceira semana do mês. O meu dia estava próximo. Ele chegou lá como quase todos os dias às 18:00. Estava chovendo muito. Ele parecia meio chateado.
- O que houve, Fran? — Já ganhei liberdade de chamá-lo assim. Saí do balcão e fui até um banco onde ele estava sentado na floricultura.
- Hoje foi definitivo, Ma. Ela terminou comigo.
- Quê, como assim? Mas porque?
- Ela disse que eu sou um galinha e só vivo arrastando asa para as amigas dela. — Ele disse chorando. Ele me abraçou e era o que faltava para mim cair finalmente naquele buraco.
- Isso vai passar. — Disse, abraçando-o de volta.
- Olha, você tem sido uma amiga como eu nunca tive nesses dias. Olha, eu estou... Confuso, muito confuso. E espero que esse tempo com você tenha valido a pena, espero que não fique assustada mas... — Ele se aproximou de mim e me beijou. Foi o melhor beijo da minha vida, fiquei arrepiada e minhas pernas tremeram.
- Franja eu... Por favor, se afasta de mim, eu não quero que você sofra. Você é meu melhor amigo, não quero que se apaixone por mim e depois fique magoado, porque eu devia ter de contado desde o início.
- Contado o que? Você é a garota mais perfeita que eu já conheci, você não é como as outras, não é atirada nem fresca, você é compreensiva, tem bom gosto...
- Eu não posso mais carregar esse peso nas minhas costas, Franja, eu te amo mas eu vou morrer daqui a uma semana. Por favor eu peço que não fique magoado...
- Você tem um senso de humor incrível!
- Não, eu não to brincando, eu tenho câncer e vou morrer daqui há uma semana. Por favor, não fica magoado, você vai encontrar alguém melhor do que eu... — Eu estava começando à chorar.
- Não é verdade... — Ele também estava começando à chorar.
- Infelizmente é... Eu queria muito estar com você, mas o destino não quer.
- E se não for...
- Você sabe agora que eu te amo, por favor...
- Não vou conseguir viver sem você. — Dei um outro beijo nele. A mini tv da floricultura estava ligada. Dessa vez o reporter falava: \"Notícia! No hospital São Luís no Rio de Janeiro houve uma troca em vários exames! Parece que havia um vírus no computador que fazia os registros dos pacientes e alguns exames como os de Marina Gonçalves, Cristina Ribeiro e José Magalhães tiveram seus nomes trocados! As pessoas que fizeram exames do dia 12/08 até o dia 18/09 por favor tem que ir ao hospital conferir seus verdadeiros exames a partir de amanhã.\" E se encerrou a notícia.
- Viu, era mentira... Eu te amo Marina. — E me deu outro beijo.
- Agora só quero viver a vida. Viver ao seu lado! — Fui para fora da floricultura e a chuva estava forte. Me molhei toda. Agora só queria que aquela chuva me fizesse renascer.
- Nunca vou te deixar ir! — Ele disse, me pegando no colo e me girando na chuva. E de alguma forma, eu sabia que ele estava certo.
Fim.
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