Nuclear
18 Complicações da gravidez - capítulo 15
Notas iniciais
Cuspo, e o que cai sobre as roupas do hospital é vermelho vivo como sangue. Mas, segundos depois, não passa de uma mancha escura no tecido, antes claro como uma folha de papel em branco.
Por mais que eu tentasse, não conseguia me levantar, não conseguia pedir ajuda e, na verdade, nem sabia se adiantaria de alguma coisa. Eu estava sozinha e não reconhecia o lugar; havia grama ao meu redor, molhando a camisola às minhas costas, umedecendo a minha pele. Desejei poder ficar de pé e explorar aquele lugar desconhecido; instintivamente, pus as mãos na barriga, procurando algum movimento dos meus gêmeos lá dentro. Mas não senti nada, e por algum motivo, achei aquilo aterrorizante.
Grito, tentando soltar-me das amarras invisíveis que me prendem ao solo úmido. De repente, ouço a voz vinda de longe, desesperada para me encontrar e começo a lutar contra as amarras, contra o que quer que seja. Mas não consigo, por mais que eu tente, não consigo simplesmente me soltar. É impossível. Solto outro grito, pedindo por ajuda, por misericórdia, por qualquer coisa que possa me tirar dali e, então, sou cegada pela forte luz branca que não faço ideia de onde veio.
Então, eu acordo.
***
ᴥ
POV Rick Castle:
Lentamente, os olhos dela se abrem, revelando as íris esverdeadas. O monitor ao lado da cama mostra as ondulações, as ondas para cima e para baixo, os batimentos cardíacos normais; Helena saiu com Alexis para lanchar e nossos pais resolveram sair para comprar alguma coisa para os gêmeos. Fiquei aqui com ela porque não me sentia bem indo para nenhum outro lugar… eu precisava estar com ela depois do que aconteceu, precisava ter certeza de que ela estava bem, de que poderíamos prosseguir com a gravidez sem maiores riscos aos bebês e a ela.
Olhei para ela enquanto se acostumava à luz do quarto; remexeu o corpo debaixo dos lençóis pálidos que foram postos sobre ela e grunhiu alto. Eu quis correr até ela e beijar seus lábios, dizer que estava tudo bem, mas eu não podia fazer isso porque ninguém tinha me dito coisa nenhuma sobre o estado dela ou sobre o estado dos bebês. Josh tinha passado aqui há algum tempo, mas não tinha dito nada sobre ela, sobre sua saúde ou sobre a saúde dos nossos bebês.
A dobradiça da porta do quarto rangeu quando foi aberta e eu estiquei o pescoço para encará-lo, com a franja caindo sobre o rosto e o maxilar travado. Pus-me de pé e caminhei até a cama dela antes que ele tivesse a chance de fazê-lo; ele sorriu para mim e começou a analisar a ficha dela, pendurada na cama há algum tempo.
– Como está se sentindo, Kate? – ele perguntou, os olhos rolando pelos papéis.
– Como uma baleia – ela soprou – E como se tivesse sido pisoteada por um grupo de ogros.
– Uau – Josh riu baixinho, voltando a pendurar a prancheta – Tenho boas notícias! O estresse foi o que ditou o ataque cardíaco, mas conseguimos pará-lo antes que pudesse danificar os bebês ou até mesmo você. Está tudo bem, mas preciso de uns exames de sangue. Pronta?
– Eu quero ver a minha filha – ela soprou – Eu preciso vê-la. Onde ela está?
– Na lanchonete – ajeitei seus cabelos e beijei sua testa – Ela está lanchando, já deve voltar. Está tudo bem… podemos fazer o exame?
– Podemos – ela fechou os olhos e respirou fundo – Céus, é cansativo. Estressante.
– Sim – Josh riu baixinho mais uma vez e respirou fundo – Vou pedir às enfermeiras para virem aqui. O exame deve estar pronto em algumas horas.
– Obrigado – murmurei antes que ele pudesse sair.
Não recebi resposta, mas senti a mão dela procurando a minha e deixei que entrelaçasse nossos dedos; vaguei com os olhos até seu rosto, sereno e cansado, com todas as marquinhas de expressão começando a aparecer por conta de toda a exaustão. Eu queria deitar-me ali com ela para dormirmos juntos – e digo isso no sentido mais inocente da palavra –, queria sentir seu coração batendo perto do meu, sentir sua respiração em meu pescoço e seus cabelos roçando em meu rosto. Eu queria tê-la, colada em mim, deitada ao meu lado, embalada pelos meus braços, não ao meu lado em uma cama de hospital.
O meu dever era protegê-la, estar com ela e tê-la sob minha guarda, sob os meus braços, sob o meu corpo, embalada próxima ao meu peito. E eu queria que fosse assim, mas não posso fazer isso agora.
De repente e de supetão, a porta foi aberta com brutalidade e Kate praticamente pulou da cama; pude ouvir seus batimentos acelerando conforme ela analisava o quarto. Eu sabia exatamente o que – quem – estava acontecendo e, assim que virei a cabeça, dei de cara com Helena, que tinha os bracinhos esticados para mim como se ainda fosse um bebezinho. Soltei a mão de Kate, recebendo um grunhido mal-humorado e sorri para a nossa filha, embalando-a nos braços e colocando-a apoiada em meu peito enquanto ela olhava para a mãe.
– Oi, mamãe – ela acenou, agarrada ao ursinho de pelúcia, que já fora de Alexis e que insistira em trazer consigo.
– Oi, meu amor – Kate sorriu e abriu espaço na cama para que Lena se deitasse ao seu lado; com cuidado, coloquei-a no espaço pequeno ao lado do corpo cansado de Kate e vi como os braços finos dela envolveram o corpinho de Lena.
– Está tudo bem, mamãe? – ela grunhiu – O médico feio disse que você tinha que fazer exames. Eles vão tirar o seu sangue?
– Um pouquinho – Kate abriu um sorriso e torceu o nariz – Quem seria o médico feio, amor?
– Ele não disse o nome completo – Lena deu de ombros e escondeu o rosto atrás da pelúcia, olhando para mim de lado e, então, completou num sussurro: – É mentira, papai, o nome dele é Josh.
Eu ri.
Não tinha como segurar a risada explosiva que corroeu a minha garganta assim que o meu cérebro assimilou aquelas curtas palavras e, pela expressão de diversão no rosto de Kate, tive certeza de que ela também tinha ouvido o que Lena havia dito com todas as sílabas e fonemas; não pudemos ter tanto tempo juntos como eu gostaria, pois logo a porta foi aberta mais uma vez, revelando duas enfermeiras com bandejas de aço e instrumentos pontiagudos.
De uma vez só, tornei a colocar Lena em meus braços e dirigi-me à saída, visando passar um tempo a sós com as minhas filhas, “colocar o papo em dia”, mas a voz estrangulada de Kate chamando o meu nome me fez parar automaticamente, paralisado no batente da porta.
– Rick – foi tudo o que ela disse, e também foi tudo o que foi necessário para me fazer ficar.
Pedi um tempo para deixar Lena sob os cuidados de Jim e mamãe, enquanto eles puseram inúmeras sacolas cor de areia sobre a poltrona estofada, dizendo que foi tudo o que conseguiram comprar com o dinheiro dos bolsos e que fariam um passeio longo com Helena para que nós dois pudéssemos conversar. A sós.
Agradeci à compreensão dos dois e dei um beijo estalado nas bochechas de Lena, que pôs os bracinhos ao redor do meu pescoço e pediu para que eu cuidasse de Kate, que não deixasse as enfermeiras malvadas machucar-na e que não deixasse que o médico feio se aproximasse de nós dois. É claro que, à essa altura, ela ainda não sabia dos bebês, e eu não contaria assim tão rápido, então, deixei-a ir com outro beijo nas bochechas.
Fechei a porta com rapidez, encostando-me nela por apenas um momento à procura de apoio. O meu coração parecia estar explodindo de tão rápido que batia, e eu não tinha certeza do motivo daquilo; talvez estivesse estressado por estar acompanhando a gravidez de Kate pela primeira vez, a gravidez dos nossos filhos – e é tão bom poder dizer isso!
– Senhor? – uma das enfermeiras me chamou, impaciente, pude notar pelo tom de voz mais grave e acirrado – Podemos começar o exame?
– Sim, claro – limpei a garganta e dei a volta na cama, segurando a mão livre de Kate – Podemos começar, se estiver tudo bem para você, Kate.
– Tudo certo – ela suspirou, fechando os olhos e recostando a cabeça no travesseiro – Vai ser rápido, não vai?
– Rápido como uma picada de mosquito – a outra enfermeira sorriu para mim e deu uma piscadela; não entendi muito bem o que ela queria com aquilo, então dei de ombros e olhei para Kate, que respirava com lentidão e constância – Já acabou! Traremos os resultados em algumas horas, tudo bem?
– Claro – Kate sorriu para as duas e, assim que saíram, voltou seu olhar para mim – O que foi aquilo?
– Aquilo o quê? – questionei, sentindo o coração bombeando mais rápido.
– Você sabe o quê. – ela revirou os olhos e, juro, nunca tive tanta vontade de beijá-la em toda a minha vida – Aquela enfermeira flertando com você!
– Oh! – exclamei, soltando a mão dela e cobrindo a boca – Então era isso o que ela estava fazendo! Não tinha entendido quando ela piscou para mim. Agora tudo faz sentido!
– Castle! – ela reclamou, dando um tapa, bem forte, tenho que dizer, na minha barriga – Você vai ser pai outra vez… de duas crianças!…, não pode ficar flertando com enfermeiras, principalmente na minha frente!
– Eu não estava flertando! – defendi-me – A culpa não é minha se sou incrivelmente atraente e as mulheres estão sempre caindo aos meus pés!
– Ora, não seja tão convencido! – ela reclamou, cruzando os braços sobre o peito; foi então que percebi que isso a incomodava, e incomodava pra valer. Contive o sorriso, mas não por muito tempo e, logo, ele ocupava mais da metade do meu rosto. – O que é? Por que está me olhando e sorrindo desse jeito?
– Porque isso incomoda você – caçoei – Ter todas essas mulheres flertando comigo e querendo mais do que um simples cumprimento. Isso incomoda você! Você está com ciúmes!
– Não estou não! – ela fez careta, franzindo a testa e juntando as sobrancelhas; mais uma vez, tive vontade de beijá-la, arrancá-la daquela cama e abraçá-la com força até que não aguentasse mais – Isso é ridículo. Você vai ser pai pela terceira vez, Castle. Devia saber como se comportar como um adulto.
– Eu sei me comportar como adulto, mas é tão chato! – zombei – Eu gosto da criança que existe dentro de mim e vou poder aproveitá-la um pouco mais quando esses bebês nascerem! Tudo o que eu quero – e sempre quis, para ser franco –, Kate, é ter filhos com você, muitos e muitos filhos!
– Calma lá! – ela riu, descruzando os braços e suavizando a expressão – Já temos Helena e vamos ter mais esses dois aqui. Já não é o suficiente?
– Se todos os filhos que tivermos forem iguais a você… – encarei os olhos verdes arregalados e marejados e sorri um pouquinho, levando-a a fazer o mesmo –… então, não, Kate. Ainda não é o suficiente.
– Droga de hormônios – ela praguejou baixinho, secando as lágrimas enquanto fungava ruidosamente – E você, Castle, deixe de ser… bem, você, por um instante para que eu consiga me controlar aqui, está bem?
Ri baixinho, olhando para ela de cima e sentando-me à beira do colchão do hospital, puxando-a pelos ombros até que estivesse com o rosto encostado à minha camisa, segurando uma das minhas mãos e chorando em meu peito. Imaginei a cena onde teríamos nossos filhos há muitos anos, enquanto viajava ou enquanto assinava os seios de outras mulheres – uma fase que, de verdade, eu prefiro esquecer –, mas nenhuma das minhas miragens se comparam à realidade.
Passamos por muita coisa, eu sei disso, mas nada disso importa mais. Temos Helena e vamos ter esses dois bebês – que, por sinal, espero muito que não sejam mais duas meninas –, então minha vida vai estar completa. É muito para assimilar no momento, mas eu já engoli a ideia de que vamos ter que comprar uma casa maior ou até, quem sabe, reformar o loft, redefinir os tamanhos dos cômodos para conseguirmos mais dois quartinhos.
– Rick? – ela murmurou, e meu coração foi à garganta ao ouvi-la chamando-me pelo primeiro nome; afastei-me ligeiramente e beijei sua testa, olhando em seus olhos, ainda marejados e vermelhos – Eu estou curiosa…
– Sobre o sexo dos bebês? – meu sorriso aumentou um pouquinho, mas quando ela mordeu o lábio inferior, diminuí um pouquinho as dimensões dele.
–… sobre os presentes que nossos pais compraram – ela escondeu a cabeça debaixo do meu braço, e fui obrigado a rir porque, de certa forma, eu também estivera me perguntando sobre o que aqueles dois malucos haviam comprado para os nossos bebês – Podemos abri-los agora?
– Podemos abri-los quando você quiser.
Então, pus-me de pé e caminhei até a poltrona, catei as bolsas e dei algumas para Kate, que, assim que abriu algumas delas, deixou a boca formando um ‘O’ perfeito. Seus olhos cintilavam, e não pude conter a curiosidade… sentei-me ao lado dela e dividi o espaço sobre a bolsa com ela. Assim que meus olhos pairaram sobre o conteúdo, não pude evitar, deixando que os meus próprios lábios formassem um ‘O’ também.
E, de verdade? Era lindo!
ᴥ
POV Kate Beckett:
Os exames não tardaram a chegar, trazendo Josh com os resultados. Castle prostrou-se ao meu lado, mexendo em meus cabelos e segurando uma das minhas mãos como se estivesse afirmando sua posse sobre mim e, de certa forma, achei até bonitinho. Apertei seus dedos com força – ou com toda a força que eu já tinha –, esperando que Josh começasse a falar, mas quando ele não o fez, rolei os olhos pelo quarto até encontrar com as íris escuras.
Alguma coisa o incomodava e eu não tinha total certeza de que gostaria de ouvir os resultados dos exames; alguma coisa estava bem ruim.
– Os exames já estão prontos – ele anunciou, respirando com dificuldade como se houvesse alguma coisa obstruindo a passagem do ar – Também quero dar-lhes duas notícias além dos resultados dos testes. Contudo, devo alertá-los de que nem todas são boas notícias.
E o meu coração parou de bater por alguns – longos – segundos. Todas as piores possibilidades passaram pela minha cabeça, e não pude deixar de levar as mãos até a barriga. Agora mais do que nunca, desejei poder sentir o movimento dos meus bebês, desejei poder confirmar que estavam bem, que estavam saudáveis e que iam sobreviver.
Mas eu não podia, e era isso o que me quebrava por dentro.
Notei que ele tinha percebido a minha aflição, mas não me importei em escondê-la porque, se houvesse um problema antes, eu poderia tê-lo feito, mas agora eu tinha uma família; eu tinha uma pessoa que me amava, uma vida maravilhosa e, em breve, teria três filhos. Filhos do homem que mais amei em toda a minha vida.
– Diga a boa notícia antes – Castle quebrou o silêncio, pedindo com a voz trêmula, a mão mal segurando a minha – Por favor.
– Os exames deram resultados positivos, ou seja, está tudo bem com você, Kate, e com os bebês – ele sorriu com um quê de melancolia pincelando seu rosto – Mas… bem, pudemos descobrir, com o seu sangue e com a elevada quantidade de leucócitos¹ circulando em suas veias que há alguma coisa acontecendo com o seu organismo. Ou seja, o seu corpo detectou uma ameaça ao seu sistema e está tentando combatê-la aumentando a quantidade e a produção de leucócitos, os glóbulos brancos do sangue.
– A gravidez pode ser prejudicada por causa do aumento dos glóbulos brancos? – Castle parecia recomposto, disposto a lutar contra qualquer coisa que entrasse em seu caminho, mas eu me sentia cada vez mais fraca e cada vez menos disposta a fazer qualquer coisa.
– Há uma chance de que a própria gravidez tenha causado isso – Josh evitou olhar nos meus olhos, e desta vez, eu sabia bem o motivo – Kate, o seu sangue é do RH negativo², não é?…, pois bem, isso não ocorre com muita frequência, mas quando o sangue da mãe é negativo e o do bebê, bem… e o do bebê é positivo, é provável que existam as chamadas “complicações da gravidez”.
– Castle – soprei baixinho, entrelaçando os meus dedos sobre a barriga para que as minhas mãos parassem de tremer – Você pode ficar com Helena agora? Me faria bem saber que ela está com você.
– Kate…
– Vá ficar com ela.
Ele não tentou argumentar comigo, mas cochichou alguma coisa com Josh enquanto começava a sair do quarto. Fechei os olhos só para não ter de olhar para ele, porque sabia que, se o fizesse, desabaria em lágrimas e eu não queria – não podia – quebrar. Até porque quebrar não era uma boa opção agora.
Quando ele finalmente fechou a porta, soltei o ar que nem sabia que tinha prendido e encarei os olhos negros de Josh que, nesse meio tempo, tinha se aproximado de mim e agora segurava uma das minhas mãos, nossos dedos entrelaçados e seu polegar acariciando a minha pele.
– Explique – funguei – E não me poupe de detalhe algum, por mais macabros ou por mais terríveis que sejam.
– Kate…
– Não sinta pena de mim, Josh, pelo amor de Deus! Eu preciso saber o que está acontecendo para poder tomar as decisões certas. Cometi muitos erros em minha vida, mas não vou conseguir me perdoar – te perdoar – se um pequeno erro ou uma “simples” omissão de fatos custe a vida dos meus filhos, dos meus bebês que ainda nem nasceram. Ouviu bem?
– Alto e claro – ele se sentou no espaço vazio ao lado das minhas pernas na cama e mostrou-me a prancheta enquanto olhava em meus olhos. E, então, começou a falar.
Fale com o autor