Novocaine
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Sophia não estava nem um pouco animada para sair com Ricardo de novo. Ok, ele podia não ser uma pessoa ruim, mas com certeza não era alguém com quem ela gostaria de passar mais de cinco minutos com. Não se sentia confortável perto dele, e tinha quase certeza que ninguém se sentia bem quando ele começava a falar de si, e de si apenas. A menina ainda estava tentando entender o porquê de Tália apresentar os dois, mas a verdade é que ela já tinha a resposta bem clara na cabeça: ela não se importava se Ricardo fosse alguém babaca do jeito que era, ela só queria que Sophia tivesse um namorado. Ou alguém para sair em uns dois encontros, porque Sophia tinha a mais absoluta certeza que não sairia mais com ele. Aliás, pretendia falar isso para ele assim que ele chegasse para busca-la, já tentando se livrar da saída.
Não pense que Sophia é chata ao escolher pessoas para ter por perto: ela, na realidade, não é. Ela gostaria de profundidade, de realmente conhecer alguém, mas aparentemente isso é muito difícil de se encontrar. Assim, todos seus amigos e conhecidos eram superficiais, vazios. Ela havia se conformado com isso, mas ainda desejava alguém que não focasse apenas nos aspectos fúteis da vida: com quem fulana está namorando, em que escritório alguém quer trabalhar no futuro, porque alguém escolheu fazer tal curso na faculdade. Algumas dessas perguntas podem até trazer ideias mais interiores, mas ninguém nunca as mostrava. Aliás, a maioria das pessoas nem sabia que sentimentos eram esse. Sophia queria muito mais que o mostrado. Ela queria saber cada detalhe de uma pessoa. Queria deitar na grama e ouvir sobre o sonho que o outro teve noite passada, descobrindo seu significado por conecta-lo ao detalhe mais remoto de sua infância. Gostaria de deitar para assistir um filme com alguém, mas não ver filme nenhum, só conversar em como a avó fazia falta na vida dele. E queria que a conhecessem assim, mas ninguém nunca nem tentou ver esse lado de Sophia. Era como ela fosse a lua: as pessoas comuns só podiam ver um dos seus dois lados.
Sophia viu o carro de Ricardo parado na porta, e por algum motivo ela sabia que ele não faria nenhum esforço para ir até a porta busca-la, ou mesmo buzinar só para ela saber que ele estava ali. Queria que ela percebesse sua presença sem que ele a sinalizasse, como se ele fosse tão grandioso que o simples fato de se aproximar de um lugar todos sentiriam sua presença. Bem, Sophia nunca teria o visto se não fosse o fato de estar preparando um sanduiche no balcão da cozinha, que era virado para a janela na parte da frente da casa. Por um segundo ficou chateada por não poder comer o que tinha acabado de preparar, mas apenas o guardou na geladeira para depois. Foi até seu quarto e colocou a roupa que tinha separado, arrancando a bolsa do armário e enfiando seu converse detonado nos pés. Não estava tão arrumada quanto na noite anterior, e nem pretendia estar. Esperava conseguir despista-lo rapidamente e voltar para seu sanduíche.
Seu plano foi por água abaixo assim que colocou seu corpo para dentro do carro. Antes que pudesse falar qualquer coisa, ou mesmo colocar o cinto de segurança, Ricardo pisou no acelerador, a jogando para trás enquanto tentava afivelar o cinto o mais rápido possível. “Meu amigo está dando uma festa, então a gente vai lá ok? ” Afirmou, e Sophia apenas concordou com a cabeça. Sabia que não tinha mais como dar sua opinião no assunto, e mesmo que odiasse a ideia de ter que ir a uma festa, apenas engoliu em seco e aceitou seu destino. Pelo menos era um lugar em que poderia fugir facilmente do menino.
A festa era só mais uma no meio da rua que continha pelo menos 5 das suas 7 casas exalando um som mais alto que uma turbina de avião. Sophia sentiu pena das pessoas que moravam nas outras duas casas, provavelmente sendo privadas de uma boa noite de sono. Ricardo fez sinal para Sophia o seguir, e essa o fez, esperando que a polícia chegasse logo, parando com aquele barulho e fazendo todos voltarem para casa. Ao adentrar a festa, Sophia se sentiu claustrofóbica. Havia tanta gente em um lugar tão pequeno que só de andar as pessoas a empurravam cada vez mais para dentro. “Seu amigo conhece a cidade inteira aparentemente” disse a Ricardo, rindo um pouco, para não parecer que estava sendo uma chata, já reclamando só de entrar na festa, mesmo ela estando fazendo exatamente isso. Ricardo riu e a puxou mais para dentro, a dirigindo para cozinha, que para a alegria da menina se encontrava mais vazia que o resto da casa. “Pessoal, essa é a Sophia, minha amiga. ” Apresentou Ricardo, e a menina cumprimentou as pessoas do grupo, sem muito entusiasmo. Ficaram ali, todos, conversando, e Sophia tentando seu máximo não perder o controle de si própria.
Assim que abriram uma brecha, Sophia fugiu. Não da festa em si, mas de Ricardo e seu grupo de amigos. Conseguiam todos serem extremamente chatos como seu acompanhante na festa, e não sabia quanto mais tempo conseguiria passar ali sem que surtasse. Acabou então do lado de fora da residência, onde algumas pessoas bêbadas passavam mal e outras choravam. Alguns também se pegavam, mas a menina só preferiu ignorar a existência dos casais. Foi até a cerca, onde sentou na grama e se apoiou na madeira bem pintada, sacando um livro da bolsa. Se fosse para estar em um lugar que não gosta, pelo menos poderia fazer algo que gosta. E ficou ali, lendo. Então, sua leitura foi abruptamente interrompida. Alguém se sentou na grama ao seu lado, também encostando na cerca, fazendo essa se mexer. Sophia rezou para que não fosse Ricardo, e graças a Deus, não era. “Você roubou meu lugar” escutou a voz falar, logo ao seu lado, e ela rapidamente desviou o olhar do livro para sua esquerda. “Desculpe? ” “Eu sempre fico aqui, em todas as festas. Mas sem problemas. Tem espaço suficiente na cerca para acomodar duas pessoas” A menina não tinha nem ideia do que falar, achando a situação extremamente estranha. Foi aí que o menino puxou o livro das mãos, marcando a página com o dedo enquanto fechava a capa para ver o título. “Eleanor & Park. Romance é? ” Disse, caçoando-a um pouco, e ela fechou a cara “eu gosto de romance ” retrucou, pegando o livro das mãos do estranho. “Eu também, só que gostei mais de Amy & Matthew” sussurrou, e Sophia riu “romance é? ” Caçoou de volta, e o menino sorriu. “Meu nome é James” Apresentou-se, virando-se para olhar a garota “Sophia ” complementou, deixando que o corpo relaxasse na cerca. “Deixa eu adivinhar, você não gosta de festas, não é? ” Colocou James, e a menina mordeu os lábios e deu de ombros “Acho que não foi difícil de perceber é? ” Respondeu rindo, e o menino se deitou na grama, a olhando, obviamente procurando mais informações. “Eu vim aqui em um encontro, acho que você pode chamar assim. Ele ficou conversando com os amigos e eu fugi” concluiu sua explicação, e James assentiu com a cabeça, a apoiando na grama antes de começar a falar “Ricardo? ” Perguntou, e Sophia assentiu “Ele mesmo. Deixa eu adivinhar, ele traz uma menina diferente para cada festa? ” “Toda vez. Mas não se preocupe, você já está melhor que todas elas. Normalmente elas ficam completamente perdidas do lado dele. Eu morro de dó” concluiu, e a menina assentiu com a cabeça. “Se você está aqui sempre, você é o anfitrião? ” Perguntou, e o menino negou, se virando na grama e deitando agora de costas “Não. A casa é minha, sim, mas quem dá as festas é meu irmão. Para falar a verdade, também não sou fã de casas lotadas de gente bêbada e música alta” respondeu, e Sophia esticou as pernas, mexendo nos fiapos da calça rasgada que usava. “Não se esqueça do fato de não ter comida” colocou, e James soltou algo que se parecia com uma risada. “Na verdade, até tinha, mas eu acabei comendo uma boa parte antes da festa começar” disse, e essa foi a vez da menina rir. “Mas quanto egoísmo. E eu aqui, morrendo de fome” brincou, e o menino se levantou de prontidão. “Bom, como você é a única pessoa existente que não come antes de sair para uma festa, vou me oferecer para lhe fazer um belo sanduiche de queijo” ofereceu, e Sophia realmente estava com tanta fome que se levantou, aceitando o sanduiche.
“Só para me defender, eu não sabia que eu ia acabar em uma festa, um dos motivos pelos quais eu não comi. O outro foi porque Ricardo chegou antes de eu ter tempo de comer o que eu tinha preparado” se defendeu enquanto andavam para dentro da casa, a voz de Sophia aumentando para que fosse ouvida por cima da música. “Realmente, acho que ele não deve ser um bom namorado. Nem te deu a chance de se alimentar” brincou o menino, pegando os ingredientes na geladeira e preparando dois queijos quentes. Sophia assumiu que ele faria um para cada. “Pois é, onde já se viu fazer tal coisa” continuou, sentando-se no balcão, esperando os sanduíches. “Não queria falar nada não, mas você gostou dele em algum momento? ” Perguntou James, e Sophia de prontidão negou com a cabeça “eu planejava falar com ele no começo da noite que não queria mais sair com ele, mas não tive a oportunidade. Vou tentar falar antes da festa acabar” “Mas aí você teria que voltar para casa como? ” Indagou James, virando os sanduiches na frigideira, e Sophia deu de ombros. “Eu vou de metrô. Acredite, é mais seguro ir andando sozinha até em casa do que sair em um carro com ele atrás do volante” comentou, e o menino sorriu, colocando o sanduíche em um prato e a entregando. A menina agradeceu e mordeu o lanche, aliviada de colocar alguma coisa em seu organismo. “Se eu não tivesse bebido, eu poderia te levar. Talvez possa só andar com você até o metrô, já deixa sua chegada em casa mais segura” ofereceu o garoto, e ela sorriu em agradecimento “eu normalmente falaria não, mas eu realmente agradeceria uma companhia para passar por ruas cheias de bêbados tarados” agradeceu, e James sorriu.
Assim que terminou o sanduíche, Sophia se levantou, colocando um pouco de água no prato e o colocando na máquina de lavar onde James tinha colocado seu prato também. Se virou para falar com o garoto, mas esse apenas apontou para o lado, onde se encontrava Ricardo vindo em sua direção. “Gata, vamos para casa? ” Perguntou, mais mandando que qualquer outra coisa, e antes mesmo e responder, Sophia fez um sinal para que James a esperasse ali, puxando Ricardo para outro lado. “Quem era aquele? ” Perguntou o garoto, se virando para trás, tentando olhar para o loiro com quem Sophia tinha passado a maior parte da noite. “Acho que você já sabe disso, mas acho melhor não sairmos Rica” pronunciou, sem querer responder à pergunta do menino. Era sim, uma maneira completamente tosca de falar que não se quer mais sair com alguém, mas Sophia queria acabar logo com aquilo. “Você está me trocando por aquele loirinho magricelo? ” Colocou, parecendo ofendido, e Sophia nunca tinha tido mais preguiça em sua vida de responder alguém. “Eu nem conheço ele direito. Eu só não me vejo com você” respondeu, dando de ombros. “Você não sabe o que está perdendo” disse Ricardo, passando por ela e lhe dando um esbarrão, fazendo a menina se segurar para não rir muito alto. Ele era completamente ridículo, e ela estava mais do que feliz em dar um pé na bunda dele.
Andou de volta para James, que a esperava pacientemente no mesmo lugar, segurando sua bolsa e seu livro, batucando os dedos nos armários para passar o tempo. “Você poderia me levar até o metrô? ” Perguntou, gentilmente, tentando fazer uma cara e cachorro que caiu da mudança, mas falhando miseravelmente. “Claro, pegou tudo? ” Questionou o menino, e Sophia acenou que sim com a cabeça. Os dois então saíram da casa, caminhando um do lado do outro na rua, as músicas vindas das casas ecoando em seus ouvidos. “Você nunca se cansa desse barulho todo? ” Perguntou a menina, e o garoto deu de ombros. “Eu normalmente só fico no meu quarto, ouvindo minhas músicas, ignorando que realmente estão acontecendo festas ao meu redor” respondeu, chutando algumas pedrinhas na rua, arrumando a bolsa da menina no ombro. Não tinha a deixado leva-la: não o custava nada e a deixava com menos peso para carregar. “O que te fez descer hoje então? Para o Jardim? ” Continuou o interrogatório, e James sorriu. “Às vezes eu fico ali lendo também, e quando vi que realmente tinha alguém no lugar que eu fico para ler me deixou curioso. Ai sai da minha toca e fui ver quem era a pessoa” esclareceu, e Sophia mordeu o lábio. “Bom, espero que meu livro não tenha desapontado seu local de leitura” “Não se preocupe com isso. Eu também já li Eleanor & Park ali” respondeu, e Sophia riu. “Então você não estava mentindo quando disse que gostava de romances? ” “Não. Eu até posso não parecer, mas sou um cara bem romântico. E sim, gosto de livros com romances bestas. Não me julgue” disse, rindo, e a menina riu junto. “Não te julgaria. Não se preocupe”.
Ao chegarem no metrô, James a passou todos seus pertences, colocando a bolsa em seu ombro e entregando o livro em suas mãos. “De verdade, eu não estava mentindo quando disse que Amy & Matthew era melhor. Dê uma olhada” disse, antes de soltar o livro, fazendo Sophia sorrir abertamente “Ok, eu prometo dar uma olhada” respondeu, e James sorriu. “Ótimo”. Os dois ficaram se olhando por um momento, sem saber ao certo o que fazer ou falar. Por isso, Sophia quebrou o gelo com que achava ser o certo para o momento. “Bom, muito, muito obrigada por me trazer até aqui. Ah, e obrigada pelo queijo quente, deixou um estômago muito feliz” agradeceu, e James deu de ombros “A disposição madame”. Sophia sorriu e, sem falar mais nada, passou a catraca e foi para casa.
A menina chegou em casa completamente exausta. Tirou os sapatos e deixo-os na porta, colocando a bolsa na mesinha que deixava na entrada. Fechou os olhos e se encostou na parede por um instante, agradecendo pela noite ter finalmente acabado, deixando-a sozinha com seus pensamentos novamente. Assim, sorrindo, foi até seu quarto e colocou seu pijama favorito, deitando-se na cama e se cobrindo, agradecendo por ter cobertores quentes que a manteriam aquecida naquela noite fria. Foi então que percebeu que alguma coisa estava quase pendurada para fora de seu livro, e, estranhando, pegou o pequeno papel, lendo rapidamente o que estava escrito.
“Você não me conhece, e eu não te conheço. Mas você me intrigou.
Espero te intrigar também.
James”
E, por um momento, o sorriso de Sophia foi extremamente verdadeiro.
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