Now You've Got To Breathe
7 Mudança de Estações
Notas iniciais
A última que Stiles queria fazer era ir para casa. Ele queria dirigir direto para o dia seguinte, e esquecer essa noite. Mas ele sabia que não podia evitar ir para casa para sempre, então ele dirigiu devagar e estacionou em frente a sua casa. Respirou fundo algumas fezes, aproveitando o ar frio entrando e saindo de seus pulmões, depois desafivelou o cinto e saiu do carro. Como imaginou, sua tia estava pirando. Ele teve que inventar uma história que envolvia animais noturnos e pedras grandes para explicar tanto sangue, e ela só o deixou ir para o quarto depois de prometer deixá-la cuidar do ferimento.
Depois que chegou em seu quarto, Stiles tirou a roupa e foi tomar um banho. Suspirou quando a água morna bateu em seus ombros, tirando toda a tensão e dor vinda dos exercícios. Depois da chuveirada, ele se vestiu e foi para a frente do espelho. O corte não parecia tão grave agora que estava limpo. Na verdade, ele era até pequeno demais para aquela quantidade de sangue, o que o irritou. Por que aquele cortezinho tinha que ser tão dramático?
Stiles ouviu sua tia pater na porta, e sentou na cama enquanto ela entrava com o kit de primeiros socorros. Sendo enfermeira, Melissa remédios e bandagens o suficiente para cuidar de um time de futebol, o que fazia seu "kit" parecer uma mala de viagem.
Depois que ela terminou o curativo e saiu do quarto, ele deitou na cama e encarou o teto. Era muito cedo para dormir, mas não havia mais nada que ele quisesse fazer. Ali deitado no quarto escuro e silencioso, ele deixou sua mente vagar. Os eventos daquele dia passavam atrás dos seus olhos como um filme caseiro, onde a câmera estava focada no rosto de uma garota linda.
Stiles achou que ia morrer. Quando começou a ter os ataques de pânico, anos atrás, ele tinha certeza que chegaria um dia em que ele não conseguiria parar a tempo. Parecia inevitável. Agora ele sabia que não era possível, ninguém morria por causa de um ataque de pânico, mas mesmo assim. Ele sabia que um dia seus demônios achariam um jeito de matá-lo. Quando esse momento chegasse, ele fecharia os olhos e aceitaria o fato de que não era forte o suficiente. Naquela tarde, ele fechou os olhos. Mas ela estava lá. Falou com ele, e o segurou. Stiles quase podia sentir o calor de suas mãos pequenas em seu rosto, e sua voz suave tocando em seus ouvidos.
Ele balançou a cabeça e se virou para enterrar a cabeça no travesseiro. Cara, ele estava tão fudido. Tentou trancar todas essas memórias no fundo da sua mente, mas não estava funcionando. Ele ainda podia sentir os braços dela ao seu redor. Stiles adormeceu ouvindo suas palavras como uma canção de ninar.
XXXXX
A volta de Lydia para casa foi o mais longe possível de calma. No momento em que o carro dele saiu do seu campo de visão, ela sabia que as últimas palavras que disse a ele não tinham significado. Ela sabia que não descansaria antes de saber se ele estava mesmo bem. Ficou até irritada consigo mesma por não dar seu número.
Quando saiu do carro e foi andando até a porta da frente da sua casa, ela sentiu cansaço tomar conta. Talvez fosse a adrenalina deixando seu corpo, porque ela precisava dormir imediatamente.
Ao entrar em casa, encontrou a mãe a esperando com os braços cruzados e uma expressão que significava problema.
— Oi, mãe, — a garota disse.
— Nem vem com "oi mãe." — sua mãe quase gritou. — Você estava planejando correr até a china?
Lydia franziu a testa.
— Na verdade você não pode correr até a China. Isso inclui muito nado, e eu não sei nadar.
Natalie estreitou os olhos com raiva.
— É sério, Lydia. Onde você estava? Estou te ligando há horas, morta de preocupação!
— Ok, ok, me desculpe! — Ela levantou as mãos num gesto de rendição e andou até a escada. — Eu fui até a reserva e esqueci de levar meu celular. De qualquer forma, eu não planejava me perder...
No momento que disse isso, percebeu que foi um erro. Agora sua mãe iria surtar. Ela se virou lentamente para encará-la. O rosto da mulher parecia pedra.
— Você se perdeu? — ela berrou. — Você percebe que poderia ter morrido?
Lydia revirou os olhos.
— Não seja dram...
— Não estou sendo dramática, estou sendo sua mãe, — Natalie a interrompeu. — E sem mais corridas para você, mocinha.
A garota suspirou e subiu as escadas, sabendo que esse discussão não iria a lugar nenhuma. Além do mais, ela não planejava voltar à floresta tão cedo.
Ela pegou roupas limpas e confortáveis e foi para o banheiro. Lydia detestava sentir-se suja. Enquanto esfregava o cabelo com seu shampoo preferido, sua mente vagou para outro lugar. No caso, outra pessoa. Stiles. Ele já devia estar em casa, mas será que estava bem? E se algo tivesse acontecido, como ela saberia?
Pense sobre outra coisa, ela disse a si mesma. Se preocupar não adianta.
Depois de secar o cabelo, Lydia se vestiu e se enfiou embaixo das cobertas. Era muito cedo para dormir e, mesmo que tentasse, ela tinha muita coisa na cabeça para ter a paz que precisava para dormir. Então pegou o livro de locou da biblioteca e começou a ler. Aquele era o método mais efetivo de distração, e ela esperava que funcionasse até o dia seguinte.
XXXXX
Na manhã seguinte, Stiles estava acabado. Seu corpo pesava uma tonelada e ele mal conseguia manter os olhos abertos. Não era porque era segunda-feira (o que já era o suficiente para deixar seu dia uma porcaria), mas porque ele teve a melhor noite de sono em meses, talvez anos. Agora ele sabia que pessoas se sentiam acabadas depois de uma boa noite de sono. Eba.
Depois de ficar pronto, Stiles se olhou no espelho e quase não se reconheceu. As olheiras estavam mais claras, e sua pele parecia mais... viva? Ele estava tão acostumado em comparar seu reflexo com criaturas sobrenaturais que o reflexo no espelho parecia ser de outra pessoa. Um ser humano, talvez.
O rugido alto vindo do seu estômago o lembrou da fome que sentia. Muita, muita fome. Stiles pegou a mochila e desceu as escadas, quase suspirando quando sentiu o cheiro de comida vindo da cozinha. Sua maçã o esperava dentro de um prato, porque Melissa sempre esperava que ele comesse algo mais.
Stiles sentou e devorou a fruta em dez segundos. Quando levantou os olhos, sua tia o observava com um sorriso brincando em seus lábios.
— Alguém acordou com fome, — disse, feliz. — Estou fazendo panquecas e ovos, você quer...
— Sim, — ele respondeu rapidamente, sem esperar ela terminar. Na verdade, ele não ligava se tivesse que comer lixo; poderia comer qualquer coisa.
Melissa riu da atitude incomum do sobrinho, que avançou no prato assim que ela o colocou na mesa. Dez minutos depois, Stiles se recostou na cadeira, quase explodindo. Sua tia o observava com curiosidade.
— Você está bem? — perguntou.
— Estou ótimo, — ele respondeu, sem entender a pergunta. O que, café da manhã não era a refeição mais importante? — Por que?
— Porque aquela cena foi uma das mais assustadoras que já vi,- ela disse, e Stiles deixou escapar uma risada curta. Melissa arregalou os olhos. — Você, rindo?
Ele revirou os olhos.
— Que seja, — disse, levantando-se e pegando a mochila. — Até mais tarde.
Ele dirigiu até a escola, murmurando a letra da música que tocava no rádio e aproveitando a brisa fresca. Agora que o verão foi embora, o outono chegava, e todos podia sentir a mudança das estações no ar. As folhas das árvores ficando laranja, depois marrons, e caindo...
Espera aí. O que diabos ele estava fazendo?
Ele estava mesmo pensando sobre o clima? Por que? Stiles estacionou na escola e olhou ao redor, talvez para ter certeza de que não havia um leitor de mentes por perto, o pegando pensando sobre o clima. Porque isso seria estranho. E embaraçoso. Ele não pensava em coisas assim.
Stiles balançou a cabeça e saiu do Jeep. Andava para o prédio quando ouviu alguém o chamando. Não, alguém não. Ela estava o chamando. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Por que ele reconheceu a voz dela com tanta facilidade? Como sabia que era mesmo ela?
Ele estava enganando a si mesmo. É claro que ele reconheceria a voz dos seus sonhos.
Lydia não pensou duas vezes quando o viu. Ela chamou seu nome e correu até ele, porque ela tinha que saber como ele estava. Quando ele se virou para ale, com nada além de um curativo na testa, seu coração bateu mais forte. Ele parecia bem.
— Oi, — ela disse quando o alcançou.
— Oi, — ele repetiu, coçando a nuca.
— Então, você está bem? — Ela não podia esperar mais para perguntar.
— Estou bem, acho, — ele respondeu, dando de ombros. Lydia abriu um sorrisinho ao perceber que, pela primeira vez, ele não estava sendo grosso com ela. Ele provavelmente percebeu também, porque piscou duas vezes.
— Fico feliz em saber disso, — ela disse, sorrindo. — Estava tão preocupada com você... Mal consegui dormir, porque não sabia como você estava, e eu não tenho seu número!
— Sério? — Estranho. Ela não conseguiu dormir por causa dele, e ele só dormiu por causa dela.
— Sim! — Lydia abriu a bolsa e de lá tirou um bloco de post-its e uma caneta. Escreveu algo rápido e o entregou.
— O que é isso?
— Meu número, é claro.
A mente de Stiles congelou. Ela realmente queria que ele entrasse em contado com ela? Ele? Isso era novo. Ele não lembrava da ultima vez que chegou ao ponto de trocar números com uma garota. Normalmente, seus casos começavam e terminavam em uma noite. Quando ele não se mexeu, ela simplesmente colou o post-it na camisa dele.
— Então, vai me contar o que aconteceu? — ela perguntou.
Stiles olhos para os seus tênis. De jeito nenhum ele iria conversar com ela sobre isso. Tudo relacionado ao acidente era não só um segredo, mas uma parte obscura da sua vida, escondida a sete chaves. Tudo pelo que passou, tudo que fez... ele não contava ás pessoas. Especialmente não para a garota em sua frente.
— Espere, foi um ataque de pânico ou algo assim? — ela perguntou de repente, o pegando desprevenido.
— O que?!
— Um ataque de pânico! — ela repetiu, porque fazia sentido. — Tudo aconteceu depois que você viu todo aquele sangue, então essa deve ser a razão, certo? Por favor, me diga que estou certa.
Stiles queria que fosse algo simples como pavor de sangue. Ele sabia que não foi o sangue em si que provocou o ataque, mas sim as lembranças que a visão trouxe. Não é como se ele tivesse um ataque de pânico sempre que tirasse sangue. Lydia continuava o olhando com olhos cheios de expectativa, esperando uma resposta.
Bom, ele não ia dizer a verdade.
— Claro, você está certa, — disse. Ela abriu um sorriso que fez os joelhos dele virarem gelatina. Ele estava quase fugindo dela o mais rápido que podia quando o sinal tocou.
— Melhor eu ir, — ela disso. — Chega de detenções.
Stiles concordou com a cabeça, achando mais seguro não falar nada. Lydia olhou para ele e mordeu o lábio inferior, hesitando. Tinha uma coisa que ela queria muito fazer, mas não sabia que ele a mataria se fizesse. Tentando não pensar nisso, ele ficou nas pontas dos pés e deu um beijo rápido na bochecha esquerda dele, antes de dar as costas e ir para o prédio.
Stiles ficou em lá, paralisado, de queixo caído. Ela fez mesmo aquilo. Ela realmente fez. Ele sentia que entrava em combustão. Ele a observou ir embora enquanto tudo dentro dele gritava mayday! E pegava fogo.
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