Nova Ordem

2 Capítulo 2 – Os poucos que restaram


Capítulo 2 – Os poucos que restaram

A manhã caíra como outra qualquer. O sol desceu lentamente por dentro do quarto de Lia, se esgueirando pelas brechas que ainda restaram da barricada improvisada na janela. Fora feita há quase duas semanas atrás e ainda assim a garota não conseguia acostumar-se.

– Pai. – Chamou Lia, ainda com voz de sono.

Antes do desastre, Ben tinha um sono de pedra, mas depois de tudo o que aconteceu era muito fácil acordá-lo.

– Oi... O que foi? – Perguntou Ben, tentando parecer mais acordado do que realmente estava.

– Já é manhã. – Disse Lia, seguindo com uma bocejada de sono.

Ben esticou as pernas e foi até a janela observar como estava rua.

Era uma paisagem totalmente incomoda. Com todos aqueles carros sem funcionar e folhas secas tomando de conta da rua podia-se imaginar um mundo em que a humanidade deixara de existir como que por um passe de mágica, e que agora a natureza finalmente poderia se recompor, depois de tantos anos.

Logo a frente também estava o Sr.Miller, um velho de setenta anos que antes jogava xadrez com alguns senhores, e que agora vagava friamente pela rua com passos curtos sem direção. Antes Ben o teria convidado para fazer companhia a ele e sua filha, mas depois do que ouve na manhã passada ele não abriria sua porta para mais ninguém. O mesmo velho indefeso de setenta anos que se divertia apenas gastando as horas com seus companheiros de xadrez tentara devorar sua filha, e ele sabia muito bem o risco que corria deixa-lo entrar. Por isso todas as trancas nas portas e barricadas nas janelas.

Lia foi quem tomou partida. Vasculhou o quarto por um instante e depois de achar sua boneca correu até os braços do pai.

– Vamos tomar café. – Disse Lia, baixo o suficiente, como o seu pai lhe tinha ensinado.

E foi isso que eles fizeram. Ben segurou sua mão e os dois desceram até a cozinha. Os dois comeram em silêncio, sem nenhuma tentativa de conversa. Só o que sobrara na geladeira fora uma caixa de leite pela metade, que Ben usou no restante de cereal para Lia e algumas torradas que ele comeu secamente sem reclamar.

Terminaram de comer e Ben lavou a pilha de pratos que tinha se acumulado na pia. Logo depois disso os dois ligaram a televisão e assistiram um desenho qualquer dos anos oitenta que Lia odiava, mas que era a única opção no momento.

– Pai – Começou Lia. – Quando vamos poder voltar pra casa?

Ben também queria voltar para casa, mas sabia muito bem não poderia depois do que ouve lá.

– Já te disse filha. – Disse Ben, de modo grosso o suficiente para fazer Lia calar-se.

– Mas eu não gosto dessa casa, pai. Tudo aqui tem um cheiro estranho.

A filha tinha razão. Desde que puseram os pés naquela casa ele tinha notado aquele fedor.

– Eu também não gosto filha, mas você sabe que temos que continuar nessa casa por mais um tempinho.

– Mas papai – Insistiu Lia – Nossa casa é na próxima esquina, eu quero ir lá buscar minhas coisas.

– Chega, Lia. Chega dessa conversa. É não e pronto.

Desta vez Lia admitiu a derrota e se manteve a continuar aquela discussão. Os dois ficaram até o horário do almoço sem dizer uma só palavra na frente da TV assistindo aqueles desenhos, quando Ben lembrou-se da falta de comida na geladeira e decidiu que eles iriam sair.

No terceiro dia daquela loucura Ben teve de fazer a mesma coisa, sair para buscar suprimentos. E na primeira excursão ele cometeu o erro de ir sozinho, um erro que ele teve de pagar com sangue, o sangue de sua esposa.

– Posso levar a Meg? – Perguntou Lia, já a colocando dentro da mochila.

– Pode sim.

E os dois saíram em maior silencio pela porta dos fundos para não chamar a atenção do velho Miller. Lia segurava com força a mão de seu pai, e ele retribuía, sem em nenhum momento fugir a atenção da filha.

O supermercado mais perto era duas ruas depois da que eles estavam então Ben achou mais seguro invadir uma das casas dali mesmo e ver o que encontravam, sem correr muito perigo.

O sol de meio dia se acomodava nos cachos dourados de Lia, os mesmos que possuíam sua mãe, e Ben enxergava um cadáver em seus olhos castanhos.

– Pai. – Apontou Lia.

E seguindo o dedo da filha ele pode ver a casa que ela indicava. Uma enorme casa vermelha, com duas janelas no quarto de cima e uma cadeira de balanço na entrada. A porta da frente estava escancarada então Ben não pensou duas vezes antes de entrar. Colocou sua filha nas costas e correu até a entrada.

– Fique aqui. – Disse Ben – Caso aconteça algo, grite.

Lia concordou com a cabeça e virou sua atenção para a rua.

Ben entrou com passos lentos dentro da residência, sempre com os punhos preparados para algo, e a cada passo que ele dava mais sentia um fedor maldito de carne podre, chegando ao ponto de ele ter de colocar um lenço sob suas narinas para amenizar o odor.

Ben checou cada canto da cozinha e imaginou a rota de volta a sua filha para caso de alguma emergência. Depois de checar detalhadamente a cozinha e não ver nada de perigoso ele jogou a mochila sobre a mesa e sem perder tempo começou a vasculhar as gavetas.

A cozinha era uma mina de ouro. Por sorte a geladeira ainda estava funcionando e boa parte dos alimentos congelados não tinha estragado. Sem considerar também que o armário estava quase por completo de uma variedade de coisas, como cereais, enlatados, biscoitos, ovos, garrafas de vinho e tudo mais.

Ben colocou tudo que coube dentro de sua mochila e se preparou para ir até sua filha, quando ouviu um barulho estranho de pisadas.

Ele sentiu um receio, mas por decidiu que iria checar.

Lentamente ele subia as escadas, com sua adrenalina subindo cada vez mais. Ao subir ele viu de primeira uma porta no final do corredor, e era de lá que ele acreditava estar vindo o barulho.

– Deus! – Alguém disse lá de dentro do quarto.

E logo ao assimilar os fatos, que ele finalmente tinha encontrado um vivo Ben correu o mais rápido que pode para o quarto, gritando a todos os pulmões “Socorro!”.

Mas de repente todo a sua satisfação e felicidade escorreu pelos seus olhos, e lá dentro do quarto estavam àquelas coisas.

Dois homens moribundos de sujo seguravam uma moça pelo pescoço em uma espécie de cama improvisada no chão, enquanto que um terceiro a violava por trás. Tudo pareceu cair à ficha quando ele olhou para sua direita e viu amarrado em uma cadeira um quarto homem, com cortes em suas pernas e escorrendo lágrimas de seus olhos. Tudo parecia ter saído de um filme de Hollywood.

Foi então que Ben escutou o grito de sua filha e correu o mais rápido que pode pelo caminho que tinha memorizado em direção à entrada da casa, com o coração batendo forte e lágrimas nos olhos.

Viu sua filha logo a frente, como era de estar.

– Lá está ele papai, ele está vindo! – Disse Lia, apontando para o velho Miller, que de alguma maneira os tinha visto.

Mas Ben não deu a mínima atenção para isso, tomou Lia em seus braços e correu o mais rápido que pode em direção a uma espécie de reserva ambiental logo à frente.

– Papai! Sua mochila, sua mochila! – Gritava Lia.

Ainda assim Ben não dava atenção para a filha, só continuava correndo o mais rápido que podia, com seus olhos vermelhos de terror.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.