Not Today
6 Capítulo 5 – O Fantasma
Notas iniciais
— Não cara, Eu acho que esse lance de apocalipse zumbi é uma dessas teorias da conspiração! É o Estado querendo eliminar provas, ou, sei lá, testar uma arma biológica! — António bradava, batendo o punho contra a mesa de madeira. Emma e Francis riam das suposições do jovem enquanto Erzsébet sistematicamente montava e desmontava sua pistola. Era quase um método de meditação, só que sem os mantras e a conexão espiritual com o seu “eu interior” ou qualquer coisa do gênero. Apenas um momento para esvaziar sua cabeça, alguns “cliques e claques” da arma e profundas e calculadas inspirações e expirações para bloquear a voz eufórica do espanhol.
— Toni, Toni… Você parece criança. Daqui a pouco, vai me dizer que eu sou um agente do governo e que o Papai Noel existe. Para de babaquices e se aquieta em algum canto. — Francis comentou, dando uma leve risada e bebendo a água de sua garrafa.
— O que vamos fazer? — Emma finalmente se pronunciou, séria. — Não podemos simplesmente ficar por aqui sentados, sem fazer nada.
— Ela tem razão. — concordou a outra mulher. — Já que estamos todos aptos a nos locomover, poderíamos ir para aquela base militar, sabe? — comentou discretamente, terminando de montar a pistola ela milésima vez. — Aquela que apareceu do dia pra noite, escondida atrás da estação policial da cidade, perto do hospital.
— Eu disse! Eu disse que eratudo armação do governo! — António levantou-se de sua cadeira.
— Agora que você mencionou, nunca tinha reparado naquela… coisa. Achei que fosse uma extensão do prédio da polícia. — o francês coçou o vestígio de barba em seu queixo.
— Também achei, até que vi uniformes diferentes e um pessoal estranho saindo de lá. — a arma estalou nas mãos ágeis da húngara. — Eles deram um jeito de enganar os próprios policiais, como eu. Quero dizer… Fui avisada a respeito de uma “nova divisão”, mas não engoli a história.
— Enfim. Vamos para lá, disso nós já sabemos. Mas pra quê? — a loira perguntou. — O que pode ter de importante ali?
— Armas. — a húngara levantou-se de seu canto, guardando a pistola em seu coldre. — Vamos acabar ficando sem munição alguma hora. Posso até morrer para a ogiva nuclear, mas não para um monte de coisas que já deveriam estar mortas.
— Não vamos morrer, galera. A gente vai…
— Sair daqui? Pouco provável.
— Vamos chegar lá. Provavelmente acharemos algum meio de comunicação por lá. Deve haver algum tipo de rádio, sei lá. — Francis descansou a mão sobre o ombro de seu amigo, tentando acalmá-lo. — Bem… Vamos dormir. O dia vai ser puxado amanhã. Eu monto guarda hoje.
§
As mãos e os braços dele pendiam paralelos a seu corpo pesado de confusão e cansaço. Queria saber por quanto tempo mais viveria, e, caso não vivesse por muito, queria ser aquele a tirar sua própria vida.
Mas que lhe garantia de que ele estivesse vivo? Nada mais o distinguia dos zumbis que se rastejavam, que caçavam aqueles que ainda viviam. O amanhecer perdia cada vez mais cores a cada nascer do sol.
É, ele realmente não esperava sair vivo dali. Desde o início. A aventura chegara ao seu fim… O que ainda o movia em meio à destruição e ao fogo? O que ele ainda era capaz de sentir além, de uma satisfação primal ao matar os outros humanos? O que ainda lhe restava na Terra que o impedia de cair morto sobre os outros mortos?
O que, quem ordenava-o a ir para a base militar da cidade; ou melhor, voltar para lá? Talvez fosse o seu fim esperando-o. Era melhor que fosse logo. O fardo de um passado de erros já o incomodava demais para que ele se permitisse mais um dia de vida.
§
Ela já não conseguia se mexer; fosse pelo medo que tentava negar ou pela vontade de não ser descoberta. Medo. Ela sentia muito medo. Estava nervosa e não conseguia mais se acalmar. E ele a encontrara ali, escondida sob uma manta que falhava em mantê-la protegida do frio da noite. Estava escuro demais para ela vê-lo, mas a luz da lua dava aos olhos do estranho um brilho quase mágico.
Seu corpo tremeu. Estava fraca demais para durar até o amanhecer, a menos que um milagre a salvasse. E o que estava à sua frente não lhe parecia esperança. Ainda assim, continuou a esperar que fosse um anjo enviado para salvá-la.
Ele até era um anjo; um torto e defeituoso. Ele permanecia à sua frente, estudando-a, vigiando-a. Esperando-a morrer como um abutre ou protegendo-a como um cão fiel? Como ele havia entrado na sala, Erzsébet não sabia. Apenas cerrou os olhos e dispôs-se à mercê da balança da cega justiça. O homem agachou-se ao seu lado, gentilmente tocando-lhe o cenho frio e branco como a neve. Sua mão estava enfaixada, mas era febril, quente; por pouco, acolhedora.
A húngara não protestou quando o homem delicadamente virou-a para si. Ela ouviu um estalar de língua e sentiu algo estranho em seu braço. Gemeu um pouco por causa da dor causada por esse contato, mas logo aquietou-se quando o estranho voltou a segurar sua face para contemplá-la.
— "Só há apenas um deus, e seu nome é Morte. E só há uma coisa que dizemos à Morte…" — ele respirou fundo aproximando-se de seu ouvido. — “Hoje não.”
§
Ela acordou com as últimas palavras do estranho ainda reverberando nos quatro cantos de sua mente. Repetiu a frase a si mesma em um murmúrio. Talvez tivesse sido um sonho. Talvez não. Mas ela sabia que era, e apenas desejava que não passasse de um delírio seu.
— Está bem, Erzsébet? — Francis virou-se para a húngara, a preocupação evidente em sua voz.
— Sim. — ela sentou-se em seu colchão, procurando por sua garrafa d’água. — Só tive um sonho.
— Entendo. — ele suspirou e coçou a cabeça. — Foi um pesadelo? Alguma coisa está te incomodando? Podemos conversar, se quiser. Não quero que se sinta mal mesmo nessa situação horrível, sabe?
— Não foi um pesadelo, não se preocupe. — um bocejo e uma espreguiçada. — Eu não sei o que aconteceu depois da mordida, mas…
— Só posso dizer que foi um milagre, apesar de não ser crente.
Erzsébet olhou para seu braço, onde um pequeno furo chamou sua atenção.
— Precisamos encontrar esse “Fantasma”.
Fale com o autor