Not Anymore
1 Capítulo único
Notas iniciais
O vento frio de outubro parece congelar alguma coisa dentro de você.
O silêncio se instaura pesado sobre seus ombros, fazendo o esforço de cada passo se equiparar ao de levantar dez vezes o seu peso. Repetidamente, até fatigar por completo.
A única coisa que te mantém seguindo — literalmente — em frente é um senso obnóxio de dever. Uma obrigação, um compromisso.
Você sabe que vai doer. Você sabe que só vai abrir ainda mais a ferida. Você sabe que, invariavelmente, os últimos momentos vão repassar mais uma vez e mais outra na sua cabeça, um flashback que você daria quase tudo para ser capaz de esquecer.
Mas você continua em frente, pisadas indecisas e trôpegas, olhos inchados, vermelhos, abaixados. Derrotados.
Suas mãos enluvadas estão enfiadas até o fundo dos bolsos do seu casaco, seus ombros encolhidos, pálpebras semicerradas, queixo abaixado, quase se encostando ao colo. Mas mesmo todas as camadas de lã parecem fracamente inúteis para conter o frio mórbido e hostil, que acerca você como um mau presságio.
E você percebe que, na verdade, esse frio não é provocado pelo vento, nem pelo clima, nem por qualquer outra condição natural.
Ele está dentro de você.
Aumentando a cada segundo, esgotando a reserva restante das suas já há muito escassas forças, consumindo seu oxigênio, absorvendo a vida de cada mísera partícula do seu corpo.
Os poucos metros de caminhada desde que você saiu do carro parecem, ao mesmo tempo, infinitos e efêmeros. Você não teve de procurar seu destino, apenas forçou repetidas vezes um pé à frente do outro e acabou chegando lá sem sequer se dar conta disso. Como se ela ainda estivesse cercada pelo campo gravitacional que desde sempre te atraíra e te puxara para mais e mais perto, mesmo quando você tentava manter a distância. Principalmente quando você precisava da presença dela, mas não abria a boca para pedir.
Você baixa os olhos, impreterivelmente parando-os nas flores brancas que, sem sucesso, tentam amenizar o cenário fleumático, apático e sombrio em que ela se encontra, e, agora, você também, mesmo que por alguns momentos apenas.
O nome dela incrustado no mármore branco torna tudo infinitamente mais real. A dor aguda que você sente, beirando a esfera metafísica, é só mais uma prova disso.
E é como se suas penas não mais aguentassem o peso do seu corpo, porque elas cedem e você cai de joelhos na grama úmida, impotente, débil, sem forças para mexer um músculo sequer, mesmo que fosse o necessário para salvar sua vida. As lágrimas desafiadoras que você conseguiu — com uma grande parcela de esforço — subjugar desde que saiu de casa e entrou no carro agora jorram novamente, como que brotando do nada, fortes e impossíveis de conter, escorrendo livres pelo seu rosto. Você se sente entalar e engasgar, sufocando no próprio ar, como se respirar simplesmente tivesse deixado de ser uma atividade inconsciente e essencial e passasse a ser algum tipo de veneno.
Tudo é difícil demais.
O vento continua a soprar, gradualmente mais forte, impassível, balançando galhos e levantando as folhas secas caídas no chão. A placa à sua frente continua lá, firme, imponente, as palavras do pequeno epitáfio sendo empurradas através dos seus olhos nublados, em direção a um cérebro que ainda se recusa a aceitá-las, que ainda deseja com todas as forças que tudo isso não passe de um pesadelo ou uma piada de extremo mau-gosto.
Inconscientemente, seus dedos começam a percorrer a inscrição em baixo-relevo, traçando sofrida e deliberadamente cada uma das letras.
Você não quer acreditar que tudo é real. Que possa ser real.
Tudo por causa de um sinal vermelho, um motorista embriagado e um cruzamento.
Se não fosse tão sério, você teria duvidado. Afinal de contas, na linha de trabalho que ela seguia -que vocês duas seguiam -, sempre se anda na borda de um precipício, delgada como uma lâmina, a linha que divide a vida e a morte mais tênue do que qualquer outra. O perigo de ir de encontro a uma bala, ou de um sequestro por vingança de alguém que vocês prenderam, ou de um encontro com um psicopata qualquer é exponencialmente maior do que para qualquer outra pessoa.
Mesmo assim, não foi isso que a derrubou, e sim uma batida de automóvel enquanto ela voltava para casa. A frente do outro carro colidiu exatamente contra o lado do motorista o lado em que ela estava — brilhantemente desconhecendo o fato de que, em questão de minutos, sua vida seria drenada do seu corpo.
A força do impacto foi tanta que a porta pela qual ela teria saído foi completamente amassada, e o carro saiu girando velozmente na direção oposta, levando mais dois outros em seu trajeto letal.
Todos os outros envolvidos saíram da cena com ferimentos leves.
Ela foi a única a pagar o preço para que isso acontecesse.
Quando, finalmente, os bombeiros conseguiram retirá-la dos escombros do carro, a peça de metal que se soltara e se retorcera fatalmente em seu abdome já ficara lá por tempo demais. Suas vestes, o banco do carro, tudo já fora manchado e encharcado pelo líquido vermelho e espesso que continuava a jorrar. Quando algum paramédico identificou uma fraca pulsação no corpo inconsciente da sua melhor amiga e correu para colocá-la na ambulância, ela não pôde aguentar mais.
Já era tarde demais.
Quando chegou ao hospital, ela não era mais que um cadáver.
Você não se lembra da sua reação ao receber a notícia por telefone. Todas as suas memórias parecem um denso nevoeiro, trancadas, impossíveis de serem acessadas ou resgatadas. O momento foi cacófono demais, impreciso demais, caótico demais. Você foi a primeira a saber, sendo o contato de emergência dela.
Você não se lembra de ter desabado no chão da sala, ou de ter batido a cabeça no chão ao cair, ou de quem foi que veio ao seu socorro muito depois, erguendo seu corpo inerte do chão e o transportando até a cama, de onde você não levantou por um tempo que pareceu infindável. Você não lembra quantos dias passou sem comer, sem mexer, sem pronunciar uma sílaba que fosse.
Você lembra apenas que, subitamente, seu mundo deixou de existir.
Você se culpou, se flagelou, se abateu. Enraiveceu-se com o mundo, com o motorista bêbado, com ela — mesmo que não essa raiva não tivesse absolutamente nenhum motivo. Mas, mais que o resto, você se enraiveceu consigo mesma, e ficou tão fraca e reclusa que não mais parecia pertencer ao mundo os vivos, também. Você se recusou a ir ao enterro, ainda no estado de negação, o primeiro dos cinco que vêm com uma perda significativa. Comparecer e ver o padre fazer uma última prece, ver o caixão ser abaixado e saber que ela estava ali, debaixo da terra, parecera simplesmente brusco demais, irreversível demais. Real demais.
Ma o que realmente te corrói por dentro é que você não disse que a amava. Você simplesmente não disse. Em nenhuma das milhões de oportunidades que você teve, você nunca reuniu a coragem para dizer três. simples. palavras. Em nenhuma das noites em que vocês assistiram filmes no sofá, em nenhuma das comemorações no Dirty Robber, em nenhuma das vezes que ela simplesmente estava do seu lado. Você nunca disse a coisa mais importante, mais crucial. Você, acostumada à fachada que construíra, nunca disse que a amava.
Talvez você achasse que teria mais tempo.
A cólera que você dirige a si mesma é incomensurável, destrutiva, insubjugável.
Ali, ajoelhada em frente à lápide da pessoa que era simplesmente tudo na sua vida, você finalmente murmura o atrasado "eu te amo". As palavras que você devia ter dito desde a primeira vez que sentira o impulso de fazê-lo.
Mas ela não está mais aqui, e nunca poderá ouví-las.
Mesmo que você não queira acreditar, ela se foi. Cedo demais, é verdade, mas foi.
Ela está morta.
E mesmo que você ainda esteja respirando e seu cérebro ainda esteja funcionando e seu coração ainda esteja batendo...
Você não está mais viva, também.
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