Novocaine
1 Prólogo
Aparentemente, nada nunca abalava Sophia. Era a garota forte, inteligente, inquebrável, corajosa e amada. Muitos diziam que era também muito linda, mas ela não acreditava muito nisso. Aliás, não acreditava ser detentora de nenhuma das qualidades citadas. Não importava a imagem que passava para o mundo, por dentro nunca se sentia boa o suficiente. Andava sempre acompanhada de alguém, mas ainda assim era solitária. Tinha um enorme entendimento do mundo, mas mesmo assim acreditava que sabia muito pouco. Segurava as pontas, mas se sentia mais fraca que um saco de farinha. Ninguém nunca via esse lado da menina. Ela nunca o mostrava, e sinceramente, nem queria. Ela gostava da imagem que passava, e acreditava que seu lado frágil não precisava ser mostrado ao mundo. Ela sabia, como todo seu coração, que um dia se sentiria o confortável suficiente para falar sobre isso com alguém.
Quando entrou na faculdade, de cara Sophia acreditou que as coisas mudariam rapidamente para si. Acreditou, ingenuamente, que os amigos que encontraria seriam perfeitos. Que gostaria de tudo que estava aprendendo. Que conseguiria facilmente ter sucesso em todas as matérias. Que encontraria a pessoa em quem confiaria seus segredos. Sophia errou: tudo que ela encontrou foi fracasso. Os amigos que tinha eram bons, mas estavam longe de ter a confiança da menina, e muito menos 100% de seu afeto. Odiava algumas matérias de sua grade, assim como os professores que as davam. Não preciso também dizer que ela obteve pouco sucesso nessas mesmas disciplinas. E, enfim, Sophia não chegou nem perto de encontrar o guardador de suas mágoas. Ela procurava, sem parar, mas ninguém na universidade parecia profundo o suficiente para poder ajuda-la, para conforta-la.
Os dias eram tediosos. Sophia acordava, arrumava o quarto, comia seu café da manhã e se arrumava, sempre tomando cuidado para esconder qualquer sinal de cansaço em seu corpo e escolhendo as roupas mais bem alinhadas que podia achar. Pegava então sua bolsa, sempre cheia de pastas incrivelmente bem organizadas, e partia para a faculdade. Ficava, então, prestando atenção na aula, anotando cada palavra do professor, e socializando com seus amigos e colegas nos intervalos. Ao acabar o período, Sophia voltava para casa e estudava até que fosse a hora de jantar ou se preparar para dormir. Podemos, então, dizer que a menina não tinha nenhuma diversão. Ela também tinha plena consciência disso, mas não achava maneira melhor (e igualmente produtiva) para passar os dias. Então vivia nessa mesmice entediante.
Não pense também que Sophia não se permitia a momentos para se aventurar, ou pelo menos o que seria considerado aventura para ela. Ás vezes, as sextas-feiras, a garota se permitia ir ao bar na frente da faculdade, conversar com seus amigos e colegas. Não que ela se divertisse muito: ela apenas o fazia para que não a achassem socialmente estranha. E realmente, ninguém a achava estranha. As pessoas gostavam de Sophia, e mesmo quem não tinha “intimidade” com a garota queria estar próximo dela. O maior problema de Soph era exatamente o resultado dessa aproximação: por algum motivo, as pessoas achavam que ela era apenas mais uma parte do corpo delas, só mais uma coisa para elas terem controle sobre. Foi, nesse ponto, que a menina virou apenas um televisor a ser controlado por vários controles remotos.
Por algum motivo, as pessoas achavam que Sophia deveria namorar. Ela era perfeita demais para estar sozinha, para não ter garotos a seus pés implorando por nada mais que um beijo. Assim, as pessoas começaram a enfiar a garota em situações desconfortáveis com pessoas desconfortáveis, na tentativa de “desencalhar” a pobre coitada. Sophia não queria ser “desencalhada” dessa forma. Aliás, ela já havia atingido um ponto que nem queria mais “sair da seca”. Ela só queria paz, tempo, comida e um bom amigo. Mas obviamente ninguém iria aceitar isso para ela: Sophia já era só a marionete a ser controlada. Mas, no meio de uma dessas roubadas, dessas situações desconfortáveis, que a menina encontrou seu verdadeiro problema. Ou melhor dizer sua verdadeira solução.
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