Notas de Amor e Outros Sabores
7 Virando a Página
Ela era companhia. Parceria. Encantamento. E, por mais que houvesse conexão, algo parecia faltar. Mas eu não queria admitir.
Talvez medo de me envolver demais. Medo de perceber que, no fundo, eu nunca fui suficiente para ela.
No início, eu queria estar por perto o tempo todo. Me preocupava, cuidava, queria fazê-la sorrir. Eu gostava de ouvir sua voz, de trocar mensagens aleatórias, de compartilhar músicas que, de alguma forma, traduziam o que eu não sabia dizer.
Mas, com o tempo, algo mudou.
Eu não sei quando exatamente aconteceu, mas comecei a me afastar. Talvez tenha sido a rotina, talvez a insegurança. Ou talvez tenha sido o medo de dar um passo maior do que eu podia sustentar.
As conversas foram diminuindo. As palavras foram ficando presas na garganta. Eu sentia que ela esperava algo de mim, e eu não sabia se conseguia corresponder.
Eu via a forma como ela me olhava, como tentava preencher os espaços vazios que eu deixava. Eu sabia que ela queria mais. Que merecia mais. Mas eu não conseguia dizer isso a ela.
Então, um dia, simplesmente fui embora.
E nunca expliquei.
Nunca disse se gostava dela do jeito que ela queria que eu gostasse. Nunca disse se as palavras que eu havia deixado no ar eram verdadeiras ou apenas uma ilusão que eu mesmo criei.
Eu só fui, achando que o tempo resolveria. Mas o tempo não resolve nada. Só transforma silêncio em distância.
E agora, olhando para trás, vejo que talvez ela tenha acreditado demais. Talvez tenha amado demais. Talvez tenha permanecido na cegueira porque queria acreditar que havia algo real.
Talvez... Talvez.
A verdade é que, quando se está sozinho, o pouco parece muito. Pequenos gestos se tornam enormes. E ela agarrou cada pedaço de afeto que eu ofereci, sem perceber que eram só fragmentos.
Até que o pouco não foi mais suficiente.
E ela me soltou.
Eu soube quando aconteceu. Senti o exato momento em que ela desistiu de esperar por mim. A distância que antes era feita de saudade virou apenas ausência. E ela seguiu.
O silêncio dela doeu mais do que qualquer despedida.
Fingi que estava tudo bem. Segui com minha rotina. Mas algo dentro de mim sabia que eu tinha perdido. E não era só a companhia dela. Era a confiança dela.
Confiança é como vidro. Quando se quebra, você pode tentar colar, mas nunca será o mesmo. Sempre faltarão pequenos pedaços, criando lacunas e cicatrizes permanentes.
Talvez tenha sido melhor assim.
Ou talvez, eu só tenha perdido a única pessoa que realmente me enxergou.
Agora, só me resta escrever.
E acabo de virar essa página.
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