Noturna - A Maldição dos Criadores
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Notas iniciais
O bip insistente no monitor de sinais vitais começava a incomodar Kassandra que despertava aos poucos. Seu corpo parecia pesar toneladas, sua língua estava áspera, como se houvesse areia, e a garganta seca. Ela estendeu o braço, tentando buscar algum apoio para sentar-se, mas acabou desistindo por estar grogue demais. Então resolveu abrir os olhos, resmungando ao sentir a luz incomodar. Demorou alguns segundos para conseguir se situar.
Estava num leito hospitalar, com agulhas fincadas em seu braço e um aparelho para medir sua frequência cardíaca e respiratória. Irritada consigo mesma por ter parado no hospital novamente, mesmo que ainda não se lembrando do motivo, ela tentou sentar de novo, mas rosnou com a dor aguda em suas costelas. Ao olhar para baixo viu seu abdômen completamente enfaixado e com sangue manchando as ataduras na base das costelas.
Ela encarou o local dos ferimentos, tentado puxar na sua memória os acontecimentos da noite passada, mas nada. Tudo era um total e completo branco. Fechou os olhos por alguns instantes, sentindo uma pontada dolorosa em sua cabeça, então a porta do quarto foi aberta por ninguém menos do que o Capitão Brandon. Ele estava com uma expressão séria, bebericando o café em sua mão, identificado por Kassandra através do cheiro. Vestia um sobretudo preto e calças jeans da mesma cor e, pelo volume marcado na cintura, imaginava que sua fiel espada montante de pomo dourado estivesse ali.
Brandon ergueu seu olhar, encontrando Kassandra o encarando e, então suspirou. Ele fechou a porta antes de caminhar para perto do leito, puxando uma poltrona para sentar-se perto dela. Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes: Kass por não saber o que perguntar e Brandon por, aparentemente, estar organizando as palavras mentalmente.
— Como você está? – perguntou o Capitão quase em um sussurro.
— Bem. Apesar de estar toda enfaixada e sem saber o motivo.
Ele esboçou um sorriso.
— Estava quase voltando para Terhia quando Simon me ligou dizendo que você estava aqui. – explicou. – Conheci Zanur e ele contou o que aconteceu: você enfrentou Petrus Courvin.
Demorou alguns breves segundos para aquelas simples palavras despertarem a memória dela. Tudo voltou como uma grande avalanche, fazendo-a ofegar pelo esforço mental. Lembrava-se de enfrentar Petrus, como o matara, o cheiro de sangue, o Príncipe desesperado, Zanur transformando-se em urso e Lyanna...
— Merda, Lyanna...
— Ela está em aula com as meninas e sendo vigiada pelos Uivantes. Não precisa se preocupar. E Zanur cuidou de toda a sua...bagunça.
Kassandra socou com força o colchão, fazendo o leito e seus ferimentos protestarem e os aparelhos apitarem desesperados.
— Ei! Acalme-se.
— Eu estraguei tudo! Prometi a Princesa que nunca agiria daquela maneira, como um monstro, e olha o que aconteceu! – explodiu furiosa consigo mesma. – Nunca deveria ter aceitado fazer a proteção de Lyanna. Não sou a pessoa mais indicada para isso.
Brandon encarou-a com seriedade antes de segurar sua mão esquerda contra o colchão.
— Cale essa maldita boca, Kassandra! – esbravejou. – Você salvou milhares de vidas ao eliminar aquele verme. Nós estávamos planejando agir contra Petrus Courvin há um bom tempo, mas quando se está envolvido com a coroa nada é tão fácil assim. Então, por favor, não fale que você não é a pessoa mais indicada para proteger Lya.
— Como você pode dizer isso?
— Você gosta dela. Gosta mais do que imagina. E por esse fato, a protegeria tudo; inclusive de você.
— Brandon...
— Agora você vai me escutar. – rosnou fazendo-a se calar imediatamente. – Eu realmente confio em você e no seu autocontrole, Kassandra; Você se afastaria de Lyanna se isso fosse o certo. E sei que desligou seus sentimento há muito tempo, porém também sei que somente a pessoa certa é capaz de religá-los.
Silêncio.
Os dois encaravam-se, mas Kassandra não conseguia encontrar algo para contradizer as palavras de Brandon. Elas foram tão reais, certas, que nada mais precisava ser dito, apenas ser aceito.
O Capitão pigarreou antes de levantar-se, tomando um último gole do café e jogando o copo descartável no lixinho que tinha por perto. Ele sorriu para Kassandra, colocando a mão no topo de sua cabeça e bagunçando seus cabelos pálidos ao fazer um rápido afago ali. Ela bufou se livrando dele como podia.
— Cuide-se, Pirralha. Estou voltando para Terhia hoje, mas virei sempre que precisar.
Ela assentiu ainda levemente atordoada, tentando absorver tudo e, então, ouviu o barulho da porta sendo aberta. Brandon estava quase saindo quando Kass o chamou. Ele virou para trás; suas sobrancelhas arqueadas.
— Obrigada.
Nunca vira o Capitão abrir um sorriso tão sincero como naquele momento.
— Lyanna disse que pedir desculpas não combinava com você, mas agradecendo até que você fica fofinha.
Kassandra agarrou o travesseiro extra ao seu lado e arremessou com força contra o homem. Ele foi rápido ao fechar a porta, usando-a como barreira. Sua gargalhada rouca ecoou pelo lado de fora enquanto se afastava, fazendo Kass sorrir sozinha diante da reação do Capitão.
...
Depois de algumas horas em observação, Simon deu alta para ela ao ver a cicatrização parcial dos ferimentos. Por serem lâminas especiais, a rápida regeneração de Kassandra não fora tão eficaz assim e ela precisou de mais tempo para se recuperar. Antes de sair, alimentou-se com duas bolsas de sangue para não ter problemas. Estava fraca, então poderia perder o controle facilmente ou atrasar ainda mais na recuperação.
Caminhando pelo corredor em direção a recepção do hospital, ela lia superficialmente o papel assinado por Simon indicando sua alta. Queria saber qual era a justificativa do médico para sua internação, assim estaria preparada para possíveis questionamentos. No meio da folha estava escrito: duas costelas fraturadas em consequência de uma queda na escada do dormitório feminino. Kass dobrou o papel uma vez ao chegar no balcão de mármore branco da recepção, colocando na superfície lisa.
A atendente estava conversando pelo Comunicador e pediu apenas um momento como se fosse automático, mas quando focou seu olhar em Kassandra ela congelou.
— Eu falo com você depois. – disse antes de desligar a chamada. – Senhorita Zaskov?
— Sim?
— Ah! Veio apresentar sua alta. O Doutor Simon Mongrar avisou mais cedo que a Senhorita estava liberada.
Kassandra assentiu. Ela virou-se em direção a saída, arrumando seu uniforme para tentar esconder as ataduras da melhor forma possível.
— Espere, Senhorita!
— Acalme-se, Miriam. Deixe que eu cuido disso. – disse uma voz familiar. – Sabe, até estava esperando receber uma resposta negativa ao convite que fiz, mas nunca isso...
Ela parou de caminhar ao reconhecer a voz da Presidente e olhou por cima do ombro. Rachel estava desacompanhada, vestindo seu sem os Uivantes para fazer sua habitual escolta e por um motivo óbvio: eles estavam com Lyanna. A Presidente usava um vestido branco soltinho, a mariposa dourada bordada no lado esquerdo do peito e seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo firme.
Estava belíssima em roupas casuais.
— Presidente. O que faz aqui? – perguntou virando-se totalmente para ela.
— Depois de saber sobre o seu pequeno acidente, resolvi buscar você para almoçarmos aqui perto. Como estou liberada dos meus afazeres e a senhorita está de licença médica, nós não seremos incomodadas.
— Rachel...
— Vamos lá, Kassandra! Lyanna está com os Uivantes e você também não almoçou. Por favor? – pediu carinhosamente; Um pequeno bico enfeitava seus lábios.
Elas se encararam por breves segundos até Kass respirar fundo.
— Tenho alguma escolha?
— Eu até poderia dizer que sim, mas sou muito persistente naquilo que quero.
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