Noturna - A Maldição dos Criadores
25 Resistência
Notas iniciais
Ela encarava um ponto qualquer da sala, deixando os climatizadores resfriarem sua pele quente pela alta temperatura externa. Estava esperando pelo que parecia uma eternidade os líderes da Facção Criadora retornarem com uma resposta sobre a aceitação dela ali. A notícia de quem era, Julgadora e filha de Selletus, havia se espalhado muito rapidamente entre os integrantes da facção, mas Aïden foi rápido em pedir sigilo: os Federais a prenderiam na primeira oportunidade e a população ficaria incontrolável com a notícia. Além disso, Kassandra foi separada do grupo quando chegaram na base da facção e não sabia como as garotas reagiram ou, até mesmo, como Benjamin estava.
Durante o tempo em reclusão, acabou tirando sua Hunmia e ficou apenas com a armadura – que mais parecia uma “segunda pele” – fornecida pelos Federais. Kassandra desencantou Noturna, ficando levemente feliz pelo fato de não precisar escondê-la mais, mas ainda sentindo um enorme peso em seu peito. A espada transmitia seus temores também e, ali, perceberam: nenhuma das duas conseguiria ser o conforto da outra.
A movimentação era constante do lado de fora. Vozes abafadas pareciam discutir algo, provavelmente sobre a decisão tomada, mas Kassandra não se importava. Do que adiantaria? Ela apenas esperava pacientemente, sentada no chão de concreto com as pernas cruzadas e Noturna apoiada sobre elas. Relutando um pouco, fechou os olhos. Não iria meditar, mas tentaria descansar um pouco a sua mente.
Kassandra respirou fundo, relaxando cada músculo do seu corpo tenso. Tinha entrado num estado neutro quando ouviu a porta sendo aberta. Não abriu os olhos, ficou esperando pelo pronunciamento de quem entrara na sala. Ela ouviu murmúrios ininteligíveis e o som da porta se fechando.
— Apesar de muitos comemorarem seu reaparecimento, eu não compartilho desse mesmo entusiasmo. – comentou uma voz grossa. — Durante anos vivemos na inconstância das guerras. Elas são abrandadas pelas Vias Comunicadoras, mas nós, que as vivenciamos diariamente, sabemos o que significam: um presságio para a Guerra Justa.
Ela abriu os olhos vagarosamente e encontrou um homem enorme, corpulento, a sua frente. Ele tinha braços completamente tatuados, olhos escuros, pele morena e cabelos grisalhos compridos amarras num rabo de cavalo. Uma cimitarra dourada estava embainhada na sua cintura, mas não estava vestindo armadura, apenas uma calça bege e camisa branca, largas, feitas de linho.
Adotando seu silêncio, o homem continuou:
— O Conselho estava ligeiramente ansioso imaginando se, finalmente, tinha retornado para lutar ao nosso lado.
— Não. — disse baixo sem desviar seus olhos dos dele.
— Por quê?
— Eu quero saber a minha sentença – desviou o olhar.
— Responda a minha pergunta!
Num movimento muito rápido ela se levantou com Noturna e posicionou a ponta da lâmina contra o pescoço do homem. As ranhuras verdes pulsaram em resposta, esperando uma atitude de Kassandra, mas ela permaneceu parada com a respiração irregular.
— Você pode fugir, mudar de nome, mas o destino sempre vai te alcançar – sussurrou o homem sem demonstrar medo.
A porta se abriu abruptamente e um capuui, um humanoide azul de quatro olhos amarelos, apareceu. Ele usava uma roupa branca respingada de sangue, assim como as luvas cirúrgicas que escondiam os longos dedos unidos em pares, deixando o dedão solitário. O capuui alternava sua atenção de maneira assustada entre os dois, parecendo decidir qual atitude seria a mais prudente tomar, mas Kassandra abaixou sua espada e caminhou para um canto qualquer da sala.
— O que aconteceu, Doutor? — indagou o homem com seriedade.
— Seu filho acordou, Senhor. O soro reagiu rapidamente e conseguimos deter o avanço do veneno. — explicou com sua voz levemente fanha, característica de sua raça. Ele olhou desconfiado para Kassandra. — Ele chamou por ela.
Mesmo não querendo se envolver na conversa, a simples menção de que Benjamin a chamara despertou sua curiosidade. Ela tentou disfarçar ao encarar o capuui por cima do ombro e esperou sem saber o que ao certo. Um convite? Uma permissão para visitar Benjamin? Era digna disso?
Ela voltou a encarar a parede, usando Noturna como apoio. Kassandra não se esforçou para tentar ouvir os murmúrios proferidos por eles. Alguns segundos depois sentiu uma grande mão pousar sobre seu ombro esquerdo, apertando-o brevemente.
— Benjamin quer lhe ver, mas preciso algemar você.
Sem responder com palavras, Kassandra apoiou Noturna na parede e mostrou os pulsos. O homem pareceu surpreso ao ver sua atitude, talvez esperando que ela reagisse.
— Certo. Espere um pouco.
Ele saiu da sala apressado, com passos firmes, e o capuui seguiu logo atrás. Minutos depois retornou sozinho, mas carregando um par de algemas grossas e uma bainha grande de couro pendurada no ombro. Sem dizer nada, ele retirou a bainha entregando para Kassandra. Ela aceitou de cabeça baixa, regulando as alças nos ombros e prendendo o acessório nas costas. Num giro perfeito embainhou a espada que derreteu-se de alegria, na mente de Kassandra, por ter sido colocada ali e não encantada no braço.
Pronta para ir, o homem se aproximou e colocou as algemas em seus pulsos. Ela olhou para o metal, identificando-o rapidamente: Aço Protetor. Provavelmente, com o apoio mínimo dos Federais, os integrantes da Facção Criadora – chamados de Designados – devem ter conseguido equipamentos e acessórios como aquelas algemas. Kassandra não comentou ou disse qualquer palavra, apenas o seguiu para fora da sala. Duas mulheres que faziam a segurança do lado de fora ficaram em posição ereta ao verem o homem, mas seus olhos seguiram a Julgadora com curiosidade.
Eles seguiram por um corredor estreito, com paredes decoradas com pequenos quadrados azuis de cerâmica. O piso era de concreto cinza claro, apresentava várias áreas gastas e arranhões. Kassandra imaginou ser uma passagem muito utilizada apesar de pequena. Avançaram até o fim, passando por uma saída sem porta e chegando a um grande pátio coberto por uma cúpula de vidro. Havia vários humanos, capuuis, aligans e outras raças. Kassandra ficou encantada por ver tanta diversidade num lugar só. A maioria conversava ao lado de uma fonte onde alguns bebiam água em grandes colheres côncavas, presas em suportes e esterilizadas por androides de limpeza. Kassandra sorriu ao lembrar-se de Yass.
Todos ali viravam os rostos em direção a Kassandra. Alguns comentavam, outros só olhavam conforme o grande homem liderava o caminho até uma outra parte da base. Terminando a travessia, eles alcançaram um largo corredor com portas dos dois lados. Placas holográficas acima delas indicavam serem quartos, alojamento e, mais para o fundo, leitos. O homem entrou no leito 15, um dos últimos, e respirou fundo. Deu passagem para a Julgadora, olhando-a nos olhos por alguns segundos antes de sinalizar com a cabeça para que entrasse.
Sem saber ao certo como reagir, Kassandra apenas continuou caminhando até chegar ao leito onde Benjamin estava. O garoto tombou o rosto em sua direção e sorriu fraco.
— Ei.
— Ei – imitou. Ela puxou uma cadeira grande de acompanhante para sentar ao seu lado. — Como você está?
— Vivo e pronto pra outra. — zombou e, então, seus olhos desviaram para as algemas. — O que… O que está acontecendo, papa?
— O Conselho estão discutindo sobre ela.
— O que eles têm para discutir?! Kassandra é – ele ofegou pelo esforço repentino, mas continuou: — Kassandra é uma amiga minha!
Ela fechou os olhos ao ouvir aquela frase e pousou as mãos sobre a dele que descansava no colchão por alguns segundos. Com dificuldades, levou as mãos até o cabo de Noturna em suas costas, segurou-o e desembainhou num puxão controlado. Kassandra abriu os olhos notando Benjamin recuar um pouco contra o leito. Cuidadosamente repousou a espada em suas próprias coxas sem conseguir encarar o humano novamente.
— O que é isso, Kassandra?
— O motivo pelo qual o Conselho está discutindo sobre mim – sussurrou de cabeça baixa. — Sobre a filha de Selletus.
Um silêncio tomou conta do quarto, deixando o som dos aparelhos que controlavam o estado de saúde de Benjamin ecoasse ali com seus bips. Gostaria de ser mais imponente, dizer palavras reconfortantes aos dois ali, mas Kassandra estava perdida. Não imaginou que quando a achassem teria tantas pessoas com quem se preocupar.
— Então eu estava certo – murmurou Benjamin de repente, quebrando o silêncio. — Passei a minha infância inteira ouvindo sobre a Princesa Desaparecida que retornaria para acabar com a tirania do deus-rei Selletus. E, quando vi você pela primeira vez em Bhakans, era como seu tivesse encontrado a tal princesa, com sua força e imponência, então fui tomado pela raiva. Raiva por você nos ter abandonado, por ter virado as costas quando guerras estavam, e estão, acontecendo não só em Linearth, mas em vários Planetas! Ai o antigo herói, Brandon Zaskov, disse que era seu pai, mas todos conhecem a história dele. Era óbvio para mim quem você era, porém Rachel fez com que eu esquecesse esse assunto.
Os aparelhos apitavam sem parar, avisando que Benjamin tinha se esforçado demais. Ele tossiu um pouco, fechando os olhos com força e se recostando no grande travesseiro no leito.
— Não há nada que eu possa falar para fazer vocês entenderem minhas escolhas. — respondeu firme. — Vivi tempo demais nas mãos de Selletus, sendo torturada de infinitas maneiras e fugir foi minha única solução. Vocês dizem que sou sua salvadora, mas há outro lado dessa história onde sou a destruição e é esse lado que venho evitando.
— São as nossas cicatrizes que nos fazem crescer.
Kassandra encarou o garoto. Como explicaria a ele que não era sua heroína? Como explicaria que suas cicatrizes a deformaram tanto a ponto de não saber mais quem era? Como destruiria as esperanças dele dizendo estar muito mais perto da escuridão do que da luz?
Novamente a porta interrompeu o momento. Dessa vez Aïden fora o responsável, abaixando-se para poder passar pelo batente sem bater a cabeça. Ele carregava um sorriso tímido nos lábios, parecia levemente envergonhado por interromper. Kassandra não podia controlar o sentimento de alívio ao vê-lo ali vivo e bem. Passou anos imaginando ter perdido um dos seus melhores amigos, assim os outros dois.
— O Conselho está impaciente, Samir. Eles a querem agora. — disse alternando o olhar entre Kassandra e o líder dos Designados.
Samir afirmou com a cabeça, colocando a mão sobre o ombro de Kassandra como fizera anteriormente. Ela levantou-se em automático, entendendo aquele gesto: não haveria mais conversa. Não naquele momento.
Aïden liderou o caminho dessa vez, cumprimentando as pessoas por onde passavam. Eles seguiram pelo mesmo corredor, indo até o final e virando num cruzamento à direita. Não havia mais portas, apenas um longo corredor de paredes amarelas em mosaico e uma grande porta dupla feita de madeira maciça no final. Kassandra admirava os mínimos detalhes, cada pequeno quadradinho encaixado ali e imaginando quanto tempo demoraram para terminar. O mais interessante era que aquele lugar era a base militar de uma facção, mas, ainda sim, trazia o conforte de um lar.
Num forte empurrão, o grande Julgador abriu as portas sem precisar bater ou pedir qualquer tipo de permissão. Ele entrou primeiro, tampando momentaneamente a visão de Kassandra, mas ficou sem reação ao ver a magnitude da sala. Sua primeira reação foi olhar para cima, em direção a grande cúpula vitral de cores vivas e iluminada pelo forte sol. Então notou que estava no meio de um grande auditório, com poltronas flutuantes nas laterais e um largo altar ao fundo ocupado por uma mesa retangular e, atrás dela, nove poltronas ocupadas por homens e mulheres de diferentes idades e raças. Elas pareciam pequenos tronos e a central, bem maior, era ocupada por uma mulher de cabelos curtos grisalhos. Ela usava um sobretudo feminino militar comprido, na cor cinza com botões dourados. Suas mãos estavam cobertas por luvas pretas e seu olho esquerdo estava escondido por um tapa-olho de couro branco.
Intimidadora.
Kassandra procurou algum rosto familiar entre as inúmeras poltronas flutuantes, ocupadas completamente, mas desistiu quando Aïden parou de andar e ficou ao seu lado. Ela olhou por cima do ombro, percebendo que Samir não estava mais ali.
— Kassandra Zaskov! Ou seria Ellisse Caunder, filha de Selletus? — indagou a mulher, levantando-se e colocando as mãos nas costas. — Aproxime-se.
Ela relutou, mas seu amigo forçou a mão em suas costas obrigando-a a dar dois passos cambaleantes para frente. Queria xingá-lo e, talvez sabendo disso, ouviu Aïden rir baixo.
— Sou Kassandra – disse firme. — Ellisse Caunder morreu anos atrás.
A mulher sorriu com a resposta.
— Sabe o motivo de estar aqui?
— Estou em uma missão comandada pelos Federais em busca de documentos roubados e possíveis traidores. — ela sabia que não era essa a resposta esperada, mas queria retardar o assunto principal.
— Os Federais nos informaram. Pediram nossa base para vocês terem algum suporte, mas não é isso que estou perguntando. — ela suspirou. — Sou Eleanor Diangh, líder do Conselho Rebelde e antiga…
— General das tropas da Resistência. Sei quem é você.
Nunca tinha visto seu rosto, mas o nome da mulher era muito conhecido. Ela foi responsável, assim como Roven Dugall, por comandar o ataque ao palácio de Selletus. O ataque onde a rainha, Katherin Mitchell, revelou-se apoiadora a eles e traidora do deus-rei.
— Surpresa em me ver viva depois de tanto tempo?
— Nada me surpreende mais. — deu de ombros.
— O avanço da medicina é algo realmente incrível, mas esse não é o assunto aqui. — ela deslizou a mão sobre a superfície da messa, acionando vídeos holográficos que apareceram no ar perto de Kassandra.
A Julgadora reconheceu alguns planetas e luas mesmo que as imagens/vídeos fossem de total caos. Reinos guerreando contra Julgadores, bruxas, demônios e soldados reais de Selletus ou emboscadas de Rebeldes em trechos onde o deus-rei possuía total controle. Mortes, destruição, casas queimadas e cidades destruídas. Kassandra não aguentou encarar tudo aquilo, precisou abaixar os olhos.
— Há dez anos forças obscuras, comandadas por Selletus, vêm dominando vilarejos, cidades e até reinos em busca de um controle maior. Cada vez mais o rumor da tomada do poder, de um golpe, vem se fortalecendo entre inúmeras Luas e Planetas de toda a Galáxia de Rutheer. — explicou sem desviar a atenção de Kassandra. — Não sabemos o motivo, mas as Vias Comunicadoras recusam-se a divulgar tais fatos. Medo? Chantagem? Ou algo maior? A única certeza que temos é que precisamos da sua ajuda para parar tudo isso antes que seja tarde demais.
Os olhos de Kassandra estavam marejados. Apesar de ouvir todo o discurso impactante da antiga General, tudo o que conseguia ouvir eram os gritos. Ela sentia cada uma daquelas almas perdidas precocemente arranhando seu interior, sua mente, clamando por salvação.
— Não posso – sussurrou com a voz embargada. — É tarde demais. Selletus conseguiu destruir cada parte boa que ainda restava em mim depois que Katherin foi embora. Sou uma bomba relógio. — lágrimas rolaram livres pelas suas bochechas. — Sinto muito. Não posso ser quem vocês tanto precisam.
Novamente os murmúrios agitados tomaram conta do auditório.
— Está mentindo! — gritou uma voz familiar.
Kassandra seguiu o som e encontrou Lyanna saltando da sua poltrona para invadir a área onde estava. A humana parecia em completa fúria, encarando a Julgadora com os punhos cerrados e narinas dilatadas.
— Ly.
Lyanna ignorou aquele apelido virando-se diretamente para Eleanor com firmeza.
— Meu nome é Lyanna de Terhia Asker, herdeira do trono e deuses sabem quantas vezes Kassandra salvou a mim, meus amigos e outras pessoas.
— Isso é diferente. — rosnou Kassandra.
— Você não vai nos destruir!
— NÃO CONSEGUI ENFRENTAR UMA BRUXA DE GADDGUS, IMAGINE UM EXÉRCITO! — berrou trazendo silêncio ao lugar. — Elas me controlam com um simples estalar de dedos e Selletus… Não dá. A melhor chance de vocês é comigo desaparecida. Eles me encontraram, mas consigo despistá-los como das outras vezes e levar um pouco disso – apontou para as imagens – para longe comigo.
— Fugir? Essa é a sua solução?! — indagou Lyanna nem um pouco intimidada.
— Para terem alguma chance? Sim.
Uma risada rouca, seguida por uma tosse, chamou a atenção de todos. Kassandra olhou para Aïden e encontrou a confirmação no seu sorriso torto convencido.
— Não treinei você por anos para falhar agora, Alteza. — resmungou uma voz envelhecida, mas muito conhecida.
— Mestre Adonai – ofegou colocando-se de joelhos – os dois— e abaixando a cabeça em respeito.
Mestre Adonai era, há muito tempo, o melhor mestre dos Julgadores. Treinou o próprio Selletus durante muito tempo até Ellisse Caunder nascer e ter a missão de treinar/ensinar a jovem desde bebê. Ele recebeu a benção do deus-rei para possuir um envelhecimento devagar, por ser humano, e treinar a Princesa até alcançar a perfeição, mas não conseguiu concluir sua tarefa.
As rugas tomavam conta do rosto e mãos do Mestre Adonai, mas ainda havia sua essência nos traços. Os cabelos continuavam compridos, com diferença de estarem completamente brancos e não negros. Kassandra observou seu mestre num misto de alegria e confusão, então notou: os olhos esverdeados estavam opacos e sem foco.
— Ora! Eu não enxergo, mas ainda sinto você! — respondeu antes de desferir um cascudo em sua cabeça.
— Ei! Ai!
— A Rainha Katherin Mitchell fez questão de resgatar o Mestre Adonai depois de saber que tinha fugido. — explicou Eleanor. — Perdemos muitos guerreiros.
— O que aquele maldito vez com você, minha jovem? — Adonai pousou a mão manchada e enrugada da velhice em sua cabeça. As memórias fluíram entre a mente dos dois, como antigamente, mas eram demais para o velho. Ele recuou assustado. — Deuses…
— Mestre Adonai?
— Ele bloqueou todos os meus ensinamentos – sussurrou. — Precisamos nos encontrar com a Rainha Katherin.
Kassandra reagiu imediatamente ao ouvir o nome, ficando de pé.
— Não. — disse decidida. — Cumprirei minha missão, então desaparecerei. Encontrei vários fantasmas do meu passado e esse é só mais um. — olhou para Aïden e Mestre Adonai, que tinha uma expressão desapontada.
…
Mesmo com temperaturas muito altas de dia, Yoskor virava uma verdadeira geladeira gigante ao anoitecer. Era um lugar de extremos muito evidentes. A população acostumada não saía depois que o sol desaparecia atrás das grandes dunas douradas do Deserto Kunrrô ao Oeste da cidade. Eles ficavam abrigados e aquecidos em suas casas, alimentando-se em família tratando esse momento como sagrado. E talvez fosse.
Guerreiros da Facção Criadora – Designados – responsáveis pela segurança da população no lado Norte da cidade, acendiam os grandes postes ungidos de gordura de gradix, um grande quadrupede com cinco chifres e olhos de peixe. Ele vagava pelos cânions do deserto, escondendo-se em cavernas naturais dos caçadores e predadores. Sua principal alimentação era a vegetação seca encontrada por lá. A carne também era usada, dando para alimentar três famílias tranquilamente.
Diferente das Capitais Emblemáticas, as pessoas em Riandãã – do lado Norte, pelo menos – trabalhavam em conjunto. Os Designados cuidavam da segurança, os caçadores traziam comida e os cozinheiros preparavam a refeição para ser dividida igualmente. A base da Facção ficava aberta durante o jantar, deixando as pessoas ou viajantes livres para alimentarem-se ali sem qualquer custo. Era uma dinâmica justa, que funcionava ali.
Mais distante, a alguns quilômetros de distância, a Capital Emblemática Yoskor brilhava majestosa mesmo sendo pequena. Era possível perceber as pequenas oscilações das luzes causadas pelo vai e vem dos aerocarros e naves. O contraste de algo tão vivido contra o vasto deserto enchia os olhos de Kassandra pela tamanha beleza mesclada com melancolia, pois era assim que estava se sentindo: tão viva, cheia de pessoas ao redor, e, ao mesmo tempo, sozinha.
Em determinado momento do jantar, ela conseguiu sair da extensa mesa de madeira do grande salão ao ar livre, sem ninguém ver, e escalou a construção até a cúpula de vidro deitando-se sobre ela com Noturna ao lado. A espada comentava em sua mente com fascinação sobre a paisagem e Kassandra sorria discretamente, pois sentia-se da mesma maneira. Estavam relaxadas pela primeira vez desde o início daquela Lição, tirando um tempo para fazer, absolutamente, nada. Benjamin estava melhorando rapidamente e logo teriam de voltar para a realidade, então estavam aproveitando, e muito, aquele momento simples de tranquilidade.
Kassandra ergueu os olhos para o céu salpicado por inúmeras estrelas e com uma nebulosa roxa e vermelha riscando-o. A grande Lua Dirhen, branca com suas fileiras de anéis de meteoritos, iluminava a noite. Fecharia os olhos, numa tentativa de fugir ainda mais dos problemas, quando o cheiro invadiu seus sentidos. Todo seu corpo entrou em alerta e logo virou o rosto na direção de onde vinha.
Ela viu Lyanna quase descendo as escadas de madeira que havia na laje. A humana parecia apressada em não querer interromper e fazia um malabarismo com alguma coisa que carregava numa das mãos. Usava um sobretudo quente, preto, com o símbolo da Resistência bordado nele: um círculo, uma estrela com seis pontas no centro e uma lua minguante ocupando o lado direito. Kassandra chegou rapidamente onde ela estava puxando uma espécie de bandeja que a princesa estava. As duas trocaram olhares e, derrotada, estendeu a mão para ajuda Lyanna a subir na laje da cúpula.
— Eu não queria…
— Sei que não. — interrompeu. — Vem.
Kassandra guiou a humana até onde estava anteriormente e colocou a bandeja no muro que rodeava toda a área. Percebeu que tinha dois pratos e dois copos, então esticou o corpo para ver: pães, carne assada e um molho agridoce típico da região. O cheiro estava delicioso. Ela sentou no muro, com uma perna de cada lado e ajudou Lyanna fazer o mesmo. Viu o receio em seu olhar.
— Não vou deixar você cair – assegurou com firmeza e suspirou feliz por suas palavras terem surtido feito.
Elas comeram em silêncio por um tempo, apreciando o som das risadas e conversas que vinham lá de baixo. Apesar do frio, a noite estava agradável… como uma calmaria que precede a tempestade. Kassandra pegou um dos copos, mas Lyanna deu um gritinho e segurou seu pulso.
— Esse é meu. Aïden preparou uma bebida pra você – ela trocou os copos, pegando o mais escuro para Kassandra.
Ela ergueu uma sobrancelha, imaginando se não haveria alguma pegadinha. Levou o nariz até o copo e sentiu cheiro de álcool, frutas vermelhas e… sangue. Kassandra tomou um gole lentamente. Seu corpo vibrou em êxtase quando a língua sentiu o sutil sabor doce do sangue.
— Poderia beijar aquele maldito agora mesmo. — resmungou enquanto encarava o copo.
Lyanna riu de sua reação.
— O que é isso?
— Uma bebida típica dos Julgadores: Sanlooh. Tomávamos isso quando éramos mais jovens, na taverna do reino antes das missões. — explicou com um olhar nostálgico. — Até ofereceria se…
— Ah, não! Obrigada – disse apressada, seu nariz levemente franzido.
Kassandra riu e deixou o copo de lado. O silêncio retornou, mas não era ruim ou desconfortável. Elas terminaram a comida; os pratos e copos ficando completamente vazios.
— Não desapareça – sussurrou a humana. — Não precisa lutar ou qualquer coisa do tipo. Só não vai embora, por favor.
Ela queria que fosse diferente. Ver a princesa daquela maneira por conta da sua partida estava partindo seu coração miserável, indigno de sentimentos, em inúmeros pedacinhos. Mas não tinha outro jeito.
— Sinto muito.
Lyanna inclinou-se rapidamente em sua direção, então fechou os olhos esperando pelo tapa, mas o que sentira fora completamente diferente. Os lábios da humana colidiram contra os seus num desespero surpreendente. Kassandra demorou para entender, mas quando isso aconteceu, puxou a princesa para seu colo derrubando a bandeja para o chão. Ela não deveria se permitir, nem se entregar. Partiria quando a Lição acabasse e tudo ficaria no esquecimento, mas controle perto daquela garota era a única coisa que não possuía.
Não havia mais nada durante aqueles segundos… minutos. Apenas as duas demonstrando uma para a outra como eram importantes. Seus corações descontrolados no peito, as respirações ofegantes e as mãos que procuravam sentir tudo. Sentir que era real.
Elas finalizaram o beijo, mas permaneceram com as testas coladas. A humana tentava controlar a respiração enquanto era observada atentamente pelos olhos carmesins acesos.
— Podemos fingir, só hoje, que somos só nós no universo? Sem problemas ou despedidas? — implorou Lya segurando a gola da camisa branca usada por Kass.
A Julgadora sorriu triste e beijou a testa da humana.
— Podemos.
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