R O S E G R A N G E R – W E A S L E Y

A manhã que seguiu a tarde de compras junto de minha prima foi agitada. Tive de acordar uma hora mais cedo do que o habitual, pois sabia que gastaria mais tempo para me aprontar. No fim das contas, saí de casa um pouco atrasada pelo desentendimento entre mim e meu estojo de maquiagens. Por sorte, voltamos a nos relacionar a tempo de eu não perder a entrevista.

Sabia que seria um dia atribulado. Skeeter chegaria às nove horas, portanto teria de me organizar em duas horas. Ao adentrar meu local de trabalho, quase desmaiei ao notar uma equipe mudando os móveis de lugar e ajustando as câmeras. Odiava câmeras bruxas. Eram pesadas demais, emitiam luz demais e me deixavam desnorteada, o que resultava em uma expressão confusa em praticamente todas as minhas fotografias. Atentando-me ao local, observei Molly, de costas para mim, retocando o batom púrpura. Aproximei-me a fim de assustá-la, no entanto ela virou-se antes que pudesse concluir minha meta.

– Já tinha visto você, estou com um espelho em mãos. – apontou para o objeto que segurava – Está usando o vestido azul. – exclamou animada observando o vestido azul turquesa em meu corpo.

– Sim, pensei que fosse o mais adequado para a ocasião. – concordei passando as mãos pela peça na intensão de extinguir qualquer dobrinha amarrotada que estivesse ali.

Seu comprimento ia até os meus joelhos e era mais justo do que os modelos que costumava usar, o que não me deixou exatamente confortável. Suas mangas curtas deixavam meus ombros expostos e, embora a baixa temperatura pedisse alguma sobreposição para aquecer-me, não sentia frio. O nervosismo aquecia meu corpo. Para completar, usava um sapato de salto fino e tamanho mediano, cuja cor quase se igualava à da minha pele.

– Claro, está certíssima. – aprovou piscando um olho para mim – Da próxima vez vamos trabalhar a maquiagem, está bem?

– Por mim tudo bem. – assenti, colocando uma mecha do meu cabelo completamente liso atrás da orelha. Ainda estranhava o fato dele estar na altura dos meus ombros.

– Já falou com o Ministro? – indagou a ruiva.

– Ainda não, acabei de chegar. – expliquei – Ele falou alguma coisa, será que quer me ver?

– Do jeito que está maravilhosa, não há uma pessoa no mundo que não queira ver você. – elogiou, o que me deixou ruborizada – Mas no caso dele, acho que quer passar algumas instruções, ou talvez tenha sido apenas para mim, que nunca passei por uma situação dessas antes.

– Vou ver se ele precisa de algo. – avisei antes de sair em direção à sala de Kingsley. Bati duas vezes na porta antes de anunciar: – É a Rose.

Ele mandou que eu entrasse e fiquei surpresa ao notar que não estava sozinha. Larah lhe fazia companhia e junto dela estava...

– Scorpius?

– Rose? – inquiriu mais espantado do que eu. Como se eu não trabalhasse ali – É você mesma? – insistiu, aproximando-se.

– Claro que sou. – respondi, rindo de sua piada idiota – Quem mais seria?

– É óbvio que é você, só não se parece com você, entende? – tentou explicar. Por algum motivo, ele estava nervoso, o que não entendi muito bem, já que ele geralmente não tinha vergonha alguma ao meu lado. Entretanto, naquele momento, o medibruxo me parecia contido.

Shacklebolt pigarreou chamando nossa atenção para ele, que sorria marotamente, não que houvesse alguma razão para isso. Kim era tão excêntrico às vezes.

– Está muito bonita, Rose. – Larah, sentada ao lado do Ministro, pôs-se a falar antes dele.

– Ah, isso? – apontei para mim mesma – É tudo montagem da Molly.

– Mas o molde é muito bom. – a voz de Scorpius fez-se presente e encarei-o em seguida – Digo, é de ótima qualidade e muito bonito também. – era impressão minha ou ele gaguejava um pouco? – Acho que vou tomar um ar. – passou por mim mais que depressa.

– O que deu nele? – perguntei aos meus chefes, imensamente curiosa, ao que eles apenas menearam a cabeça em sinal de negação.

– Vamos direto ao assunto? – Kim retomou – Sente-se. – indicou a cadeira de frente à sua mesa. Obedeci prontamente – Acho que se lembra das normas quando foi nomeada subsecretária, não é?

– Responder as perguntas de forma direta e educada, não fazer comentários que podem dar brecha a perguntas invasivas, e nunca, em hipótese alguma, discordar de Rita Skeeter. – citei as instruções passadas a mim anos atrás.

– Eu disse que ela se lembrava. – Larah vangloriou-se com um sorriso de canto – Desta vez temos outra regra.

– Qual?

– Terá de anunciar sua base de trabalho divulgando seu projeto. – anunciou diretamente.

Paralisei por alguns instantes, não estava preparada para aquilo.

– Meu projeto não está completo. Eu nem pesquisei a respeito dos profissionais necessários para o serviço, não existe uma equipe preparada para o trabalho prático. Não há como divulgar nada. – contrapus – Além disso, não tenho autorização do Ministério.

– Tomei frente disso nos últimos dias e conversei com Kim.

– E o que o senhor achou? – me dirigi a ele temerosa.

– É ótimo! – explanou com um sorriso e, sem perceber, também sorria de alívio – Francamente, faz tempo que não vejo metas tão bem elaboradas. Seu projeto, além de melhorar muito a vida de milhares de famílias, não exige verba excessiva dos bancos públicos. Imagino que a última iniciativa de tal caráter tenha vindo de sua mãe, e vemos que foi um sucesso.

– Se é assim, obrigada. – sorri em agradecimento – Nem sei o que dizer. – estava um pouco abobada.

– Irei auxiliá-la caso tiver alguma dúvida. – a senhora assegurou – É só me contatar. Estarei em casa pronta para ajudar você.

Agradecida, levantei de minha cadeira para abraçar minha tutora.

– Você foi minha aprendiz por tanto tempo que acabei me apegando. – declarou com a voz um pouco embargada – Vai se sair muito bem, Rose.

– Não sabe o quanto sou grata a você. – expus emocionada – Você é quase uma mãe para mim.

Ficamos papeando por mais um tempo até que a atmosfera ficasse descontraída novamente. Não queria aparecer com cara de choro diante das câmeras. Saí da sala do Ministro muito mais confiante e a tempo de ouvir as instruções de um dos fotógrafos.

– Vocês irão estar na capa do Profeta Diário de amanhã, além de todas as revistas políticas do país. Espere que fique claro para não nos denunciarem por abuso de imagem mais tarde. – zombou.

– Esqueceu de falar de todas as revistas de adolescentes. – alertou Molly, sussurrando em meu ouvido. Estávamos lado a lado no sofá verde-musgo. – Fizeram isso com você na última vez. Massacraram sua reputação. – divertia-se.

– Eu não sabia disso. – expressei indignada.

– Ninguém tinha permissão de lhe mostrar nada, caso contrário ficaria arrasada. – justificou – Mas não se preocupe, desta vez os comentários serão positivos, você está linda.

Ficamos no sofá fazendo pose para as fotos, o que se tornou cansativo. Hora ou outra colocavam pastas em nossas mãos para que “agíssemos naturalmente”. Era ridículo! Faltando quinze minutos para nove horas, acompanhei Molly ao banheiro para que ela consertasse o borrão que causou no batom ao trombar com um dos assistentes ali presentes.

– Pretendia fazer um escândalo, porém estagiários costumam ser sensíveis e eu não queria ser a culpada pela demissão de alguém. – pronunciou.

– Você viu o Scorpius por aí? – questionei sem delongas. Após sair da sala de Kingsley não o avistei em lugar algum e isso preocupou-me um pouco. Se ele tivesse indo embora, teria se dado ao trabalho de despedir-se de mim, não?

– Scorpius? Você diz Scorpius Malfoy? – assenti – Ele esteve aqui?

– Claro, quando cheguei ele estava junto de Shacklebolt.

– O que? – explanou exageradamente – Não acredito. – ela começou a gargalhar – O doutor delícia é o Malfoy? Você só pode estar zoando com a minha cara.

– Não, é verdade. Só não entendo a razão das risadas.

– Como não? – indagou se acalmando – Você está saindo com um Malfoy! E eu pensava que não vivia perigosamente.

– Não estamos juntos! – protestei – Somos amigos.

– Amigos, não é? Vou fingir que acredito. – insinuou.

Foi um sacrifício manter minha prima de boca fechada depois disso. Não deveria ter dito que Scorpius e eu somos amigos. Ela não parava de torrar minha paciência. Então Rita Skeeter chegou e ela parou de se divertir às minhas custas. Lançou um olhar gélido à mulher enquanto sentávamos no mesmo sofá de antes.

– Bom dia minhas caras. – cumprimentou a jornalista falsamente – É uma surpresa agradabilíssima receber a notícia de que duas integrantes de uma família aclamada pelo mundo bruxo estão trabalhando juntas. Nossos leitores estão ávidos para saber o que resultará dessa parceria. Vamos começar?

Foram muitas perguntas inúteis na hora que se passou. Mesmo que o foco fosse o trabalho, a ardilosa besoura velha conseguia desviar as perguntas para nossa vida pessoal. Como pessoas inteligentes, Molly e eu conseguíamos desviar dessas perguntas. No meio da entrevista, Scorpius apareceu e parecia mais calmo. Por trás do Ministro, lançou um sorriso a mim e senti que ele estava orgulhoso. Segui mais feliz a partir dali. Como estava na pauta, a última pergunta era a respeito do meu projeto de trabalho e, mesmo venenosa como de costume, Skeeter fez seu trabalho.

– Rose Weasley, sabemos que todas as primeiras secretárias devem apresentar um projeto de melhoramento social que deverá ser implantado e administrado pela mesma durante os anos de serviços prestados. Visto que a sua antecessora lançou o programa de ressocialização dos antigos Comensais da Morte, como pretende trabalhar? Imagino que o mundo bruxo esteja tranquilo após a guerra e não muito o que se fazer. – desdenhou.

– Veja bem, Rita. – iniciei – De fato, a sociedade bruxa vive dias de paz entre si, porém há problemas camuflados em nosso mundo, os quais não podemos mais ignorar. Por anos, escondemos essa realidade, fingimos que não vemos, ou pior, que não existe. Enquanto isso, eles estão por aí, sendo atacados, vivendo na marginalidade e ocupando cargos que ninguém mais quer ocupar. Muitos deles fogem de nosso mundo, da própria família, em busca de abrigo, em busca de um lar. Estou falando dos nascidos bruxos que não desenvolvem magia e que são preconceituosamente denominados “abortos”.

Olhei de soslaio para Molly e notei ela me encarando espantada. Fiquei feliz por surpreendê-la.

– E o que exatamente pretende? – insistiu Skeeter arrogante.

– De formas diversas, dá-los visibilidade, voz, o que quiserem. Extinguir a falsa ideia de que não merecem ser tratados com dignidade.

– E há alguma razão especial para ter tomado frente desse projeto? – provocou.

– Você sabe a razão, Skeeter, fez questão de divulgar a todos anos atrás.

– E caso alguém não saiba. – Molly se intrometeu com um sorrisinho presunçoso – Minha irmã, Lucy Weasley, não desenvolveu magia depois de crescida. E somos orgulhosos dela do mesmo jeito.

Conseguimos deixar Skeeter sem palavras, uma agradável surpresa. Depois do expediente daquele dia, Molly e eu nos encontramos em seu apartamento no beco diagonal para brindar o sucesso. Minha aproximação com ela estava ocorrendo de maneira natural e gradual e ela, aos poucos, se tornava membro importante da minha vida.

Acordei no sábado da semana seguinte à entrevista estranhamente animada comigo mesma. Não era comum acordar demasiadamente entusiasmada, especialmente antes das sete da manhã. Scorpius chegaria às nove e meu apartamento estava uma bagunça. A situação estava mesmo deplorável! Nos últimos dias gastava tanto tempo me aprontando que acabei me desleixando em relação à organização do meu lar. Repetia a todo instante que deveria estipular uma rotina para que tudo se mantivesse em ordem. Era isso ou acordar às quatro da manhã. O que complicava a situação era minha nula habilidade em feitiços domésticos. Tomaria aulas com vovó assim que pudesse.

Envergonhada, tinha de admitir que, apesar de gostar do resultado no espelho todas as manhãs, viver com uma aparência mais sofisticada estava me deixando muito cansada e todos os dias sentia que tinha de carregar mais no corretivo para olheiras. Estava me adaptando, encontrando meios termos. Percebi que não me reconhecia com o cabelo liso, por isso parei de tomar a poção que o fazia ficar assim. Também troquei alguns dos vestidos que comprei com Molly por modelos um pouco mais soltos, visto que os mais justos estavam me deixando sufocada ao fim do dia. Os sapatos ainda eram suportáveis, já que andava descalça em minha sala quando ninguém estava perto, porém estava vendo a hora que retornaria para minhas botas de salto grosso, pois o tal do encantamento que Molly garantiu que eu causaria nos homens não estava funcionando e, para ser sincera, aquele esforço todo não valia a pena para homem nenhum.

As coisas iam bem no cargo novo, meus pais promoveram um jantar em família após a notícia do jornal. Hugo também estava lá e nós quatro nos divertimos muito naquela noite – apesar de mamãe com todo seu drama a respeito da suposta falta de confiança que tinha nela por não tê-la comunicado a respeito de minha promoção – e papai presenteou-me com um gracioso par de brincos. Sabia que a escolha não fora dele, mesmo que este tenha jurado que escolheu minuciosamente, porém agradeço ao vendedor ou vendedora que fez isso por ele, eram de ótimo gosto.

Faltavam quinze minutos para as nove horas quando a campainha tocou. Se havia algo que odiava em Scorpius é que ele chegava antes ou depois, mas nunca na hora exata. Eu ainda estava descabelada e levemente suada devido ao esforço matinal. Mesmo assim, em virtude do bom-humor, abri a porta com um largo sorriso.

– Bom dia. – exclamei quase saltitando, abrindo espaço para que ele entrasse. O loiro, por sua vez, apenas encarou-me com estranheza enquanto adentrava na sala.

– Impressionante. – pontuou, deixando-me curiosa.

– O que é impressionante?

– Você sempre me surpreende. Pensei que a encontraria num vestido, sobre sapatos com saltos enormes e completamente imponente. Então chego aqui e me deparo com uma menina espoleta e saltitante.

Fechei a cara perante seus termos.

– Menina? – indaguei irritada – Qual é o seu problema comigo? Está a todo instante insinuando que não passo de uma criança. – bati a porta de entrada antes de me virar e seguir a passos firmes e seguir para a cozinha. Me apoiei na pia quase bufando, poucas coisas me deixam irada e considerar-me uma criança era uma dessas coisas.

– Rose. – ouvi o loiro segurando o riso atrás de mim – Não queria ofender. Para falar a verdade, isso era um elogio.

– Por que não consegue me ver como mulher? – expus uma curiosidade que vinha nutrindo há dias.

– Não é óbvio que sempre vi você como mulher? – respondeu exasperado, o que não tinha necessidade – Não existe como não enxergá-la como mulher, não se dá conta disso? Você é bem resolvida, inteligente e tem um trabalho incrível...

– Não é nesse sentido que estou falando. – tentei explicar – Sem aquelas roupas que Molly incentivou-me a usar, sem aqueles sapatos altos que, por algumas vezes machucam meus pés, aqueles brincos que pesam as minhas orelhas, eu volto a ser apenas Rose Weasley. A simplória Rose Weasley. Status profissional não muda isso.

– E o que há de erado nisso? Você é mais do que as roupas, Rose. O que ocorre é que suas características intelectuais são as que posso ressaltar de modo respeitável no momento. – encarei-o desconfiada, não entendendo bem o que ele dizia. Ao reparar em minha expressão, ele pigarreou voltando à postura séria – Rose, me escute: seu espírito é feliz como o de uma criança e não rabugenta como uma velha. É uma virtude ser como você, não um defeito. Além disso, você é linda. – tocou minha bochecha levemente com o polegar. Me arrepiei por um instante, acho que passou uma corrente de ar ali – Você é muito linda. – sussurrou novamente olhando em meus olhos.

– Obrigada. – agradeci num fio de voz. Não sabia lidar muito bem com elogios. Principalmente quando me pareciam sinceros.

– Vou esperar o café na sala. – avisou saindo da cozinha. Fiquei atordoada por um tempo até volta a pensar normalmente.

– Não tenho café. – informei chegando ao cômodo em que Malfoy estava, dando de cara com ele esticado sobre o meu sofá. Nem pensei duas vezes antes de pular sobre suas pernas. Ele gemeu de dor enquanto eu sorri de satisfação.

– É falta de consideração receber visitas e não oferecer sequer um café sabia?

– Eu não tomo café, para que compraria apenas para agradar você?

– Você não tem jeito mesmo. – negava com a cabeça – Onde está o suco?

– Ele ainda tem de ser feito. – ele me encarou com ar questionador – Eu disse que poderia ficar à vontade. Pode usar esta liberdade e fazer um suco.

– Não tem vergonha de dizer algo assim? – inquiriu rindo.

Eu não o respondi. Permanecemos ali deitados encarando o nada por alguns minutos. Era confortável ficar por cima de Scorpius, por mais que a posição parecesse comprometedora. Ele possuía pernas grossas que não machucavam minhas costelas. Era apenas aconchegante. O loiro era boa companhia para fazer quase tudo, entretanto era surpreendente que ele servisse para fazer nada também.

– Para quê, exatamente, estamos aqui? – meu amigo questionou, impressionando-me.

– Scorp, que profundo. – exclamei deslumbrada empolgando-me no assunto – É ótimo que pense a respeito disso, afinal, qual é a nossa função no universo? É evidente que não estamos aqui à toa e suponho que existam criaturas desconhecidas por nós. Da mesma maneira que para os trouxas não existimos, é possível que, para nós...

– Eu estava falando sobre estar na sua casa hoje. – esclareceu tediosamente.

– Ah. – murmurei constrangida. Pelo visto não havia encontrado um parceiro para discutir as teorias do universo. – Convidei você para que pudéssemos dar sequência ao plano de evitar que Hugo queira matá-lo.

– Certo. – disse aprumando-se no sofá e quase me derrubando no processo. – O que sugere?

– Lembra que comentei a respeito de uma pessoa que poderia nos ajudar? – ele assentiu – Pois bem, através dos meus contatos consegui localizá-la. É uma antiga amiga do meu irmão, estudaram juntos em Beauxbatons, contudo, por alguma razão desconhecida por mim, ela interrompeu os estudos na instituição. Hugo ficou muito abalado na época. Cheguei a imaginar que tivessem algum relacionamento amoroso.

– E onde se encontra esta garota?

– Esse era o problema. Ela é especialista em dragões na América do Sul.

– Então sem chances, não é? Não podemos arrastá-la para cá.

– É aí que você se engana! – declarei quase pulando do sofá – Ela está viajando para cá neste exato momento. – respondi num tom convencido.

– Como conseguiu esta proeza? – questionou um tanto desconfiado, porém mais curioso.

– Enviei-lhe um convite para a Convenção de Domadores de Dragões, um evento fechado e de grande importância nesta área e que ocorre todos os anos, cada edição num país diferente. Este ano será aqui e eu pedi um ingresso ao Ministro, que concedeu-me de bom grado. – detalhei os fatos a Scorpius que, a essa altura, estava boquiaberto. – Ela chega na próxima semana, pois terá de fazer paradas de segurança já que viagens de portal são extremamente prejudiciais para o estômago. – fiz uma careta representando todo meu nojo.

– Sua intenção é reaproximá-los, só que agora como casal?

– Não há necessidade para tanto. Ela é uma garota de atitude vai fazê-lo sair desta nuvem de sofrimento na qual ele entrou. É essa a minha intenção.

– Você é de uma eficiência impressionante. – comentou.

– Não sou a primeira secretária do Ministro à toa. – me exibi.

– Também não precisa humilhar. – fingiu-se ofendido.

– Pare de se vitimizar e volte ao foco. – repreendi, embora estivesse me divertindo com a situação – Ainda não pensei numa forma dela se encontrar “casualmente” com o meu irmão. Fiz reservas para ela na mesma rua do Dobby is Free mas isso não dá certeza de nada.

– Mande Hugo para o evento também. – sugeriu, como se fosse óbvio.

– Impossível. Ele morre de medos de dragões. – resmunguei. O medibruxo caiu na gargalhada.

– Me diga como ele conseguiu se tornar amigo desta garota?

– Não faço ideia. – suspirei – Os trouxas costumam dizer que os opostos se atraem.

Meu amigo não falou mais nada. Na verdade, ficou o tempo inteiro me encarando, parecia estar analisando. Isso me causou uma sensação deveras estranha, era mais ou mens o que sentia na infância quando estava prestes a fazer algo que meus pais ordenaram veementemente que não fizesse, uma certa bagunça no baixo ventre, sensação que não me agradava em nada sentir.

– Por que está me olhando assim? – indaguei. Aquilo já estava ficando ridículo.

– Estou pensando no seu tipo de companheiro. – respondeu aproximando-se de mim.

– O que levou você a isso? – ele estava ultrapassando os níveis da bizarrice.

– Você acabou de dizer que os opostos se atraem. Fico imaginando qual é o seu oposto.

– Você é maluco ás vezes, sabia?

– Sabia. Diga-me Rose, qual é seu oposto. – insistia.

Parei para pensar e uma resposta me veio à mente, no entanto, por vergonha e estranheza preferi dizer que não havia ninguém que fosse meu oposto e ainda assim fosse agradável. Mas eu conhecia uma pessoa assim, e é por isso que compreendia a amizade de meu irmão com Catherine Duérre. Porque era muito semelhante à minha amizade com Scorpius Malfoy.