Nova geração, nova turma

5 Aillyn fofoca e Guto mudo


Para qualquer outra pessoa, aquele barulhinho de chuva batendo na janela seria um ótimo jeito de acordar. Mas não para Denise, não naquela manhã.

A ruiva acabou dormindo supertarde ontem, graças ao seu editor-chefe, que queria as matérias da revistas prontas para hoje. E como já desconfiava, acordou com uma baita enchaqueca.

– Eu ainda destrono aquele mané do Orivaldo. Juro que consigo o cargo dele! — Denise praguejou, enquanto se sentava na cama e sentia um bombardeio aconteceu em sua cabeça.

Porém, uma coisa a acalmou: o cheiro de panquecas caseiras quentinhas. Ela sorriu, antes de levantar. Prendeu suas costumeiras maria-chiquinhas, tomou uma aspirina para aliviar a dor de cabeça, e desceu.

Chegando no andar de baixo, Denise parou um pouco no pé da escada, para observar o garotinho de cinco anos sentado à mesa. Os cabelos dele podiam até ser ruivos como os dela, mas també eram encaracolados como os do pai na infância. E ele comia, feliz da vida, um prato de panquecas.

– O papai cozinha bem, não é, Guto? — Perguntou de repente, atraindo a atenção dos dois garotos.

Guto sorriu ao ver a mãe, assim como certo loiro no fogão.

– Olha só quem enfim acordou. — Xaveco brincou, recebendo um revirar de olhos da esposa.

– Não enxe, vai? Você sabe que eu dormi tarde. — Denise respondeu, para depois dar um beijo no marido.

– Hm! Hum! — Guto balbuciou, tentando chamar a atenção da mãe. E quando essa o olhou, ele mostrou um bloquinho de notas, onde estava escrito "Mamãe, pega mais leite por favor?".

– Já pego, meu lindinho. — Respondeu, sorrindo-lhe ternamente.

Denise tinha tanto orgulho de seu menininho. Mesmo tão novo, Guto aprendeu a escrever cedo, já que não podia falar. E isso nunca pareceu incomodá-lo.

Mas enquanto foi pegar o leite para o filho, a ruiva deu pela falta de algo. Ou melhor, de alguém.

– Cadê a Aillyn? — Ela perguntou. Mas não recebeu resposta. Guto e Xaveco fingiram que não ouviram. — Xavier?

Xaveco congelou. Denise só o chamava pelo nome verdadeiro quando exigia alguma coisa.

– Bom, a-a... Aillyn ainda está dormindo. — Soltou a bomba.

– O QUE?! — E essa explodiu em cheio. Denise não esperou mais um segundo, andou em direção à lavanderia enquanto praguejava. — Dormindo até tarde de novo... aquela menina está muito preguisosa! — Pegou um balde e enxeu-o de água. — Isso é culpa sua, Xaveco!! Você é muito mole com ela!! — Gritou, passando novamente pelo marido e pelo filho.

Ela carregou o balde com água até chegar na primeira porta do corredor à direita.

– Aillyn!! Levanta dessa cama agora! — Mandou assim que pôs os olhos sobre a menina, que estava enrolada nos cobertores só com a cabeça de fora.

– Nha, mãe... só mais uns minutinhos... — Aillyn se cobriu ainda mais, incomodada pela luz. Mas mesmo assim, ainda podiam se ver os longos cabelos lisos e loiros.

– Nem mais um segundo, mocinha! — Denise já se irritava. — E se não quiser levantar por bem, vai levantar por banho!

A menina sentou num pulo, encarando a mãe com os olhos estreitos.

– Você não ousaria. — Desafiou Aillyn. — Não de novo.

– Quer apostar? — Denise mostrou o balde cheio d'água.

– Argh! — A loira grunhiu, se rendendo. — Tá bom, eu já levanto!

...

Depois de alguns minutos, Aillyn estava pronta, vestindo seu costumeiro e amado vestidinho amarelo. E se Denise só prendia o cabelo em maria-chiquinha, ela só prendia o seu com trancinhas.

Ela estava prestes a sair do quanto quando:

– Anda logo, C.j.! Eu não quero ficar aqui nessa chuva!

Aillyn revirou os olhos, já imaginando que se tratava de Roseli. Abriu a janela e confirmou suas suspeitas, vendo a amiga e o irmão.

– Deixa de ser chata, Roseli. — C.j. respondia tranquilo, sem se abalar com o desespero da irmã. — A casa do Theo e da Lúcia não vai fugir. A gente pode ir andando com calma que não dá problema nenhum.

– Ou podemos ir correndo que também não dá problema! — A menina rebatia.

Depois disso, eles viraram a esquina e Aillyn não conseguiu mais ouvir, mas aquela converça tinha aguçado seus sentidos. Toda vez que a Turma da Lúcia se reunia, acabava tendo uma nova reportagem (lê-se fofoca) pra ela.

– E uma boa jornalista nunca perde uma matéria. — Falou consigo mesma, pegando seu mini gravador antes de sair pela janela.