Not so different, After all
45 Flower, Gleam and Glow
Notas iniciais
~•~
❄️Pov. Jack.❄️
3 de outubro, 10:40am
Eu acabo parando em uma floresta que de sombria não tem nada, não a reconheço dos meus sonhos, mas parei por que algo me chamou a atenção.
Alguém, mais especificamente.
Um garoto de mais ou menos dezenove anos talvez, correndo para fora de uma casa.
Desço meu vôo e paro atrás de uma árvore.
Me escondo enquanto ele passa correndo, ele não para de olhar para trás e em seu rosto nota-se um tipo de preocupação.
Espero ele ir embora.
Ando devagar até a casa, e ao meu ver parece que tudo está bem lá dentro, a casa tem até um nome engraçado, o patinho fofo.
Quem teria medo disso?
Tento olhar algo pela janela mas a janela é fosca o suficiente para nada se ver.
Abro a porta e o que vejo é uma garota sendo arrastada por um monte de homens valentões para dentro de um galpão.
–Ei! — chamo.
Todos param e olham para mim, inclusive a garota que estava com uma mordaça na boca.
Ela tinha os olhos verdes e os cabelos loiros, mas o que chamava a atenção mesmo era o tamanho de seus cabelos e por um momento entendi o porquê de eles quererem ela.
–Deixem-na em paz. — digo apontando meu cajado para eles.
Acho um pouco estranho eles conseguirem me ver, mas como a crença nos guardiões aumentou drasticamente depois de tudo que aconteceu, eu entendo.
–Quem é você? — um grandalhão pergunta, pegando um machado de seu cinto.
–Alguém muito melhor que você, garanto. — provoco.
–Ouviram isso galera? — ele ri alto e os outros também. — ele se acha o melhor.
Gargalhadas são emitidas.
Mas meu plano deu certo.
Eles soltaram a garota, a deixando em pé no chão apenas com um cara a segurando.
–O que vocês acham que devemos fazer com ele? — o grandalhão com bigode pergunta rodando o machado na mão.
Os outros começam a rir e a se aproximar tirando todas as suas armas.
Preparo meu cajado.
–Eu vou avisar apenas uma vez, melhor vocês irem embora. — eu digo com um sorriso no rosto.
Mas eles não param.
E quando um machado vem bem na minha direção eu jogo um jato de gelo nele e esse quebra-se em milhões de pedaços.
Todos parecem abismados.
Inclusive a garota, que parece querer fugir de mim também.
Pelos seus olhos eu vejo a surpresa que se criou.
E me hipnotizo um pouco com seu olhar.
Parecia algo selvagem, um olhar que pode trazer a primavera inteira à tona, olhos grandes, que pareciam querer saber a reposta de cada coisa do mundo.
Ela consegue tirar a corda que prendia suas mãos e a mordaça, e acerta com a frigideira a cabeça do guarda que a segurava, fazendo alguns se virarem para ela enquanto outros olhavam para mim com meu cajado.
Eles revezavam os olhares entre mim e ela.
Não percebi quando uma espada veio por trás de mim e se não fosse a garota que interveio gritando para eu tomar cuidado e jogando a frigideira no cara de trás, eu teria me ferido seriamente.
E sim, tem certas coisas que matam guardiões.
Muitas coisas mesmo.
Lâminas são uma delas.
Deixa eu explicar: um guardião pode morrer com danos físicos, mas se ele não se ferir gravemente ou ser atacado ou, enfim, ser morto, ele não morre nunca.
O cara tombou para trás e ainda conseguiu me ferir com um pequeno arranhão ao lado do corpo, que sangrava muito, mas que não me mataria se eu o estancasse.
–Vamos. — ignorei o corte e a dor e congelei alguns pés e mãos, deixando-os imóveis mas respirando ainda, peguei na mão da garota a fim de ela me seguir para a saída, enquanto eles gritavam.
–Não. — ela diz soltando a mão — como vou saber se você não é do mal?
–Eu acabei de salvar sua pele. — digo com um pouco de pressa na voz.
–E eu salvei a sua. — ela diz cruzando os braços, depois dá uma olhada no corte ao lado da minha cintura — ou quase.
–Ah por favor loirinha, vamos. — ela parece gelar com essas palavras.
–Não me chame assim!
–Escuta, está certo — me rendo. — você sai primeiro e depois eu saio, não vou te seguir.
Ela não era quem eu estava procurando mesmo, ela não tinha nada a ver com meus sonhos, não lembro dela no meu pesadelo.
A garota parece relutante.
–Está bem. — ela dá uma última olhada para trás, depois pra mim e depois para um... camaleão? Enfim, no ombro dela e passa pela porta. — E... — olha para mim tentando formar um sorriso no canto do rosto — Obrigada.
Menciono com a cabeça.
Ela se vai e espero um pouco até que ela suma e então eu saio, deixando um monte de membros congelados para trás, que descongelariam em breve.
E eu não quero estar aqui para quando isso acontecer.
~•~
2pm.
Tentar voar é inútil agora, estou muito fraco.
O corte que antes parecia insignificante, agora cresceu.
Tiro meu casaco e comprimo-o contra o corte ao lado do meu corpo, tentando estancar o sangue que não quer parar de sair.
Seguro um grito de dor e me deito perto de uma árvore, já um pouco longe daquela maldita casa fofinha.
Há neve ao meu redor, a dor transmitida em frio.
Apoio minha cabeça na árvore atrás de mim e me deixo relaxar um pouco, mesmo que seja praticamente impossível.
Mas eu tenho que relaxar.
Eu prometi demais pra simplesmente não cumprir.
Respirar dói.
Eu fecho meus olhos por um tempo.
Algo me faz abri-os de súbito.
Um barulho, um ruído, vindo de trás de uma árvore a minha frente.
Vejo um pé descalço rapidamente passar para detrás da árvore.
Seja quem for que está ali atrás não sabe se esconder bem.
–Quem está aí? — falo um pouco mais alto, mas a dor é aguda demais para proferir qualquer outra palavra nesse tom.
A metade da face da pessoa aparece, relutante, é a garota da casa fofa.
Ela sai totalmente e anda devagar até mim, com a frigideira a postos e o camaleão em pose de luta.
Era uma cena um pouco bizarra.
Ela abaixa devagar a frigideira e sorri com um pouco de pena.
–Desculpa. — ela pede.
–Pelo quê? Por me seguir? — pergunto irônico e me arrependo por falar desse jeito, é a dor me pressionando a falar assim. — desculpa.
–Não, não, tudo bem. — ela fala, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha — você está bem machucado.
–É o que parece. — digo.
–Deixa eu te ajudar?
–E o que você poderia fazer?
–Apenas deixe. — ela pede.
Penso um pouco e vejo que não tenho outra escolha.
–Tudo bem. — suspiro e deixo que ela retire o casaco da minha pele fria, uma mistura de branco com vermelho.
Sua pele faz um pequeno choque térmico com a minha.
Ela faz uma careta.
–Está bem feio.
–Obrigado.
Ela revira os olhos e sorri sem mostrar os dentes.
–Agora, por favor... não se assuste. — ela pede enrolando seus cabelos no corte e ao redor da minha cintura.
Olho para o camaleão com minha testa franzida e ele faz um sinal para a sua própria cintura como se fosse a minha.
–Você está sendo muito misteriosa amarrando seu cabelo na minha cintura machucada. — digo e logo depois solto um gemido de dor.
–Desculpa — ela pede. — eu só não... Quero que se apavore.
Franzo o cenho e continuo tentando entender enquanto olho para aquela garota na minha frente, sua beleza é inquestionável, de fato, suas expressões são leves, ela é como a própria primavera, e nem ao menos sei seu nome.
–Espere. — peço.
–Sim. — ela diz.
–Como é o seu nome?
Ela sorri.
–Rapunzel.
Por que esse nome me parece familiar?
Não sei.
–Certo, pode continuar com o que for que você esteja fazendo.
–Fique em silêncio agora. — ela pede.
Sua mão vai de encontro à minha cintura no lugar onde está meu corte e seu cabelo enrolado.
Estremeço.
–O que você vai fazer? — pergunto um pouco assustado.
–Silêncio.
Me calo.
E ela começa uma canção lenta, que envolve meus ouvidos como um abraço.
–Brilha, linda flor, teu poder venceu, traz de volta já o que uma vez foi meu. — seu cabelo loiro começa a adquirir uma luz dourada que desce da raiz até alcançar as pontas conforme ela continua a canção — Cura o que se feriu, salva o que se perdeu, traz de volta já, o que uma vez foi meu... Uma vez foi meu. — sinto a dor indo totalmente embora, o cabelo vai se tornando loiro de novo, e o brilho acaba.
Deixando apenas eu abismado, ela com uma expressão preocupada e um camaleão apontando para a própria cintura.
–Eu tinha que me redimir com você — ela começa se explicando enquanto tiro seu cabelo da minha cintura e não vejo mais o corte que tinha, nem mesmo uma única cicatriz, nada.
–Como...? — Estou prestes a ficar desesperado. — Ah... Ah...
–Não se apavore — ela diz rápido tentando me acalmar.
Respiro fundo.
–Eu não estou apavorado... Eu estou apavorado? por que eu estaria apavorado? — digo mais para mim mesmo do que para ela. — como...? Digo, desde quando você...?
–Eu acho... Que desde sempre. — ela dá de ombros — a mamãe dizia que quando eu era bebê as pessoas tentavam cortar, mas quando cortam o cabelo fica castanho e perde o poder — ela afasta seu cabelo e uma mecha pequena de cabelo castanho aparece por trás do loiro. — Acho que foi por isso que ela nunca... Por isso que eu nunca... — ela suspira soltando o aparente pouco ar que ainda lhe restava — Por isso que eu nunca sai daquela torre...
–Espere... O que? — volto para a terra. — torre? Que torre?
–Nada, esqueça, nada que você precise se importar. — ela sorri — apenas... Me desculpa?
–Pelo que?
–Ah, você sabe, por eu não ter confiado em você.
Sorrio.
–Tudo bem, não precisa se desculpar. — me levanto — nem eu mesmo confiaria em mim.
Ela ri.
–Mas, na verdade eu queria agradecer. — digo.
–Pelo que? — ela pergunta.
–Por tudo, o aviso da espada, o corte e a cura dele, você sabe.
–De nada. — ela sorri, um sorriso extremamente branco. – aonde você vai? — ela me observa enquanto pego meu cajado apoiado na árvore e começo a caminhar.
–Ver se está tudo limpo para eu poder continuar andando.
–Para onde você quer ir? — ela franze o cenho.
Penso um pouco antes de responder.
Uma resposta dada com a mais pura verdade.
A verdade de verdade.
Pra onde eu quero ir?
Eu sei para onde.
–Para casa.
~•~
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